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A MULHER QUE SÓ A FICÇÃO VÊ
Gustavo Bernardo
Publicado originalmente em
GESTO - Revista do Centro Coreográfico
RIOARTE - Rio de Janeiro
nº 3 - dezembro de 2003.
O
leitor e eu poderíamos estar entre os estranhos homens à volta da mulher que
se comprazem em estudar, avaliar, julgar: esse corpo? Eles e ela se encontram no
quadro O júri, de Di Cavalcanti, um
dos melhores pintores do corpo feminino brasileiro – portanto, para a nossa
cultura, um pintor do belo e do prazer. Entretanto, como bem apontou Murilo
Mendes, em 1949, esse pintor sabia como o prazer também encerra conflitos,
abismos, contradições – como o prazer, em outras palavras, acontece sob a
sombra da dor. Para Murilo como para Di, “o substrato da alegria brasileira é
carregado de tristeza”.
Decorre dessa tristeza subterrânea o
aspecto triste, às vezes sinistro, de certos personagens de seus quadros.
Nesse, por exemplo. Roupas escuras, calvas maquiavélicas, chapéu coco e monóculo:
todos os elementos contrastam com a luminosidade tranqüila do corpo da mulher.
Ela se protege, mas não muito: as mãos sobre a pélvis, mas o colo descoberto.
Longos cabelos e pescoço, a mulher sentada se deixa examinar com as pálpebras
baixas. No espaço apertado, claustrofóbico, o julgamento e o desejo se
confundem com o medo, concentrado no homem sentado no chão. Esse medo, eu o
sinto, ao tentar escrever sobre a ficção do corpo feminino.
Por isso, desejaria não me encontrar
entre os homens do quadro de Di. Percorrem-se nesse ensaio três séculos e
neles os fragmentos de ficção pelos quais se possam vislumbrar lampejos do
corpo feminino. Tais lampejos podem iluminar, como flashes, esse corpo que não
se pode conhecer. Os flashes não esgotarão os textos escolhidos, assim como o
olhar jamais esgota o corpo que o deixa esgotado.
A primeira mulher que vem à lembrança é a viúva Lívia, justamente a primeira personagem feminina de Machado de Assis, no romance Ressurreição – todavia, não me ocorre a descrição do seu corpo, mas sim o espanto do seu pretendente, Félix (que não seria feliz, alerta o narrador), ao encontrá-la, de olhos baixos, num terraço: “A tarde estava realmente linda. Félix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moça. Não queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente.
A situação era propícia a “amar
loucamente” – o que não implica amar “de verdade”. O homem queria amar
“como se” amasse, isto é, como personagem de ficção que de fato era. Félix
e Lívia retornarão, rebatizados como Bento e Capitolina, em Dom
Casmurro. A ironia com o nome do personagem masculino se aprofunda,
transformando a felicidade que não se sentia em bendição que não havia:
Bento Santiago é amaldiçoado desde a incorporação do traiçoeiro Iago em seu
próprio nome, corroendo-se de ciúme por dentro. A luminosidade lívida de Lívia,
que lembra a figura de Di Cavalcanti, transforma-se na própria ficção, isto
é, em Capitolina, vulgo Capitu, que nos fala justamente dos capítulos da paixão.
A paixão transformaria os olhos “de
cigana oblíqua e dissimulada”, como dissera o intrigante José Dias, em
“olhos de ressaca”, título do capítulo XXXII: “traziam não sei que
fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga
que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Os olhos de Capitu são a parte
do corpo que o representaria todo, impressionando Bentinho até quase a loucura.
No entanto, as duas metáforas, da cigana e da ressaca, se são suficientes para
atiçar o desejo, não o são para descrever, e portanto controlar, ao menos com
palavras, aquele corpo de mulher. Os olhos bem representam tanto o bem quanto o
mal. Mais adiante, o capítulo CXXIII terá o mesmo título, “Olhos de
ressaca”, relacionando esses olhos com a ressaca “real” que matou afogado
o amigo do casal, Escobar. O trecho acirra a suspeita do narrador: “Momento
houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o
pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora,
como se quisesse tragar também o nadador da manhã.” A ressaca, nos olhos
dela e no mar, confunde os afetos e suspende o juízo.
