Machado de Assis
IRMÃOS E INIMIGOS
Antonio Carlos Secchin
O GLOBO, 28 de fevereiro de 2004
É lugar-comum afirmar a existência de uma “fase madura” na ficção de Machado de Assis, a partir da publicação, em 1881, das “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Mais incomum é a ênfase, não diríamos numa possível “terceira fase”, mas numa inflexão da segunda, com os romances “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908). Em ambos observa-se um narrador menos cáustico na avaliação das mazelas humanas. A corrosiva ironia de obras anteriores cede lugar a uma (até certo ponto) tolerante compreensão da fragilidade terrena. Não havendo conserto para o desconcerto do mundo, melhor é assistir ao espetáculo de camarote — sem deixar, é claro, de alfinetar, aqui e acolá, o mau desempenho dos atores, num riso mais complacente do que cruel. Tal parece ser a divisa do narrador (e importante personagem) dos derradeiros romances machadianos, o Conselheiro Aires.
Na “Advertência” à primeira edição de “Esaú e Jacó”, somos informados de que, no espólio de Aires, foram localizados sete cadernos; seis deles comporiam o “Memorial”, e o “Último” (assim cognominado) corresponderia ao romance que então se publicava. Inicia-se um sutil jogo de inversões, na medida em que o “último” (rebatizado com o nome de “Esaú e Jacó”) foi o “primeiro” a surgir, enquanto os supostos seis cadernos anteriores, do “Memorial”, só viriam à estampa quatro anos depois. O famoso defunto-autor Brás Cubas, de sterniana ironia, cede voz, agora, a um autor-defunto, o sábio conselheiro.
Pela primeira vez em Machado, dois nomes de personagem comparecem no título de um romance (diversamente dos anteriores, sempre centrados num único substantivo próprio, de “Helena” a “Dom Casmurro”). A esse duplo bíblico — Esaú e Jacó — corresponderão, no texto, os gêmeos Pedro e Paulo — duplo do duplo, portanto. Para não irmos além dos capítulos iniciais, lembremo-nos de que duas irmãs sobem o morro para consultar uma cabocla; esbarram em dois sujeitos; recebem o cartão de consulta número 1012; dão esmola de dois mil-réis; o narrador adverte que os oráculos têm um falar dobrado; e Santos, marido de Natividade, consulta uma segunda adivinha, de linhagem espírita.
Percebe-se, à exaustão, a incidência do número 2. De modo esquemático, podemos entender o livro como uma irônica produção de duplos em que os elementos, em vez de serem idênticos (pois duplicados), acabam, apesar da semelhança, ou talvez por causa dela, tornando-se radicalmente opostos ou antagônicos entre si. O exemplo mais cabal desse dissenso é fornecido pelos próprios gêmeos: idênticos, fisicamente, mas diversos (ou até beligerantes) em todo o resto. Pedro, monarquista e recatado; Paulo, republicano e impetuoso. A superação das diferenças restauraria o “dois-em-um perfeito”, a unidade primordial anterior a qualquer fratura ou cisão. A vivência da fragmentação transforma-se assim, e insuportavelmente, no corolário indesejável de um paraíso perdido. A heroína Flora, dividida no amor pelos gêmeos, representa ao mesmo tempo o desejo e o malogro da reconstituição de um tempo e espaço inteiriços. Não por acaso, uma bem-orquestrada simbologia edênica acompanha, em baixo-contínuo, a caracterização da personagem. Numa clave metafórica, Flora não produz frutos: estiola-se, eteriza-se, estéril, e morre à míngua do impossível. Incapaz de fazer dos gêmeos uma só pessoa, acaba perdendo a ambos, e à vida. “Inexplicável” é o adjetivo com que Aires tentou, em vão, explicá-la.
Já se interpretou “Esaú e Jacó” como uma crítica à organização social e política do Brasil na passagem do Império à República. É correto, mas insuficiente. O enredo registra, decerto, alguns dos mais cruciais eventos do final do século XIX no país, mas seria decepcionante tentar inteirar-se deles tomando por base o registro factual, de escassas linhas, com que se inscrevem no livro. O turbilhão de época ecoa filtrado na dimensão dos gestos mínimos. Em Machado, o fato é (quase) nada; o olhar é tudo. Para saber de um homem, não basta ver o que ele vê; é preciso, sim, vê-lo ver, e, sobretudo, vê-lo ver-se.
