DUBITO ERGO SUM

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Um adolescente em busca de sua identidade
Laura Sandroni

 

Resenha de Pedro Pedra,
publicada em O Globo
de 07/17/1982
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Publicada em SANDRONI, Laura.
Ao longo do caminho
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São Paulo: Moderna, 2003;
pp. 117-8

Primeiro lugar no Concurso Altino Arantes de Literatura Juvenil, promovido pela Biblioteca Cultural de Ribeirão Preto em 1981, Pedro Pedra, agora publicado, revela ao público um novo e talentoso escritor: Gustavo Bernardo.

O texto trata da adolescência, com suas dúvidas, angústias, desejos reprimidos e sonhos. Pedro que se quer pedra. Um jovem tímido como quase todos, apenas mais consciente da própria timidez e ferozmente empenhado em superá-la. Pedro que carrega a força de seu nome, rumo a ser seguido – “Sou Pedro. Não posso ter dúvida sobre nada. Eu tenho de ser a verdade da vida”.

Mas o que é a verdade para um adolescente? É no espelho que Pedro se busca e encontra a verdade de um corpo que cresce e faz-se homem. “Todo homem é seguro de si”. Mas onde está sua segurança? No quintal da avó, por exemplo. Protegido pelo amor, junto às árvores e seus brinquedos preferidos. Protegido pelo portão de madeira que o separa dos moleques que brincam no terreno baldio. Seu rosto cabe direitinho num buraco do portão: trincheira.

Na cama mergulha em si mesmo e cisma. Seus pensamentos vão desde a idéia da morte dos pais até a de sua própria morte: angústia.

Na pedra surgem os sonhos de um futuro heróico: “Vou ao Nordeste e acabo com as secas” – esperança.

A escola como um lugar onde se exercita a reflexão – “Sei não. Ler mais, quem sabe começo a entender”.

A morte da avó é uma experiência dolorosa mas da qual sai fortalecido. Sente cada vez mais a necessidade de uma companheira com quem conversar e sonhar junto, “alguém que divida comigo as coisas”.

A narrativa se desenvolve em três tempos divididos em capítulos com títulos recorrentes. Ora fala o narrador, ora Pedro monologa. A identidade entre eles se quer total: “O que pensa Pedro? Será que ele se tocou? Se eu pudesse entrar na sua cabeça...”

O autor, baseado em sua experiência de jovem professor e numa vivência ainda próxima, busca expressar os sentimentos de todos os Pedros do Brasil. Moços preocupados com o futuro, individual e coletivo, jovens que querem deixar-se enquadrar pelas instituições repressoras, alienar-se por um imposto, perder-se numa vida sem sentido.

Em linguagem coloquial, cheia de lirismo e de jogos poéticos, Gustavo Bernardo refaz o caminho de Pedro sem medo de enfrentar alguns preconceitos: olha pelo buraco da fechadura e descreve o que vê.

Os poemas que precedem cada parte remetem a Drummond e Fernando Pessoa mas têm a força de uma visão original. Voltando aos mesmos espaços em três momentos sucessivos, o autor mostra a socialização necessária: a igreja, lugar de reunião é, num primeiro instante, onde se ouve, num segundo a sala de aula onde se reflete, num terceiro o grêmio onde se participa.

Desenvolvendo criativamente o seu discurso apoiado numa estrutura bem construída, Gustavo Bernardo realiza obra que lhe assegura, desde logo, lugar de destaque entre os ficcionistas contemporâneos.