Não há controle possível, como mostrara
antes outro capítulo, em que Capitu dava as costas ao namorado e sentava-se
frente a um espelho. Ele pegou seus cabelos e dedicou-se a penteá-los,
“vendo” com as mãos aqueles “fios grossos, que eram parte dela”,
enquanto os dedos “roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de
chita, e a sensação era um deleite”. A cena é tão insinuante que dela
decorre o primeiro beijo, que por sua vez levou aquele jovem a se tornar homem
– mas um homem atordoado e emudecido: “não me atrevi a dizer nada; ainda
que quisesse, faltava-me língua”. Aquele corpo querido se mostrava apenas em
flashes lancinantes, bem aos poucos, como que por metonímias.
Mais adiante, se ressaltarão os braços
de Capitu, que “merecem um período. Eram belos, e na primeira noite que os
levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus,
leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam
ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor”. O período
a que se refere o escritor não serviria, em uma gramática escolar, como
exemplo de “bem-dizer”; ao contrário, truncado como o desejo e o ciúme que
se misturam, parece que se vai referir a um acontecimento “mas” se perde nos
desconhecidos braços da leitora desconhecida.
A
nudez dos braços é destacada por Poty, na ilustração que fez para a edição
da Garnier, ao cobrir o rosto e as mãos da personagem com um véu de traços
quadriculados, ao mesmo tempo em que deixa o vestido, preto, se confundir com
todo o ambiente. Nos termos do desenho, os braços se encontram nus e assim
brilham, brancos, porque só eles não foram desenhados: exibem o branco da página,
isto é, do mundo, aqui entendido como mistério. As mãos de Capitu, como as da
mulher de Di, também se encontram aparentemente relaxadas – na verdade, elas
disfarçam o que protegem. Essa proteção, por sua vez, é igualmente ambígua,
porque dirige o olhar do homem-espectador para o que deveria disfarçar.
Orientado por essas mãos (ou
desorientado, como queiram), procuro esse corpo de ficção na pena da escritora
que melhor caracterizou a indeterminação do século seguinte ao de Machado:
Clarice Lispector. Em Um sopro de vida,
o personagem Autor, masculino, fala da dificuldade de descrever sua personagem
feminina: “Difícil de descrever Ângela: ela é apenas uma atmosfera, ela é
apenas um jeito de ser, é um revelador trejeito de boca mas revelador de quê?
de algo que eu não conhecia nela e que agora, sem descrição possível, passo
a apenas conhecer, só isto”. A metonímia se dá menos por uma parte do
corpo, como os olhos, do que por um gesto, um trejeito, que revela e vela ao
mesmo tempo.
Na verdade, a dificuldade não é apenas a
de descrever esse corpo, é principalmente de ver ou ter esse corpo, o que
explica a insegurança inerente a quem escreve e, quiçá, a quem ama, como a
agora narradora comenta em A paixão
segundo G. H.: “Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém
está segurando a minha mão. Oh, pelo menos no começo, só no começo. Logo
que puder dispensá-la, irei sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua mão
– mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca.” Não
se consegue entender ou deter um todo, se a verdade, mesmo a do corpo, é sempre
não-toda: “Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não
sou uma pessoa inteira.”
Por isso, os véus e as máscaras são
necessários: “Eu chamava máscara de mentira, e não era: era a essencial máscara
da solenidade. Teríamos de pôr máscaras de ritual para nos amarmos. Os
escaravelhos já nascem com a máscara com que se cumprirão. Pelo pecado
original, nós perdemos a nossa máscara.” A máscara pode ser a literatura. A
melhor máscara da mulher pode ser o seu corpo nu se mostrando à meia-luz (a
luz plena, pornográfica, tira toda profundidade, quer dizer, mostra que debaixo
da máscara há apenas um nada plano: um desespero).
