DUBITO ERGO SUM

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COLA, SOMBRA DA ESCOLA 

Gustavo Bernardo

 

Este pequeno trabalho resume livro de mesmo nome, publicado pela Editora da UERJ em co-edição com a Escola Parque em 1997 – mais tarde republicado como segunda parte do livro Educação pelo argumento, publicado pela Editora Rocco em 2000.

O livro pretende comparar a Educação e o Direito à luz de questões éticas, refletindo sobre a moral de educadores e de juristas. Remete a problema menor na escola, ou seja, ao hábito, por parte dos alunos, de furtar idéias e respostas alheias, nas situações de avaliação. Defenderei, porém, que o problema não é menor — pelo seu hábito, tão difícil de combater, o futuro cidadão “aprende” a desonestidade intelectual, exatamente a matriz de todas as demais.

Entendo a “cola” como parte integrante da identidade da escola, como uma sombra sem a qual o corpo não faz sentido. Pode se esconder à luz do dia (e da razão), olhando apenas de esguelha para saber se não está sendo olhada, mas se espalha como praga, ou como moda, nos momentos menos iluminados (e mais interessados). Vejo a “cola” como uma construção da escola —construção dos mestres e do discurso social e moral que os informa e lhes dá forma.

Esta é a hipótese fundadora do trabalho. Para desenvolvê-la, recorro à investigação de Michel Foucault sobre o panopticon de Jeremy Bentham, nas conferências brasileiras de A verdade e as formas jurídicas [1973] e em Surveiller et punir [1975].

Bentham, fundador do utilitarismo moderno, em 1787 imaginava construir sua Inspection House, aplicável a quase todas as instituições (prisons, houses of industry, work-houses, poor-houses, manufactories, mad-houses, lazarettos, hospitals and, last but not least, schools). Foucault, ao estudá-lo, estabelece a mesma relação direta da prisão com a escola.

De fato há duas espécies de utopia: as utopias proletárias socialistas que têm a propriedade de nunca se realizarem, e as utopias capitalistas que têm a má tendência de se realizarem freqüentemente. A utopia de que falo, a fábrica-prisão, foi realmente realizada. E não somente foi realizada na indústria mas em uma série de instituições que surgiam na mesma época. Instituições que, no fundo, obedeciam aos mesmos modelos e aos mesmos princípios de funcionamento; instituições do tipo pedagógico como escolas, orfanatos, centros de formação; instituições correcionais como a prisão, a casa de recuperação, a casa de correção, instituições ao mesmo tempo correcionais e terapêuticas como o hospital, o hospital psiquiátrico. [1]

A fábrica-prisão se realizaria na fábrica, propriamente dita, e ao mesmo tempo na prisão, na escola, no asilo e no hospital, a partir do modelo arquitetônico e disciplinar do panopticon, que pretendia ver sem ser visto, isto é, que pretendia invisibilizar o agente do poder, tornando transparentes seus objetos.

É panóptico — para usarmos o adjetivo de Bentham — o tablado das salas de aula, que facilita a observação dos alunos; é panóptica a posição vertical do professor, em confronto com a turma sentada; é panóptico o inspetor que toma conta de provas com óculos escuros, para melhor ver sem que os virtuais infratores percebam o movimento dos seus olhos, assim como é panóptico aquele vidrinho na porta das salas de aula, assemelhando-as a aquários de controle; são panópticos os lugares marcados dos alunos, facilitando o controle das individualidades e das personalidades divergentes, ou “problemáticas”; são panópticas as semanas bimestrais de provas, bem como panóptico será misturar turmas e séries para aumentar o controle e “impedir” a cola.

Toda utopia sistemática contém um certo delírio de controle dos homens e das coisas, da história e da natureza, a partir de um centro de poder, ou de um tirano mais ou menos “iluminado”. O problema do panoptismo, bem como de toda utopia erigida como sistema, é o de quem controla o controlador ou observa o observador, uma vez que também é senso comum que o poder, de qualquer matiz e tamanho, corrompe em alguma medida.

Por isso, cabem duas advertências. A primeira é do jurista Cesare Beccaria, nascido em 1738: “É necessário evitar associar à palavra justiça a idéia de algo real, como uma força física ou um ser vivo; ela é uma simples maneira de conceber dos homens”. [2] Beccaria já reagia ao platonismo, recusando-se a pensar em termos de essência da justiça — admitia o dinamismo do conceito. A segunda advertência é do filósofo Michel Foucault, em conferência de 1973, proferida no Brasil: “Atrás do conhecimento há uma vontade, sem dúvida obscura, não de trazer o objeto para si, de se assemelhar a ele, mas ao contrário, uma vontade obscura de se afastar dele e de destruí-lo, maldade radical do conhecimento.” [3]

A sala de aula contemporânea remete à cela contemporânea. Ainda que uma liberdade parcial se apresente, ruidosa, ao toque estridente do “sinal” que anuncia o recreio ou o final do dia, a sensação de aprisionamento, para mestres e discípulos, recomeça, mais ou menos difusa, no “tempo” seguinte, na aula seguinte, no dia seguinte, na semana seguinte, no período letivo seguinte. Sensação que se reforça quando a inspetora e/ou coordenadora e/ou diretora observam mestre e discípulos, indiscretas, pelo vidrinho da porta da sala, fazendo todos se sentirem como peixes vermelhos “disciplinados” dentro de um aquário.

