DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

DO CÉTICO RENASCENTISTA
AO FILÓSOFO NATURAL MODERNO

Adriana Ítalo [i]

 

Quod Nihil Scitur - De Que Nada se Sabe é o título de um livro escrito por um médico e filósofo português por volta de 1576 e publicado em 1581. Seu nome é Francisco Sanchez e junto com Michel de Montaigne e Pierre Charron compõe a tríade cética mais destacada entre o Renascimento e a Era Moderna.

As dúvidas colocadas por Montaigne, Sanchez e Charron aparentemente foram devastadoras para seus contemporâneos. O mundo, rapidamente transformado, do século xvi chegava ao fim com todo o seu tecido intelectual sendo desfeito, com questões céticas que colocavam dificuldades que pareciam intransponíveis na busca de conhecimento e certeza[ii].

Alguns consideram Sanchez o pai do ceticismo moderno, outros a filosofia moderna como tendo sido inaugurada por seu livro, editado pela segunda vez, exatamente cem anos após sua primeira aparição, com o seguinte acréscimo ao título: De Multum Nobili et Prima Universali Scientia. Quod Nihil Scitur. Nascido em Braga, Sanchez era filho de conversos [iii], o que talvez lhe tenha dado desde cedo a experiência e a consciência da dimensão arbitrária da imposição de verdades absolutas. Anti-dogmático por excelência, Sanchez era um feroz adversário do aristotelismo e rejeitava a doutrina medieval da auctoritas, de acordo com a qual a menção à determinados autores, investidos de autoridade, era prova conclusiva na sustentação de um argumento. “Uma coisa não é verdadeira só porque alguém a disse”[iv].

Abandonando a tradição escolástica, Sanchez busca novas bases para o conhecimento fazendo a passagem da idéia de autoridade constituída e reproduzida para a de autoria constituinte e produtora. Movido por um senso cético, sem a presunção de chegar a um critério definitivo da verdade, Sanchez tenta superar o ceticismo radical propondo um método científico de caráter probabilista. Advogava a experimentação científica como o único e genuíno solo para o conhecimento. “Sanchez foi o primeiro pensador a cunhar a expressão ‘metodologia científica’ (modus sciendi) e a escrever uma série de livros da natureza (libri naturae) projetados para fundamentar a investigação científica”[v]. Propõe que se submeta os dados da experiência à análise do entendimento, reconhecendo que o conhecimento adquirido deste modo não alcança “essências” mas “realidades cognoscíveis”. Distingue entre cognoscere e perfecta cognitio, respectivamente o conhecimento humanamente possível e o conhecimento perfeito, impossível de ser atingido pelo homem. A diferença entre conhecimento perfeito e conhecimento possível do mundo se estatui com base no argumento de que Deus é o autor do mundo e por este motivo apenas Ele o conhece perfeitamente.

A experiência unida ao entendimento para Sanchez é um processo aberto que exige contínua correção, é um recurso momentâneo e não um caminho (método) absolutamente seguro. “Só há informação do que é provável, nada é conhecido com certeza... a real natureza das coisas nunca pode ser conhecida”[vi].

Sanchez tinha em Maimônides sua grande referência filosófica e vale a pena salientar alguns pontos desta filiação pois articulam temas centrais à nossa investigação: 1) a concepção do universo como criado, contingente, indeterminado e todo ele interrelacionado; 2) a comparação do universo ao mecanismo de um relógio; 3) a utilização da idéia de que nós só conhecemos verdadeiramente aquilo que criamos.

Sanchez argumenta que não se pode compreender o mecanismo de um relógio apenas examinando algumas de suas partes, é preciso tomar a maquinaria como um todo e entender a função específica de cada componente. Se o mesmo deve ser feito com o universo, cujos mecanismos são infinitos e, em última instância, determinados pela livre vontade de seu Criador, tentar conhecer tudo é no mínimo fútil e no máximo contraproducente.

Com efeito, conhecer para Sanchez envolve três termos, o objeto de conhecimento (res cognita), o sujeito conhecedor (cognoscens) e o processo mesmo de cognição (cognitio ipsa). Considera a ciência sobre a aquisição de conhecimento muito difícil, algo que gera perplexidade, pois envolve o conhecimento da alma humana. E, uma vez que só se pode compreender (interna e diretamente) o que se criou, este conhecimento está totalmente excluído para o homem. De fato, fosse o homem capaz de compreender sua própria alma  ter-se-ia criado, então seria Deus. “Não se pode conhecer perfeitamente aquilo que não se criou”[vii].

Este pensamento, de que as coisas são conhecidas por quem as faz, e de que Deus conhece as coisas porque as cria, parece que circulava pelas Escolas, assim se explica também que o encontremos [...] como coisa óbvia no Quod Nihil Scitur [viii] (1581) de Francisco Sanchez [ix].

Sanchez parece entender cognição dentro da concepção hebraica de sabedoria, ou seja, como pertencente ao domínio da criação e não apenas ao da contemplação; refletindo mais uma vez Maimônides e a tradição rabínica que identifica inteligência e construção ¾ bina/binyan. Ao homem está reservado o conhecimento daquilo que ele mesmo cria. Assim assevera Sanchez: “Toda ciência é uma ficção”[x]. Afirmação ousada ¾ soa tão contemporânea! ¾ para um homem do século xvi. Contudo, pode se dizer que encarna, de modo em tudo exemplar, o espírito a partir do qual virá a se erigir a modernidade: recomeçar partindo do “zero”; criar a partir do nada. Assim, Sanchez, neste contexto, mais que qualquer outro, reúne em sua filosofia o argumento cético do “Conhecimento do Criador” e o desenvolvimento das questões epistemológicas modernas. Prepara as modificações que o "Conhecimento do Criador" virá a sofrer: de seu uso como argumento cético à seu estabelecimento como princípio lógico e norma de pensamento; do ceticismo ao conhecimento possível, levanta, por um lado, os problemas que serão magistralmente desenvolvidos por Descartes e antecipa, por outro, a obra de Francis Bacon.

O século de Sanchez começa inquieto e termina em crise. Denominada por Koyré de “crise da consciência européia”, teve seus principais golpes desferidos por Nicolau Copérnico e Giordano Bruno: o descentramento e a infinitização do universo, também chamados de “ruptura do círculo” ou “estilhaçamento da esfera”. Com esta, já tão famosa, destruição do cosmos o homem perde não apenas seu lugar seguro no mundo, perde o próprio mundo e o objeto de seu saber. Crise também denominada pirrônica ou cética, já prenunciada pela problemática relação cristã com o mundo que, como tivemos a oportunidade de ver no capítulo anterior, deixara-o entregue à marca da contingência.

O século xvii foi, sobretudo, marcado pela empreitada de ultrapassar esta crise, ou mais especificamente, herdou a tarefa de transformar tudo ao responder, filosófica e cientificamente, as questões que haviam abalado as estruturas do edifício do conhecimento humano.

A transição do pensamento medieval para o do início da era moderna não foi uma mera modificação de idéias, métodos e argumentos, mas sim uma mudança nos próprios ideais de filosofia e ciência. Ideais são sempre um tanto vastos e por isso mesmo vagos, difíceis de definir com exatidão, contudo são eles que expressam os critérios de inteligibilidade de uma época e traçam o itinerário e a meta que o saber humano deverá cumprir. A batalha moderna não se reduz à polarização entre racionalismo e empirismo, neste campo dois grandes ideais, não só se digladiavam como convergiam: o antigo ideal contemplativo de conhecimento e o novo ideal de conhecimento através da criação. O ideal contemplativo que postulava um conhecimento de verdades imutáveis, expresso em termos de relações necessárias, virá a se articular com o conhecimento adquirido através da criação, pertencente ao domínio dos fatos, da contingência. Esta articulação se torna possível quando o mundo se transforma num grande mecanismo e a matemática é usada para explicar as causas do movimento e da mudança, quando “o vício de metabasis ¾ o transporte de um método de uma disciplina para outra ¾ se torna, no século xvii, uma virtude”[xi].

