DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

POR UMA FILOSOFIA RELACIONAL:

matéria e mão, solidão e cosmos, homem e universo

 

Ana Christina Vieira

 

 

“‘Onde estás?’, ‘De onde falas?’. Não sei pois Hermes se desloca sem parar. Mas pergunte-lhe, em vez disso: ‘Que mapa estás prestes a traçar. Que redes teces?’ Nenhuma palavra única, nem substantivo, nem verbo, nenhum domínio ou especialidade caracteriza, por si só, pelo menos por hora, a natureza do meu trabalho. Só descrevo relações. Até o momento, contentemo-nos em dizer: teoria geral das relações. Ou: filosofia das preposições.”[1]

 

Michel Serres propõe uma filosofia geral das relações, enquanto Gilles Deleuze elogia uma geografia das relações, que ele acredita encontrar no solo do empirismo de Hume. Nos dois casos, trata-se de um privilégio das conjunções ou preposições em detrimento dos substantivos e verbos. Substitui-se o É pelo E, os termos tomados isoladamente pelo seu intervalo, os pontos pelo caminho do meio, pelo percurso. Neste estranho mundo, entram em cena personagens conceituais que fazem passar multiplicidades: colchas de retalhos, mantos de arlequins, feitos de vazios cheios, blocos e rupturas, atrações e distrações, velocidades máximas em repouso, nomadismos sem sair do lugar, nuances e movimentos bruscos, alternâncias e entrelaçamentos, um enxame de anjos desordeiros e o Deus Hermes, transportanto, operando múltiplas conexões, enviando mensagens, traçando e mudando vias. 

Segundo os autores, a história da filosofia, com seus princípios primeiros, enraizada à temática do ser, esqueceu das relações elegendo para si o monoteísmo, baseado em uma lógica binária, como entende Deleuze, ou em um modo de abstração baseado nos verbos ou substantivos, como indica Michel Serres. Daí emerge um modelo arborescente fundamentado na transcendência, base de uma gama de pares dicotômicos: o ser ou o não-ser, o movimento ou o repouso, a causa ou o efeito, o sujeito ou o objeto, a essência ou a aparência. 

Michel Serres critica Bachelard, orientador de sua tese de doutorado, por reconhecer em sua filosofia uma espécie de esquizofrenia, já que por um lado, encontramos uma vertente epistemológica de onde emergem os conceitos e a racionalidade e por outro, se impõe o reino dos devaneios e da imaginação poética, que leva-o ao estabelecimento de certos pares: razão e imaginação, espírito e alma, conceitos e imagens. Portanto, haveria nesta filosofia uma tendência a isolar os conteúdos da cultura, negligenciando as relações entre ciência, literaturas, mitos, história das religiões, direito, relações estas que protagonizam a proposta de Michel Serres de uma filosofia relacional.

O objetivo desta breve comunicação é percorrer um caminho inverso ao de Michel Serres a fim de investigar se e em que medida a filosofia de Bachelard privilegia as relações, rompendo com pares dicotômicos tão característicos da hegemônica tradição filosófica. Evidentemente que este trabalho, ainda um esboço, não pretende abarcar todas as matizes da obra bachelardiana, mas tendo como ponto de partida a crítica de Michel Serres visa apresentar alguns movimentos desta obra em que a dimensão relacional se evidencia e abrir uma discussão sobre a “macro-relação” entre suas duas vertentes: a epistemologia e a poética.

Em primeiro lugar, se há uma divisão entre as esferas do racional e do imaginário na filosofia de Bachelard, podemos dizer que ambos são por ele considerados dimensões complementares que lançam o homem para além de sua humana condição. O surhomme bachelardiano, demiurgo de novos fenômenos na ciência e de novas imagens nos devaneios, é um além de si mesmo, ultrapassa as barreiras do real dado, reconfigura e remodela o mundo de acordo com a sua vontade.

Em segundo lugar, o percurso desta filosofia dividida entre os domínios do dia e da noite traz consigo como que um espelho que refletindo em águas tranqüilas permite que a lua, protagonista da anima noite, imagética par excellence, veja o sol, deus do animus viril e o sol encontre a lua, e a partir da reciprocidade deste olhar ambos possam enfim compreender sua alteridade, suas funções díspares, sua autonomia. É assim que começa este percurso, que apresentaremos em três atos.

 

Primeiro ato:
a formação do espírito científico


Cena I – Ciência e imaginação: Adão e Eva ou Romeu e Julieta?

