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CAROLINA,  JOANA E LÚCIA(S): 
SUJEITO OU OBJETO?  

Lenise Maria de Sousa Lucchese

 

 

Monografia apresentada a Professor Antônio Carlos Secchin,
na disciplina: Estudo comparado de autores
UFRJ / FACULDADE DE LETRAS 
2º semestre  /  2000

 

“Não escolhemos quem se apaixonará por nós (...). 
Nós somos escolhidos pela paixão, ou condenados à paixão,
assim  como somos escolhidos pela linguagem,
condenados à linguagem que nos acolhe e indefine”.  

 (BERNARDO, 80)

 

1 - DE ALENCAR A GUSTAVO BERNARDO: MEMÓRIA E INVENÇÃO  

“Misturando tempo, espaço e personagens – misturando a vontade à necessidade, dentro do mesmo caldo pegajoso” (Lúcia, p. 149),  “um espelho dentro de um espelho dentro de um espelho. Um livro dentro de um livro dentro de um livro” (Lúcia, p.160), já que “nós mesmos somos feitos de matéria curva, ou seja, memória e invenção”, e que “os livros reescrevem outros livros”, mas criando “o avesso do avesso do avesso” (Lúcia, p.178), é que se fará uma leitura de Lucíola, de José de Alencar e Lúcia, de Gustavo Bernardo, relacionando-as a três peças da dramaturgia alencariana:  “As asas de um anjo”, “A expiação”  e  “Mãe”.

Essas obras se aproximam e se afastam, em um jogo de ocultamento e revelação, onde personagens, cenas e temas povoam um universo ora dramático ora trágico, no qual a fatalidade rege as relações amorosas presentes nessas narrativas.

A proposta de leitura a ser desenvolvida neste estudo pretende buscar elementos que comprovem ser o amor um dos fios da grande teia que envolve as obras citadas e que uma de suas manifestações se faz através de um destino por vezes imposto, por vezes desejado, coberto pelo manto da fatalidade.

Ao se notar uma teia intra e intertextual envolvendo Alencar e Gustavo Bernardo, percebe-se que nelas perpassa o fio da fatalidade costurando a veste do amor. O tema do amor aparece entrelaçado, portanto, ao do destino nos dois autores, sob olhares ora confluentes ora distintos.

Observar-se-ão elementos que configurem a expressão da fatalidade, através de personagens que se apresentam com a marca da dualidade em situações existentes nessas obras, sendo essa imagem dual provocada pela dicotomia de sentimentos conflitantes.

Optou-se por dividir esta discussão em três partes: a primeira tratará da contextualização e surgimento de Lucíola e Lúcia; a segunda, se dedicará aos movimentos que ocorrem dentro da produção dramática e romanesca de Alencar, envolvendo “As asas de um anjo”, “A expiação”, “Mãe” e Lucíola, concernentes à célula temática do amor e à manifestação da fatalidade que nelas se faz presente; e a terceira parte, esboçará semelhanças e contrapontos entre Lúcia e as obras citadas de Alencar, dentro da perspectiva amorosa.  

 

2 - LUCÍOLA E LÚCIA:  O NASCIMENTO DE DUAS MENINAS

Dentro do conjunto da obra de Alencar, Lucíola vem depois do sucesso de O guarani (1857) e da publicação em livro de dois folhetins que foram bem acolhidos pelo público: Cinco minutos (1856) e A viuvinha (1857). Outra referência, não só cronológica, como se verá adiante, é a representação das peças “As asas de um anjo”, editada em 1860, e “A expiação”,   segunda parte daquela, escrita em 1865 e publicada em 1868.

O tema da prostituta regenerada em Lucíola já havia sido desenvolvido para o teatro no Brasil e na Europa. Portanto, o assunto é reincidente,  mas a intriga, não.

Lucíola surge a partir “de uma atitude irrequieta de não aguentar a limitação imposta por comentários levianos da ‘moralidade’ pública ou pela censura do Conservatório”.1 Atitude  que reflete, também, o projeto de construção de uma nacionalidade e de um romance nacional, advindo do diálogo de Alencar com sua própria obra e com a produção européia.

À primeira vista, esse diálogo de Lucíola com a literatura francesa ocorre apenas com a presença explícita de A dama das camélias. Mas há outros referenciais: Atala, de Chateuabriand, Paulo e Virgínia, de Bernadin de Saint Pierre e ainda obras de Balzac e Victor Hugo.

Essa marca intertextual reflete não uma cópia da literatura estrangeira, mas uma amostra do caráter de tensão que havia no projeto de nacionalidade de Alencar, pois existem elementos de criação dentro desse contexto de diálogo. Com certeza, Lúcia foi pinçada de Dumas,  porém, Alencar a fez a dama dos cactos selvagens de nossos campos (cf. Lucíola, cap. XVII,  p. 98).

Ao embrenhar-se pelas trilhas da intertextualidade, Alencar quer discutir as relações entre literatura nacional e estrangeira e criar um perfil da cortesã do Império. Com isso,  sua obra vai além da discussão do tema da prostituta regenerada, buscando formas de expressão nacional.

Lucíola pode ser vista como uma proposta de romance nacional, já que Alencar está buscando uma expressão artística original para o Brasil. Ele pensa ser possível integrar as características brasileiras com as européias, sendo que na Europa esse tema já permitia que se olhasse a sociedade burguesa como a transformadora do dinheiro em elemento crucial.  Alencar ainda não aprofunda essa relação e não discute, realisticamente, as causas da degradação social.

Mas é através da leitura do Prólogo da 1ª edição de “As asas de um anjo” que percebe-se um outro lado de Lucíola, além desse caráter intertextual: o tom de réplica. Alencar não se cala frente à proibição, feita pela polícia, acerca da continuidade da exibição dessa peça. Ele reflete sobre a arbitrariedade da censura e sobre o fato de a literatura ser uma das formas de representação da realidade. Através de Lucíola, ele tenta uma outra linguagem que denunciasse hábitos da corte, sem mostrar o lado cruel disso.

Assim, Lucíola “nasce” para discutir o tema da prostituta regenerada, mas também para responder ao discurso das autoridades, para refletir sobre as relações entre literatura nacional e estrangeira e para refletir sobre a tessitura da própria narrativa.

A obra de Alencar “é uma das minas da literatura brasileira, até hoje, e embora não pareça, tem continuidades no Modernismo”.2  Nota-se que sua modernidade está presente mais nas questões que propõe do que nas repostas, pois estas aparecem ligadas à época, à moral burguesa vigente e ao meio em que vive.

Para Alencar, importava, na realidade, integrar nossos passos aos dos movimentos literários e teatrais europeus, e, ao mesmo tempo, fazer com que as novas idéias não parecessem pura importação, mas sim, instrumento de luta para a consolidação de um projeto de nacionalidade.