No século xvii, filosofia e ciência, razão e experiência, tornaram-se instrumentos eficazes na construção do mundo, de uma machina mundi.  Teologia e física nunca estiveram tão próximas e o abismo entre conhecimento divino e humano ameaçava desaparecer. Glanvill, invocando a imagem platônica do Deus geômetra, acrescenta, “o universo deve ser conhecido através da arte pela qual foi feito”[xii]. Dessa forma, filósofos e cientistas modernos buscavam reconstruir a natureza para compreendê-la.

As mudanças teóricas mais radicais puderam ter início em razão do novo estatuto dado às artes, ¾ ao homem de virtude que é o artista racional, ao mesmo tempo artesão, matemático e filósofo ¾ mas também e sobretudo à uma nova concepção de mundo: ars inveniendi veritatem.

A possibilidade de considerar a natureza com expectativas diferentes gerava novas perguntas e novas respostas. Esta empreitada intelectual integrava critérios de escolha entre teorias e métodos de investigação diversos e em diferentes níveis: do verdadeiro, do provável, do possível, do frutífero, do estéril, do impossível e do falso.

Através dos programas de reforma de Roger Bacon ou Pedro Rammus, Tommaso Campanella ou Francis Bacon, Jan Comenius ou Descartes e outros antes e desde então, [...] podemos ver a diversidade de concepções do racional, do possível, do desejável, do aceitável[xiii].

Galileu e Kepler aderiram à idéia de uma “inteligibilidade da natureza”, no entanto, só realizaram a aplicação concreta desta concepção em fenômenos isolados como a queda dos corpos e o movimento dos planetas. Foi Newton quem forneceu uma prova razoável, em termos de cosmos, com sua teoria da gravitação universal. Esta teoria foi acompanhada de grande euforia — o limitado saber humano mostrava seu coeficiente de poder. O poder de conhecer aproximado ao poder criador da ‘natureza’. A razão mostrava-se capaz de se concretizar em um fazer ou tornar possível fazer. Todavia, os esforços de Newton no sentido de estabelecer princípios matemáticos que governassem o curso da natureza, de fato, não reduzia, como muitos quiseram acreditar, toda a física à geometria. O ambicioso projeto de uma mathesis universalis leibniziana, em seu sentido absoluto, isto é, a plena unificação do saber por meio de regras puramente lógicas ou formais, se mostrou irrealizável. O próprio Newton, não obstante seu célebre hypotheses non fingo, já suspeitava da impossibilidade de adequação ponto a ponto entre estrutura lógica e ontologia. Seu novo gesto está ao mesmo tempo na indiferença para com a “natureza das coisas” e na pesquisa das relações entre os fenômenos tradutíveis em fórmulas matemáticas. Deste modo, ele não conhece a “natureza” da força que atrai os astros uns em direção aos outros mas estabelece as “leis” desta atração. Assim, dizia ele que a gravidade é de fato uma propriedade geral da matéria, mas não existe a necessidade de considerá-la uma de suas propriedades essenciais. A crença na virtude das coisas passa a ser no mínimo ridícula ¾ a “virtude dormitiva” do ópio no Doente Imaginário de Molière é exemplar ¾ e no máximo nefasta, como um sério obstáculo a toda ciência séria. Todo princípio é derivado, e o fato, como matter of fact, está na origem.

Christian Huyghens, um dos maiores cientistas holandeses do século xvii, estabelece em seu Traité de la Lumière (1690) que, em física, não se trata de atingir evidências como nas demonstrações e deduções matemáticas, pois não existe nenhuma certeza intuitiva de verdades físicas. S’Gravesande e seu discípulo Musschenbröek repetiam incessantemente que não se pode distinguir entre as determinações essenciais e não-essenciais da matéria. “Devemos nos ater à experiência, à vizinhança e coexistência dos diferentes caracteres que a experiência revela”[xiv]. Mas, com efeito, as filosofias da natureza, de maneira geral, continuavam a incorrer em duas tentações toda vez que se deparavam com alguma propriedade geral das coisas: 1) explicavam-na como consequência de “razões outras”, metafísicas; 2) hipostasiavam-na como uma qualidade essencial, fundamental e absoluta. Porque, a despeito de seus sucessos internos, as filosofias da natureza lutavam com o problema da aceitabilidade de suas proposições no mundo, com questionamentos radicais acerca de seus fundamentos e justificativas. Se, por um lado, tentavam se libertar de quaisquer elementos teológicos e metafísicos, por outro, não eliminavam o caráter de uma estrutura lógica diferenciada do fenômeno. Mas o problema não está no meta (do metafísico, metateórico, metamatemático, etc.), isto é, não há problema em se distinguir níveis de articulação estrutural diferenciados, mas sim na tendência à hipóstase deste para além daquilo que se procura explicar, tendência a tomar este para além como fundamento. Desacerto que se expressa também na idéia de que este para além, como fundamento, é totalizante, absoluto e por isto hegemônico. É assim que a “natureza”, embora já despojada de “essências” e “substâncias”, vez por outra torna a encarnar o caráter reificante de tal tendência, equívoco que, em última análise, diz respeito à identificação daquilo que é real[xv] com aquilo que é necessário.

Terá sido preciso a ousadia de imitar a ação de Deus, isto é, imitar as condições próprias da criação, para que o desejo de construir uma única teoria fundamental se mostrasse impossível. Terá sido preciso levar às últimas consequências as pretensões de codificar o universo de modo completo e conhecê-lo de modo absoluto para que uma descrição finita completa da verdade fosse considerada irrealizável. Terá sido preciso conceber a possibilidade de um conjunto de fatos, leis ou axiomas, que permitisse responder a toda questão possível sobre nosso universo para que a idéia de infinito se impusesse à toda ciência rigorosa e a concepção de “leis naturais” fosse reavaliada em seu estatuto de universal e necessária. Ou ainda, terá sido preciso privar a natureza da “idéia de natureza” para que se viesse a reconhecê-la como uma  criação infinita, Obra de Arte por excelência.

A Face Epistêmica do "Conhecimento do Criador"

A apropriação da tese do "Conhecimento do Criador" ou do princípio do Verum Factum é característica da modernidade, uma forma de responder à crise cética, legitimando suas idéias, teorias e práticas pelo critério de sua produção. “Um dos desenvolvimentos que constituíram esta época [moderna] produziu o axioma de que a  propriedade legítima de idéias só pode ser derivada de sua autêntica produção”[xvi].

À tese de que conhecer é criar juntou-se uma outra tradição tão antiga quanto a própria filosofia ocidental: a de que conhecemos por meio de idéias ou mais especificamente, representações mentais. Nesta tradição “idéias são entidades ontológicas que têm um papel epistemológico em sistemas metafísicos”[xvii]. Por vezes, estas representações mentais, são consideradas propriedades da mente, por outras apenas estão presentes na mente ou se apresentam para a mente. Por vezes são consideradas como “luz natural”, por outras, a mente é “iluminada” por elas ou “compartilha” delas e, em sua maior parte, são consideradas um produto divino ou um produto da mente divina. Em todos estes casos o simples fato da mente ter contato com a idéia ou desta se presentificar na ou para a mente significa conhecer a idéia. Por outro lado temos a noção de que idéias ou representações mentais são o produto da criação da mente humana, neste caso a mente é considerada como o poder de fazer, produzir, construir, modelar, engenhar, ou seja, a idéia de que o intelecto é antes, ou sobretudo, poético. A face epistêmica do "Conhecimento do Criador" se mostra na asserção de que o homem não conhece diretamente as coisas porque não as cria, mas conhece a sua representação das coisas.

Um longo caminho teve que ser percorrido, de Santo Agostinho à Descartes e finalmente Kant, para que se firmasse a analogia de operações entre o intelecto divino e o intelecto humano; para que “idéias na mente de Deus” se transformasse em “idéias inatas” no homem; para que a concepção de interioridade se transformasse em sujeito; para que a “luz natural” se transformasse em “razão pura”; para que idéias se transformassem em representações criadas artificialmente pelo homem para conhecer o mundo; enfim, para que surgisse aquilo que se costuma chamar de moldura representacionista moderna.

