Páginas de Ceticismo
Narrativa e Ironia no Grande Sertão de Guimarães Rosa [1]
André Rios
...sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.
(Riobaldo)
Kathrin Rosenfield narra o causo de Aleixo, logo do início do Grande Sertão, como sendo um “modelo do exemplum cristão” [2], como um modelo de “vida de Santo”, enfim, como um modelo de conversão. Ela nos narra que Aleixo, sendo um homem cruel, “chega ao cúmulo da violência aberrante matando, sem nenhum motivo, um velho mendigo”. Além disso, sobre a doença que leva os quatro filhos de Aleixo à cegueira, Rosenfield comenta: “Neste golpe, ele reconhece o castigo divino não como algo meramente negativo, mas como graça que acorda sua misericórdia...” Ou seja, Rosenfield entende o causo como se Riobaldo o estivesse narrando univocamente, como se Riobaldo não fosse vertentemente irônico, e placidamente aceitasse que uma conversão é uma conversão redentora, que um santo é um santo redimido. Riobaldo, porém, em sua mansa ingenuidade, está disparando ironias. A ironia está na levemente debochada escolha de suas palavras – como em “suando para ser bom e caridoso" [3] –, mas está principalmente em mostrar que o santarrão continua um egoísta: “ele mesmo diz que foi um homem de sorte”, e a sorte dele foi que “Deus quis ter pena dele” (quer dizer, foi sorte ter pena dele e não dos filhos), de modo que ele “parece até que ficou feliz, que antes não era” (ou seja, afinal a desgraça dos filhos não o atingiu tanto assim). Visto isso, Riobaldo expõe sua descrença: “Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?!” Em sua marota e cáustica ingenuidade, Riobaldo está mostrando sua descrença e, portanto, ironizando a conversão inócua e nada esclarecedora. O Aleixo tirava um prazer egoísta das crueldades, e agora tira um prazer até mais intenso de sua santidade, enquanto que as crianças, as verdadeiras escolhidas de Deus no Evangelho, sofrem. O que ainda sofistica e intensifica a ironia é a intervenção do compadre Quelemém, em quem Riobaldo também não acredita [4]. O que se passa é que Riobaldo ironiza tanto as conversões quanto as certezas (inclusive as do Quelemém), ao mesmo tempo que auto-ironiza tanto as suas incertezas quanto certezas. Esta ironia de Riobaldo quanto à conversão (pois uma conversão é sempre a conversão para uma certeza) é elemento importante para a discussão do pacto; afinal o pacto seria um momento de conversão.
Mas, ainda mais forte que a ironia do Riobaldo narrando seus causos, é a ironia da estrutura da narração; nela há, em silêncio, um senhor para quem Riobaldo narra e frente ao qual se questiona se está narrando de modo compreensível, tal como se ele não fosse um narrador hábil o suficiente para que o senhor o entenda, mas também tal como quem está diante de um narratário incontornavelmente incompetente [5]. O senhor, que somos nós, os homens de cultura, nós, os acadêmicos ou os críticos literários, e mesmo o diplomata Guimarães Rosa ou qualquer grandioso escritor, nunca poderá, nunca poderemos, compreender senão superficialmente o que é narrado por Riobaldo. O senhor, ironicamente, não é o senhor da narrativa, e não só porque ele é quem ouve, mas porque ele é formado, porque somos formados de tal modo que ao ouvir ou ler já distorcemos, já nos apropriamos do que nos está sendo narrado. Ou seja, a narrativa do Grande Sertão é um dispositivo que trabalha contra os pretensos senhores do texto, e mesmo contra o senhor autor signatário. Em Sagarana, há o conto “Corpo Fechado" [6], que tem vários elementos em comum com o Grande Sertão: o tema da coragem, um dúbio pacto com o diabo, a vitória contra um destemido malvado (“Ele é o demônio”)[7], presença débil do governo e um “senhor”, isto é, um doutor vindo da cidade, que é médico e participa da conversa, sendo que suas falas e ações são explicitadas na narrativa, onde foi até padrinho de casamento. A narrativa desse conto começa como que conduzida por um narrador onisciente, mas logo é o senhor que começa a falar em primeira pessoa. Daí para o Grande Sertão há um apagamento do senhor, que deixa de ter suas falas transcritas, não tem sua profissão explicitada e não participa da ação narrada, além de ser ironizado na sua qualidade de instruído, o que, no conto, era exatamente uma distinção respeitada (ainda que ao final o feiticeiro tenha, de certo modo, lhe sobrepujado). Esse apagamento é também um auto-apagamento do autor, pois é a possibilidade de assenhoramento da narrativa por parte desse senhor bem formado vindo da capital que é posta em dúvida: ora, quem vem da cidade grande é o escritor, o grande romancista, o honrado homem de letras. Essa estrutura narrativa pervasivamente irônica e auto-anulante do autor é peculiar ao Grande Sertão; por isso, considero que só com muitas precauções se deve vir a tratar dos textos de Guimarães Rosa como se eles formassem um corpus homogêneo. A narrativa antiassenhorante do Grande Sertão impossibilita uma interpretação estabilizadora dos seus sentidos, tornando impossível também sua tradução na medida em que a tradução for uma tentativa de assenhoramento do Grande Sertão em uma outra ordem literária e léxico-sintática (lembro que, nesse sentido, é também impossível traduzir o Grande Sertão para o português, isto é, para o português léxica, gramática e sintaticamente estabelecido) [8]. Pode-se dizer que uma tradução para uma outra língua só é possível se se reinventar um jogo léxico-gramático-sintático que sustente – reinvente – essa intraduzibilidade[9].