Cem anos após o encontro de Lúcia e Paulo, Gustavo Bernardo propõe um reencontro. Mas desta vez é preciso atenção: “as aparências enganam tantas vezes, não é verdade?” (Lucíola, cap. II, p. 16 e Lúcia, p. 27).

Segundo Gustavo Bernardo, Lúcia

é assumidamente uma referência direta a Alencar. Mas não é uma homenagem pós-moderna (conceito esvaziado),  tampouco uma paródia ou reescritura de Lucíola.  É,  antes, uma homenagem ambígua, até mesmo um combate a Alencar, já que a obra propõe outras discussões.3

Assim,  Lúcia “nasce” de uma aparente referência única a Lucíola. As entrelinhas comprovam que subjazem a essa constatação primeira, peças teatrais de Alencar, com questões retomadas e revistas.

A  marca intertextual em Lúcia também é importante,  mas este estudo propõe-se apenas a relacionar Alencar e Gustavo Bernardo e, muito sumariamente, fazer um elo com Nelson Rodrigues.

Em várias passagens de Lúcia, observa-se uma crítica ao “insigne fundador do romantismo brasileiro” (Lúcia, p. 178), comprovando, realmente, que sua presença na obra não é uma pura e simples homenagem. Existe uma proposta que envolve diferenças e que não oculta “falhas” no processo de composição alencariana e em seu modo de relacionar-se com ideologias vigentes na sociedade carioca do 2º  Império, entre elas o preconceito racial.

“O vocabulário empolado e empoeirado de Alencar” (Lúcia, p. 18), com “tempos verbais que haviam permanecido no passado e demasiado literários” (Lúcia, p. 19),  carregando “nos ombros cento e vinte e seis anos de idade, de mágoa, de incompreensão, de mil suscetibilidades feridas” (Lúcia, p. 151), revelam “personagens do romantismo brasileiro -  em que apenas as heroínas, em geral, morrem de amor, deixando tristes, mas convenientemente vivos, os seus guapos e apaixonados mancebos” (Lúcia, p. 62). “Seus romances contribuíram para cristalizar a mulher como histeria em estado bruto. Seus romances fundaram não só o romantismo brasileiro, uma escola literária, como toda a escola brasileira, uma ficção empanada” (Lúcia,  p. 178).

Essa visão crítica sugere novas possibilidades de leitura para alguns temas comuns, como a fatalidade, o destino, o amor, a culpa em relações amorosas e a manifestação dual de personagens.  

 

3 - A FATALIDADE E O AMOR EM OBRAS DE ALENCAR

É inegável a presença de várias questões passíveis de discussão na produção alencariana aqui citada, tais como o tema da prostituição, do casamento por dinheiro, da agiotagem,  do preconceito racial, do nacionalismo literário, da confecção da narrativa e do próprio fazer literário. Mesmo considerando-as, dar-se-á maior relevo à temática amorosa e suas implicações na vida de três personagens: Carolina (“As asas de um anjo” e “A expiação”),  Joana (“Mãe”) e Lúcia (Lucíola).

Tentar-se-á, a partir de agora, traçar um perfil de cada uma delas, envoltas que estão, em maior ou menor intensidade, pela fatalidade. Mas, antes, torna-se necessário uma rápida contextualização do pensamento dramático alencariano, em cada uma das peças citadas.  

 

3.1 - CAROLINA E O RESGATE DOS LAÇOS DE FITA

Nas múltiplas atividades a que se dedicou,  Alencar manteve algumas linhas básicas de reflexão. As considerações que fez sobre teatro, segundo De Marco, 

desenvolvem-se ao mesmo compasso de suas reflexões sobre o romance: considerar a produção nacional e estrangeira, dar igual atenção a todos os elementos de composição da obra, para criar um teatro nacional vinculado ao seu tempo, tanto do ponto de vista da linguagem __ uma imitação exata  e natural da realidade __ como do ponto de vista temático __ a vida dos indivíduos na sociedade moderna. 4

O teatro era, para Alencar, um outro espaço importante para debater questões da época, entre elas: a escravidão (“Mãe”),  a prostituição e o casamento (“As asas de um anjo” e “A expiação”).

O caráter moralizador estava muito presente em sua dramaturgia: apresentava o vício para corrigi-lo e puni-lo. Dentro dessa concepção, as atitudes de arrependimento e sofrimento seriam um exemplo para a  sociedade.

Dentro dos temas morais que Alencar evidencia, está a discussão das possibilidades de regeneração da prostituta por meio do amor e do casamento. Nesse sentido, nota-se originalidade, pois ele é que trata desse tema, pela primeira, na dramaturgia brasileira.  Observa-se,  também, uma defesa de valores burgueses, como o trabalho e a família, em um momento social marcado pelo fortalecimento da burguesia e sua  rígida moral.

A linguagem poética passa a assumir grande importância porque ela também “ocultaria a indecência do vício, ao mesmo tempo em que a denunciaria; ela silenciaria sobre os mistérios do amor ao mesmo tempo em que os revelaria”. 5

Sendo a linguagem o “véu da decência”,  o teatro e os romances urbanos podem representar e denunciar os hábitos da Corte, julgando o que é considerado erro ou vício. Assim, tanto em relação à linguagem quanto ao estilo de “As asas de um anjo” e Lucíola, Alencar desafia “a quem quer que seja que apresente uma palavra que não possa ser pronunciada pelos lábios os mais puros, escutada pelos ouvidos os mais castos;  conversa-se ali, como se conversa em qualquer sala, e a linguagem serve de véu à idéia”. 6

Diante do retrato romântico que se faz de Alencar, é preciso notar que esse quadro por vezes se modifica diante de suas convicções ligadas ao realismo teatral francês. Observa-se uma disposição de se retratar fielmente e de maneira espontânea a realidade, mas isso não se concretiza totalmente. Ele não se limitou a mostrar o lado negativo da cortesã – via nela possibilidade de regeneração, procurando revelar as vantagens do casamento e da vida em família. Nota-se, portanto, uma tensão entre a dramaturgia romântica e a realista, nas obras alencarianas aqui mencionadas.

Os românticos elevam o amor ao grau da santidade, mas também redescobrem, em termos, a prostituição e começam a vê-la sob outra perspectiva. Se o amor é uma das formas de redenção, como entender que na prostituta possa ser degradação?

Em  “As asas de um anjo”, Alencar moralizou a perdição e fez do amor o martírio de Carolina.

Seduzida pelo luxo, deseja tornar-se deslumbrante e fascinante. E a única maneira possível de realizar seu desejo é encontrar alguém que possa oferecer-lhe a concretização desse sonho. 