Disciplina-se pela arquitetura externa e interna da escola, disciplina-se pela localização e postura do professor, disciplina-se pela distribuição compulsória dos alunos na sala, disciplina-se pela divisão estanque do conhecimento em… disciplinas. Disciplina-se, principalmente, através da moeda de troca da escola, qual seja, a nota: o enquadramento dos indivíduos em terços superiores, medianos (medíocres) e inferiores (irrecuperáveis). Sem prejuízo de sistemas paralelos de enquadramento e penalização (advertência, castigo, suspensão, expulsão), a nota configura o principal mecanismo penal da escola. Porque: “na essência de todos os sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo penal”.[4]

É como se as instituições não-jurídicas quadriculassem espaço deixado vazio pelas leis maiores, reprimindo o conjunto dos comportamentos que escapam aos grandes sistemas de castigo. Na fábrica, no exército e na escola há toda uma micropenalidade do tempo (atraso, falta), da atividade (desatenção, negligência, interrupção), da maneira de ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência) do corpo (postura, sujeira, vestuário), da sexualidade (imodéstia, indecência). Configura-se uma justiça criminal miúda, apequenando vítimas e agentes.

Cabe examinar os interesses históricos que construíram a escola (e a prisão) que conhecemos. A prisão, assim como a escola, vem há séculos recebendo graves críticas sobre a sua ineficiência, pelo menos em relação a seus objetivos explícitos — recuperar criminosos para a sociedade e para a cidadania responsável —, e todas as críticas apontam, como solução do problema, o próprio problema. Isto é, todas as críticas sugerem a reforma da prisão, mesmo sabendo que nenhuma reforma, dentre as poucas que foram promovidas, deu o menor salto qualitativo.

A ponta do nó górdio da questão, nunca desatado ou rompido, pode aparecer justamente através desta comparação entre a cela e a sala. O poder penal maior e os micropoderes institucionais são, simultaneamente, disciplinares e epistemológicos. Enquanto o sistema escolar a todo momento pune e recompensa, como tribunal permanente, o sistema penal stricto sensu a todo momento estuda o comportamento e a ação dos homens e das leis, arbitrando para conhecer, conhecendo para arbitrar — arbitrariamente, sempre. Todo saber é uma forma de poder, e vice-versa. Entre as formas de saber-poder da sociedade ocidental, Foucault vislumbra duas grandes linhas: a do inquérito e a do exame.

O inquérito é uma forma de pesquisa da verdade que aparece como ordenação jurídica na Idade Média, mas já se enunciava na história de Édipo-Rei. Édipo é o provavelmente o primeiro de todos os detetives, que reconstrói a verdade, com ajuda de testemunhas e deduções, até encontrar o último (em termos morais) de todos os criminosos, aquele que matara o próprio pai e dormira com a própria mãe: ele mesmo, enfim. Quer dizer, a primeira de todas as histórias de detetive já enunciava o paradoxo perturbador da procura humana pelo conhecimento, pela causa, portanto pelo culpado: a investigação termina por apontar, como um bumerangue metafísico, para o próprio investigador.

O inquérito, prefigurado em Édipo, substitui o flagrante delito; testemunhas reconstroem o delito que não pôde ser flagrado. “Tem-se aí uma nova maneira de prorrogar a atualidade, de transferi-la de uma época para a outra e de oferecê-la ao olhar, ao saber, como se ela ainda estivesse presente”.[5] Presentifica-se o crime; atualiza-se o que foi, como se estivesse sendo. O inquérito, judiciário, a partir do século xii espalha-se como forma de saber na Medicina, na Botânica, na Zoologia; daí nascem, mais tarde, a Estatística, a Economia, a Geografia, a Astronomia. Estudam-se os fenômenos a posteriori, para presentificá-los.

Mas, no século xix, seguindo o espírito arrogante do cientificismo, configura-se uma nova forma de saber-poder que pretenderá estudar os fenômenos a priori, isto é, controlá-los desde suas primeiras causas. Trata-se do exame. O exame começa na prisão. A prisão surge como instituição de fato, praticamente sem justificativa teórica, para só depois provocar conceitos e noções que a sustentassem, como a escandalosa noção de periculosidade: “a noção de periculosidade significa que o indivíduo deve ser considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades e não ao nível de seus atos; não ao nível das infrações efetivas a uma lei efetiva, mas das virtualidades de comportamento que elas representam.” [6] A justiça, primeiro, e depois a escola, o hospital, o asilo, a polícia, atribuem-se menos a função de punir as infrações dos indivíduos, mais a de corrigir suas virtualidades. Entra-se na idade do que Foucault chama de “ortopedia social”. Seu ideólogo chama-se Jeremy Bentham; sua planta baixa é a do Panopticon.