Com efeito, o quadro representacionista moderno vai engendrar toda uma série de problemas interligados cujo fundo é o dualismo que o pressupõe: sujeito/objeto, esquema/mundo. Problemas que dizem respeito à fundamentação do conhecimento e que vigem na interface da epistemologia e da ontologia. Problemas que dizem respeito aos meios de que um sujeito dispõe para representar de forma precisa e adequada um objeto. Ou ainda, problemas que dizem respeito às relações entre mente e realidade, linguagem científica e realidade. Não se trata aqui de considerarmos de perto esses problemas, apenas situar o contexto que envolve o aparecimento do sentido epistêmico do "Conhecimento do Criador".

A consideração de que representações são criações humanas e por este motivo constituem-se em um meio privilegiado de conhecimento do mundo dividiu-se, grosso modo, em duas grandes vertentes[xviii]. Em uma delas, o mundo nada mais é do que uma fabricação da mente humana, a projeção de realidades subjetivas, sensações, percepções e pensamentos. Identificando o mundo que conhecemos com a idéia que fazemos dele, o caráter representacional próprio desta idéia implica verdade. Na outra vertente, a realidade existe independente da rede de percepções e significações que os seres humanos criam para representá-la, explicá-la, manipulá-la. Nesta última, o mundo ou o universo é um grande engenho que opera de acordo com “leis naturais” que podem ser descobertas pela razão humana. Supõe a existência de uma realidade objetiva, cognoscível por todos através dos mesmos métodos, sejam eles racionais e/ou empíricos, ou melhor, experimentais. Assim na terra como no céu, na América, Europa ou Ásia. O universo deve ser igualmente constituído em todas as suas partes e deste modo deve ser governado pelas mesmas causas, forças ou leis. Da natureza passava-se a exigir que fosse homogênea, uniforme, simétrica e isomórfica às estruturas lógicas que a razão pode conceber. Da linguagem científica passava-se a exigir que fosse, na medida do possível, sem ambigüidades, capaz de representar de maneira fidedigna o real.

O procedimento utilizado por Descartes e Fermat para mapear entidades geométricas (pontos, linhas, curvas, superfícies) em entidades algébricas (números, vetores, equações) demonstrava a possibilidade de correspondências formais entre diferentes sistemas. O sucesso deste procedimento funda a geometria analítica e o cálculo, reivindica a primazia de uma estrutura lógica para a linguagem científica e sustenta a inteligibilidade do mundo com base na possibilidade de correspondência formal entre múltiplos fenômenos diferentes. E, finalmente, preconiza a possibilidade de se fazer corresponder, ponto a ponto, estrutura lógica e estrutura ontológica.

A visão cartesiana de um universo material homogêneo governado sempre e por toda parte pelas mesmas e inequívocas, isto é, matemáticas, leis, manteve presos em seu feitiço mesmo aqueles pensadores que reconheciam suas falhas[xix].

O problema da linguagem científica, já levantado por Nicolau de Cusa,  torna-se quase que uma obsessão para os pensadores do século xvii que buscavam um solo seguro e estável para a ciência através da certeza e da precisão. No centro dessas preocupações estava o projeto de criação de uma linguagem científica artificiosa, rigorosamente elaborada e livre de ambigüidades, que realizasse as mais altas pretensões humanas, até aquele momento insuspeitas, no domínio científico. Uma linguagem ao mesmo tempo inequívoca, universal, coerente e artificial que deveria representar de forma unívoca objetos supostamente uniformes. Dependente das concepções que a vertente epistêmica do "Conhecimento do Criador" sustenta, este projeto testemunha a importância da noção de criação para o projeto moderno como um todo.

Esvaziada de significados intrínsecos, a natureza já não é mais a mesma, as coisas deixam de referenciar-se umas às outras em virtude de propriedades intrínsecas; as coisas, ou uma constelação de coisas, passam a referir-se a um sistema de signos unívocos, criados artificialmente, como, por exemplo, a matemática. Com efeito, a visão da natureza como “escrita em caracteres matemáticos” coincide com a busca por uma  linguagem científica inequívoca, uma mathesis universalis. Uma caracteristica universalis que deveria servir como ars inveniendi para toda e qualquer ciência. O que se revela como base para a proposição da matemática como paradigma para todas as outras ciências é, mais uma vez, a idéia de que criamos a matemática e por este motivo sua veracidade é inteiramente conversível em suas construções. Deste modo, o homem de ciência do século xvii começa a empregar a matemática muito mais como uma linguagem lógico-formal do que como um inventário de entidades reais. Que esta linguagem corresponda ao mundo, à natureza, garantindo assim um estatuto de verdade[xx] para as representações, eis a questão. Todavia, a idéia de fazer corresponder a um sistema logicamente construído a diversidade caótica de nossa experiência do mundo, fez deste mundo um mundo novo e do físico-matemático um inventor. Fosse a natureza uma máquina ou não, capaz de ser decodificada ou não, o fato é que o homem moderno lançou mão às coisas no intuito de fazê-las funcionar. 

Segundo David Rapport Lachterman em seu The Ethics of Geometry: a Genealogy of Modernity o “novo estilo” matemático encarna a libertação da passividade contemplativa da teoria e assume um movimento em direção à prática virtuosa da técnica criativa. A despeito de todas as vicissitudes que o estatuto dos objetos matemáticos vem sofrendo ao longo dos séculos[xxi], o fato é que, hoje, um matemático é livre para criar e usar qualquer conjunto de axiomas contanto que resulte em um sistema matemático coerente.

Não obstante a complexidade dos problemas envolvidos, que não são poucos e muito menos desimportantes, o paradigma das verdades constituídas pelo homem será, a partir do século xvii, incontestavelmente, a matemática, mais especificamente, sua estrutura lógico-formal. Porque se a matemática ainda não disse tudo que esperavam dela, também não disse nada que não deveria, e é por este motivo que é à matemática que também a natureza deverá curvar-se.

Ao ligar-se estreitamente à linguagem matemática a noção de “leis da natureza” adquiri o status de universal e necessária[xxii]. Mas em que sentido as “leis da natureza” são universais e necessárias? A universalidade é postulada a partir da suposição de uma estrutura ontológica que comporta uma homogeneidade física; já a necessidade vem estatuir-se a partir da convicção de que há uma inequivocação metafísica, ou seja, uma estrutura lógica de verdades incondicionais. Deste modo, temos a convicção de que se pode construir uma linguagem inequívoca (formal e artificial) sobre objetos homogêneos ou uniformes, com a qual a ciência finalmente trilharia um caminho seguro.

De fato, uma linguagem absolutamente inequívoca só seria possível com o conhecimento completo de todos os individuais, conhecimento, portanto, apenas aproximado. A suposição ideal de homogeneidade é o que poderíamos chamar de útil abstração na construção da noção de “leis da natureza”, contudo, tanto a homogeneidade física quanto a inequivocação metafísica não são úteis em si mesmas, adquirem valor somente quando combinadas num contexto explicativo maior. E este contexto, o da ciência moderna, é correlato da idéia de um universo infinito e contingente.

Na verdade, o conjunto dos contingentes, na medida em que a ciência os apreende, teórica e praticamente, é o universo. E, esta realidade, de um conjunto infinito de contingentes que se chama universo, é marcada por um caráter de facticidade. O próprio da linguagem moderna consiste justamente em apreender o contingente na construção de uma facticidade remetida ao real.

Uma linguagem artificialmente construída diz respeito portanto à uma estrutura lógica de caráter auto-evidente, em que não há outra razão que a faça ser como é, ao mesmo tempo que não há razão para que ela seja outra, porque se fosse outra, seria simplesmente outra. Na verdade, a partir do momento em que é de algum modo, ela permanece e não muda. Assim, através de um contorno próprio, esta estrutura lógico-formal, referida ao conjunto infinito dos contingentes (o universo), assume traços de imutabilidade homeomorfos àqueles de uma “essência eterna”. A imutabilidade daquilo que não tem outra razão de ser como é, nada tem a ver com a imutabilidade do que não pode, sem violar a razão, ser outro que é. Todavia um homeomorfismo imaginário, isto é, identificatório, permanece. Daí decorre que a captação do conjunto dos contingentes por uma estrutura lógica lhe dá os traços de algo necessário[xxiii]. Deste modo, aquilo que é considerado necessário ou intrínseco é, na realidade, função de esquemas conceituais e hábitos. É o que chamamos de necessidade das ‘leis da natureza’. A estrutura da ciência moderna repousa inteiramente na contingência, e a necessidade dada às leis naturais é a cicatriz mesma desta contingência. Dizer que um ponto do universo é como é requer que sejam lançados os dados de um universo possível onde este ponto poderia ser infinitamente outro. Assim, fixa-se uma lei como necessidade que permanece e impõe o esquecimento da contingência que a autorizou.

