DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

Obra de Flusser ganha nova edição
Ricardo Mendes

 

Resenha de Língua e realidade,
publicada em Jornal do Brasil
de 06/11/2004
.

Após uma ausência prolongada do mercado editorial brasileiro, os lançamentos recentes de livros do filósofo Vilém Flusser (1920-1991) tiveram a mesma trajetória, esgotando-se rapidamente. Sai agora pela editora Annablume o sexto título em cinco anos: Língua e realidade, editado pela primeira vez há 41 anos.

A edição atual, embora simples, vem cercada de alguns cuidados, procurando informar uma nova geração de leitores. Sob a capa púrpura, o texto original é acompanhado de um apêndice de imagens e parte da vasta bibliografia flusseriana, além dos ensaios de Baitello e Gustavo Bernardo, responsável pela revisão técnica. Tal atenção, porém, revela-se insuficiente.

Nem as imagens, nem a relação de livros acrescentam dados relevantes, não permitindo ter uma idéia da trajetória intelectual de Flusser. Os textos de apresentação distinguem-se mais pelo tom entusiasmado e em procurar responder a críticas à edição original, em especial aquelas feitas por Anatol Rosenfeld (1912-1973). Perde-se a oportunidade de comentar a operacionalidade da obra de Flusser, de propor modelos para sua análise.

E a leitura de Língua e realidade revela a excepcional oportunidade dessa proposta. Para os leitores que já tiveram algum contato com outras obras de Flusser, a edição permite descobrir o grau de integridade e coerência de uma produção, cujo autor foi acusado muitas vezes de dispersivo e não-sistêmico. Sem ter encaminhado sua obra teórica posterior para a lingüística ou para o campo da lógica formal, Flusser traça um modelo integrativo para o entendimento da língua, conceito tomado em toda a extensão das linguagens verbais e não-verbais.

Contudo, é preciso reforçar o papel de difusão e análise da produção do autor realizado pelos especialistas envolvidos na edição. Gustavo Bernardo é certamente o principal estudioso brasileiro da obra de Flusser, envolvido em várias das edições recentes, bem como por sua atividade no programa de pós-graduação em literatura comparada da Uerj. Baitello, por sua vez, que integra o corpo docente da PUC-São Paulo, responde não só pela coordenação desta coleção, que deve brevemente incluir novos títulos de Flusser, como também pela discussão sobre o autor nas atividades da universidade.

A proposta apresentada em Língua e realidade é aparentemente simples. Cada língua, cada grupo lingüístico, estabelece um cosmos conceitual que media a relação com a realidade. Esse cosmos seria o resultado de como a língua forma, cria e propaga realidades. O modelo apresentado por Flusser constitui um esforço integrativo que representa, visto aos olhos de hoje, um mapa de ação.

Flusser, migrante judeu nascido em Praga, e radicado no Brasil em São Paulo, desde o início dos anos 40, realiza aqui, isolado, toda sua fase de aprendizado e maturação teórica. Apenas no fim da década de 50, com quase 40 anos, passa a atuar como professor de filosofia e articulista na imprensa, em especial no Suplemento Literário editado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Para seus leitores e alunos de então, a percepção de sua produção divide-se entre o dileto professor de filosofia e o ensaísta dedicado de início à filosofia da língua, fascinado pelo potencial do português, e as primeiras incursões a setores como a cibernética, a filosofia da ciência e a teoria da comunicação.

Com o retorno à Europa, no início da década de 70, Flusser, embora mantivesse viagens regulares ao Brasil, foi se distanciando dos leitores da primeira fase. Seu último livro aqui editado em 1985, Filosofia da caixa preta, apresenta um autor que será identificado na Europa, em especial nos países de língua alemã, como o teórico das novas mídias.

Nesse contexto, Língua e realidade representa uma chave para a leitura da obra em desenvolvimento, em particular no esforço de aproximação dos campos da arte e da comunicação. Existe ainda uma outra possibilidade de compreensão dessa produção, a do espaço de ação do intelectual. Não no sentido estrito político, mas de como opera o intelecto. Mais do que reforçar macro conceitos que Flusser desenvolve em sua carreira, como sua preocupação com a tradução ou a condição do migrante, seria interessante observar como ele propõe, por meio da discussão da língua, da operação do intelecto que se dá no espaço da conversação, um modelo para o intelectual (em alguns momentos, visto em paralelo com o papel do artista na sociedade).