O Panopticon era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia, segundo o objetivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário trabalhando, um prisioneiro se corrigindo, um louco atualizando sua loucura, etc. Na torre central havia um vigilante. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nela nenhum ponto de sombra e, por conseguinte, tudo o que fazia o indivíduo estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de venezianas, de postigos semi-cerrados de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo. [..] O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no fundo, a sociedade que atualmente conhecemos — utopia que efetivamente se realizou. Este tipo de poder pode perfeitamente receber o nome de panoptismo.[7]

Em suma, o princípio da masmorra é invertido. A visibilidade é uma armadilha, porque o poder deve simultaneamente ser visível e inverificável. Visível, porque a todo instante o detento (o aluno, o operário) vê o que pode vê-lo — a torre de vigia, o vidro da sala de aula (do aquário). Inverificável, porque o detento (o aluno, o operário) nunca sabe quando está sendo observado. Dissociando o par ver/ser visto, se automatiza e se desindividualiza o poder.[8]

Para Bentham, o panóptico seria "a new mode of obtaining power of mind over mind". [9] O panóptico prenuncia as tentativas futuras, tautológicas, de a mente obter poder sobre... a própria mente. É o uroboro filosófico, o monstro que tenta devorar o próprio rabo e, portanto, a si mesmo, na petição de princípio em que caem, constantemente, os reformadores do mundo ou da humanidade. A essência do panóptico reside na centralidade da situação de inspeção, ou, na construção, sem dúvida ficcional, de uma espécie de "inspetor central", onipotente, onipresente e, principalmente, onividente: "the essence of it consists, then, in the centrality of the inspector's situation, combined with the well-known and most effectual contrivances for seeing without being seen".[10]

A base desta arquitetura institucional, portanto, é o exame contínuo (a prova, o teste), para controlar no nascedouro as causas dos desvios. O sujeito torna-se culpado (ou burro, ou louco, ou doente) até prova (exame) em contrário. Em todos os dispositivos de disciplina, o exame, então, tem de ser altamente ritualizado — basta tentar observar, de fora, exames psicotécnicos, exames orais, exames médicos, exames vestibulares; “a superposição das relações de poder e de saber assume no exame todo o seu brilho visível”. [11]

A escola torna-se um aparelho de exame ininterrupto. Compara-se, o tempo todo, cada um com todos, o que permite medir e sancionar. O exame faz a individualidade entrar num campo documentário, arquivando cada um dentro de uma rede de anotações escritas; sucedem-se boletins, relatórios, avaliações, em que não apenas mestres controlam alunos, mas coordenadores controlam mestres, pais controlam coordenadores, todos controlam todos. O controle, todavia, não parece garantir um melhor ensino, ou um aluno melhor, e menos ainda um professor melhor. Reúnem-se então circunspectos Conselhos de Classe para, depois de prolongadas e cansativas discussões não remuneradas, propor-se... mais controle. A semelhança com as campanhas pela reforma das prisões não é mera coincidência.

Esta é a utopia panóptica — que, para meia-sorte nossa, não se pode realizar plenamente. Detentos fogem, loucos riem de enfermeiros, alunos namoram e “colam”, doentes desobedecem às prescrições médicas.

Mas, para meio-azar nosso, e dos alunos, o esforço de controle e de domínio implica conseqüências que põem do avesso princípios e ideais. O poder panóptico pretenderia eliminar a “cola”, o que, indubitavelmente, não consegue. Isto pode ser bom, porque significa que o indivíduo reage ao controle e à desindividualização. Mas isto mesmo pode ser mau, se termina por tornar a “cola” uma das sub-instituições mais fortes da escola, ensinando, desde os primeiros exames, a desonestidade intelectual — mãe de todas as corrupções.

Proibir promove — e promovendo, ainda assim controla. Ou, controla melhor assim. A prisão, criada para ressocializar criminosos, produz, na verdade, como pós-graduação do crime, delinqüentes em profusão. A escola, criada para ensinar e formar cidadãos, forma, também, contingentes de trabalhadores semi-honestos e semi-capazes — em outras palavras, desonestos consigo mesmos e com seus parcos saberes.

Como diz um dos mais importantes juristas brasileiros: “a prisão não regenera nem ressocializa ninguém; perverte, corrompe, deforma, avilta, embrutece, é uma fábrica de reincidência, é uma universidade às avessas onde se diploma o profissional do crime”. [12]  Este jurista vê a prisão, na verdade, como uma incubadora, uma reprodutora de criminosos: “a prisão é má por si mesma, pela própria prisão, e o mal ainda se agrava, nas nossas penitenciárias e nos xadrezes das delegacias de polícia, pela promiscuidade, pela superlotação, pela ociosidade, daí decorrendo toda a sorte de perversões e brutalizações sexuais, que atingem, de preferência, os mais jovens.” [13] Evandro Lins e Silva completa seu argumento, falando da hipocrisia do sistema penal:

Jamais se viu alguém sair de um cárcere melhor do que quando entrou. E o estigma da prisão? Quem dá trabalho ao indivíduo que cumpriu pena por crime considerado grave? Os egressos do cárcere estão sujeitos a uma outra terrível condenação: — o desemprego. Legalmente, dentro dos padrões convencionais, não podem viver ou sobreviver. A sociedade que os enclausurou sob o pretexto hipócrita de reinseri-los depois em seu seio, repudia-os, repele-os, rejeita-os. Deixa, aí sim, de haver alternativa, o ex-condenado só tem uma solução: — incorporar-se ao crime organizado. [14]

O que nos obriga a dar ouvidos a outro eminente jurista brasileiro: “o crime não é apenas uma abstrata noção jurídica, mas um fato do mundo sensível, e o criminoso não é um impessoal modelo de fábrica, mas um trecho flagrante da humanidade.” [15] Entender o criminoso como um “trecho flagrante da humanidade” implica admiti-lo, também, como sintoma e como sombra, quer do legislador, quer do cidadão. Exterminá-lo, pura e simplesmente, ou enclausurá-lo, não dá conta do problema social: novos sintomas e novas sombras se produzem.