Contudo, o que é extraordinário no conhecimento e procedimentos matemáticos não são seus faits accomplis mas seu savoir faire. Sua elegância e simplicidade. A ars demonstrandi quando não se coloca “em detrimento de” mas “ao lado de” uma ars inveniendi. A matemática combinada com a ciência experimental criou um modelo abstrato de natureza expresso em uma linguagem técnica controlada por conceitos e definições os mais precisos possíveis. Onde simplicidade significa generalidade e elegância significa simetria e economia.

Matematizar processos infinitos é, doravante,  a expressão última do natural, é como criá-lo ex nihilo, fabricando todas as peças do necessário. A natureza no século xvii não é mais um simples “estado de coisas” dado, mas um processo, exemplificado sobretudo, na convergência dos ideais de explicação matemática e mecânica em um ideal de conhecimento por criação.

A explicação racional cartesiana sobre a formação do mundo é um arquétipo do conhecimento por construção[xxiv].

Porque, como já vimos, para Descartes, verdades eternas são criadas em sua plena acepção; mesmo teoremas matemáticos se constituem como contingentes sob a vontade do Criador. Deus, soberanamente livre e infinitamente poderoso. 

No século xvii Descartes afirma que sua física lhe permite saber como é que Deus conseguiu construir o mundo (no famoso texto dos Princípios, parte iii, art. xlvi). [...] Menos seguros que ele, e independentemente desta teoria, seus adversários sustentam que conhecer é poder fabricar[xxv].

Tanto Funkenstein quanto Crombie e Mondolfo consideram a fusão ocorrida entre a matemática e a física no século xvii como um dos protótipos do conhecimento por criação. Para estes três autores o "Conhecimento do Criador", de Descartes a Galileu e Newton, passando por Mersenne e Gassendi, atravessa todo o processo da assim chamada Revolução Científica[xxvi].

Marin Mersenne e Pierre Gassendi, como fotografias “de época”, encarnam bem o momento em que as discussões em torno do "Conhecimento do Criador" começam a proliferar. Passemos agora então a uma breve exposição das concepções de Mersenne e Gassendi uma vez que oferecem o quadro no qual os grandes nomes da filosofia e ciência modernas vieram a sobressair.

Marin Mersenne (1588-1648), filósofo natural francês, foi o responsável pela promoção, através de sua copiosa correspondência, do fortalecimento de uma comunidade científica. Mersenne pertencia àquela revolucionária geração que, ao lado de Gassendi, Galileu, Kepler, Bacon, Boyle entre outros, estabeleceu, no início do século xvii, uma nova filosofia. O compromisso fundamental desta nova filosofia se traduzia num programa de pesquisa científico que consistia na união deliberada entre investigação teórica e exigência prática de resultados reprodutíveis.

Mersenne de 1625 em diante se tornou o advogado do avanço da nova ciência [...] defendendo o ponto de vista mecanicista, a matematização da natureza, escrevendo novos livros didáticos, encorajando a todos para as tendências mecanicistas, atacando os magos, alquimistas, numerólogos etc. Ele conseguiu que fossem publicados trabalhos de Galileu, Hobbes, Herbert de Cherbury, Descartes e outros. Ele mantinha todo mundo informado sobre as novas descobertas e as últimas teorias. [...] entre os anos de 1625 e 1650 [..] o mecanicismo era amplamente aceito por intelectuais de vanguarda[xxvii].

Mais profundamente afetado pela crise de ceticismo do que Descartes e Galileu, Mersenne acredita que aos homens só é concedido o acesso à ordem dos fatos contingentes da natureza. A falácia lógica de afirmar o antecedente pelo conseqüente estabelecia a impossibilidade de demonstrações irrefutáveis na esfera da natureza. Entretanto, só poderíamos obter conhecimento deste mundo criado e contingente através de seus efeitos. A única esperança estava na exploração e conexão destes efeitos através do experimento controlado pelas hipóteses mais prováveis. E isto não deixava de ser conhecimento verdadeiro embora não uma verdade acabada, pois toda ciência é, em última instância, hipotética e deverá sempre estar sujeita ao controle arbitrário e rigoroso da lógica e do experimento.

É o bastante, para ter conhecimento certo [avoir la science] de algo, conhecer seus efeitos, suas operações, seus usos [...] não desejamos atribuir a nós mesmos maior ciência do que esta[xxviii].

Por esta razão, Mersenne foi caracterizado como um dos advogados de um “ceticismo mitigado”[xxix].

O descrédito de Mersenne em relação à certeza que se pudesse obter no trabalho de investigação científica, levou-o à privilegiar a precisão de suas técnicas. Sentiu-se encorajado pelos sucessos tecnológicos que adquiriu no campo da acústica e pela leitura do Novum Organon de Francis Bacon. Segundo Mersenne a arte não poderia burlar a natureza, mas o homem ao construir imitações racionais do trabalho de Deus na natureza pode adquirir algum insight de como ela opera.

Somos constrangidos a reconhecer que o homem não é capaz de conhecer a razão de nada senão daquilo que pode fazer, nem outras ciências senão aquelas às quais constrói os princípios ele mesmo, como demonstra a matemática[xxx].

Nós só podemos conhecer inteiramente o que construímos, seja na mente, com a  matemática, ou na matéria, com máquinas e outros produtos da arte e da técnica. Ao imitar o trabalho de Deus na natureza por meio de artefatos mentais ou materiais, construímos modelos que podem ser testados. Desta forma Mersenne articula, em sua filosofia da natureza, a concepção mecanicista do mundo e o método probabilista hipotético. Mersenne torna-se assim um dos maiores arquitetos[xxxi] do argumento experimental moderno.

Pierre Gassendi, o anti-aristotélico por excelência, grande admirador de Galileu e feroz antagonista de Descartes, buscava erigir uma “filosofia mais verdadeira”[xxxii]. Isto significava abrir mão de uma verdade inabalável em favor de um conhecimento produzido no engajamento experimental. O projeto mais geral de Gassendi era o de fazer com Epicuro o que a escolástica havia feito com Aristóteles, adequar o epicurismo à doutrina cristã. Em sua empreitada Gassendi visava acabar com a ameaça de ceticismo, por um lado, e por outro, demonstrar o status epistemológico de uma nova ciência. Este programa veio a ser denominado de “ceticismo mitigado ou construtivo” (do qual, como já foi dito acima, Mersenne e Bacon também faziam parte). De maneira geral, fazer parte deste programa significava aceitar a força do ataque cético, concedendo a impossibilidade do conhecimento de essências e defender a verossimilhança do conhecimento provável dos fenômenos. Tanto Mersenne quanto Gassendi buscam uma via media entre ceticismo e dogmatismo radicais. Ambos concordavam que o conhecimento humano não pode ser completo nem perfeito, a perfeição está reservada à Deus, pois Ele é Le souverain Autheur de toutes choses[xxxiii]. Nossa inteligência é pobre demais frente à complexidade da natureza. Mas isto não nos impede de conhecer objetos, eventos e fatos em suas propriedades particulares. Banindo assim as essências para o reino do incognoscível, concentram-se no conhecimento das propriedades contingentes. Tanto Mersenne quanto Gassendi acreditam que conhecemos na medida em que somos capazes de entender a ratio constructiones.