Carolina, vista pela ótica romântica (em oposição a Helena, encarada pelo lado da dramaturgia realista),  escolhe “a linguagem do amor e da sedução”, representada por Ribeiro, afastando-se da “linguagem da amizade e da razão”, proferida por Luís (cf. “As asas de um anjo”,  p. 229). Ela prefere o sonho, o luxo, os deslumbres da vida social do que um casamento imposto pelo pai. Aceita ser seduzida por Ribeiro, influenciada por Helena. Ao seguir o coração, renega os valores morais da família. Mas sua decisão é atenuada pelo fato de deixar a casa paterna desfalecida, carregada pelos braços do sedutor.

Ela rompe com um círculo familiar castrador do prazer, sendo este absolutamente proibido pelo código moral do meio em que vive.

Mas entedia-se e frustra-se com a tranqüilidade que essa nova situação oferecia ao lado de Ribeiro. Segue, então, Pinheiro, não por amor (apesar de acreditar que a felicidade existe somente junto a esse sentimento), mas porque sabia que a sociedade não perdoaria mais o seu sonho de “liberdade”: “No dia em que a escrava deixar o seu primeiro senhor, será para reaver a liberdade perdida” (“As asas de um anjo”, p. 234), diz a Pinheiro. Mas essa “liberdade” não a faz feliz.

E reafirma, porém, sua crença no sentimento amoroso, ao continuar o diálogo: “... se houver um homem que me ame e que me ofereça a sua vida, eu a aceitarei; porém como senhora” (“As asas de um anjo”, p. 234).

Ao perceber que o amor é sua única chance de regeneração, demonstra o que sente a Luís, mas ele recusa-se a amá-la. “__ Creia-me, Carolina. Se eu estivesse convencido da realidade desse amor, ainda assim, sacrificaria a minha felicidade à sua” (“As asas de um anjo”, p. 252), pois para ele, a mulher deveria “conservar a virgindade do coração e guardar pura sua primeira afeição” (“As asas de um anjo”, p. 252).

Carolina continua apaixonada por Luís. Seu coração deseja um amor que não poderia obter, que ainda não seria possível para ela. Pensa que deve seguir seu destino, infeliz, acalentando um sonho, pois “toda mulher, por mais desgraçada que seja, conserva sempre um cantinho puro onde se esconde a sua alma” (“As asas de um anjo”, p. 263).

Passa a guardar o que ganha, para no futuro viver em um local idílico, reforçando a idéia romântica de busca de um lugar paradisíaco, onde possa viver seu amor. Mas vê seu sonho romântico dissipado. Luís não se deixa levar pela paixão, preso que está aos valores burgueses. Jamais aceitaria viver dos frutos do pecado.

Rumo à degradação total, Carolina considera-se indigna de um amor que Luís determina que silencie.

No 4º ato, ele se dá conta da rigidez dos códigos morais que defende. E diante de Carolina doente, pobre e arrependida, o herói burguês diz: “__ Por mais injusto que seja o mundo, há sempre nele perdão e esquecimento para aqueles que se arrependem sinceramente:  onde não o há é na consciência” (“As asas de um anjo”, p. 275).

Mas ela julga-se morta em vida. Uma morte que se apresenta através da privação do corpo e da alegria, da culpa que sente e das humilhações que acha necessário passar para expiar seus pecados. Resignada diante do destino, já não se vê pertencente a esse mundo.

O epílogo vem, então, para regenerá-la e oferecer-lhe a salvação, concretizada através do arrependimento que sente e do perdão que recebe de Luís. É uma regeneração espiritual, pois seu corpo para sempre estará manchado pelo pecado. Ao aceitar a impossibilidade do amor, aceita vivê-lo apenas como “gozo do espírito”. Como alternativa, a regeneração viria, então, pelo reconhecimento da maternidade, já que havia abandonado a filha, fruto da sedução, para não sujeitar-se ao jugo que lhe havia sido imposto de permanecer fiel ao primeiro marido, para ela, opressor.

Todavia, o epílogo revela uma solução a meio caminho romântica e realista burguesa, pois a Carolina é negada a felicidade de um amor pleno. Portanto, sua regeneração não é completamente reconhecida. Por outro lado, a própria moralidade burguesa é colocada em xeque quando o castigo que ela recebe é o casamento.

Casar-se com Luís seria fugir de seu destino. Este insiste em “persegui-la”, pois Luís será seu marido perante os homens, mas perante Deus, será um amigo. O casal passa a ter uma vida em que Eros, energia primária, mostra-se reprimido em sua atuação.

Carolina demonstra querer a punição ao interiorizar seu destino; um destino pelo qual optou, mas contra o qual não consegue, sozinha, lutar. Esse destino que circunda sua vida, tem,  pois, uma dupla possibilidade. Quando se dá conta de que o amor e o casamento podem regenerá-la, a situação não se concretiza totalmente. O que a salva é, ao mesmo tempo, o que a castiga. Ela deseja a salvação; encontra-a em forma de punição.

Em “A expiação”, Carolina, através da crença em seu destino, acredita que nunca poderá ser feliz e que sua vida será “uma triste expiação” (“A expiação”, p. 251). Ela aceita seu destino, já que assim o quis (cf. “A expiação”, p. 253). Por outro lado, referendando o caráter dual desse destino, diz que com ele nasceu (cf. “A expiação”, p .256).

Ao romperem a promessa que fizeram de que a relação entre eles seria fraternal aos olhos de Deus, Carolina afoga-se em remorsos e visões do passado e Luís não suporta as lembranças, pois perdoou apenas a alma  de Carolina e, não, seu corpo.

Diz Carolina: “__ Não posso nem devo esquecer o passado. É preciso que o tenha sempre vivo e presente para me punir e reparar o mal que fiz.” (“A expiação”, p. 428).

Ela necessita expiar os erros que cometeu. Pensa que

é justo que a mulher que outrora escandalizou a sociedade e afrontou a indignação pública, de cabeça erguida e sorriso desdenhoso, se curve diante dessa mesma sociedade, esmagada pelo desprezo público, com a fronte abatida, e as faces cuspidas dos risos e olhares de escárnio que lhe atiram passando (“A expiação”, p. 430).

Ou seja, Carolina se impõe um castigo diante da sociedade, disposta a sofrer grandes humilhações.

Seu amor é sofrimento e culpa. E é através desse sofrimento que expia sua culpa.  Sendo seu corpo fonte de pecado, sente-se imunda e compreende o afastamento de Luís.  Conversando com Menezes, diz:

... Diga, pensa que seja possível amar uma mulher a quem se causa horror? ... Se meu marido aproximava-se  de mim gelava-se-me o coração;  se me fazia uma carícia, derramava-se por todo o meu ser tal angústia e espanto, que  perdia a razão.  Depois que essa paixão me tinha assim flagelado, deixava-me agonizando, como a vítima que fustigaram até o fim ... Mas não era sangue, era a alma que me dilaceravam! (“A expiação”, p. 440)

Para ela, esse tipo de amor é flagelo e nele não há felicidade: “Devia saber que estava morta para o amor” (“A expiação”, p. 441).