Como já admitia Beccaria, no século xviii, e admite Lins e Silva, no século xx, a prisão é sombra da hipocrisia de um poder, ou de um fórum, que constrói imensos prédios para melhor ressocializar, de acordo com suas intenções explícitas, aqueles que se tenham desviado, sem aparentemente observar o óbvio: o efeito de fato alcançado é o avesso do efeito assumido como desejado. O procedimento do exame, que se espalhou do tribunal à escola, passando pela burocracia e pelo hospital, intenta controlar as próprias intenções dos sujeitos, no afã de prevenir e dirigir mesmo os atos que ainda não foram consumados. A ética pragmática de Beccaria, no entanto, já admitia que “a única e verdadeira medida dos delitos é o dano provocado à nação, e por isso erraram aqueles que pensavam ser a real medida dos delitos a intenção de quem os comete”.[16]

Entendia, com propriedade e bem antes de Freud, que não temos nem podemos ter acesso direto às reais intenções das pessoas, porque nem podemos ter acesso direto e completo às nossas próprias intenções mais profundas — tantas vezes, sabemos o que queríamos só-depois: “a gravidade do pecado depende da imperscrutável malícia do coração, a qual não pode ser conhecida, por seres finitos, sem uma revelação. Como, pois, poderia essa malícia constituir-se em norma para a punição dos delitos?” [17]

Logo, “resulta evidente que o fim das penas não é atormentar e afligir um ser sensível, nem desfazer um delito já cometido.” O fim último de todo sistema penal, portanto, seria apenas o de “impedir que o réu cause novos danos aos seus concidadãos e dissuadir os outros de fazer o mesmo”.[18]

Ele admitia a prisão apenas como recurso extremo, ou, como ecoa Evandro, “ultima ratio, ou seja, a segregação só em último caso, para os perigosos”.[19] O que se viu, entretanto, foi a aplicação da prisão em todos os casos, multiplicando os problemas de verba e de superlotação dos presídios. Desde seu advento institucionalizado, crescem as críticas ao fracasso da prisão, sem que se abale seu prestígio público. As campanhas contra a impunidade exigem que se prendam mais pessoas, mesmo quando se publica que o número de crimes não diminui, que o número das reincidências aumenta, não decresce. A despeito, a prisão se mantém. As críticas sugerem somente reformas, dando a prisão (melhorada) como remédio da própria prisão, “a realização do projeto corretivo como o único método para superar a impossibilidade de torná-lo realidade”. [20] Ora; o pretenso fracasso da prisão pode estar escondendo, cinicamente, o seu verdadeiro sucesso.

A hipótese de Foucault é de que a prisão e seus castigos não se destinam a suprimir as infrações, mas antes a distingui-las e utilizá-las; não visam tornar dóceis potenciais transgressores, mas antes organizar a transgressão num sistema de sujeições. A prisão não pretenderia nem eliminar nem reduzir a criminalidade, mas antes organizá-la numa espécie de economia de poderes subterrâneos e eficientes. [21]  

A prisão não teria fracassado em reduzir os crimes, antes tido sucesso em “produzir a delinqüência, tipo especificado, forma política ou economicamente menos perigosa — talvez até utilizável — de ilegalidade”.[22] A existência visível, marcada, da delinqüência, pesa sobre outras ilegalidades e revoltas populares que ameaçariam, estas sim, os poderes vigentes. Produz-se um mal menor, isto é, o sofrimento de delinqüentes e suas vítimas de ocasião, para controlar o mal maior, ou seja, o risco de perder qualquer fatia de poder. Neste sentido, o pretenso mal menor se torna um bem: a marginalidade delinqüente se torna fundamental para circunscrever e fixar as fronteiras da sociedade.

 A utopia panóptica — em si mesma uma obra de ficção — gerou outras tantas obras de ficção. Muitos livros tematizaram o panóptico, em geral para repudiá-lo, ou exorcizá-lo. Dentre eles, o romance mais conhecido é 1984, de George Orwell, em que a figura onipresente e onividente (entretanto, inexistente) do inspetor-geral toma a forma do Big Brother, enfim, de um grande Olho que pode ver todos os recantos. Orwell escreveu-o em 1948, invertendo os dois últimos algarismos para situar sua utopia negativa. Depois dele, outros autores exploraram o medo de um futuro monista e panóptico, como Aldous Huxley (Brave New World), William Golding (Lord of the Flies) e Anthony Burgess (The Clockwork Orange).

Ora, Jeremy Bentham já propunha sua Inspection House a partir de uma elaborada ontologia da ficção. Ele se preocupava menos em distinguir as ficções da realidade, ou as diferentes ficções entre si, para explorar os efeitos que a ficção exerce sobre a realidade — em outras palavras, para produzir a ficção que melhor atuasse sobre a realidade.

"In Bentham's eyes, punishment is first and foremost a spectacle: it is insofar as punishment is not intended for the punished individual, but for all others, that the execution of the punishment is a spectacle".[23] Para Bentham, qualquer punição deve ser encarada antes de tudo como espetáculo; importa menos o seu efeito sobre quem é castigado, do que as impressões que recebem todos aqueles que vêem o castigo ou dele são informados.

