DUBITO ERGO SUM

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O julgamento em questão

José Luís Jobim

 

 

Resenha de Quem pode julgar a primeira pedra?,
publicada nos Cadernos pedagógicos e culturais
nº 5, 1996
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Originalmente escrita como dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, esta obra de Gustavo Bernardo apresenta algumas peculiaridades notáveis, que a distinguem de suas congêneres. A primeira é a linguagem: ficarão decepcionados os que presumirem que, por se tratar de um trabalho oriundo de pós-graduação em Letras, está inevitavelmente cifrado em um código acessível apenas aos iniciados. Parece ser um ponto de honra para o autor produzir um texto fluente: “...a reflexão teórica escrita tem por obrigação ser bem escrita, sem que por isso já se admita poética” (p.28). A ressalva tem por objetivo deixar claro que ele, embora evite, sempre que possível, erigir o jargão terminológico em obstáculo ao prazer da leitura, não pretende escrever um texto teórico que aspire a transformar-se em objeto poético: “...a teoria que desejo reconhece que estuda ela mesma no objeto, sem que isto implique a indistinção criticada naquele segundo equívoco, uma vez que os lugares se sabem diferentes”(p.28).

O percurso de Gustavo Bernardo se dá muitas vezes sob a sombra de Kant, que parece evocado a partir do próprio título, e se materializa em afirmações como: “Não posso julgar o belo por conceitos, sob o risco de perdê-lo; dependo de construir as regras que tal me permitam” (p.54). Mas é interessante assinalar que ele se coloca numa perspectiva distante de pretensões universalistas ou transcendentalistas, na medida em que reconhece que sua reflexão não é conseqüência de uma confrontação de instâncias autônomas entre sujeito e objeto, mas uma construção do próprio método com que trabalha. O que não significa renunciar ao rigor:

...o rigor deve se exigir mais fino, se há a consciência de que o método escolhido faz parte da construção, metódica, do objeto; se há a consciência, em última análise ética, de que o método escolhido por um leitor crítico, para teorizar sobre a sua leitura, deve junto ler-se também, ele mesmo parte constitutiva daquele mundo que se constrói na medida mesma em que se o estuda. (p. 30)

 

Para teorizar sobre a sua leitura, Gustavo Bernardo escolheu o poema de Cacaso “O pássaro incubado” (1963), ao qual dedica o maior dos três capítulos do livro. Será que isto significaria uma análise, entendida como movimento de um sujeito para dividir o texto em seus elementos componentes, a fim de explicar suas respectivas funções? Não, pois Bernardo está longe de propor um sujeito/intérprete que se imponha ao objeto lido:

 

Na verdade, o que se propõe é determinar um evento de leitura em que sujeito e objeto, como categorias quer particulares quer genéricas, se enfraqueçam porque se estudem, num vaivém em ziguezague tais que...não sei. (p.45)

 

Esse “não sei” é sintomático, pois percorre o ensaio todo, como uma disponibilidade aberta, que não se quer limitada por apriorismos predefinidos e por isto se permite navegar sem rumo certo. Em vez da facilidade da linha reta, o ziguezague, como proposta: “...pretendo este outro caminho algo oscilante, correndo o risco de me perder aqui, ali, acolá.” (p.27)

Esta é a razão pela qual, caminhando entre a reflexão e a interpretação, o texto de Gustavo Bernardo às vezes pode parecer errático. Afinal, a ausência de uma teleologia definida, ou de um certo corpo explícito de crenças que fundamentem a sua atividade, leva à mudança contínua das questões em foco e do próprio enfoque. Assim, a leitura se configura: “... ler como se reza, embora não se creia — e é importante que não se creia. Ler enquanto cerimônia pagã; sem certezas, porém com firmeza (relativamente irônica)” (p.44).

Talvez esta contínua mudança de enfoques e questões possa gerar certa dificuldade a algum desavisado, pois às vezes são empregados termos cujos sentidos não são explicitados. Isto pode causar problemas a quem não esteja familiarizado com o campo semântico do termo utilizado, e, eventualmente, pode até redundar em um desfecho mais danoso ao entendimento do autor: o leitor, ao se deparar com um vocábulo como sublime (p. 67), por exemplo, poderá manter sua interpretação no nível do senso comum, sem perceber que se trata de um termo cuja fortuna crítica nos campos da filosofia, estética e teoria da literatura é volumosa, e remete a sentidos que vão muito além do uso cotidiano daquele vocábulo.

Para terminar, é importante ressaltar que a contribuição de Gustavo Bernardo, especialmente no que diz respeito à relação entre ética e literatura poderá ser melhor compreendida com a leitura de sua tese de doutorado, intitulada A traição pertinente; ensaio grave, porém ilustrado, de ética e literatura, que já deveria estar ao alcance do público. Contudo, enquanto aguardamos a decisão de nossos editores, podemos já ter acesso a Quem pode julgara primeira pedra?, sem dúvida um acréscimo bibliográfico importante na área dos estudos literários contemporâneos.