 

Aqui, o espírito positivo da ciência constata com surpresa as seduções das imagens da alma que incansavelmente tentam desposá-lo, mas cujas núpcias representam perturbações que levam o cônjuge sensato e rigoroso ao paradoxalmente infinito e profundo universo da desrazão, para onde é arrebatado. Esta cena à la Romeu e Julieta não poderia ter final feliz, a não ser que o masculino espírito objetivo rompesse com o louco romantismo da anima apaixonada, adormecendo-a provisoriamente para levar a cabo sua tarefa de progresso e racionalidade. As imagens, restritas ao seu papel de obstáculos epistemológicos, são afastadas e a ciência pode seguir seu caminho. Mas como poderia esta amante transbordando de paixão abandonar seu par definitivamente, desistir de sua conquista? Ela perturba, persiste, na tarefa de levar seu amor para casa, ou melhor, de fazer delirar o severo e ordenado lar masculino. Ele não pode mais descansar, vive em eterna vigilância resistindo aos seus apelos. Adão resiste e cede ao fruto proibido mas não quer de forma alguma ser expulso do paraíso do saber e da possibilidade de criar novos mundos à luz da razão.

 

Cena II: quem é o mestre e quem é o aluno?

 

A língua francesa utiliza o mesmo verbo para designar duas funções que aos olhos de Bachelard se encontram mescladas, superpostas, entrelaçadas. Trata-se do  verbo apprendre, que em um primeiro sentido, significa “ser informado de, aprender” e em um segundo, “dar o conhecimento, o saber, a prática de – ensinar”.

Bachelard é mestre sem discípulos, já que como o herói trágico Zaratustra, adverte os seus a se perderem dele para depois reencontrá-lo. O que deve ser reencontrado é o novo, o que ainda não é, um tornar-se. Como diz Michel Serres, o que é a filosofia, se ela não pare o porvir?

É discípulo sem mestre pela sua intempestividade. Não se deixa levar pelas seduções dos sistemas herméticos, do método único, dos “ismos” filosóficos. A pedagogia, tema fragmentado de sua vida e obra, recebe importante destaque em A formação do espírito científico. A Academia, arquitetonicamente projetada em bases sólidas, é ideologicamente lugar de formação. Mas como diria o poeta pantaneiro Manoel de Barros, é preciso desformar o mundo. Como é conveniente para o mestre se aprisionar nas gaiolas do conhecimento fechado em si mesmo!!! Se paga a estadia sob o prejuízo de sua própria liberdade, ao menos se protege nos braços maternos do medíocre, do seguro. Como é difícil se desfazer da herança da tradição, se desprender de nossos próprios micro-saberes, tão bem organizados, imunes a contestações, mediante nossa mais que decorada cartilha de certezas e convicções. Aqui, no terreno assentado e seguro, temos resposta para tudo já que renunciamos à renovação das questões. Quem ensina e quem aprende? A lição de Bachelard advoga a eterna e jovem inocência do aluno. A Academia treme. O auditório da Sorbonne está lotado. Que abalo císmico nas estruturas do velho saber não resultou da ainda mais polêmica afirmação bachelardiana: a relação é exterior  aos termos. Hume leitor de Bachelard? aluno e professor são pontos. Mas onde se encontra a jovem e grega sophia? Na relação, na co-relação, na inter-relação. Nesta via de mão-dupla, onde está a hierarquia, a arborescência, o monoteísmo? Em lugar algum. Aqui Hermes se desloca sem parar. Nem sujeito nem objeto, nem saber nem ignorância. Enfim a pura relação onde o princípio eu-tu comanda e os participantes, presentes ao encontro se abrem a uma relação de reciprocidade.

 

Segundo ato:
Ação e paixão:
a matéria amante

 

O homem, em sua dupla dimensão, no animus e na anima, quer penetrar a carne íntima do universo, investigar as profundezas da terra e da água, ascender ao infinito dos céus, se inebriar pelas múltiplas e profundas cores ígneas. Mas também quer criar novas matérias, ordenar o caos do mundo, operar revoluções fenomênicas.

De dia ou de noite, a matéria é o principal interlocutor do homem. Este homem, seja pelas idéias, seja pelas imagens, não se contenta com as superfícies e formas do planeta. Ele quer ir além, não só virar a terra substancial do avesso para conhecer todos os seu segredos, mas entrar em comunhão com ela, em uma unidade mística, em uma simbiose absoluta. Se nesta empreitada o feminino (imagens) e o masculino (idéias) tendem a se isolar, a matéria torna-se sua amante comum e ambos lutam para conquistá-la e por esse combate mesmo, se afirmam.