Na sua prisão panóptica, ocasionalmente gritos horríveis se escutariam — só que não de prisioneiros, mas de pessoas contratadas exclusivamente para semelhante propósito: "while the others would think that the offenders were being punished for their deeds, in truth, nobody at all would really be suffering punishment. A good of the second order could then be produced without requiring any evil of the first order". A punição aparente, fictícia, produziria um bem para todos — a ordem, a disciplina —, ao mesmo tempo em que produziria nenhum mal, exatamente porque o "mal" produzido teria sido "de mentirinha".

Todo o panóptico, na verdade, é estruturado como uma ficção. É precisamente a aparente onipresença do inspetor que sustenta a perfeita disciplina no panóptico, controlando os movimentos de transgressão entre os internos. Entretanto, como a onipresença não pode ser um atributo humano, resta forjá-la, simulá-la, quer por rondas aleatórias, quer pela arquitetura do lugar, que permite a cada um dentro das celas ser facilmente visto, ao me smo tempo em que dificilmente vê quem o vê.

Em última análise, o inspetor perfeito, o inspetor onipresente, é aquele que nunca aparece — mas pode aparecer a qualquer instante. O inspetor perfeito é, enfim, uma voz, um olho, um ofício carimbado, uma sombra indistinta no fundo do corredor — "from the cells he is visible as a silhouette, a shadow, or an opaque, dark spot".

Trata-se da metonímia eficiente de um poder que só pode aparecer indiretamente, por partes de si mesmo. O inspetor onipresente e onisciente acaba por se tomar um ícone do poder e, extensivamente, a própria ficção de Deus — em termos freudianos, a própria Lei Glorificada: "it is therefore the fiction of God that sustains the universe of the panopticon".

Neste tipo de instituição, nós somos vistos, ou pensamos que somos vistos, sem vermos aquele que vê; nós escutamos uma voz, sem vermos o dono da voz. O panóptico deve ser governado por um olhar e por uma voz dessubjetivados, desconectados de seu portador—"in a word, by gaze and voice qua objects". O inspetor torna-se, então, uma espécie de fantasma. O inspetor, em última instância, é uma entidade de ficção — ele não existe. Justamente por isto, ele pode provocar um medo superior ao de um guarda real, por mais cruel e truculento que fosse o guarda. Não temos medo de fantasmas a despeito do fato de que eles não existem, mas precisamente graças ao fato de que eles não existem.

De que, exatamente, temos medo, quando dizemos que sentimos medo de fantasmas? Ora: "it is precisely the intrusion of something radically other, something unknown and strange into our world". Ou, em português: sentimos medo, precisamente, da invasão de algo radicalmente outro, algo absolutamente desconhecido e estranho em nosso mundo.

Miran Bozovic, ao comentar os escritos de Bentham, faz eco a Lacan e mata a charada, mostrando como o panóptico é uma prisão construída menos com tijolos, antes, com palavras. É uma prisão feita de linguagem, se entendemos a linguagem humana como aquela que não basta, permanentemente equívoca, simultaneamente pletórica e insuficiente:

We love God precisely because he does not exist. What we love in an object is precisely that which it lacks. But then what is it in God, who obviously lacks nothing, that we can love? In other words, if it is only giving what we do not have that counts as a sign of love, then is it even possible for God, who lacks nothing, to give anything at all? Since God simply has everything, he obviously has nothing that he could give. The only thing that God, who is supposed to be a total plenitude of being, could lack, is, as Lacan puts it, precisely the principal feature of being: existence. It is an illusion to think that we Iove God because he is a total plenitude of being; the only reason we love him is that perhaps he does not even exist at all. If we love God, we love him because he is a non-entity. The inspector certainly knows that, qua God, he does not really exist; qua God, the inspector only exists through an artifice, only as a fiction.

O inspetor, enquanto ícone da divindade onisciente, é um personagem que finge ser uma pessoa; é uma máscara que finge ser um rosto. Seu poder deriva do simples fato de não ser, o que provoca, justamente, a fobia — o medo. O médico, ao passar muito rápido pela cama do doente, fazer hum-hum e recusar-se a explicar, com palavras leigas, o problema da pessoa, torna-se um ícone da ciência onipotente, da medicina onipresente, contribuindo para a constituição de uma sociedade hipocondríaca muito interessante — que interessa aos laboratórios farmacêuticos e aos micropoderes que enquadram e controlam o nosso corpo. O alienista — psiquiatra, psicólogo ou psicanalista —, quando diagnostica esquizofrenia sem considerar a história e o contexto de cada paciente, constitui a si mesmo como parâmetro de equilíbrio, como um ícone da alma — daquilo que, em última instância, não há.