Nesse sentido, a catarse pela ficção é
todo o contrário de um processo de identificação do leitor com o/a
personagem, indicando sim um processo de desidentificação, despersonalização
e deseroização: “Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o
outro sob qualquer disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em
si mesmo o homem de todos os homens. Toda mulher é a mulher de todas as
mulheres, todo homem é o homem de todos os homens, e cada um deles poderia se
apresentar onde quer que se julgue o homem.” Porque a vida é uma missão
secreta, “a gradual deseroização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se
labora sob o aparente trabalho”.
Diferentemente do que “pensam” os
sentidos, o corpo, em particular o feminino (porque é dele que se fala, é este
que não se vê), não se mostra. Por isso mesmo a ficção que desde o princípio
se assume como tal pode melhor conduzir para dentro desse mistério, desse
labirinto de faltas e afetos, do que qualquer discurso “-lógico”, seja ele
antropo, psico ou sociológico. A ficção nada diz exatamente da “via-crúcis
de um corpo travado em seus prazeres, imolado em sua vitalidade e reprimido em
sua alegria”, nem da “amarga docilidade imposta ao corpo feminino através
da história”, como li em recente resenha sobre livro intitulado O
corpo feminino em debate. Tais
discursos, ainda que sob perspectiva feminista e/ou libertária, forçosamente
tentam nos fazer escapar do labirinto, porque iluminam o caminho com aquela luz
frontal e chapada que tira toda a profundidade e denega todo o mistério. Tais
discursos, me perdoem: beiram o pornográfico.
Faz-se então necessária a mão de
Clarice – “enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está
segurando a minha mão” – para se poder andar pelo labirinto. É a mesma mão
a que se refere Lya Luft, no seu primeiro romance, As
parceiras. A primeira parceira de Anelise, a narradora, é uma amiga de infância
que morreu prematuramente: “Ela foi o primeiro amor da minha vida, numa idade
em que as almas interessam muito mais do que os corpos. (...) Então Adélia foi
minha irmã, me dava a ternura que os adultos esqueciam de dar, e pela qual eu
ansiava tão intensamente. Tinha cabelos pretos e lisos, mãozinha rechonchuda,
quente na minha, olhos escuros, riso fácil e uma alegria de viver que me
espantava.” A mão na mão representa bem um corpo feminino conhecendo-se, na
infância, através de outro, mas porque lhes interessa antes a alma do que o
corpo – e à alma só se chega através de uma metáfora, corporal que seja,
e/ou de uma metonímia, por exemplo a mãozinha rechonchuda e quente.
Todavia, a alma, nome do melhor ou do pior
de nós, não existe a não ser como nome. O que existe é o corpo, imperioso.
Anelise vive sob o signo do corpo da sua avó, Catarina, que se casou aos 14
anos para ser violentada pelo marido até perder a razão e viver reclusa no sótão.
Tornou-se uma “doida bonita, asseada, mansa, escrevendo e murmurando entre
rendas e alfazema”, sem fazer mal a ninguém. Até que “um dia, o escândalo:
Catarina von Sassen, 46 anos, louca e linda, foi encontrada na cama em atitudes
suspeitas com a enfermeira mocinha que diariamente lhe aplicava injeções de
vitamina e massagens para compensar a longa reclusão”.
Naturalmente, expulsaram a enfermeira.
Naturalmente, o médico receitou o calmante mais forte. Naturalmente, a moradora
do sótão ficou extraordinariamente calma, tornando-se “uma ausência parada
atrás da porta de vidro da sacada”, que morreria três meses depois. A
neta-narradora chora “pelos acossados, os desamados, os dúbios, que não
conseguem amar dentro do esquadro alheio”, pensando muitas vezes “nos rótulos
grosseiros que recobrem os amores mais delicados, os intrincados, os subterrâneos
mas não necessariamente sombrios. Deviam ter permitido que ela provasse algum
calor humano em seu universo imaculado. Não permitiram”.