A morte em vida, para Carolina, é a solução, é seu destino e ela sente trazê-la consigo;  é “uma defunta viva” (“A expiação”, p. 471), pois pensa ser desprezada pela filha e não ser mais amada por Luís e ser desprezada pela sociedade.

Mas para os amigos, “Carolina ainda pode ser feliz; mas para isso é preciso que se veja rodeada de respeito e da estima do mundo: isso destruiria a desconfiança em que vive” (“A expiação”, p. 451). E somente o santuário da família seria o refúgio para as almas que se regeneraram “por uma sublime expiação”.

Novamente, o epílogo a abençoa quando lhe são reafirmados o amor da filha, de Luís e o respeito dos amigos.

Nota-se que a  fatalidade se cumpriu no momento em que rompeu o pacto de pureza em seu casamento e, como conseqüência, passou a ser rejeitada pelo marido: “Súbito, o amor ardente do marido se apaga como chama fugace”.7 Foi assim, castigada pelo ato que cometeu.

Mas, com ela, o destino não foi tão impiedoso, assim! Em menos de uma semana, Luís voltou a amá-la.

Observa-se, então, que as situações que representam fatalidade ficam diluídas; até mesmo a possibilidade de incesto entre Lina e Frederico é descartada. O processo de expiação por que passa torna a heroína nobre e elevada.

Em “As asas de um anjo”, Carolina opta por uma vida e, posteriormente, com ela se conflitua. Ou seja, fez uma opção, mas ao estabelecer o conflito com a situação escolhida, mostra que mantinha, interiorizados, valores anteriores. Assume seus desejos, prazeres e extravagâncias, mas não satisfaz sua alma.

Em “A expiação”, deseja concretizar seu amor por Luís, mas ao fazê-lo, arrepende-se.  Mesmo estando casada, não se afasta dos valores de um tempo passado que não permitem sua felicidade no tempo presente. Desejando o prazer, tortura-se, pois é imunda para o amor.

Mas, como no final da peça aceita-se Carolina, devolvendo-lhe a família, o maior patrimônio da sociedade burguesa, observa-se que ela não foi mais uma vítima do minotauro!  

 

3.2 - JOANA:  RAINHA  OU  ESCRAVA?

Na peça “Mãe” (1860), a situação em cena é dramática: Joana, uma escrava, mora na mesma casa de Jorge, seu filho branco, de quem esconde sua identidade de mãe, tratando-o como seu senhor. Ela se submete a humilhações e sofrimentos para não ter esse segredo revelado.

Jorge é apaixonado por Elisa, cujo pai está endividado e ameaça se matar, já que não consegue resolver seus problemas financeiros. Ao perguntar à filha se era a fatalidade que o arrancaria de seus braços, ela se desespera e pede ajuda a Jorge.

Ele tenta várias saídas para ajudar a família de Elisa, deixando a amada com esperanças de que conseguiria uma solução.

Paralelamente a esse problema, Joana revê a única pessoa que conhece seu segredo, o Dr. Lima, que a deixa ansiosa diante da possibilidade de não se conter e revelar o que sabe.

As tentativas de Jorge fracassam e resta-lhe hipotecar Joana, seu maior “patrimônio”.  Por ela encorajado,  assim o faz, apesar da carta de alforria que havia lhe dado nesse dia.

Quando tudo se resolve para a família de Elisa, Dr. Lima revela a Jorge que este havia vendido a própria mãe.

O final é trágico: Joana, ao escutar a revelação, se mata com um veneno oferecido indiretamente pelo filho. Cumpre-se,  então, o que ela havia dito antes: “No dia em que ele souber que eu sou ... que eu sou ... Nesse dia Joana vai rezar ao céu por seu nhonhô” (“Mãe”, p. 272).

Apesar de essa peça guardar marcas do realismo dramático francês, “mostrando e punindo” aqueles que não respeitam a família, a amizade, o trabalho e a honestidade, permanece nela uma visão de mundo romântica. Jorge, por exemplo, reconhece Joana como sua  mãe, sem conflitos, apesar de viver em uma sociedade escravocrata. Gesto que reforça, também, a “moda” alencariana de “corrigir” erros e preconceitos da sociedade, mas sem conseguir aprofundar a análise e propor soluções.

Joana sacrifica sua própria vida e a maternidade em prol do amor filial. Abnegada, leva seu sacrifício às últimas conseqüências para que Jorge não se envergonhe dela,  “pois meu filho havia de ser escravo como eu? Eu havia de lhe dar a vida para que um dia quisesse mal à sua mãe?” (“Mãe”, p. 273)

“Numa análise rigorosa, podemos inclusive afirmar que o amor de Joana por Jorge é  distorcido e deformado, ainda que imenso, pois ela adora não o filho, mas o filho branco” .8

Percebe-se na atitude extremada de Joana, acima de tudo, reflexo de um amor materno “deturpado”, mesmo tendo Alencar ventilado a possibilidade de a peça conter índices antiescravistas e “exemplos” para a regeneração da sociedade.

Joana se pune diante da possibilidade de Jorge ter vergonha de suas origens e revoltar-se contra ela. Essa autopunição e esse cativeiro d’alma  têm como objetivo primeiro não deixar Jorge ser discriminado pela sociedade. Ela se julga mais feliz sendo escrava do que se fosse forra. Ela não se passa por escrava, mas pensa ser realmente escrava de Jorge e dele não se vê afastada.

Opta por nada falar ao filho, impondo-se um martírio e desejando que o mistério dure para sempre. Por outro lado, pede a Deus: “__ Matai-me antes que eu veja essa desgraça” (“Mãe”, p. 272) revelada.

A vontade de morrer já estava presente desde o momento da concepção: “Deu-me vontade de morrer para que ele não nascesse ... Mas isso era possível? ... Não, Joana devia viver” (“Mãe”, p.273) para expiar a culpa de ser mãe/escrava e de ter gerado um filho fruto de uma relação “ilícita” .

Escrava de seu medo, de sua culpa, da própria sociedade e dilacerada por um conflito, teme.  E se um dia o inocente menino ao ler no sorriso de escárnio da sociedade a vergonha de seu nascimento, der um grito de indignação para acusá-la?

Joana permanece angustiada pela dualidade presente em seu ser: mãe e escrava; enquanto mãe, não quer separar-se do filho; enquanto escrava, não quer ser reconhecida como mãe. Diante desses opostos, para ela, inconciliáveis, cumpre o destino por ela anunciado:  morrer se o filho descobrir a verdade. E a fatalidade se consome de maneira trágica e radical.

