DUBITO ERGO SUM

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PARADOXO [*]

Gustavo Bernardo

 

 

Paradoxo deriva de doxa, que se opõe à episteme. Deste modo, os paradoxos estariam contidos na episteme — isto é, no âmbito do conhecimento racional. Enquanto a doxa ocupa o lugar do conhecimento sensível, da mera opinião, o conhecimento racional, intelectual, permitiria perceber e compreender para além da percepção dos sentidos, revelando os engodos e os enganos em que incorremos. Como o conhecimento pela via do intelecto muitas vezes pode contradizer completamente as percepções do conhecimento sensível, isto é, da doxa, produz o que se costuma chamar de paradoxo.

Na verdade, os paradoxos representam, quase sempre, elementos complicadores para o pensamento. Um dos princípios básicos da Lógica tradicional, aristotélica, é o “princípio da não- contradição”, mas o paradoxo pode ser um argumento que, apesar de aparentemente correto, apresente uma conclusão ou conseqüência contraditória. Ao mesmo tempo, e exatamente por incorporar a contradição na sua estrutura, torna-se muito difícil contradizê-lo ou negá-lo.

Há vários tipos de paradoxos. Entre os mais famosos, encontramos os paradoxos de auto-referência, como o de Epimênides, o Cretense. O paradoxo se resume numa frase: “todos os cretenses são mentirosos”. Como a afirmação foi feita pelo próprio Epimênides, que era cretense, constitui-se em um paradoxo: se a afirmação é correta, Epimênides, por ser cretense, está mentindo; se Epimênides está mentindo, a afirmação, entretanto, deveria ser falsa.

A solução dos paradoxos de auto-referência se dá através do recurso à noção de metalinguagem, distinguindo o uso de um termo ou expressão na linguagem da menção de um termo ou expressão enquanto tal. De todo modo, este tipo de paradoxo remete para a dificuldade intrínseca à auto-definição, uma vez que aquele que tenta definir a si mesmo não possui, por definição, a distância mínima necessária para se ver. Como podemos ver os nossos próprios olhos, se não através de uma imagem virtual (que não está lá), no espelho, ou através do suspeitíssimo olhar do outro? Não à toa, Alan Watts afirmou, de forma propositalmente paradoxal: “Tentar definir a si mesmo é como tentar morder os próprios dentes”. A frase de Watts também pode ser representada pelo paradoxo visual do uroboro — a imagem da cobra que tenta devorar o próprio rabo (representada pelo “dragão” de M.C.Escher).

O matemático Martin Gardner encontra quatro tipos principais de paradoxos: afirmações aparentemente falsas, mas na realidade verdadeiras; afirmações aparentemente verdadeiras, mas na realidade falsas; afirmações impossíveis de classificar, quer como verdadeiras, quer como falsas; linhas de raciocínio aparentemente perfeitas, mas que na realidade conduzem a contradições lógicas (também conhecidas como falácias).

Justamente pelo fato de se constituírem em complicadores para o pensamento, os paradoxos podem promover descobertas importantes. A moderna “teoria dos conjuntos”, por exemplo, deriva do estudo de determinados paradoxos. Seu valor pode ser resumido na sentença de Miguel de Unamuno: “o supremo triunfo da razão consiste em duvidar da sua validade”. Em outras palavras, a maior vitória consegue aquele que não acredita inteiramente em qualquer vitória; resiste ao fim, qualquer tipo de fim, e insiste lutando, pensando, escrevendo, amando, duvidando, querendo. Em termos mais populares, equivale à noção de que o melhor da festa se encontra no preparar a festa, e não na festa propriamente dita. Em termos filosóficos, equivale a compreender que o sentido do esforço intelectual não reside na resposta, mas sim na pergunta, tão metódica quanto permanente.

Os campos conexos da lingüística e da teoria da literatura são particularmente férteis em paradoxos. Formulações como a de Macedonio Fernandes — “neste mundo faltam tantas coisas que, se faltasse mais uma, não haveria lugar para ela” — pertencem àquele tipo de paradoxos que não se podem classificar nem como falsos, nem como verdadeiros. Terminam por fazer fronteira com a poesia, que força a linguagem a ultrapassar os seus próprios limites.

João Guimarães Rosa nos oferece uma passagem exemplar, em seu Grande sertão: veredas: “Compadre meu Quelemém, muitos anos depois, me ensinou que todo desejo a gente realizar alcança — se tiver ânimo para cumprir sete dias seguidos, a energia e paciência forte de só fazer o que dá desgosto, nojo, gastura e cansaço, e de rejeitar toda qualidade de prazer. Diz ele; eu creio. Mas ensinou que, maior e melhor, ainda, é, no fim, se rejeitar até mesmo aquele desejo principal que serviu para animar a gente na penitência de glória. E dar tudo a Deus, que de repente vem, com novas coisas mais altas, e paga e repaga, os juros dele não obedecem medida nenhuma.”

A “simpatia” fala da necessidade de aprender a não desejar, para se alcançar o que se deseja. É sem dúvida um paradoxo, mas que se apresenta como necessário. O próprio senso comum reconhece que, quando se procura muito alguma coisa, aí mesmo é que não se acha — é necessário “esquecer” o que se procura, “esquecer” do que se deseja, para só então poder encontrar ou realizar. O pensamento místico e religioso — fonte primeira da poesia — sempre soube dessa necessidade.

A mística oriental produziu um conjunto muito grande de paradoxos. O taoísmo, em particular, encontrou sua melhor síntese nos poemas de Lao Tse (seu nome já é um paradoxo: Lao significa menino; Tse significa velho). Entre seus versos mais conhecidos, encontramos: “quem se dobra, permanece inteiro; quem se curva, mantém a retidão”. Num temporal, o bambu se dobra e por isso não se quebra, sobrevivendo, enquanto a árvore mais “forte” pode ser destruída pela própria resistência que opõe aos elementos. Numa situação de crise, financeira ou moral, o homem mais flexível pode se adaptar melhor às circunstâncias e sobreviver, enquanto um outro, mais rigído, pode “quebrar”.

O que os paradoxos estão sempre lembrando é a primeira lição da lingüística, qual seja, que “as palavras não são as coisas”, elas apenas indicam, ou sugerem, as coisas. Em termos absolutos, o real não nos é acessível, a não ser por mediações que velam ao mesmo tempo em que desvelam — assim como só podemos “enxergar” o Sol sob a proteção de óculos escuros. Esta lição já fora formulada há muito tempo, por monges zen: “quando um dedo aponta para a lua, a lua não está no dedo; quando as palavras apontam para a verdade, a verdade não está nas palavras. A linguagem é apenas um meio de expressar fatos. Quem insiste nela abre mão da verdade e ficará confuso para sempre”.

 

Bibliografia. Hans Kelsen. Die Illusion der Gerechtigkeit (1985). Hilton Japiassu & Danilo Marcondes. Dicionário básico de filosofia (1990). João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas (1956). Lao Tse. Tao te king (1989). Luc Brisson. “Platão”; in Laurent Jaffro & Monique Labrune (orgs). Gradus philosophique (1994). Marilena Chauí. Convite à filosofia (1994). Martin Gardner. Aha! Gotcha: paradoxes to puzzle and delight (1982). Rubem Alves. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras (1981). Tsai Chih Chung. Zen speaks (1994).

 

 

[*] O verbete "Paradoxo" foi publicado em 2006 no E-Dicionário de termos literários, ISBN: 989-20-0088-9, coordenado pelo professor Carlos Ceia, da Universidade Nova de Lisboa, em <http://www.fcsh.unl.pt/edtl>.