Essa menina que narra a história conta
como perdeu sua amiga, Adélia, muito cedo, e como depois perdeu muitos filhos
que nasceram mortos, até o último, que nasceu vegetal, com uma lesão cerebral
irreversível. Ela vê seu marido, seu primo, sua tia, todos parecendo acuados,
e supõe que seus próprios olhos deviam trazer a mesma expressão, mas não
consegue ver a si mesma: “Bem que me mirava no espelho para ver que cara a
gente tem quando sofre tanto, mas era sempre o meu rosto.” Apenas a ficção
nos empresta a sugestão do seu rosto para que sirva, por um instante, como máscara
(ritual) do nosso, uma vez que, como ela, não podemos nos ver vendo, não
podemos nos ver sendo.
Dessa impossibilidade fala Adriana Lisboa,
cujo romance, Sinfonia em branco,
publicado no primeiro ano do século XXI, mostra
duas irmãs, Maria Inês e Clarice, tentando se ver. Ao se despir na frente do
espelho, Maria Inês vê menos o seu corpo do que os seus acidentes – do que a
história do seu corpo: “Para tirar a camisola bastou um gesto, e então ela
reencontrou aquela íntima e corriqueira verdade, seu corpo, que em nada evocava
Barbies e outras belezas padronizadas, curvas classificáveis em categorias,
vendáveis, temporariamente definitivas. Seus quadris eram um pouco largos e o
ventre estava longe de ser liso feito tábua. Os seios de menina que haviam
amamentado dois filhos continuavam a ser seios de menina, pequenos e frágeis.
Ela guardava a cicatriz de uma grave apendicite operada havia cinco anos.
Tirando a calcinha ainda era possível divisar o vestígio da cesariana, aquela
pequena cicatriz curva e rosada com talvez dez centímetros de extensão.”
As Barbies e outras belezas padronizadas
equivalem, digamos, à direita, ao que os discursos antropo, psico ou sociológico
configuram à esquerda. Em ambos os casos genéricos, há ficção que fala como
se não o fosse, como se fosse descrição objetiva. No caso do corpo, que
sabemos fictício, de Maria Inês, importam antes as cicatrizes que têm data e
dor, como aquelas que a sua irmã Clarice (que não é Lispector) tem nos
pulsos, fruto da tentativa de suicídio com uma faca Olfa.
Toda semelhança da Clarice de Adriana Lisboa, quelóide nos punhos nus, com a mão
direita de Clarice Lispector, queimada até a cartilagem por um incêndio na sua
cama, será mera coincidência – porque, afinal de contas, toda mera coincidência
é uma metáfora involuntária.
A
Clarice de Adriana, irmã de Maria Inês, é uma escultora que esculpe mulheres
incompletas: “Não havia pernas, nem braços, nem cabeça. O tronco curvava-se
para o lado, ligeiramente para trás, e os ombros estavam abertos. Aquela mulher
incompleta esticava braços inexistentes para receber o quê? Que dádiva? Que
punição? Sobre a pele irregular, propositalmente rude, estavam ainda as marcas
do cinzel. Como se aquela pequena obra devesse ser incompleta. Ou ambivalente.
Metade escultura, metade pedra disforme. Metade mulher, metade sugestão. Metade
real, metade impossível. Se tivesse olhos, talvez lágrimas escapassem deles.
Como não os tinha, as lágrimas ficavam sugeridas em torno dela como um cheiro
ou um espírito. A escultura toda quase chorava. Talvez fosse um auto-retrato
que, beirando o invisível, lembrasse um perigo.”
“Óbvia como o medo, mas arredia como a
verdade”, a escultura de Clarice remete à pintura de René Magritte que se
chama, bem a propósito, Tentando o impossível.
Lembrando o mito de Pigmalião, o pintor representa um pintor tentando pintar no
ar, como se fosse uma escultura, um corpo nu de mulher. Falta apenas um braço,
é verdade – mas esse braço faltará para sempre.
Os senhores sinistros do quadro de Di Cavalcanti, entre os quais eu gostaria de não estar, para sempre tentarão interpretar e julgar o corpo feminino. No entanto, o corpo feminino lhes fugirá, tanto dos olhos quanto das mãos, pelas bordas da ficção. Toda alusão a ele não será mais do que isso: sugestão de uma vontade e tentativa fadada, felizmente, ao fracasso – como, aliás, o presente ensaio.