DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

CARTA SOBRE
Língua e realidade

Viviane de Santana Paulo

 

Berlim, 6 de julho de 2004.

Caro Gustavo!

Finalmente consegui um intervalo para falar um pouco sobre a minha leitura de Língua e Realidade, de Flusser. Ela me esclareceu uma questão na filosofia que vinha me incomodando até então. Ainda não li Heidegger, está na minha estante esperando um tempo mais largo que garanta o início e o fim de uma leitura, sem interrupções profundas. No entanto, li Walter Benjamin, Nietzsche e Schopenhauer, que também foram mencionados no livro, e ensaios sobre filosofia, nos quais se falava em ser a palavra o início do pensamento. Na realidade, sempre fui, intuitivamente, discípula de Locke (sem saber, pois Locke ainda não li). Para mim, antes da palavra era o sentimento que existia. Não era possível ser a palavra o início do raciocínio, da existência epistemológica, o início teria que ser o raciocínio a posteriori. Mas não sou nenhuma filósofa para discutir sobre uma idéia refletida por um filósofo que passa a maior parte de sua vida meditando sobre essa ou aquela questão e lendo os maravilhosos livros de filosofia de outros filósofos (infelizmente, não disponho de tempo para isso, por mais essencial que seja). Limitei-me a fazer algumas anotações primitivas, sabendo que eu corria o risco de estar errada. Naturalmente, levei em consideração que também o raciocínio a priori se manifesta mais intensamente em alguns casos, em alguns intelectuais ou cientistas, por exemplo. Mas no geral, creio que é o raciocínio a posteriori que domina o raciocínio humano.

Foi um alívio ler Língua e Realidade e descobrir que eu não estava tão errada assim: são os sentidos que enviam informações para o intelecto e assim os dados brutos são transformados em palavras. Isto quer dizer que primeiramente vêm os sentidos, embora de uma forma caótica, e depois a transformação desses em palavras, que são reagrupadas e submetidas às regras da língua. Porém, "os sentidos além de doadores de dados, são eles próprios dados".

Por sua vez, o intelecto em conversação enriquece a língua, isto é, cria palavras, pensamentos, e conseqüentemente novas realidades, novas formas de existir. Então, ao mesmo tempo que criamos e expandimos a língua, nossa existência, que está inteiramente encaixada dentro das regras da língua, expande-se. Somos, por assim dizer, prisioneiros da língua, mas trata-se de uma prisão rica e ampla. E "os fenômenos da natureza obedecem às regras da língua na qual são formulados". Isto quer dizer que só a língua pode criar a ciência, pode criar realidades. Elas não existem sem a apreensão do raciocínio, que compreende em palavras reagrupadas. Significa que, quanto mais nomes possuímos para dar nome as coisas, mais coisas existirão.

Fiquei fascinada com a descoberta do nada nas análises de Flusser. O intelecto em conversação surge do nada, infla-se de palavras e regressa ao nada novamente: "a grande conversação que somos surge do indizível e trata do indizível". Mas não se trata de um nada negativo, mas simplesmente o processo natural, a desinência do raciocínio. O nada nunca é nada, mesmo que não exista nada nele; isto, paradoxalmente, é algo.

Flusser me mostrou um ângulo completamente novo, através da língua, com respeito ao ser e à existência.Muitos filósofos já escreveram sobre isso, mas a linguagem de Flusser me pareceu mais clara e direta. Ele também fala sobre o abismo inarticulável que existe entre o sentido e o intelecto. E, pelo que entendi, foi esse abismo, que os filósofos interpretaram cada um da sua maneira, que os levou a caírem logo na palavra como sendo o início de tudo, e não os sentidos.

Também gostei como Flusser abordou a linguagem musical. A música não é só uma linguagem no sentido conotativo, mas sim no sentido denotativo, embora sejam os instrumentos a articular essas palavras (as notas musicais). Outro ponto interessante refere-se à linguagem científica: ele mostra que ela não pode ser ignorada nos estudos de caráter filosófico sobre a língua, como vem sendo ignorada muitas vezes. Pelo menos, esta foi a primeira vez que li algo sobre a sua importância em um contexto filosófico.

Chamou-me a atenção a consideração sobre o aspecto histórico: "cada palavra, cada forma gramatical é uma mensagem que nos chega do fundo do poço da história, e por meio de cada palavra e cada forma gramatical a história conversa conosco". A língua está tão vida, tão arraigada no ser, que ela nos é e não nós que a somos. Parece que a língua nos cria e recria gradativamente. Mas uma coisa está completamente intrincada a outra: à medida que somos, criamos a língua e, quanto mais extensa a criamos, expandimos nossa realidade, através de outras realidades que a própria língua cria. O penso, logo existo, cogito ergo sum, de Descartes, torna-se penso, logo sou existido, a língua me existe. É ela que abre as portas da existência epistemológica.

Há várias formulações poéticas no livro, como por exemplo: "a grande conversação que somos surge do indizível e trata do indizível", lembrou-me Shakespeare: "o resto é silêncio". Ou a metáfora para ilustrar o Eu e Não-eu com relação ao nada: O Eu e Não-eu são as duas faces desse nada, isto é, do indizível. É bonita a imagem de um rosto com as faces de um Eu e um Não-eu. E assim por diante, como os fios da palavra, a história que conversa conosco... E a imagem de cada língua ser um mundo diferente e cada uma delas carregar em si os mundos diferentes das outras línguas, através da tradução.

Emfim, poderia continuar essa "conversa fiada" por muito tempo, há várias passagem aliciantes em Língua e Realidade, porém, o trabalho me chama.

Por fim, o valor extremo que ele atribui à poesia: "a poesia é o lugar onde a língua suga potencialidade, para produzir realidade", mostra o quanto ela é um capítulo para si."Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm". (García Lorca). É um deleite pensar que, se a poesia é produção da língua e a língua cria realidades, isto é, dilata e aprofunda nossa existência, então tudo é poesia, "cogito ergo poiesis".

Um grande abraço
Viviane