Este último personagem, ninguém o representou melhor do que o brasileiro Machado de Assis, no conto O alienista. Simão Bacamarte, seu protagonista, consegue construir, em pequena cidade do interior, um enorme asilo, uma enorme mad-house, a que apelidou de A Casa Verde. Tanto procura, tanto examina, que logo interna a maior parte da população. De princípio, não duvida de seus próprios critérios; ao contrário, reformula a teoria para adequá-la à sua prática: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. [24]

Mais tarde, depois de internar a cidade inteira, inclusive os amigos, a esposa, o padre, os políticos, o personagem machadiano efetiva o supremo paradoxo irônico, compreendendo que a saúde mental residia "no perfeito desequilíbrio das faculdades". Por conseguinte, a verdade última sobre a loucura apontava... para ele mesmo. Isto é, louco seria somente aquele que fosse perfeitamente equilibrado, que não ostentasse o menor defeito. Logo, Simão Bacamarte conclui, com muita gravidade, que só havia um louco na pequena cidade de Itaguaí, e este louco chamava-se Simão Bacamarte. Então ele interna a si mesmo, e somente a si mesmo, na Casa Verde, proclamando: “A questão é científica; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. [25]

Professores de literatura, quando adotamos o pequeno texto de Machado, somos capazes de lê-lo "nos lendo"? Somos capazes de ler Simão Bacamarte como caricatura legítima do cientificismo e do pedagogismo, dos delírios de controle que tantas vezes pensamos exercer, nas aulas, nos exames, nos corredores, nas noites mal dormidas corrigindo, bacamartianamente, provas mal feitas, como se pudéssemos ser justos? Como se as provas mal feitas não fossem o resultado direto, produto e sintoma indiscutível, das perguntas que fizemos, das aulas que "demos"? Infelizmente, não. Acho que não percebemos sequer a crítica certeira de Machado aos arrogantes realistas de sua época —tanto, que o enquadramos, em praticamente todos os manuais didáticos de literatura, como "realista". A ficção é transformada em evento histórico, em "estilo de época", para que as ficções que fingem que não o são—as mentiras do Estado e da Escola — cumpram melhor sua função, construindo as mais seguras prisões do mundo: as prisões de papel.

Da ficção panóptica de Bentham, da ficção de Deus, chegamos à sala, como sombra da cela, daí à “cola”, como sombra do crime, e daí ao aluno, sombra e imagem virtual do delinqüente.  

As “Luzes”, que descobriram as liberdades, bem como as igualdades e as fraternidades, inventaram, no mesmo passo, as disciplinas.[26] Os mestres somos seus responsáveis (ou, seus primeiros objetos). A disciplina fabrica, propriamente, indivíduos. Seu poder não é um poder triunfante, que se ancore no próprio excesso, mas sim um poder modesto, desconfiado, que se constrói por dentro. Seu progressivo sucesso deve-se a instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora, e sua combinação no procedimento específico do exame. [27] “A disciplina é uma anatomia política do detalhe”[28]; detalhe que se constrói um a um, sob o princípio básico da localização imediata, ou do quadriculamento: cada indivíduo no seu lugar, e em cada lugar um indivíduo. Devem-se analisar, no sentido estrito de decompor, as pluralidades confusas, maciças ou fugidias. O espaço disciplinar divide-se em partes que por sua vez se dividem em sub-partes.  

Na escola, o conhecimento se fragmenta em ciências que se dizem “exatas” (como se toda ciência não tivesse por horizonte a exatidão, ou como se qualquer ciência não fosse, por definição, inexata, isto é, aproximativa) e outras que se dizem “humanas” (como se conhecêssemos ciências marcianas, ou equinas). Cada um destes dois campos se fragmenta em outros tantos, que por sua vez se fragmentam em outros tantos, ad infinitum.

Na escola, ordenam-se os alunos por séries, as quais se ordenam por classes, ou turmas, as quais, por sua vez, se ordenam por fileiras e filas, de preferência com lugares marcados. Depois, os mesmos alunos são reordenados pelas notas dos exames, formando terços superiores (popularmente conhecidos como cdfs, ou, cus-de-ferro, em alusão direta ao medo do disciplinador e de seus procedimentos), terços médios (medianos, muito próximos do medíocre) e terços inferiores (compostos por alunos que aprenderam, direitinho, que nunca vão aprender certas matérias, ou certas habilidades, como escrever, ou contar e calcular).

Mas não basta dividir o conhecimento e as pessoas; é necessário dividir, no nível do detalhe, o próprio tempo, levando ao limite da caricatura a convenção que nos faculta “perceber” o tempo como percebemos o espaço. Divide-se uma manhã em seis tempos, ou horas, de aula, divide-se a semana em 30 ou 36 tempos, ou horas, de aula. O requinte da divisão é tal, que o dia tende a começar em horas “quebradas” — 7:20, ou 7:30 horas — e terminar do mesmo modo, às, digamos, 13 horas e 10 minutos. As conseqüências perniciosas de tanta “análise”, de tanta fragmentação, são conhecidas, e exaustivamente discutidas em toda reunião pedagógica — sem que se consiga propor mudança substancial.

O mesmo acontecia e acontece, como vimos, com os reformadores da prisão, quando apresentam, tautologicamente, a própria prisão como solução de si mesma, enquanto problema, sem atinar para a petição de princípio em que se incorre. Percebe-se a questão principal — a prisão como universidade do crime, ao invés de casa de correção, e a escola como lugar de demolição do conhecimento, ao invés de espaço de construção do saber. Não se suporta, entretanto, ideológica e pragmaticamente, a hipótese de abolição, pura e simples, desta prisão e desta escola. Logo, desviam-se os argumentos para as questões secundárias, sugerindo-se soluções meramente paliativas. Na verdade, as “soluções” devem se apresentar entre aspas irônicas, porque continuam a ser parte do problema, isto é, efetuam o controle que criticam.