Flusser parte em seu primeiro livro da aproximação entre língua e realidade para discutir, de forma original, como essa aproximação cria e modifica a percepção do real. O estilo de análise do autor já está estabelecido. Embora Língua e realidade seja um dos raros livros de Flusser com uma estrutura convencional, é possível identificar a marca ensaística e a influência da fala. Esses dois aspectos distinguem sua escrita, heranças de uma atividade contínua como articulista e palestrante. A nova edição mascara em parte essa apreensão ao reforçar a subdivisão dos capítulos que na publicação original era indicada apenas ao alto das páginas.

Em sua resenha, publicada em O Estado de S. Paulo em 1964, Anatol Rosenfeld criticaria o método adotado por Flusser, acusando-o de imprecisões na manipulação dos exemplos extraídos do alemão, do grego e do português. Tais críticas ao método são muitas vezes evidentes ao leitor treinado, como no segundo capítulo em que analisa categorias conceituais da língua com abordagens por vezes surpreendentes. Ficam claros ainda alguns vícios retóricos do autor, que marcarão sua obra posterior. Em especial, revelando uma herança da produção ensaística, Flusser, ao esgotar-se um argumento ou na necessidade de encerrar o desenvolvimento de uma idéia, faz uso de protelar para o futuro a análise detalhada das diversas possibilidades entrevistas. Anos mais tarde, esse recurso adotará a forma de invocar e jogar essa esperança para os artistas.

A análise realizada a partir da aproximação língua e realidade tem um objetivo ambicioso, o de discutir a estrutura ontológica da língua e a sua relevância para análise da filosofia. Nesse quadro, Flusser vê a ciência e a filosofia como desdobramentos da pesquisa da investigação da língua. A língua surge assim como expressão maior, integrando as diversas expressões da arte; surge como obra coletiva, como produto histórico, espelho e argila.

A crítica contemporânea apontaria muitas vezes que o autor não aborda a língua como símbolo. No entanto, embora Flusser não trabalhe sobre esta vertente, mantendo-se afastado ao longo de sua produção da análise semiótica, que marcará as décadas de 60 e 70, ele não está afastado dessas perspectivas, apenas propõe outras estratégias. Por exemplo, ele nega, veemente, qualquer identidade entre língua e pensamento. Mais adiante, repudia a fusão pensamento e realidade, opondo-se a um nominalismo, pensando a língua como produto histórico, objeto socialmente elaborado.

Em seu modelo, Flusser entende a língua, em seu desenvolvimento, em três camadas, da conversação, da poesia e da prece. Ao entendimento da poesia como espaço de criação da língua, Gustavo Bernardo, no prefácio, contrapõe a provocação: quem pensa a poesia?

Se é possível apresentar uma resposta, talvez o intelecto seja uma possibilidade, este modelo que percorre a obra. O intelecto pensa a língua, intelecto como produto e produtor dela mesmo. Língua e realidade parece ter vencido a primeira etapa de sua realização, se lembrarmos o comentário final da resenha de Rosenfeld, em que afirma: ''Não concordo com quase nenhuma palavra do autor, mas espero que continue escrevendo para que possa continuar discordando dele''. Mais relevante seria lembrar parte da correspondência trocada então com o jovem escritor Paulo Leminski (1944-1989), em que se revela o encontro despertado pela leitura do livro através de poucas cartas nas quais ambos revelam suas influências. Em particular, pelo breve comentário de Leminski sobre a necessidade de rever os conceitos de misticismo e religiosidade para uma correta apreensão da análise presente neste livro.

Flusser relegou muitas tarefas para o futuro. Algumas pesquisas começam a retomar suas idéias em novo contexto. O lançamento desta segunda edição é um importante passo nessa direção, na busca de uma conversação.