Jorge desencadeia, ainda que indiretamente, o destino fatal da mãe, configurado pelo momento em que ela se envenena. Ao negar o espaço para o amor pleno, não contando a verdade ao filho, o destino trágico se cumpre na vida de Joana.  

 

3.3 - MARIA DA GLÓRIA E LÚCIA: FACES DE UM LEQUE DE PENAS ESCARLATES

Mesmo levando-se em consideração o caráter de réplica e de parte importante no projeto de construção de uma literatura nacional, o direcionamento aqui escolhido para uma possível leitura de Lucíola é o de traçar um fio que conduza e reafirme, em Lúcia, a fatalidade subjacente à questão amorosa.

Lúcia veio para ser a expiação de Carolina. Seu sofrimento, sua solidão e a percepção do abismo que existe entre amor e prazer, corpo e alma, presente e futuro, realidade e sonho são, para ela, maiores e intransponíveis. Em sua vida, o destino é o único guia, mesmo que  carregue, em si, objetivos de mudança.

Ela consegue retornar à pureza, mas não consegue resgatar sua pureza. Em sua vida não há mais possibilidade de purificação nem de síntese integradora;  apenas, redenção.

Essa redenção é acompanhada de castigo e autopunição, pois o amor torna-se impossível de ser concretizado. O casamento jamais é cogitado por ela ou Paulo, atitude que reforça a moral burguesa da época.

É no espaço do passado e da memória que ela busca explicar a separação de seu corpo e de sua alma. Assim, o passado atua como revelação, sendo também, fonte de negação da cortesã que era. Ao resgatar seu passado, promove a junção da fratura que existia entre esse passado e o futuro: é sua libertação.

O amor é pecado e culpa: “O amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe” (Lucíola, cap. XV, p. 82). Envolvida  pelo amor, resta-lhe punir-se.

Na visão romântica que estrutura a narrativa, o amor físico está separado do amor espiritual. Esta dicotomia presente na concepção romântica de amor faz com que Lúcia, ao desejar o prazer, não consiga ultrapassar o obstáculo que a impede de alcançar um amor pleno. Não conseguindo livrar-se do peso da carne, essa contradição perdura em seu ser.

Ao perceber-se apaixonada, começa a negar o corpo aos amantes e, posteriormente, a Paulo, passando a amá-lo fraternalmente. Apenas dessa forma consegue fortalecer seu espírito, que não pode mais ser profanado pelos desejos da carne. Diz a Paulo, ao concordar que era feliz com o prazer que sentia com ele: “__ É verdade! Esse tempo foi uma eternidade de delícias para mim; desejava até, louca que eu era!... desejava que fosse possível morrermos assim um no outro... uma só vida extinguindo-se num só corpo! Mas passou!... Devia passar!” (Lucíola, cap. XVIII, p.101)

Quando se arrepende da vida que leva  é que se dá conta do alheamento em que vivia ao entregar seu corpo ao prazer, dissociado da alma. Lúcia, então, impõe-se uma marginalização social e afetiva, afastando-se fisicamente de Paulo e refugiando-se nas proximidades da cidade, buscando uma dupla pureza:  a do meio físico e a dos costumes. Muda-se para Santa Tereza, começa a bordar, a estudar francês e a ficar mais recolhida em casa.

Mas seus conflitos não são solucionados. Seus opostos convivem, dilacerando-a. Lúcia ainda deseja. Tanto o é, que em uma das cenas finais busca o carinho de Paulo:

De repente, Lúcia atirou-se a mim. Com uma arrebatada veemência esmagou na minha boca os lábios túrgidos, como se os prurisse fome de beijos que a devorava. Mas desprendeu-se logo dos meus braços, e fugiu veloz, ardendo em rubor, sorvendo num soluço o seu último beijo (Lucíola, cap. XXI, p.118).

Lúcia e Maria da Glória expressam a dualidade do ser,  a distância entre o desejo físico e o anseio espiritual, as contradições entre o amor e o prazer, entre corpo e alma, entre o passado e o presente. Esse caráter dual é, também, reforço das idéias românticas acerca da pureza, da sensualidade e do amor.

Com a aproximação da morte, Lúcia fala a Paulo de seus sentimentos: “Fui tua esposa no céu! E contudo essa palavra divina do amor, minha boca não a devia profanar, enquanto viva. Ela será meu último suspiro” (Lucíola, cap. XXI, p. 126).

O fatalismo romântico leva Lúcia à morte, ou seja, à destruição do corpo que a fez pecar. A morte é sua expiação; é o sinal de que houve total anulação do corpo; é o cumprimento de uma pena; é o pagamento de sua culpa, pois é impossível redimir-se. O amor que viveu era proibido pela sociedade e por ela mesma. A morte é a única chance possível para que o amor espiritual possa permanecer.

Em Lucíola, concretiza-se mais radicalmente a idéia do fatalismo romântico. “O sacrifício de sua vida deveria se consumir” (Lucíola, cap. XIX, p. 110), pois tinha diante de si “o profundo abismo da depravação” (Lucíola, cap. XIX, p.111). Mesmo tendo traçado objetivos de mudança de vida, Lúcia introjeta valores que a sociedade impõe e não consegue deles se livrar. Para ela, não há perdão: este é o preço que paga pela vida que leva e que a ela foi levada, pois ignorava, no início, o que eram honra e virtude da mulher.Apesar de o destino ter colocado Paulo em sua vida, ele não assume, perante a sociedade, o amor que os une.

Dentro dessa perspectiva fatalista, Lúcia não aceita a remissão máxima de sua culpa,  que seria através da maternidade. Renega-a, pois nasceria vida nova onde não poderia mais haver vida. Caminha para a morte antecipada, pois já havia morrido “para o mundo e para a família” (Lucíola, cap. XIX, p. 110).  

 

4 - LÚCIA:  “SAUDÁVEL TRAIÇÃO”

Como já foi dito, Lúcia não se limita a homenagear Alencar, tampouco a parodiá-lo.  Dentre tantas leituras que a obra sugere, propõe-se, agora, continuar as trilhas da perspectiva amorosa, naquilo que tange à fatalidade que circunda a vida de Lúcia, personagem dual e trágico, relacionando-a com as personagens alencarianas aqui estudadas, buscando pontos convergentes e divergente entre elas.

Em 1955, Paulo da Silva Rocha, professor universitário, encontra-se com Lúcia no adro da Igreja da Glória. Acompanhado pelo mestre José de Alencar, “eminente gramático e grande polemista, defensor intransigente da língua pátria” (Lúcia, p. 15), é por este apresentado a ela.