Neste conflito, os participantes do duelo continuam a se olhar. O cientista transformador da matéria renega os arquétipos dos elementos, a inocente máscara alquímica guiada pela crença irracional nas profundezas e princípios essenciais do mundo. Enquanto isso, o homem do devaneio material afirma categoricamente, desafiando o homem da razão: a imaginação comanda tudo, ela é mais originária que o conceito, mais poderosa que a razão. Porque? Porque a partir dela, eu crio o infinito.

É do diálogo de Bachelard com a materialidade que emerge uma riquíssima dimensão relacional: O homem da ciência é surhomme dotado de vontade de poder material e o homem do devaneio possui duas funções psíquicas complementares e inseparáveis: a imaginação e a vontade.

O sujeito da ciência não é descorporificado, receptáculo de categorias ou puro pensar. É demiurgo, interventor, não se contenta em olhar e descrever o mundo que o rodeia, quer um mundo que seja seu. Nega a realidade a fim de realizar. Voltando à poesia de Manoel de Barros, “retira da natureza suas naturalidades”.

O que é o objeto? Não é forma, não é superfície, não é plano. É objeto-matéria, resistente, provocando a obra humana e promovendo verdadeiros duelos substanciais. Não se trata de um passivo centro a volta do qual o espírito dirige suas categorias. Tampouco pode-se colocar em dúvida sua existência objetiva. Alguém duvida da pedra no sapato? Da chuva que cai sem aviso prévio em um dia ensolarado? Pois o objeto-matéria possui o estatuto de obstáculo que suscita o trabalho e leva o cientista a buscar projetos para se armar para o combate. Não se trata do ser-em-si sartriano, coisa inerte e sem espontaneidade, situada no mundo. Por outro lado, a consciência não visa o real de forma passiva e distanciada, mas agressiva e energicamente. Temos aí mais uma correlação de forças. A matéria, amante voluntariosa, resiste e cede. O cientista, força masculina e obstinada, recria sua amada, corrompe e reconfigura suas propriedades. E a proliferação da dimensão relacional se evidencia também pela complementariedade entre teoria e técnica, corpo e aparelho, pelo encontro entre empirismo e racionalismo que Bachelard advoga em suas obras epistemológicas. Não mais escolha, mas conjunção, não mais filosofia unitária, mas polifilosofismo. Eis o mestiço casaco de Arlequim, repleto de formas e cores múltiplas e desordenadas. Mais uma vez, para que escolher um deus, se podemos ter vários?

E o que diria o homem do devaneio material? Quem é esse homem? Onde ele se situa? Ele é vontade e imaginação, corpo e psiquismo, portanto, leve e pesado, extrovertido e introvertido, epidérmico e profundo. Ele está no local e no global, no silêncio da solidão e na imensidão cósmica. Refugiado dos projetos e da sociedade ele volta enfim às coisas. De pequenos gestos, inventa o cosmos. De sutis valorações, engaja o mundo em seu ser. Ele está no não-lugar, seu lar é o paradoxo, trágicas ambigüidades o dominam. Que língua ele fala? A das chamas profundas, do vôo ascensional, da profunda e fecunda terra, de onde emergem árvores aéreas e descem abismos incomensuráveis, da mãe água, violenta e repousante, negra e solar.

O que ele quer? Se fundir com a matéria, com as super-coisas. Neste horizonte, a dicotomia sujeito e objeto é substituída pelo dualismo energético matéria-mão. Eternamente anticartesiano, Bachelard nega um modelo de subjetividade hermética e auto-suficiente e atesta a evidência concreta da realidade objetiva do mundo exterior. Mas não nos precipitemos. Nosso filósofo trabalhador não se curva tão facilmente às sedutoras fórmulas tradicionais. Não aceita as soluções anticartesianas aos moldes de Sartre e Heidegger, que negam o solipsismo originário do sujeito do qual a relação com o mundo seja derivada, privilegiando a diretriz segundo a qual o sujeito sem o mundo não é. Para Bachelard, não se trata de ser no mundo, mas de ser contra as coisas, pois aqui o homem não é um sujeito e as coisas não são objetos. Não se trata do homem em geral, mas do super-homem, em relação direta com super-coisas, materiais e cósmicas. Um pedaço de madeira que não provoca as mãos enérgicas do homem, esta é uma mera coisa. Mas se minhas mãos aceitam seu convite ao lúdico embate, ela se torna mais que ela mesma e sobre ela recaem todas as forças do cosmos resistente.

E o homem? Permanece igual a si mesmo? Não, nisto Bachelard enfim cede espaço para um diálogo com a tradição filosófica. Sua escolha é a ontologia relacional de Martin Buber. Novamente as relações, colcha de retalhos.