Cabe lembrar algumas conseqüências do frenesi analítico da escola: a fragmentação do próprio conhecimento, criando sujeitos que, por exemplo, escrevem de modo razoável tão-somente na aula de português; a fragmentação do corpo docente, formado por professores que se esbarram no recreio e desconhecem o que os outros ensinam, por irrelevante para a sua especialidade — como podemos exigir que os alunos considerem relevante o que nós mesmos, por conveniência e por sobrevivência, precisamos esquecer?; a desvalorização, progressiva e contínua, em termos tanto morais quanto materiais, da figura clássica do Mestre, se, hoje, “quem sabe, faz, enquanto que, quem não sabe, ensina” (e quem não sabe ensinar “ensina educação física”, reforçando, através da piada, o antigo desprestígio platônico pelo corpo).

Destas conseqüências gerais, poderíamos desdobrar outras, mas devo agora fechar o foco num aspecto específico dos procedimentos de exame, na escola. Refiro-me ao controle da “cola”, ou seja, ao controle dos resultados individuais dos exames. Talvez devesse ter colocado o termo “controle” também entre aspas, uma vez que este controle efetiva-se, à primeira vista, de maneira deficiente. Como meus leitores já passaram pela escola, ao menos na condição de alunos, sabem que a “cola” é prática corrente, a despeito dos mecanismos variados de controle. Paralelo ao ditado deprimente que nos põe ensinando em função da incompetência para fazer, determina-se ainda: “quem não cola, não sai da escola” (a reforçar o título e a rima deste livro). Os mais variados mecanismos de controle, com sua ineficiência, terminam por legitimar e convidar à prática da “cola”. Um número indecentemente pequeno de alunos, em relação ao número real de infratores, é “pego” colando, o suficiente apenas para manter a impressão de repressão. Punem-se somente aqueles que “colam” muito mal, somente aqueles que não respeitam o enorme esforço do examinador em não ver o que vê. Logo, o controle deficiente da “cola” pode ser um procedimento bastante eficiente de promovê-la, promovendo subterrâneas desonestidade e, conseqüentemente, dependência intelectual, o que seria do interesse de um sistema panóptico de organização social. Da mesma maneira que a prisão fabrica delinqüentes, às avessas de sua definição como casa de correção, a escola fabrica dependentes intelectuais, às avessas de sua definição como espaço de luzes e independência intelectual.

Apesar da institucionalização da cola, o professor tende a se portar de maneira pessoalmente indignada, quando “consegue” pegar um aluno “colando”. A indignação — “como, você me enganou!” — oculta, a seus próprios olhos, o constrangimento de reconhecer que faz parte de um logro. Que é peça de um jogo, jogo este que tem, como regra de ouro: que as regras não sejam claras.

Se pensarmos em termos do Direito clássico, a “cola” é um “crime” com atenuantes, uma vez que a escola não só se previne mal contra ele, como até o estimula. Beccaria dizia que “não se pode chamar precisamente justa (isto é, necessária) a pena de um delito, enquanto a lei, nas dadas circunstâncias de uma nação, não tenha aplicado os melhores meios possíveis para preveni-lo.”[29] Ao invés de prevenção eficaz, a “cola” se estimula, quase se obriga, quando se submete o aluno a múltiplas disciplinas fragmentadas, cada uma delas com exigências cumulativas e conflitivas entre si, somando testes e exames toda semana, às vezes todos os dias de uma única semana, dentro de um espaço usualmente apertado, em que o colega ao lado senta-se a menos de um metro. Como requinte final, a “cola” se estimula, definitivamente, quando os testes são de “múltipla escolha”.

A tal da múltipla escolha pode ser resolvida, no menor esforço, pelo chamado rabo do olho. Sua própria denominação revela contradição flagrante, sintomática de contradições mais amplas: o aluno, ao tentar resolver uma questão de múltipla escolha, precisa encontrar a única resposta certa, ou seja, ele não tem escolha nenhuma; ao contrário, enfrenta muito maior possibilidade de errar (cinco contra um) do que de acertar. A contradição se torna patética se lembramos a “opção” [e] de várias provas: “n.r.a. — nenhuma das respostas anteriores”. Quando esta “opção” é a “certa”, então não há opção correta — seria um paradoxo, se não promovesse, perversamente, a ignorância. Logo, antes de ser um paradoxo, é um absurdo. A múltipla escolha é irmã gêmea da “cola”, ambas menos problemas ocasionais da escola que construções suas, pelas quais se aprende, subliminarmente, a desonestidade. O aluno se anima em enganar o professor, sem perceber, assim como o próprio professor usualmente não percebe, que deste modo torto entra no sistema e corresponde ao que dele se espera.

Os sistemas de avaliação ao mesmo tempo reprimem e estimulam a cola, não só porque proíbem-na com estardalhaço (emitindo assim irrecusável convite), mas também quando enchem o aluno daquelas exigências conflitantes e excessivas, escolhendo instrumentos de avaliação e cobrança para os quais o caminho de superação mais fácil (logo, mais inteligente, em certo sentido bem lógico) é a “cola”.

Fora da escola, no mundo do trabalho, não se produz mais nada sozinho; o trabalho é coletivo, a consulta a todos os meios disponíveis é indispensável. Aquele que não contribua com sua parte para o trabalho coletivo, que só queira colar do alheio, é ejetado rapidamente do trabalho, ou da pesquisa. No mundo do trabalho, não cabe repressão a priori à “cola”. Não faria sentido que isso permanecesse na escola, se não fosse parte disfarçada das estratégias de controle e disciplinamento — de corpos e de mentes — de que vimos tratando.