Contudo, suas propostas se diferenciavam no que diz respeito às explicações dos limites da ciência. Vemos que, em Mersenne, os limites da ciência são os limites da razão, embora não se possa compreender a verdadeira causa das coisas, não está claro onde terminam as aparências e onde começam as essências, e a razão é o único juiz a quem devemos apelar. Gassendi, ao contrário, baseava suas asserções científicas na evidência dos sentidos que, estes sim, deveriam constituir o verdadeiro “supremo tribunal” do conhecimento. Mersenne faz parte da tradição que privilegia a matemática, mas ele assim o faz, não apenas por ela depender unicamente da razão, mas porque vê a matemática também como uma ciência aplicada, e sobretudo, por seus princípios serem criados por aquele que a utiliza, ou seja, o homem. Diferentemente de Mersenne, Gassendi quer que ultrapassemos, de uma vez por todas, a ilusão de que existem áreas em nosso conhecimento que dependem exclusivamente da razão. Devemos nos livrar do equívoco de que a matemática é o modelo supremo e reconfortarmo-nos com o conhecimento que temos do mundo natural, pois ele é tão certo quanto qualquer outro. Assim, propõe que o estudo da natureza seja feito através de analogias com objetos artificiais, já que estes têm no homem o seu autor.

Outro aspecto interessante da filosofia de Gassendi, sustentado pelo "Conhecimento do Criador", liga-o estreitamente a Thomas Hobbes: a defesa de uma desnaturalização das relações humanas e seus produtos. Gassendi enfatizava que a inclinação do homem em direção a seus semelhantes não diz respeito a nenhuma espécie de instinto natural mas à educação e auto-disciplina. Atitudes sociais, para Gassendi, Hobbes e posteriormente Vico, não são inatas, mas sim um produto do trabalho do homem sobre si mesmo e sobre a comunidade. O encontro de Hobbes e Gassendi foi promovido por Mersenne, teve lugar em França entre os anos de 1634 e 1637 e parece ter sido bastante fecundo para ambos e toda a vanguarda intelectual da qual faziam parte. Com efeito, não há exagero em afirmar que nenhum período histórico (quiçá o nosso) exigiu liberdade intelectual comparável ao século xvii.

Percebemos assim a complexa trama intelectual que começava a ser urdida no século xvii, ligando os mais díspares pensadores em torno de um ponto comum: o ideal de conhecimento por criação. Da tradição matemática, de forte cunho racionalista, aos movimentos empírico-experimentalista e humanista, vemos o fortalecimento da noção de "Conhecimento do Criador" na construção das ciências modernas e no Iluminismo. Ernst Cassirer, ao discorrer sobre os alicerces da filosofia do Iluminismo, nos diz que seu fundamento lógico repousa na seguinte afirmação: “o conhecimento humano só compreende verdadeiramente o que ele gera a partir de seus elementos.”[xxxiv] E, é claro, a figura que encarna, de forma exemplar, este fundamento lógico é Immanuel Kant.

Kant (1724-1804) é, sem dúvida, o maior expoente, na vertente epistêmica, da tradição que identifica conhecimento e criação. Para o mais sofisticado dos filósofos representacionistas a noção de “Conhecimento do Criador” torna-se totalmente intrínseca ao ato de conhecer, possibilitando o estabelecimento de instrumentos conceituais consistentes para uma teoria do conhecimento. Kant parece ter sido o primeiro a pensar sobre os fundamentos do conhecimento referindo-se primordialmente a proposições no interior de um sistema. A mestria de sua filosofia está na exigência da noção de constituição do objeto de conhecimento por parte de um sujeito conhecedor. Sujeito que não se identifica com ninguém em particular, mas com uma instância transcendental que cria condições de possibilidade para o conhecimento.  

Das coisas conhecemos a priori só o que nós mesmos colocamos nelas[xxxv].

Em sua Crítica da Razão Pura, ao longo da Estética Transcendental, Kant distingue intuição sensível de intuição intelectual, rejeita esta última posto que supõe o conhecimento ativo de essências reais, da coisa-em-si. Este tipo de conhecimento só é possível ao Ser Originário, aquele que de forma ativa cria essências às quais não temos acesso direto uma vez que não as criamos. Já a intuição sensível, enquanto forma pura da sensibilidade (Espaço/Tempo), é uma faculdade passiva capaz de ser afetada por fenômenos, e junto ao entendimento (faculdade ativa que produz conceitos, categorias) e à imaginação (pura ® regras esquematizadas de distinção; empírica ® imagens) resulta no conhecimento humano possível. O que para nós merece destaque é a relação entre objeto de conhecimento e sujeito transcendental enquanto referida à idéia de constituição. Como este sujeito constitui seu mundo de objetos (materiais e não materiais)? Quais são seus instrumentos ao fazê-lo? Como pode testá-los junto a esquemas de sua própria criação? — a isto, Kant nomeia experiência. Assim, o papel de nossa noção é absolutamente fundamental para Kant, a célebre passagem do prefácio de 1787 à Crítica da Razão Pura testemunha isto:

[...] A razão só discerne o que ela mesma produz segundo seu projeto, que ela tem de ir à frente com princípios dos seus juízos segundo leis constantes e obrigar a natureza a responder às suas perguntas, mas sem deixar-se conduzir somente por ela como se estivesse presa a um laço; pois do contrário, observações casuais, feitas sem um plano previamente projetado, não se interconectariam numa lei necessária, coisa que a razão todavia procura e necessita. A razão tem que ir à natureza tendo numa das mãos os princípios unicamente segundo os quais fenômenos concordantes entre si podem valer como leis, e na outra o experimento que ela imaginou segundo aqueles princípios, na verdade para ser instruída pela natureza, não porém na qualidade de um aluno que se deixa ditar tudo o que o professor quer, mas na de um juiz nomeado que obriga as testemunhas a responder às perguntas que lhes propõe. E assim até mesmo a Física deve a tão vantajosa revolução na sua maneira de pensar à idéia de procurar na natureza (não lhe imputar), segundo o que a própria razão coloca nela, aquilo que precisa aprender da mesma maneira e sobre o que nada saberia por si própria. Através disso, a Ciência da Natureza foi pela primeira vez levada ao caminho seguro de uma ciência, já que por muitos séculos nada mais havia sido que um simples tatear[xxxvi].

Tanto Deus quanto a natureza, no sentido de soma total de todas as realidades, adquirem o caráter de suposição metateórica, ideal regulativo da razão, projeção de princípios que usamos para constituir objetos de conhecimento. Os esforços de Kant, para emancipar a metafísica e a ciência de sua bagagem teológica, dirigem-se para a construção de uma teoria na qual seres humanos são seus próprios, supremos, legisladores. Autônomos constituintes de seus objetos de conhecimento, responsáveis pela ordem política e pelo gosto estético.

Kant, na via de Bacon, Descartes e Galileu, refere o princípio de conversão da verdade e do fato ao conhecimento teórico da natureza, isto é, à estrutura categórica dos objetos da experiência[xxxvii].

Vale a pena ainda uma última observação. Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo faz uma brilhante passagem do conceito de natureza como analogon da arte para sua coincidência no plano estético. Para Kant arte e natureza, no plano da expressão estética, isto é, no belo, coincidem. Ambas são livres produtoras de formações; produtoras, ao mesmo tempo, contigentes e intencionais de formas cuja finalidade sem utilidade é o belo.

A natureza é bela quando tem a aparência de arte, e a arte não pode ser dita bela senão quando somos conscientes de que se trata de arte e que esta nos aparece, todavia, enquanto natureza[xxxviii].

"Conhecimento do Criador" e Humanismo

A face humanista do "Conhecimento do Criador" caracteriza-se pela idéia de que devemos, sobretudo, nos ater àquilo que é da ordem da realidade especificamente humana: sociedade e história, linguagem, política e moral. A ciência é primeiro e sobretudo uma ciência do homem[xxxix]. Em última análise o "Conhecimento do Criador" em seu sentido humanista reduz a verdadeira ciência do homem às ciências humanas, fundando, assim, um novo, supostamente privilegiado, campo de saber, em contraposição às ciências naturais.

Podemos ver aqui, mais uma vez, a natureza perdendo terreno. A natureza perde seu estatuto privilegiado de objeto de conhecimento, seja em seu aspecto de mundo empírico, seja como fundamento metafísico, ela é cada vez mais inacessível, cada vez mais obscura e, no limite, incognoscível. Terá sido preciso transformá-la junto com as novas concepções de conhecimento da mesma forma que Deus, Nação, História e Obra de Arte, para que acompanhasse a marcha triunfante do humano sobre a terra.