Na visão de Paulo, Lúcia é “uma linda moça” (Lúcia, p. 21). Para Alencar, “uma mulher bonita” (Lúcia, p. 24). Impressionado, busca na memória onde a tinha visto. E redescobre-a, alguns anos antes, no dia de sua formatura no Curso Secundário, na praça Afonso Pena. A menina de cabelos louros, “garota enxuta” (Lúcia, p. 32), esperava o lotação.  Ao subir os degraus, deixa cair uma prancheta. Paulo reage rápido e devolve-lhe o objeto. Nesse instante,  percebe que ela não é feliz.

Voltando ao presente da narrativa, Paulo vê-se envolvido com “a vida universitária que tem mil seduções que arrebatam um cidadão aos seus hábitos, o atordoam e preocupam tanto, que só ao cabo de algum tempo o restituem à posse de si mesmo e ao livre uso de sua pessoa” (Lúcia, p. 39).

Em uma bela manhã, “sem mais o que fazer” (Lúcia, p. 40), resolve visitar Lúcia,  que mora na rua Taylor. Ao chegar lá, encontra uma Lúcia negra, “de cabelos igualmente negros e longos” (Lúcia, p. 47). E Paulo tinha “a certeza quase absoluta __ de que a menina linda, com que esbarrara, no ponto da lotação anos atrás, era loura!” (Lúcia, p. 48)

Paulo confunde-se e nada entende:

Não me lembrava, desorientado, naquele dia, dentro do apartamento de Lúcia, e não me lembro agora.  Nem agora eu tenho certeza se, no nosso primeiro encontro, ou esbarrão, a Lúcia era loura ou morena (ou melhor, negra).  Se os olhos de Lúcia eram negros ou verdes  (Lúcia, p. 49).

O que ele “sabia, todavia, é que sombras emolduravam aquele olhar, evocando tão somente tragédias familiares” (Lúcia, p. 50).

Perturba-o o fato de existirem duas Lúcias, ainda mais que uma delas tornou-se sua aluna na faculdade. “Tinham de ser duas Lúcias, pensava eu, tentando me convencer. Não ficava muito convencido” (Lúcia, p. 56). “E se Lúcia e Lúcia fossem de fato apenas uma só, tão-somente Lúcia, não mais do que um só fantasma __ fruto amargo de um desejo que brigasse contra a razão que me restava?” (Lúcia, p.134)  “Como duas irmãs gêmeas tão iguais e tão diferentes eram possíveis, eram simultaneamente possíveis para mim?” (Lúcia, p. 142) “Ali jazia uma dúvida atroz. Só sabia que eu mesmo recuperava a paz se enterrasse essa pergunta.” (Lúcia, p. 143). “Enfim entendo que Lúcia e Lúcia existem e são duas, embora ainda não saiba quem nasceu primeiro para mim” (Lúcia, p. 144).

Paulo quer, mas não consegue controlar os segredos da vida de Lúcia(s). Deseja descobrir ou enxergar tudo, mas não se dá conta de que há uma Lúcia e outra Lúcia, plurais e únicas. Busca singularidade, unicidade e desvãos escondidos em cada ser, mas que não são possíveis de encontrar.

Ao envolver-se com Lúcia (s), Paulo depara-se com situações trágicas: adultério, suicídio, incesto, paixões avassaladoras. Vê-se dentro de um labirinto ao buscar saídas para suas interrogações. Procura, então, Alencar, para que este possa ajudá-lo a desvendar os mistérios e as dúvidas que o dilaceram. “Respostas” começam a surgir, mesmo que provisórias, em meio ao desmascaramento moral do mestre. Vem à tona toda uma tragicidade que envolve a vida de Lúcia(s).

Paulo da Silva “Rocha (esfarelada)” (Lúcia, p. 178) desmorona diante dos paradoxos que circundam a razão humana, mas mantém a certeza de que é possível reconstruir um sonho, mesmo que apenas por um momento. A narrativa ganha ponto final gerando um desenlace multifacetado.  

 

4.1 -                OCULTAR OU REVELAR: EIS A QUESTÃO DEBRUÇADA SOBRE UMA PRANCHETA

Contrariando o percurso natural que seria o de fazer uma leitura de Lúcia tendo como ligação básica e primeira, Lucíola, buscar-se-á, a partir de agora, também outras referências possíveis, advindas de alusões a peças teatrais de Alencar, que ajudam a resgatar o fio que une e que também separa essas obras, e que traz a  marca da fatalidade e da tragicidade que as envolve em torno da questão amorosa.

O que seria, a princípio, uma “homenagem a Alencar”, é antes um combate positivo ao “José, aquele que fundou a ficção brasileira” (Lúcia, p. 61), devido às diferenças que separam os olhares dos dois autores.

Paulo, personagem romântico, depara-se com opostos: de um lado, uma Lúcia lasciva,  “abismo de sensualidade” (Lúcia, p.72); de outro, uma Lúcia mais pura. Ambíguas, pecadoras  e santas, castas e sensuais, povoam o seu universo imaginário, numa fusão de raças: “cor de furta-cor: brasileiras” (Lúcia, p.132), de perdição e pureza, metamorfoseando-se ora em negra ora em loira, buscando o sentido do ser feminino e suas implicações na sociedade atual.

“Eu me encontrava apaixonado, ou tão-somente intrigado? Se paixão fosse, era por Lúcia a negra, que me amara como uma aranha negra, ou por Lúcia a loura, que me dera a mão como a namorada que nunca tive?” (Lúcia, p.11) __ indaga Paulo.

Vivendo um amor fatal, proibido, além de convenções sociais, Paulo retoma com seus alunos o código medieval do amor cortês e acredita ter “a certeza dos contos de fadas, de que sim, uma delas havia de ter vindo ao mundo tão-somente para encontrá-lo, e ele a ela” (Lúcia, p.144). Encontro marcado pela fatalidade, já anunciada pelos sinos pungentes da igreja, no início da narrativa. Algo seria consumado.

Lúcia surge como uma menina, aos olhos de Paulo, e como uma mulher, aos olhos do professor Alencar: inocência e vício, castidade e lascívia, ingenuidade e experiência, simplicidade e ironia, recato e extravagância, quase-sorriso e sorriso, lampiro ou torpe inseto, negra ou loira. Dupla(s) na origem, na dor, na sensualidade, nas atitudes, “em negativo uma da outra (negando uma a outra)” e assumindo uma a outra, carrega(m) sentimentos conflitantes, culpando-se e arrependendo-se, trazendo no olhar límpido, sereno, porém, melancólico, a certeza de quem já conhece ou prevê o destino e sem forças ou poderes para mudá-lo. Torna(m)-se escrava(s), como Joana, “dos limites do nosso mundo” (Lúcia,  p.60).

Filha da dor e do “ilícito” (como Jorge), Lúcia conhece o segredo do pai. Dilacerada pelo ódio que  sente por ele e pelo amor devotado à irmã, não pode libertar-se, limitando-se a sofrer, e nada consegue fazer contra essa luta interna.