Se, de fato, este é o logro, e se dele estamos agora conscientes, cabe desfazê-lo na prática. Mas, considerando, como se descreveu, o profundo enraizamento dos sistemas panópticos, é possível superar o logro, instaurando, no lugar, outro jogo?

A solução que apresento é, antes de mais nada, uma solução semântica (o que não quer dizer, irrelevante). Primeiro, rebatizar a “cola”, que passa a trazer o nome de consulta. Em seguida, descriminalizá-la, tornando-a necessária. Em todas as avaliações, todas as provas, todos os exames, a consulta, antiga “cola”, deve ser permitida, ou melhor, reconhecida como necessária. Em todos os exames, de todas as matérias, toda resposta do aluno deve ser justificada, não só com os cálculos, mas, principalmente, com uma explicação discursiva, redigida, extensiva, dos passos do seu raciocínio.

O aluno poderia também consultar o trabalho do colega? Sem dúvida. Preservando-se um certo ambiente, um certo clima de silêncio, a consulta ao colega simula a situação de trabalho coletivo usual nas empresas, nas redações dos jornais, nos escritórios e consultórios. Trocar idéias, e mesmo respostas, com o vizinho, não o exime de construir a sua justificativa — que é o que importa. Se soube defender sua resposta, tanto faz se com muita ou pouca ajuda alheia, ele aprendeu — algum mestre deseja, conscientemente, outra coisa?

Transformar a “cola” (in)conveniente em consulta necessária assume o conhecimento como um constructo infinitum, relativizando toda avaliação, portanto todo exame, dentro do contexto dos processos de construção do saber. Exames e provas com consulta tendem a ser até mais difíceis, qualquer aluno sabe — mas sente que tem sua inteligência respeitada. A aceitação da novidade, por parte dos alunos, não seria problema.

Admito, entretanto, que, entre os professores, haveria alguma (ou muita) resistência. A resistência é saudável. Na verdade, qualquer mudança mais ou menos profunda é muito difícil em uma escola cujos professores sejam horistas, isto é, com seu tempo tão fragmentado quanto as disciplinas que ministram. Modificar a relação dos professores com o saber, com os alunos e com os exames exige, como contrapartida, que a instituição, pública ou privada, modifique na raiz sua relação com os seus profissionais. Modificar a relação global com o conhecimento depende de alterar, concomitantemente, a relação global com o trabalho.

Tentei demonstrar que o controle tende a ser, primeiro, ineficiente, e depois, perverso — gerando o avesso do que suas “boas” intenções pregam. Gostaria de acrescentar que, além de ineficiente e perverso, o esforço de controle, por parte dos controladores, é altamente estressante, envelhecendo-nos prematuramente. O controle, portanto, é ineficiente, perverso, e pouco inteligente.

Propõe-se, aqui, uma outra fidelidade: ao enigma, à incerteza; ao que todos podemos ser e não temos, felizmente, como saber.

 

 

Referências Bibliográficas

Beccaria, Cesare. Dos delitos e das penas. Tradução de Lucia Guidicini & Alessandro Berti Contessa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Bender, John. Imagining the penitentiary: fiction and the architecture of mind in eighteenth-century England. Chicago: The University of Chicago Press, 1987.

Bentham, Jeremy. The panopticon writings. Edited and introduced by Miran Bozovic. London: Verso, 1995.

Foucault, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado & Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: Nau Editora, 1996.

------. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1996.

Kelsen, Hans. A ilusão da justiça. Tradução de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

Lins e Silva, Evandro. Arca de guardados: vultos e momentos nos caminhos da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.

------.  “De Beccaria a Filippo Gramática”. Manuscrito inédito.

------. “O fim das prisões”. Entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Folhetim, 14/02/1982, p.5.

Machado de Assis, Joaquim Maria. Papéis avulsos. Obra completa, volume 12. Belo Horizonte: Garnier, 1989.  

 

 

 

Notas

 

[1]     Foucault, VFJ, 110.

[2]     Beccaria, DP, 46.

[3]     Foucault, VFJ, 21.

[4]     Foucault, VP, 159.

[5]     Foucault, VFJ, 72.

[6]     Foucault, VFJ, 85.

[7]     Foucault, VFJ, 87.

[8]     Foucault, VP, 177.

[9]     Bentham, PW, 31.

[10]    Bentham, PW, 43.

[11]    Foucault, VP, 165.

[12]    Lins e Silva, BFG, 26.

[13]    Lins e Silva, AG, 240.

[14]    Lins e Silva, BFG, 36.

[15]    Nelson Hungria, apud Lins  e Silva, BFG, 20.

[16]    Beccaria, DP, 55.

[17]    Beccaria, DP, 57.

[18]    Beccaria, DP, 65.

[19]    Lins e Silva, BFG, 33.

[20]    Foucault, VP, 237.

[21]    Foucault, VP, 240.

[22]    Foucault, VP, 244.

[23]    Miran Bozovic, em Bentham, PW, 4-23. As citações e excertos seguintes são de Bozovic; Gisele de Carvalho helped me with the translation.

[24]    Machado de Assis, PA, 27.

[25]    Machado de Assis, PA, 66.

[26]    Foucault, VP, 195.

[27]    Foucault, VP,153.

[28]    Foucault, VP,128.

[29]    Beccaria, DP, 118.