Mais do que cronista histórico ou romancista de costumes (etiqueta que explicitamente rejeitou em “Ressurreição”, de 1872), Machado é um romancista dos “maus costumes”, da inconstante e dúbia consciência individual. Muitas matérias de interesse aparentemente público são realçadas, unicamente, pela perspectiva dos dividendos de satisfação ou ganho particular que proporcionarão a seus agentes. O episódio em que o comerciante Custódio, numa época de convulsões políticas, não sabe se mantém no seu estabelecimento o nome de “Confeitaria do Império”, ou se aproveita a ocasião para logo rebatizá-lo de “Confeitaria da República”, é bem sugestivo. O que o move é o oportunismo (ou a “adequação ao contexto”, se preferirmos um cínico eufemismo); a ideologia é secundária, quando gera polêmica ou sangra o bolso.
O romance, cujo centenário de publicação este ano se comemora, não é, certamente, o livro machadiano de maior ressonância junto ao público contemporâneo, apesar de, à época do lançamento, ter obtido acolhida extremamente favorável. A rarefação do enredo (as coisas acontecem pouco, e devagar), aliada à costura mais distensa do tecido narrativo, acaba gerando um feixe de episódios atomizados, que nem sempre se imbricam, frustrando os leitores ávidos de peripécias regidas pela causalidade. O apelo amoroso-sentimental do livro também é tíbio, se contrastarmos a pudica e delicada Flora com suas carnais e robustas antecessoras Virgília, Sofia e Capitu. Por outro lado, a consciência metalingüística do escritor se revela mais aguda do que nunca. Examinando o nome das personagens, logo detectaremos predestinação ou (com mais freqüência) ironia. Natividade encarna uma vocação relutante para tornar-se mãe. Ela, que também é Maria, casa-se com Santos, que também é José, e ambos ficam amigos do casal Batista. Perpétua nega as leis de perpetuação da espécie: é viúva sem filhos. O inescrupuloso Nóbrega não possui alma nobre nem caridade cristã. A cabocla de raízes africanas se chama Bárbara. No capítulo XII, o calmo e conciliador Aires se encontra em casa de Plácida, retornando de missão no Pacífico...
“Esaú e Jacó” foi o derradeiro romance de Machado de Assis a ser lido por sua esposa Carolina, que morreria em outubro de 1904, e a cuja memória o escritor ainda renderia homenagem no “Memorial de Aires”, através da criação de uma personagem, dona Carmo, inspirada na falecida mulher. Tal fonte de inspiração, às vezes contestada, não deveria ser objeto de tanta controvérsia, uma vez que o próprio Machado confirmou a existência do modelo, segundo depoimento publicado em “Alguns escritos” (1910), de Mário de Alencar.
A imaginação de Machado produziu algumas das mais notáveis personagens femininas de literatura brasileira, fascinantes pela complexidade e pela divergência de caracteres que apresentam entre si. Com a cautela necessária para evitar-se um biografismo redutor, seria interessante efetuar-se um estudo detido de alguns de nossos grandes escritores pelo prisma das marcas textuais que lhes foram impressas por suas mulheres, verificando a intensidade e o teor dessa presença na fatura da obra, e observando ainda de que modo os seres de papel ratificam ou retificam os seres reais de que se teriam originado.
Para nos restringirmos ao século XIX, e a dois gêneros literários, logo ocorreriam os nomes de Eugênia Câmara, para a poesia de Castro Alves, e de Carolina, para a ficção de Machado. A primeira, musa arrebatadora, volúvel, parceira vulcânica de um autor existencial e liricamente em perpétua ebulição; Carolina, comedida, na imagem doméstica de um amor fiel e sem sobressaltos. As obras de um e de outro escritor certamente não seriam o que foram, sem a presença — na graça ou na desgraça — de suas companheiras.