Emudecida pelas circunstâncias e pelos laços de sangue, os mesmos laços que, outrora, desataram  a língua de tantas heroínas trágicas. Precisa agüentar a sua dor sozinha, absolutamente sozinha, sem poder compartilhar com ninguém. Nem com o seu amor. Nem com a sua irmã. Muito menos com sua irmã (Lúcia, p. 156).

Lúcia sabe que “somos ao mesmo tempo o animal, o homem e o moribundo” (Lúcia, p. 157). Precisa suportar a carga pesada desse segredo como o fez Joana: “Quantas vezes a revelação não perturba as relações de pessoas que se estimam, e não acarreta sobre elas o opróbrio e a desonra...” (“Mãe”, p. 281).

Lúcia negra, “mas tão bonita”(Lúcia, p. 47), cor de Joana: escravas humildes, prontas a obedecer o destino. Em pagamento a tanta submissão,  só não querem ser afastadas do amor, apesar da impossibilidade de vivê-lo plenamente. Ambas guardam um segredo que haviam prometido a si mesmas levar para o túmulo. Mas a fatalidade interrompe o “caminho da mentira” (Lúcia, p.165), para que elas se matem. A própria vida de Lúcia a encaminha para a morte, por isso não é banida da sociedade como Lucíola ou Carolina.

Filha da traição, Lúcia(s) nasceu em um tanque de lama. Sentindo-se lama, sabe que quieta, deixa a água pura. Mas se mexida ou tocada,  caminha para a morte. Nem mesmo a aproximação de Paulo, através do amor, rompe a cadeia do destino. Ao contrário, ele o reforça,  pois tanto para Lúcia(s) quanto para Lucíola, o prazer foi a certeza da morte.

Ao delírio sucedera prostração absoluta, orgasmo da constituição violentamente abalada. Vendo então esse corpo inerte e pasmo, com os olhos vítreos e as mãos crispadas, tive dó e como um pressentimento de  que a vida o abandonaria breve (Lucíola, cap. IV, p. 26).

“Ao delírio sucedera a prostração, um corpo inerte e pasmo, os olhos vítreos e as mãos crispadas, os pés apertando um ao outro como se congelassem” (Lúcia, p. 73).

Regidas por contradições e pela fatalidade, separam o desejar do poder desejar, como Carolina:  desesperadas com o desejo “ou desejando o desespero”? (Lúcia, p. 73)

Para Lúcia, o enamoramento pode ser um labirinto: há expectativa de se achar luz, mas também há sombras. Dentro desse labirinto, o ser humano é peça de um jogo que ele mesmo joga, ou seja, faz seu caminho, mas a estrada já existe. Desse labirinto pode sair quem for herói, já que é um trágico desafio.

“A única saída do sofrido labirinto pessoal encontra-se na castidade. É a única maneira de refazer o profanado invólucro da alma ofendida” (Lúcia, p. 117), diz o professor Alencar. E continua: essa história “parece saída de um rascunho de Nelson Rodrigues” (Lúcia, p.118).  Este, por sua vez, conclama: “A única solução para o problema sexual é a castidade. Só a castidade é força, é potência absoluta”. 9

O desfecho trágico de Lúcia reflete o pensamento rodriguiano acerca do amor e da morte, no sentido de sublinhar o absurdo da existência humana e lembrar a fatalidade da tragédia, na qual a culpa dos pais recai sobre os filhos, encadeando a maldição familiar, da qual não se pode fugir. O destino abate-se sobre Lúcia(s), que não acredita na possibilidade de felicidade, passada ou futura.

Por outro lado, a fatalidade na vida de Lúcia(s) vem do íntimo, como uma força avassaladora, que a detém, irremediavelmente, e a leva para o abismo. Quando Paulo a possui, é acionado seu aniquilamento. Ela não consegue deter o destino. Observa-se, nela, uma vocação para o abismo que determina seu comportamento e ela não consegue reger suas ações, por motivos que lhe são incontroláveis. O amor presente, atual, que sente por Paulo, não é capaz de mudar seu destino; apenas reforça o fato de não haver outra saída. “A morte é solúvel porque desemboca na eternidade. O amor é insolúvel”.10  

 

 

5 - CONCLUSÃO

No transcorrer deste estudo, procurou-se fazer uma leitura de Lucíola,  “As asas de um anjo”,  “A expiação”, “Mãe” e Lúcia sendo o amor o fio condutor e observando como a fatalidade se faz presente, em maior ou menor intensidade, nas relações amorosas de personagens que apresentam a marca da dualidade.

Observou-se que Alencar, em Lucíola, endossa a ideologia cristã de que o amor, para ser pleno, precisa manter uma pureza que só existe através da anulação da carne na relação amorosa. Por outro lado, ao consagrar esse sentimento, começa a ver com outros olhos a questão da prostituição. Não consegue resolver o conflito, pois, para ele, o amor, sentimento divino, aparece como  passível de degradação. Segundo sua visão, o corpo é algo perturbador; observação comprovada a partir do momento em que Lúcia “silencia” seu corpo, Paulo se “tranqüiliza” e a narrativa perde um pouco de sua carga dramática. O romance se identifica com um tipo de amor ligado à castidade sexual, no qual os sentimentos são escondidos, o corpo é destruído e há total impossibilidade de se viver um amor com uma cortesã; para ela não há perdão.

Lucíola congrega seu sofrimento mais o de Carolina, levando às últimas conseqüências a idéia do fatalismo romântico. Caminha para a morte, pois acredita que essa é a única forma possível de expiação de seus pecados e de realização amorosa espiritual com Paulo, já que não pode ser sua esposa na terra.

O destino é mais complacente com Carolina, em “As asas de um anjo”: absolve-a através do casamento, mas este é sua punição, pois nãos se concretiza em todos os níveis.

Tanto Carolina quanto Lucíola desejam o prazer, mas a supressão do corpo na relação amorosa é condição primeira para que ocorra o processo de expiação de suas culpas. A salvação só é conquistada com o abafamento dos impulsos sexuais.

Em “A expiação”, Carolina não consegue dissociar o sexo da idéia de pecado, passando por um processo de autopunição, pois o presente não a libertou do passado. Seu destino de morrer em vida é comprovado pela “recaída” que tem com o marido. Essa atitude gera seu sofrimento. Mas, ao contrário de Lucíola, afasta-se da radicalidade do destino.

Joana, na peça “Mãe”, devorada também por culpas e pela dicotomia mãe e escrava, não vive a plenitude do amor materno. Ser duplo, carrega em si a marca da tragicidade e da fatalidade.

Mesmo Carolina sendo anjo e Lucíola,  luz,  fez-se necessário punir os desvios e deixar prevalecer um forte sentimento de culpa, para que ocorresse a expiação, chegando-se a uma forma radical de rejeição do mundo, através da morte, em Lucíola.