Relação é reciprocidade. Para Bachelard, o conhecimento dinâmico da matéria tem como correlativo o conhecimento dos valores de nosso próprio ser. As características múltiplas das matérias, que demandam de nós, quando estabelecida a originária relação eu-tu, respostas também múltiplas, devolvem-nos a nossa própria morada, ao nosso devir, ou seja, às nossas infinitas possibilidades de ação e interação com o mundo, revelam nossas forças, a eficácia de nossa vontade. Ao estabelecermos um face-a-face com a carne íntima do mundo, é nossa própria carne, manipulada, afetada, que nos é devolvida, transformada pelas seduções substanciais do mundo. O homem não é agente de um mundo estéril e inerte, passivo. Quem contamina quem? Onde está o ativo e o passivo? Aqui ação e paixão se confundem. Os anjos se agitam e roubam o caduceu de Hermes. Só restam as relações.

 

Terceiro ato:
Fim das núpcias?
A fenomenologia da imaginação e o meta-devaneio poético

 

Pausa. Não mais luta, não mais diálogo. Razão e imaginação se repelem nesta complexa e conflituosa androginia. Surge a auto-crítica: Explicar a imaginação pelos quatro elementos é ainda objetivante e todo o velho hábito de filósofo das ciências tem que ser afastado. É preciso romper com um saber imaginativo e com uma imaginação objetiva para alcançar enfim o duplo movimento de libertação das imagens e dos conceitos, isto é, um saber objetivo e um não-saber imaginativo, que efetivamente não eqüivale à ignorância, já que corresponde a um difícil ato de superação do conhecimento. É preciso estar presente às imagens no instante mesmo em que elas emergem e repercutem em nossa alma. Temos que estabelecer com clareza a distinção entre alma e espírito, presente na língua alemã elogiada por Bachelard. A alma é feminina, anima, noturna e enigmática, o solo mesmo do devaneio. O espírito é masculino, animus, diurno e solar, o terreno propício à semeadura de experiências racionais.

Onde estão as relações? Será que desapareceram? Ainda é cedo para afirmá-lo. Como as imagens poéticas repercutem em nossa alma sem que conheçamos o passado do poeta? No que diz respeito à imaginação, não existe fenomenologia da passividade. O leitor, pura consciência maravilhada diante das imagens poéticas, sonha: ah, quem dera essa imagem que acaba de me ser dada fosse minha, verdadeiramente minha, que ela se tornasse – apogeu de um orgulho de leitor – obra minha!!! O poema repercute no ser do leitor, como se o próprio ser do poeta fosse por ele tomado de empréstimo e encrustado, como pedra preciosa, em seu íntimo.

Os devaneios sobre o devaneio, considerados por alguns comentadores a última fase da  poética bachelardiana, representam uma espécie de  radicalização do isolamento entre a anima e o animus. Aqui, não mais conceitos, mas confissões íntimas, secretas. Bachelard abre as portas de sua própria solidão cósmica. Ele, sonhador de palavras que sonham, confidencia seus devaneios e roga ao deus da leitura, com fé inabalável: a fome nossa de cada dia nos dai hoje. 

Em A poética do devaneio o filósofo afirma ter tentado, em outras obras, abordar a alquimia a partir de uma compreensão mista que acolheria ao mesmo tempo as imagens e as idéias e constata a impureza de tal compreensão. Ao mesmo tempo em que a ciência deve afastar as imagens, ao abordar o simples devaneio não cabe colocar em destaque a matéria, porque ela é tocada por uma polêmica entre imaginação e pensamento. Porém esta obra atesta a correlação entre o homem solitário do devaneio e o mundo por ele sonhado. Ambos estão próximos, se tocam, se compenetram, encontram-se no mesmo plano de ser, plano não-hierárquico em que se faz parte do próprio mundo que se cria.

Bachelard pede ao seu leitor que este livro, escrito em anima, seja lido também em anima e completa: “entretanto, para que não se diga que a anima é o ser de toda nossa vida, gostaríamos de escrever um outro livro, que, desta vez, seria a obra de um animus”. Curioso receio de ser mal-interpretado, que se pudesse apontar enfim sua escolha por uma das suas paixões. Os deuses do Olimpo não perdoariam sua conversão ao monoteísmo.  

