DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

A HORA DE CAROLINA

Domício Proença Filho

 

O GLOBO, 03/01/2004

 

Descansa no leito derradeiro. Há quase cem anos. Que se completarão quando vier outubro. Ela é Dona Carolina, esposa e presença forte no percurso de Machado de Assis, o companheiro cujas cartas nos permitem rememorar, na palavra, instâncias “daquele afeto verdadeiro/ que, a despeito de toda a humana lida”, fez-lhes “a existência apetecida/ e num recanto pôs um mundo inteiro”. Homenagem justa e devida.

Carolina Augusta Xavier de Novais nasce em Portugal, na cidade do Porto, em 20 de fevereiro de 1835. Quatro anos e quatro meses, portanto, mais velha do que Machado, cujo nascimento data de 21 de junho de 1839. Filha de Custódia Emília Xavier de Novais e do relojoeiro e joalheiro Antonio Luís de Novais. Irmãos, cinco: Emília, Adelaide, Miguel, Henrique e Faustino.

Falecidos os pais, por volta de 1867, vem para Brasil a pedido de Faustino, que passara a sofrer de distúrbios mentais intermitentes. E desembarca em 18 de junho de 1868. Movida também por outra razão, informa Jean-Michel Massa, um dos biógrafos do autor do “Memorial de Aires”: perto dos 34 anos, solteira, sem recursos e traumatizada por um misterioso drama íntimo de família, sua vida tornara-se difícil.

Difícil identificar o momento do seu encontro com o jovem Machadinho, então na plenitude dos seus trinta anos. Sabe-se que o mútuo compromisso se deu no relampejar de um minuto. Machado visita Faustino. De repente, a sós com Carolina, senta-se a seu lado, toma-lhe das mãos, e ousa perguntar-lhe se quer casar com ele. A resposta, afirmativa, é firme e decidida. A correspondência entre ambos dá a medida da natureza e da intensidade dos sentimentos que os une.

Só restam duas cartas do tempo de noivado. Datadas de 2 de março de 1868 ou 69. De Machado para Carolina, então residente em Petrópolis, cujo acesso exigia um trecho de viagem de barca. As demais foram queimadas. A pedido do missivista, cioso da intimidade do amor que os unia. Um trecho da primeira é iluminador:

 

“Minha querida C. Recebi ontem duas cartas tuas, depois de dous dias de espera. Calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A minha tristeza converteu-se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do ‘Diário’ à 1 hora para ir à casa, e com efeito encontrei as duas cartas, uma das quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio, foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã. Às quatro horas, levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com a demora das cartas. Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última”.

 

Seguem-se preocupações materiais, reveladoras da relação com os futuros cunhados Faustino (F.) e Miguel (M.). A referência tranqüila a este último põe em xeque a opinião de que, por preconceito racial, acirrava a oposição ao casamento. O texto revela também a posição de Machado em relação à vida familiar:

 

 “Eu já tinha ouvido cá que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que não sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares não fazem nada bem ao F.: mas compreendo também que não é possível dar simplesmente essa razão. No entanto, lembras perfeitamente que a mudança para outra casa cá no Rio seria excelente para todos nós. O F. falou-me nisso uma vez é quanto basta para que se trate disto. A casa há de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu coração. Creio, porém, que é melhor conversar outra vez com o F. no sábado e ser autorizado positivamente por ele”.

 

Voltam considerações sobre o relacionamento do casal:

 

“Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias: é quanto basta para que o amor faça um milagre, quanto mais que não é milagre nenhum. Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que não? Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. Não te admires, a cousa é muito natural; és tão dócil com eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma cousa, e não quero”.

“A mudança de Petrópolis para cá é uma necessidade; os ares não fazem bem ao F. , a casa aí é um verdadeiro perigo para quem lá mora. Se estivesses cá não terias tanto medo dos trovões, tu que ainda não estás bem brasileira, mas que o hás de ser espero em Deus”.

 

(“Machado de Assis”. Obra completa. V. III Epistolário. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: J. /Aguilar).