E assim, o fio do amor atravessa séculos carregando a luminosidade, mas também a sombra, a luta pela concretização de desejos, mas também a dificuldade de contra eles lutar.

Acreditando que “o triunfo do homem é breve” (Lúcia, p.59), Paulo, em Lúcia, sente-se um rei ou um herói por ter amado. Esse amor deu-lhe uma razão de existir, preenchendo o vazio de sua existência, que “tinha a cor de um quadro negro e a estrutura sintática de um glossário: não era muito interessante. Era, mesmo, desinteressante” (Lúcia, p.64). Mesmo tendo sido um “amor tão intenso quanto fugaz que me transformara de personagem a herói” (Lúcia, p.180), “o herói dos crepúsculos” (Lúcia, p. 180), sentia-se “algo muito além de um homem” (Lúcia, p.180).

Em sua trajetória solitária, o homem acredita na possibilidade do amor, ou pelo menos, que ele exista. Essa crença é também seu conflito, pois há uma luta entre os terríveis desencontros e a eternidade desse sentimento.

Mesmo que conflitante, essa visão de amor está presente em Lúcia, ao lado, também, de uma fatalidade que vem de forças internas, fazendo com que Lúcia(s) sinta necessidade de punição, transformando em fatalidade sua trajetória amorosa. Ela age por intermédio de uma força irresistível e terrivelmente poderosa. Para ela, a morte não é regeneração, mas a representação do absurdo gerado pela fatalidade humana, visto através da radicalidade do vazio de sua vida.

Lúcia experimenta o amor selvagem, o amor desespero, o amor carnal:

Eu o amei por séculos, eu o amei por duas numa só, amei por duas num só corpo, amei como menina assanhada, amei como adolescente envergonhada, amei como mulher realizada, amei como filha traída, amei como mãe ensandecida, amei como senhora respeitável, amei como uma velha irônica (Lúcia, p.131).

Plural, Lúcia ama várias espécies de amor, sendo ele energia, força  que impulsiona, sexo e sensualidade, Eros. Lúcia é dupla em corpo, não em alma: seu amor não é metafísico, é biológico.

Desfigura-se, com fugacidade, deixando o passado sufocado pelo presente. Carrega o peso da culpa, pagando com o preço da morte também em vida. Sua ambivalência rege desejos contraditórios. A morte passa a ser sua opção de vida, constituindo um componente de tragicidade em seu destino. A pressão que sofre é interna e externa, reforçando-se mutuamente e terminando por sucumbi-la.

Paradoxalmente, torna-se impossível fugir do destino e há, ao mesmo tempo,  vigilância para cumpri-lo. O castigo é uma escolha e uma ordem superior. Uma necessidade acima se impõe  a Lúcia, mas ela se apropria dessa necessidade e passa a desejá-la.

Contrário a Alencar, Bernardo protesta e critica a anulação do corpo em prol da salvação da alma, mesmo tendo Lúcia, de alguma maneira, sido impedida de concretizar o prazer absoluto.

Em Lúcia, nota-se o peso da fatalidade na tragédia que envolve sua vida, pois o que existe é a ausência de saída para seu drama, não se encontrando possibilidades de “respostas” para as angústias humanas acerca da vida e da morte, do corpo e do espírito.

Carolina, Joana, Lucíola e Lúcia: seres contraditórios, que desejam o amor pleno,  mas que tornam-se escravas da culpa que sentem, punindo-se. Mulheres que amam e que carregam vozes contrárias. Duplas em seus conflitos, percorrem caminhos diversos e que por vezes, se cruzam. Arrastadas que são por pólos opostos, puras ou perdidas, ora sujeito ora objeto, traçam fios de um destino (in)certo.  

 

 

 

NOTAS  

1. DE MARCO, Valéria. O império da cortesã. Lucíola: um perfil de Alencar. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p.1

2.    SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000. p. 38

3.    Entrevista de Gustavo Bernardo, concedida no dia 10 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro.

4.      DE MARCO,  p. 25

5.      Ibidem, p. 29

6.    COUTINHO, Afrânio org. As asas de um anjo. Advertência e Prólogo da 1ª edição. In:---. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas, 1980. v. 1, p. 111.

7. ALENCAR, José de. A expiação. Pós-escrito. In: ---. Obra completa. 2ª ed. Rio de Janeiro:  Aguilar, 1964. v. IV, p. 415.

8.    FARIA, João Roberto. José de Alencar e o teatro. São Paulo: Perspectiva/EDUSP, 1987. p.107.

9. RODRIGUES, Nelson. Entrevista concedida em 15 de maio de 1952. In: ---. Revista Veredas, nov. 2000. p.23

10.    Ibidem, p. 25  

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

 

1.       ALENCAR, José de.  Lucíola. São Paulo: Ática. 2000.

2.       ------. Como e por que sou romancista. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.

3.        ------. As asas de um anjo. In: ---. Obra completa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. v. IV, p. 213-290.

4.        ------. A mãe. In: ---. Obra completa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. v. IV, p. 291-348.

5.        ------. A expiação. In: ---. Obra completa.  2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. v. IV, p. 413-476.

6.       ------. Senhora. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d.

7.        APPEL, Myrna. Idéias encenadas: O teatro de Alencar. Porto Alegre, UFRGS, Fac. de Letras, 1980, 215 fl, mimeo. Dissertação de Mestrado.

8.        BASTOS, Dau. Lúcia, a história de uma obsessiva paixão pelo romantismo de Alencar. O Globo, Rio de Janeiro, 25 set 1999, p. 4.

9.       BERNARDO, Gustavo. Lúcia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

10.     ------.  O estatuto da traição. Range Rede. Rio de Janeiro, (4): primavera de 1998, p. 52-59.

11.     CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira:  momentos decisivos. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. v.2, p.9-22; 211-215; 221-235.

12.     CHEVALIER, Jean & GHERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 13ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.

13.     CHIARA, Ana.  A paixão do escândalo:  Nelson Rodrigues, o homem que chora por um olho só. Range Rede. Rio de Janeiro, (4): primavera de 1998, p.17-23.

14.     COUTINHO, Afrânio, org. O que é ser brasileiro. In: ---. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas, 1980. v.1, p. 80 - 250.

15.     DE MARCO, Valéria. O império da cortesã. Lucíola: um perfil de Alencar. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

16.   DUMAS FILHO, Alexandre. A dama das camélias. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d.

17.    FARIA, João Roberto. José de Alencar e o teatro. São Paulo: Perspectiva/EDUSP, 1987.

18.     FERRAZ, Eucanaã. Dorotéia: tragédia irresponsável. Range Rede. Rio de Janeiro, (4):  primavera de 1998, p. 40-51.

19.     FREITAS, Maria Eurides Pitombeira.