Thomas Hobbes argumenta de forma veemente a favor do caráter construtivo de toda manifestação humana. Da artificialidade de tudo que diz respeito ao humano. De fato, ¾ corro o risco de dizer ¾ , o tom artificilalista da obra de Hobbes se estende para além das fronteiras daquilo que se poderia chamar de “negócios humanos”. Uma análise minuciosa de sua obra mostra a impossibilidade de separar claramente os registros naturalista e artificialista, e a grande dificuldade dos intérpretes da filosofia política de Hobbes vem justamente da presença constante e entrelaçada destes dois registros. Contudo, o acento artificialista, sob a égide de um rigor mecanicista, prevalece. De fato, “estado de natureza” ou “estado de guerra”, são definições negativas em Hobbes, isto é, definem-se a partir da suposição de ausência de Estado, ausência de elaboração artificiosa, ou seja, de caos, ininteligibilidade e imprevisibilidade. Por este motivo, fica difícil reconhecermos na obra de Hobbes algo como a afirmação de propriedades essenciais ou atributos naturais antecedentes ao Estado, seja agressividade, medo da morte ou impulsos de auto conservação, o que quer que seja, só será definido a posteriori, já no interior de uma ordem estabelecida, nos pactos da linguagem humana, único lugar onde tudo isto pode adquirir significação. Afirmar sua anterioridade seria, no mínimo, um contra-senso com o rigor lógico de Hobbes.

Se se consideram com acuidade as causas pelas quais os homens se reúnem e se comprazem numa sociedade mútua, percebe-se logo que isto não ocorre senão por acidente, e não por uma necessária disposição da natureza (De Cive, I, 2)[xl].

Natureza e sociedade participam mutuamente do artifício e a distinção entre a artificialidade do “mundo natural” e a do “mundo civil” é, na maior parte de sua obra, imperceptível. Uma espécie de possibilidade de conversão se apresenta aqui e, sem dúvida, se deve à força da convicção de Hobbes na defesa implícita do "Conhecimento do Criador". É assim que em suas mãos, e de outros pensadores seus contemporâneos, natureza e nação sofrem as mesmas vicissitudes. Vale dizer, assimilar-se-ão à arte, na acepção mais ampla que se possa dar a esta palavra.

E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado ou Cidade (em latim Civitas), que não é senão um homem artificial embora de maior estatura e força. [...] os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas, reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat, ao Façamos o homem proferido por Deus na Criação[xli].

Hobbes concebia filosofia e ciência como conhecimento de causas para sustentar a política como ciência. Alega que as verdades da política são demonstráveis uma vez que é o homem quem cria seus princípios, definições e proposições como na geometria. Como não construímos os corpos naturais, não os conhecemos senão a partir de seus efeitos, logo não há demonstração de causas, apenas conjectura de hipóteses. A filosofia civil é a ciência da construção da comunidade. O corpo político hobbesiano é verdadeiramente feito por homens e por isto as condições de sua formação são dedutíveis de causas conhecidas. Nosso mundo, seja do homem comum ou do cientista, é um constructo. Tudo o que é humano ¾  linguagem, religião, ciência, leis, instituições etc. ¾ deve ser entendido daqui por diante como constructos artificiais que derivam sua validade não mais da natureza mas do arbítrio humano. Todavia, seu artificialismo político não se reduz a um mero convencionalismo. Porque nenhuma convenção tem força em si, o que não significa que devamos procurar fundar o mundo civil, a política e o Estado fora daquilo que os constitui. Sem dúvida, o maior perigo que corremos, salienta Hobbes, é o de hipostaziar a convenção a algum fundamento outro que não ela mesma. Se, por um lado, estamos confinados à convenção, por outro não devemos esperar encontrar nela “boas razões”, não há nada de intrínseco nos pactos estabelecidos para a construção do mundo civil, nenhum critério a priori que estatua a “boa convenção”, segundo Hobbes não há “boa convenção” fora do poder que a faça respeitar.

E os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar a menor segurança a ninguém[xlii].

Nenhum sistema de leis é a priori ou em si preferível a outro, a política de seu estabelecimento é uma questão de poder e não de direito. Não há nenhum ‘direito natural’, não há leis necessárias, apenas leis impostas. Criar artificialmente uma ordem é, sem dúvida, extremamente violento, e tanto Maquiavel quanto Hobbes tinham a dimensão da verdade desta asserção. Só o poder faz a lei. Deste modo, é preciso que se recuse toda e qualquer justificativa para o poder. Ele não se legitima, não tem fundamento, nem mesmo na força bruta, pois é ele quem funda e legifera. Por este motivo, para Hobbes, o poder ou será absoluto ou não será, e mais, toda tirania será sempre a indicação de um poder débil.

O poder na teoria de Hobbes está ligado à produção, ecoando Bacon, podemos dizer que poder, ciência e produção são sinônimos. Hobbes argumenta incansavelmente que em política e em matemática é o homem quem produz e decide e por esta razão as conhecemos mais que o mundo físico que é o produto da arte divina. Assim, o poder não se justifica fora do arbítrio humano, e é neste sentido que Hobbes não distingue poder de arbítrio. O arbitrário não é um atributo possível do poder mas sua própria definição. A convenção —decisões arbitrárias do poder — é a única garantia para a sociedade, seu corpo político mas também científico.

As concepções de Hobbes acerca da natureza e suas leis e da linguagem humana lhe permitiram negar correspondência ponto a ponto entre palavras e coisas. Ou seja, a significação das instituições humana não deriva de “leis naturais”. Sua verdade está no estabelecimento de proposições, porque ser verdadeiro é ser factível. A verdade é o fato, em seu sentido original, a saber, aquilo que pode ser feito. A visão do Estado como uma formação artificiosa, como puro artefato humano, substitui as concepções tradicionais de uma inclinatio ad societatem que implicavam ‘leis naturais’ em si necessárias. Leviatã [xliii], monstro que simboliza o Estado absoluto, declara que qualquer poder é manifestação e administração de arbitrariedade. E todo aquele que nega legitimidade ao poder alegando sua arbitrariedade revela má fé (má fé que Nietzsche virá a elucidar de forma brilhante em A Genealogia da Moral). Pois, fazer crer que um ato (humano, político) é natural e necessário, nele mesmo, é continuar a mascarar de naturalidade as formas de organização e dominação sociais.

Leviatã é um ser “artificialmente natural”. Monstro criado pelo homem da mesma forma que o homem foi criado por Deus. Hobbes assimila explicitamente a natureza à uma arte divina e assim considera todo ser forjado, a exemplo dos produtos da arte de Deus, um ser indiferentemente artificial e/ou natural, isto é, Leviatã.

A lei civil e a lei natural não são leis de espécies diferentes mas partes diferentes da lei: uma parte, a escrita, é chamada lei civil, a outra não escrita, é chamada lei natural[xliv].

Torna-se difícil mantermos uma diferença essencial entre natural e artificial, e é forçoso reconhecer como consequência última e rigorosa do "Conhecimento do Criador", embutido no mecanicismo eloqüente de Hobbes, a ausência de uma realidade determinada, essencial e necessária que seria designada pelo nome de natureza.

Na densa escuridão da noite, onde a aurora de nossa mais distante antiguidade dissimula-se, surge a eterna e inextinguível luz da verdade, que sob nenhuma condição pode ser posta em dúvida, de que o mundo civil foi, certamente, feito pelo homem[xlv].

A Ciência Nova de Giambattista Vico (1688 - 1744) pretende ser a própria realização do princípio do verum factum. Apresenta-se como uma organização metodológica e uma summa de verdades demonstráveis dos estágios necessários ao ciclo da gênese, desenvolvimento e declínio da história das nações. A aspiração de Vico consistia em nada menos do que a união entre filosofia, que produz conhecimento universal e eterno, e filologia, que diz respeito ao mundo dos fatos contingentes. No sentido de assegurar à história uma fundamentação epistemológica Vico buscava apresentá-la dentro dos cânones do conhecimento científico. Isto é, conhecimento enquanto conhecimento de causas ¾ scire per causas ¾ e acrescentava: “a ciência consiste no conhecimento da gênese das coisas”[xlvi]. Vico de fato postula uma estreita ligação entre conhecer a causa de algo e realmente criar este algo. Porque

Ciência é o conhecimento do gênero ou modo pelo qual algo é criado, por meio do qual a mente, ao mesmo tempo que conhece o modo, porque compõe seus elementos, cria a coisa[xlvii].