Neste breve passeio pelo pensamento andrógino de Bachelard, podemos perceber como a estrada percorrida pelo filósofo foi longa, repleta de abismos e obstáculos quase intransponíveis. Para onde esta estrada levava? Qual o itinerário do filósofo híbrido, porque cientista e poeta? Que mapa ele teceu, bígamo que era, para atribuir paralelamente, às suas duas paixões, autonomia e independência, e realizar um divórcio amigável, sem rancores ou ressentimentos? Como pôde ele fazer com que caminhassem lado a lado, nutrissem admiração mútua, sendo complementares e não antitéticas, amigas e não mais rivais? Serão elas amigas virtuais, já que não devem nunca marcar um encontro, precisam daqui por diante adiar o face-a-face? A ciência afirma que os arquétipos não explicam os fenômenos. A imaginação responde que ela comanda tudo, não se submete ao ser das coisas. Como fazê-las, bailarinas alegres que são, dançar no mesmo ritmo, cantar a mesma melodia, compartilhar alegremente o canteiro que revela o homem em sua plenitude de ser e devir? 

Será que a dificuldade em isolar as duas instâncias do surhomme não seria um indício do quanto a ligação entre elas é forte? Do quanto existem pontos e arestas onde elas se tocam, se compõem? Conjugam afinidades musicais e estéticas, fazem da vida uma obra de arte onde cultura e natureza se falam, silenciam, lutam, perdem e vencem. Para onde ir, o que fazer? Estão todos perdidos. O arlequim, sem palavras, sem sorrisos ou gestos, se cala. Já não sabe onde colocar seu casaco colorido. Seus movimentos se interrompem abruptamente. Hermes, já sem seu caduceu, repete a cena do roubo das novilhas de Apolo. Será que sua harpa aplacará novamente a ira do deus? A colcha de retalhos, tecida por múltiplos tons e estampas, cai no chão. Como nós, que assistimos inebriados a este espetáculo que arrebata e confunde, com uma série de encontros e desencontros, aproximações e distanciamentos, podemos enfim compreender as redes que Bachelard tece, os caminhos tortuosos de sua filosofia híbrida e matelassada? Em meio ao turbilhão que este pensamento desenha, o auditório da Sorbonne permanece lotado, as luzes do teatro ainda não se apagaram. A Academia ainda treme, aguardando aflita a cena final. O silêncio dos personagens dá lugar à uma voz doce como a uva da videira e ríspida como o trovão das noites funestas de Edgar Alan Poe. Bachelard fala sobre o silêncio, pedindo à platéia que se retire. Diz ele: “Quando o filósofo está só é que melhor se contradiz.”

Alguém, com um casaco de arlequim pendurado sobre os ombros, indaga: “Eis então tua mensagem de vida, ó, pobre e vão sonhador? Teu destino de filósofo é o de encontrar tua clareza em tuas contradições íntimas? Estás condenado a definir teu ser pelas hesitações, pelas oscilações, pelas incertezas? Deves procurar teu guia e teu consolador dentre as sombras da noite?”[2]

Sem hesitar, Bachelard rompe a gravidade do ambiente com um franco sorriso, e recorre à sua grande fonte de inspiração: os poetas. Diz ele: Responderei com uma página de Rilke. A seu drama Agora e na hora de nossa morte, Rilke acrescentava: “E tu, tu levantas os olhos e me dizes: Homem do povo, ó, meu amigo! Não cumpriste tua palavra... No primeiro caderno das Chicórias selvagens, havias me prometido luz e consolo, e aqui nos descreves a morte e o sofrimento”. Respondo: “Homem do povo, ó, meu amigo!  Ouve uma pequenina história. Duas almas solitárias encontram-se no mundo. Uma dessas almas se lamenta e implora da estranha um consolo. E docemente a estranha se debruça sobre a outra e murmura: Para mim também é noite: Isso não é um consolo?”[3]   

Aceitemos o conselho de Bachelard. Sigamos sós, pela noite fantástica e assustadora, em busca de respostas que talvez tenhamos que criar, desenhar com nossas próprias mãos. Assim, quando o sol se erguer no lugar das trevas, talvez estejamos prontos para uma livre relação com este pensamento, em sintonia com os apaixonantes caminhos da ciência e da poesia, da razão e da imaginação, dos conceitos e dos devaneios inebriantes. Que possamos, como o deus Hermes, transportar os movimentos do filósofo do não que escolheu dizer um sonoro sim à vida, ao corpo, à arte, aos afetos, enfim, à potência e às artimanhas do pensamento.

 

[1] Serres, Michel. Luzes – cinco entrevistas com Bruno Latour. São Paulo: Unimarco Editora, 1990. p. 167-168.

[2] Bachelard, Gaston. “O diário de um homem” in O direito de sonhar, p. 199.

[3] Bachelard, Gaston. “Diário de um homem” in O direito de sonhar, p. 199-200.