DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

DEFESA DA MENTIRA

Eric Nepomuceno

 

O brasileiro Luiz Inácio da Silva, sindicalista profissional, atual ocupante da Presidência da República, disse há algumas semanas que o complicado de mentir é que, depois da primeira vez, você não consegue mais parar. Será sempre um começo sem volta.

Para provar que tinha razão, somou sua voz à enxurrada de mentiras que não faz mais que soterrar este país de atônitos. Não parou e, pelo andar da carruagem, ainda temos muita estrada pela frente. Por exemplo: ele acaba de dizer que jamais faria promessas de campanha que depois não pudesse cumprir, e que prefere perder um voto a perder a vergonha. A estas alturas, são tantos os votos perdidos que ninguém mais se preocupa com a vergonha do presidente. Só que não surgiu nenhuma alma suficientemente caridosa para fazê-lo lembrar de tudo o que prometeu e não cumpriu, e do que cumpriu sem ter anunciado. Difícil mesmo é saber ao certo quando ele começou com as mentiras feias, tolas, que não sobrevivem ao primeiro contato com a luz do dia.

Só de distração, passei o fim de semana lembrando mentiras históricas. Tentei separar as bondosas, quase inocentes, às vezes generosas, das que são a imensa maioria - as vulgares, banais, ruins. Finalmente, tentei recordar uma mentira absolutamente exemplar, que tivesse sobrevivido e se tornado melhor que a realidade.

Acho que, de todas que lembrei, ganha fácil a mentira inventada há décadas por Zulema de Mirkin. Lembrei essa história num conto chamado Quarta-feira, que é também o título de um livro que publiquei em 1998.

Zulema foi uma professora de primário da Argentina. Nos anos 40, conheceu um músico paraguaio chamado Demétrio Ortiz. Apaixonou-se perdidamente, mas não teve tutano para fugir com ele. Viveu aquele amor impossível com a tenacidade dos balizadores do deserto. Deixou um testemunho insuperável nas palavras que escreveu para uma canção de Demétrio, e que Caetano Veloso gravou num diálogo delicado com o contrabaixo de Zeca Assumpção: ''Una noche triste nos conocimos/ junto al lago azul de Ypacaraí/ tú cantabas triste por los caminos/ lindas melodías en guarani''.

A canção chama-se Recuerdos de Ypacaraí, é uma das mais conhecidas da América Latina, e mente o tempo inteiro. Para começo de conversa, o lago de Ypacaraí pode ser qualquer coisa, menos azul. É tristonho, feioso e só se salva por um ou outro pôr-de-sol. Quando escreveu essas palavras, Zulema jamais havia estado no Paraguai, e Demétrio Ortiz não sabia uma só palavra em guarani. Eles se conheceram no interior da Argentina, de onde, aliás, ela nunca saiu até o dia 16 de agosto de 1995.

Naquela quarta-feira, no aeroporto de Assunção, alguém me apresentou a uma senhora de idade tão avantajada que era indefinível. Estava emocionada até a última gota de alma: pela primeira vez na vida chegava ao Paraguai, e seria levada diretamente para conhecer Ypacaraí. Era dona Zulema. Entendi, na hora, que sua mentira de amor era muito mais duradoura e muito melhor que a vida vivida. Melhor que a realidade.

Essa mentira, como todas, depois de começada não parou mais. Zulema virou alvo de homenagens no Paraguai por ter divulgado mundo afora, com suas palavras de engano, as enganosas maravilhas do lago que jamais foi azul. Acho, em todo caso, que essa mentira valeu a pena, merece defesa. Lástima que Zulema não tenha virado presidente do Brasil.

 

Jornal do Brasil, 16 de agosto de 2005.