O que é verdadeiro é conversível no que é criado “quando o objeto reconhecido como verdadeiro deve seu ser à mente que o conhece”[xlviii].

Ligando causa e criação Vico concebe o princípio do verum factum como critério e norma do conhecimento e da verdade. E isto, antes mesmo de conceber a História, sua Ciência Nova, como a encarnação mais nobre e sublime do princípio do verum factum. A princípio, para Vico, a identificação entre conhecer e criar vinculava-se à matemática e por este motivo a considerava o ramo mais elevado do conhecimento humano. Temos então que para Vico o homem pode ter conhecimento somente onde tenha de algum modo criado a coisa reconhecida como verdadeira, e assim sendo satisfaz a exigência de explicação da causa da coisa conhecida do mesmo modo que uma explicação consistente é dada por um matemático quando ele deriva proposições de definições, regras e axiomas básicos de seu sistema. Vico faz então uma conexão entre uma teoria criativa do conhecimento e uma teoria causal da verdade. A conexão se estabelece na asserção de que uma ciência, na qual os elementos básicos consistem em regras e convenções de nossa própria criação, só pode declarar ter conhecimento de causas sobre as coisas a que concerne. A dificuldade em aceitar prontamente a proposição viquiana está na, altamente problemática, relação entre conhecer as causas de e conhecer em virtude de causar. Porque não é nada óbvio que a condição do conhecimento que envolve o conhecimento de causas de alguma coisa é satisfeita pelo fato de que somos responsáveis pela criação das causas desta coisa. No entanto, Vico pensa que esta condição é suficiente, assim como muitos outros autores também, e não se pronuncia a respeito. Simplesmente parte do princípio de que se o homem cria o “mundo das nações”, o “mundo civil”, sua História portanto, ele pode vir a conhecê-la. A cultura humana é assim considerada o domínio, por excelência, do conhecimento. Quanto ao “mundo natural” só Deus pode conhecê-lo perfeita e completamente.

O mundo da sociedade civil certamente foi criado pelo homem, e seus princípios são portanto encontráveis no interior das modalidades de nossas mentes humanas. Quem quer que reflita sobre isto não pode senão se admirar de que filósofos tenham votado todas as suas energias para o estudo do mundo da natureza, o qual foi criado por Deus e somente Ele conhece; e que negligenciaram o estudo do mundo das nações, o qual foi criado pelo homem e pode vir a ser conhecido por ele[xlix].

Para Vico teorias físicas devem ser aceitas se e somente se puderem permitir-nos criar coisas em conformidade a elas. Descobertas no campo da natureza devem ser confirmadas por experimentos nos quais criamos imitações das condições naturais. Assim, a ciência física ou a ciência dos objetos naturais permanecerá imperfeita, e somente em circunstâncias excepcionais ¾ ao executar de forma eficaz operações que imitam os processos naturais ¾ pode o homem adquirir conhecimento da natureza. Vico freqüentemente compara o tipo de conhecimento tornado possível por sua nova ciência com o conhecimento divino posto que em Deus conhecimento e criação são uma e mesma coisa, entretanto Vico mantém certas reservas que indicam que não se trata de conhecimentos idênticos. Deus conhece o mundo natural porque o criou, já o homem, porque criou o mundo civil, tem apenas a possibilidade de o conhecer. A diferença reside justamente no fato de que o conhecimento divino é absoluto e necessário enquanto que o humano é limitado e contingente. Assim sendo, uma questão se coloca: porque o conhecimento do mundo civil para Vico é mais inteligível que o conhecimento do mundo natural uma vez que ambos são contingentes?

John Locke (1632 - 1704) também atribuía privilégio à relação entre criar e conhecer e pode ser relacionado tanto à face epistêmica do "Conhecimento do Criador" com sua teoria das idéias, quanto à face humanista com suas concepções acerca da moral. Em seu Ensaio Sobre o Entendimento Humano sustenta que a moral se demonstra da mesma forma que a matemática: “estou inclinado a pensar que a moral é capaz de demonstração, tanto quanto as matemáticas[l] [...] a moral é a ciência adequada e função da humanidade em geral”[li]. Isto porque o domínio da moralidade é criado pela própria mente humana e se constitui de nomes, definições e idéias ligadas de maneira convencional às ações morais. Locke concebia a moral, portanto, como um produto da linguagem, dos nomes e significações que a mente dá às ações humanas. Acreditava que idéias morais podem representar realidades morais e que a filosofia, neste campo, é uma ciência.

A moralidade assim concebida por Locke não pode ser completamente compreendida se não a articularmos à sua teoria das idéias. Esta coloca à princípio uma rejeição ao inatismo situando toda e qualquer idéia como derivada, seja da experiência sensível seja da reflexão. Idéias, portanto, formam cadeias lógicas de convenções que não têm acesso à essências reais, ou melhor, idéias, como um produto da mente, não têm acesso ao conhecimento verdadeiro das coisas, porque não se pode convencionar sobre a verdadeira “natureza das coisas”. Uma idéia, isto é, uma representação mental, entretanto, tem acesso àquilo que ela chama de essências nominais e que são nelas mesmas nomes, definições construídas pela própria mente que busca conhecê-las.

As essências real e nominal diferem. Embora, talvez, o movimento voluntário, com sentidos e razão reunidos a um corpo de uma certa forma, seja a idéia complexa à qual eu e outros anexamos o nome “homem” e, deste modo, constitua a essência nominal da espécie assim denominada; contudo, ninguém dirá que esta idéia complexa é a essência real e fonte de todas as operações que são encontradas em um indivíduo desta classe. O fundamento de todas essas qualidades, que são os ingredientes de nossa idéia complexa, é algo bem diferente; e se tivéssemos um tal conhecimento desta constituição do homem, da qual jorram suas faculdades de mover, sensação, raciocínio e outros poderes, e da qual depende sua forma tão regular (como disso têm possivelmente os anjos, e certamente seu Criador), teríamos uma idéia bem diversa de sua essência do que a que atualmente está contida em nossa definição dessa espécie, seja isto o que for. Ademais, nossa idéia de qualquer homem individual seria tão diversa do que é no presente quanto quem conhece todas as molas e rodas e outros mecanismos internos deste célebre relógio em Estrasburgo o conhece de modo diverso de um compatriota que apenas o observa, vendo o movimento do ponteiro, ouvindo o relógio bater e observando apenas algumas de suas manifestações externas[lii].

A estratégia de Locke, implicitamente baseada no "Conhecimento do Criador", está em fazer da reconstrução do processo de criação de idéias a sustentação de sua teoria do conhecimento.

As concepções dos dois pensadores ingleses, Hobbes e Locke, acerca da política e da moral, baseiam-se no mesmo princípio sobre o qual Vico concebe a história. Entretanto, diferenciam-se dele num aspecto fundamental: o modo como tratam a linguagem em sua relação com o factum. Para esses filósofos ingleses o domínio do conhecimento, sem dúvida, pertence à criação humana, mas apenas na medida em que é constituído inteiramente por nomes e definições convencionados, fora disto não há ciência. Assim, o conhecimento depende exclusivamente da linguagem, de deduções e conclusões derivadas das conexões dos nomes. A analogia com a matemática é explícita e permite exibir, tanto na política quanto na moral, um caráter de ciência demonstrável.

O mundo civil de Vico, ou melhor, sua História como factum, não pode ser igualada à moralidade de Locke, nem à comunidade política de Hobbes porque, mesmo que os três sejam criações humanas, o último par consiste unicamente de rigorosas cadeias de raciocínio enquanto que a primeira inclui reivindicações empíricas sobre o vasto domínio das sociedades e culturas humanas. A política e a moral são sustentadas pelo princípio do verum factum precisamente porque se restringem a convenções. Já a história para Vico se constitui também pela variedade indefinida de fatos. A tentativa de Vico, no domínio da história, é análoga a de outros filósofos e cientistas de sua época. Isto é, sugere a combinação de razão teórica com experimentação e verificação empírica, método, aliás, que Vico atribui com aprovação a Pitágoras, Platão e Galileu!

