DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

OS SEGREDOS DE ESAÚ E JACÓ

Luiz Antonio Aguiar

 

Jornal do Brasil 21/08/2004

 

Esaú e Jacó, penúltima novela de Machado de Assis, completa um século este ano. Trata-se de uma obra pouquíssimo lida e muito subestimada. Mas, ora, se Dom Casmurro levou 60 anos e precisou do olhar estrangeiro de Helen Caldwell para começar a nos revelar seus segredos, não se estranha que, a Esaú e Jacó, tenha sido permitido dissimular-se em meio às obras de Machado, à espera de sua vez. O enredo ostensivo trata das desavenças dos gêmeos Pedro e Paulo, ambos apaixonados pela virginal Flora que, incapaz de se decidir entre os dois, morre dilacerada pelo dilema amoroso. Logo abaixo da superfície romântica, descobre-se uma refinada tessitura que reserva, entre outros segredos, a bizarrice de seu narrador (ou, narradores?) - aquele que conta a história -, que troca de pele e cerne repetidamente.

Na ficção, é mais do que tradicional o narrador com poderes de ver o que os personagens não vêem, de se deslocar para qualquer lugar, ir e voltar no tempo, e de penetrar na alma dos seus personagens. Trata-se de um narrador (onisciente, onipresente) que não está preso à história (não é um personagem), não está no mesmo plano dos personagens - quase o que o sistema operacional é para os aplicativos. Os leitores habituaram-se aos volteios deste narrador. Sua presença - comparada a de outros tipos mais exibidos - é a que menos sentem, apesar de seus superpoderes.

Seus limites? Não é dos mais hábeis em dar à narrativa o tom de confidência-cá-entre-nós (entre ele e o leitor). Isso é especialidade do chamado narrador-personagem: um personagem a quem é dado também contar a história ao leitor, do seu ponto de vista.

O que este não pode fazer? Como não é super, não pode invadir o pensamento dos seus semelhantes, os demais personagens, nem (é óbvio) contar cenas às quais nem esteve presente nem recebeu notícia. Via de regra, cada história tem seu tipo de narrador, um único modo narrativo: sem misturas.

Mas, suponhamos que um narrador cisme de agarrar o melhor de todos os mundos. E vire, caprichosamente e ao sabor de suas conveniências, o tipo de narrador que quiser, quando bem entender. E faça isso repetidamente - para mostrar que é de propósito, não por descuido, nem equívoco - sem que o leitor se perturbe com essa instabilidade da narrativa. Claro que aqui seria um leitor sem preocupações com a construção narrativa, ou especialistas que dessem mais importância a uma leitura macro da obra do que a pinçar sob a lupa detalhes e momentos de como o truque é feito. O fato é que o narrador de Esaú e Jacó autotransmuta-se vezes seguidas, abolindo, para si, as convenções de atributos e de limites dos diferentes modos de narrar.

A travessura ilusionista começa na ''Advertência'' que abre a obra. Alguém relata a descoberta de uma seqüência de livros, no espólio do falecido Conselheiro Ayres, que contêm suas memórias. Há ainda um volume que, apesar de intitulado como ''Último'', não tem anteriores nem, aparentemente, ligação com os demais - é Esaú e Jacó.

O escritor Machado de Assis que lançou Esaú e Jacó meses antes de perder a sua amada Carolina é a figura concreta; o alguém da ''Advertência'' é sua sombra. A (nossa) idéia daquele está implícita neste, tanto que o leitor não indaga quem ele é, nem ele cuida de se apresentar. Ora, na ''Advertência'', as ações são sonsamente expressas com orações de sujeitos indeterminados - é um Narrador Indeterminado.

Seria plausível que Machado fosse esse Narrador Indeterminado, se este não sugerisse ter convivido com o personagem Conselheiro Ayres - portanto existem, no mesmo plano. O Narrador Indeterminado também é uma criatura ficcional. Aliás, sua aparição se restringe a estas duas insidiosas páginas.

Ayres é um narrador excêntrico. O Narrador Indeterminado da ''Advertência'' não sabe se a história é memória ou uma ficção criada pelo Conselheiro. Na primeira cena, Ayres relata um episódio que não presenciou nem do qual lhe falaram a respeito; e, a seguir, devassa o íntimo de um personagem (o Irmão das Almas), no melhor desempenho do narrador (ficcional) superpoderoso. Em outro capítulo (''Esse Aires''), o narrador (Ayres) introduz na história, como se nada tivessem um com o outro, o personagem Ayres, reparando que é ''um belo tipo de homem''.

As autotransmutações são muitas, e a mais notável se dá perto do final, quando os gêmeos, e apenas eles, estão à beira do túmulo de Flora, tendo acabado de enterrá-la. O narrador, depois de revelar o diálogo privado entre os irmãos, no qual selam um acordo de paz (que pouco irá durar), lamenta a tragédia dizendo: ''...não recordo este óbito sem pena, e ainda trago o enterro à vista...''. Ou seja, Ayres escapou para a pele do narrador-personagem, no que o pesar transbordou o limite da isenção do narrador superpoderoso que estaria acima das vicissitudes dos personagens, invisível e acima de tudo ausente.

Curiosas estripulias temos também na ''Advertência'' do Memorial de Ayres - o último romance, par inseparável de Esaú e Jacó. Por um lado, evocam-se os volumes de memórias de Ayres, anunciados pelo Narrador Indeterminado de Esaú e Jacó; por outro, o perpetrador desta nova ''Advertência'' a assina como M. de A. Entretanto, este M. de A. está para Machado de Assis assim como o Borges que em O Aleph é apresentado ao objeto sobrenatural que dá nome ao conto está para o escritor Jorge Luís Borges. E note-se que este M. de A. está tão equiparado ao personagem Ayres como o Narrador da Advertência anterior.

M. de A. e o Narrador Indeterminado mostram-se como o mesmo ser, uma mescla insólita do Autor (físico) com o Narrador Indeterminado, gerando um terceiro, o Narrador M. de A.

São, no todo, transgressões quase homicidas contra as convenções de narrar/ler ficção estabelecidas então (e, em boa parte, até hoje), principalmente no viés realista/naturalista da ocasião. Se passam despercebidas, ou, relegadas, há 100 anos, isso se deve à sutileza magistral com que foram praticadas. É que, diferente de parte da prosa atual, Machado não fazia alardes para anunciar seus vôos; nem os mais altos, nem os mais profundos.