De fato, o que Vico tenta fazer é estender o novo paradigma técnico[liii], também proposto pelo "Conhecimento do Criador" para as filosofias naturais, para um novo domínio: o das ciências humanas. Porém, e a despeito dos enormes avanços que as ciências humanas adquiriram nos séculos xix e xx, a tendência dominante continua sendo a de avaliá-las, de modo geral, como menos científicas, ou mesmo não científicas, em comparação às ciências físico-matemáticas.

Sem dúvida, a suposição de que a filosofia civil atinge o mesmo estatuto de verdade e certeza demonstrativa que a matemática em contraste com as incertezas, não demonstráveis, das ciências da natureza, é, para não dizer equivocada, imprecisa. De qualquer forma, o que fica evidente hoje é que o próprio estatuto de ciência, tal como pode ser concebido até agora, nos mais diversos campos de saber, está sendo reavaliado. Parece termos chegado ao “fim das certezas” e isto, independentemente do grau de sofisticação científica e tecnológica alcançado sobre o “homem” e sobre a “natureza”. Diria mesmo que foi justamente em função dos avanços tecnológicos que certezas até então consideradas inabaláveis começaram a ser postas em questão.

Ismênia - Estás correndo atrás do impossível!
Antígona - Pois seja, na última fronteira do possível, tombarei.[liv]

 

 

[i]  O presente texto é o capítulo 4 da sua dissertação de Adriana Ítalo, intitulada A tradição do conhecimento do Criador: um ensaio sobre a artificialização da natureza, orientada por Danilo Marcondes em 1999, na PUC-RJ.

[ii] Popkin, R., 1969, p.16

[iii] Judeus ibéricos forçados à conversão ao cristianismo.

[iv] Sanchez, F. [1576], 1977, p.197

[v] Faur, J., 1987, p.134

[vi] Sanchez, F. apud Faur,J., 1987, p.138.

[vii] Sanchez, F., [1576], 1977 p.134.

[viii] De Que Nada se Sabe

[ix] Croce apud Mondolfo, R., 1971  p. 23 n. 27

[x] Sanchez, F., [1576], 1977, p. 86

[xi] Funkenstein, A., 1986, p.296

[xii] Glanvill apud Funkenstein, A., 1986, p.298

[xiii] Crombie, A. C., 1994, p.29

[xiv] Idem pp.93-98

[xv] Seja este real transcendental ou empírico.

[xvi] Blumenberg, H., 1995, p.72

[xvii] Watson, R.A., 1995, p.3

[xviii] Que, de modo genérico, podem ser designadas, respectivamente, pelos nomes de idealismo e realismo.

[xix]  Funkenstein, A., 1986, p.73

[xx] Subentende-se aqui que o conceito de verdade em questão é o de verdade como correspondência ¾ veritas est adaequatio rei et intellectus.

[xxi] Desde a passagem da “Linha Dividida” na República de Platão, filósofos, matemáticos e lógicos discutem o estatuto dos objetos matemáticos. Com efeito, matemáticos ainda hoje se dividem, grosso modo, entre platonistas e formalistas. Um matemático é considerado platonista quando acredita na existência externa e objetiva de um elevado plano matemático que independe da atividade dos matemáticos; já os formalistas acreditam que a matemática fala de objetos mentais constituídos, e é, assim, um conjunto de regras, elaborado por matemáticos, para a manipulação de símbolos. Platonistas e formalistas também se contrapõem quanto à questão do infinito, um platonistas acredita na existência real e objetiva de conjuntos infinitos, enquanto que um formalista acredita que tudo que nós realmente temos são várias descrições finitas de teorias matemáticas. O intuicionismo é algumas vezes apresentado como uma síntese entre estes dois pontos de vista, mas não é bem o caso, pois os intuicionistas aproximam-se bem mais dos formalistas uma vez que ambos acreditam somente em infinitos potenciais em oposição a infinitos reais. Sobre esta questão ver Rucker, R. Infinity and the Mind.

[xxii] De fato trata-se, como sabemos, de um deslocamento e uma reapropriação, em novas bases, de idéias pitagóricas e platônicas. Segundo Crombie, aliás, o grande e original modelo geométrico do cosmos postulado por Eudoxio tornou-se modelo para todo procedimento científico. Este procedimento sugere a construção de hipóteses para a exploração de fenômenos naturais através das propriedades conhecidas de um artefato. Crombie nomeia este procedimento de modelagem hipotética ou modelo analógico, talvez o mais importante dos estilos científicos produzidos pelo ocidente, estilo este que se baseia na idéia de que conhecer e criar são recíprocos.

[xxiii] Sobre esta questão ver Kripke, S. A., 1998.

[xxiv]  Funkenstein, A., 1986, p. 325

[xxv] Lenoble, R., 1990, p.75. A esta concepção de conhecimento, que nada mais é do que a noção de "Conhecimento do Criador", Lenoble chama de artificialismo mecanicista.

[xxvi] Hans Blumenberg, em seu The Legitimacy of the Modern Age, também se apropria do princípio do verum factum ou "Conhecimento do Criador" para legitimar a modernidade como um todo, tendo a Revolução Científica e o Iluminismo como seus principais correlatos. Todavia, é digno de nota que o "Conhecimento do Criador", cuja ênfase recai na idéia de criação, seja considerado um dos protótipos de conhecimento envolvido na Revolução Científica, uma vez que interpretações clássicas costumam colocá-la sob a égide de um realismo matemático. Se o "Conhecimento do Criador" se contrapõe frontalmente ou não à esta concepção; como a matemática está sendo concebida e empregada; a que concepção de real esta matemática se refere: epistemológico ou ontológico, transcendental ou empírico; até que ponto este realismo é sustentado ou como é sustentado; constituem questões polêmicas entre os intérpretes e estudiosos do tema e dos autores envolvidos.  

[xxvii] Popkin, R. “Scepticism, Theology and the Scientific Revolution in the seventeenh Century” in Chappel, V. (ED.), 1992, p.10-11

[xxviii] Mersenne, M. apud Dear, P. “Marin Mersenne and the probabilistic roots of mitigated scepticism” in Chappel, V. (ED.), 1992, p.140

[xxix] Tese defendida por Richard Popkin em seu History of Scepticism from Erasmus to Spinoza..

[xxx] Mersenne, M. apud Crombie, A.C. “Marin Mersenne and the Seventeenth-Century Problem of Scentific Acceptability” in Chappel, V. (ED.), 1992, p.102

[xxxi] Arquiteto, em seu sentido grego original, que articula arché e techné, isto é, aquele que tem o poder sobre a técnica enquanto princípio daquilo que é feito.

[xxxii] Brundell. B., 1995.

[xxxiii] O Soberano Autor de todas as coisas.

[xxxiv] Cassirer, E., 1994, p.40 (grifo nosso)

[xxxv] Kant, I., 1994, p.18

[xxxvi] Idem

[xxxvii] Löwith, K.,1968, p.100

[xxxviii]  Kant, I., 1995, p.58

[xxxix] No duplo genitivo, isto é, uma ciência feita por homens e sobre os homens e seus negócios.

[xl] Hobbes, T, 1958.

[xli] Hobbes, T., 1997, p.27 (grifos do próprio autor)

[xlii] Idem p.141

[xliii] Monstro citado na Bíblia cuja origem se encontra na mitologia fenícia.

[xliv] Hobbes, T., 1997, p.

[xlv] Vico, G.,1970, pp.330-1

[xlvi] Vico, G. apud Pompa, L., 1990, p.78

[xlvii] Idem

[xlviii] Ibidem

[xlix] Vico, G., 1970, pp.330-1

[l] Locke, J., 1997,  iii, xi, 16

[li] Idem iv, xii, 11

[lii] Ibidem iii, vi, 3

[liii] Cujo exemplo princeps encontra-se nas ciências físico matemáticas.

[liv] Antígona, de Sófocles.