Quando a crítica literária louva o Grande Sertão como uma grande obra da literatura brasileira ou lamenta que ele não esteja reconhecido em sua grandiosidade junto com outras obras do cânon internacional, quando ela enumera no Grande Sertão seus paralelos com Homero, com Platão, com Goethe, com o cristianismo ou com a cabala, é o senhor que está se empedernindo em sua incompreensão, que está movendo exércitos e armas para dominar os fluxos de causos riobaldianos; no entanto, quanto mais os agarra, mais o magma lhe escapa por entre as garras. A leitura de Benedito Nunes “O amor na obra de Guimarães Rosa”[10] (tal como a de Rosenfield acima referida) é uma leitura que busca elevar Guimarães Rosa ao cânon ao lê-lo em referência a tradições canonicamente reconhecidas [11]. Assim, segundo Benedito Nunes: “...a tradição mais condizente com o erotismo místico de Guimarães Rosa é a que deflui do platonismo e se insere na sabedoria alquímica...” (p. 171). Ainda que se possa ler muitas referências ao neoplatonismo no Grande Sertão, é ingênuo considerar que a posição de Guimarães Rosa seja uma de derivação e reverência a esse ideário filosófico. Primeiramente, é óbvio que há que se diferençar entre o narrador e o autor. Depois, há que se considerar que a narrativa é em vários níveis perpassada por ironia. Além do que, há que se considerar que os textos de Guimarães Rosa são heterogêneos e que, sobretudo para um tema tão multifacético como o amor, haveria que se ter mais cautela ao se falar, como o faz Benedito Nunes, em a obra.
Considerando-se com mais atenção a ironia da narrativa, tem-se de pensar que o neoplatonismo é, no Grande Sertão, antes ironizado que simplesmente aceito. Benedito Nunes não parece, nesse seu texto, ter muita sensibilidade para a ironia, sobretudo para a auto-ironia de Riobaldo. Ele nem de longe se dá conta de que Riobaldo ironiza Otacília e auto-ironiza tanto a sua paixão por Otacília quanto o seu casamento com ela. A auto-ironia pervade também todos os comentários de Riobaldo sobre seu relacionamento com Diadorim. Sendo assim, não se pode entender que haja uma hierarquia entre os amores de Riobaldo e que ele vá, através da sublimação de seus amores, chegando mais próximo do divino.
Benedito Nunes vê três níveis ascensionais: o nível mais baixo seria o amor caótico por Diadorim; depois, o amor sensível por Nhorinhá; e, ao final, a culminância no amor espiritualizado por Otacília [12] (cf. p. 144-145). Essa divisão em três níveis é forçada sobretudo porque eles não são tão distintos quanto Benedito Nunes sugere em sua exposição. Assim, o amor por Diadorim, por exemplo, não é só caótico, mas é também sensível e extático, além de acabar sendo considerado como que, ao menos, equiparado ao amor por Otacília, uma vez que Riobaldo precisou cumprir o luto pelo amor de Diadorim para poder casar (o que sugere que, se não fosse a morte, ele teria casado com Diadorim). De certo modo, o amor por Diadorim se estende do caos e do sensível até o casamento, desdobrando-se por vezes ainda na amizade; não há como limitá-lo a uma primeira fase. Também o amor por Nhorinhá poderia ter levado ao casamento se – por acaso – Riobaldo tivesse passado por São Josezinho da Serra, onde Nhorinhá havia passado a morar (cf. p. 460-1)[13].
E há ainda outros “amores” como o das prostitutas de Verde-Alecrim, que, por um lado, são procuradas porque “por lei, eu carecia de nudezas de mulher” – p. 463 (e há que se perguntar que lei é essa; seria exatamente uma lei que não é a jurídica, seria a lei que não está escrita em papel e da qual a lei jurídica é uma paródia malfeita?), por outro, tudo se passa como se Riobaldo não estivesse mais do que cumprindo seu papel de chefe, de modo que se fica na dúvida de se o mais importante para ele, em Verde-Alecrim, é o ato sexual ou ter na porta um sentinela (“...porque não se pode falhar na regra: de só se pandegar com sentinela posta” – p. 466). E há o desejo pela neta do seo Ornelas: ao estupro dela pertenceria um voluptuoso tiro na testa do seo Ornelas – p. 402-3. O que se passa, portanto, é que nem se pode constatar devidamente no texto as delimitações que minimamente estabeleceriam os tais três estágios, nem se pode balizar uma evolução de Riobaldo através de seus amores; há sempre idas e vindas no que Benedito Nunes busca postular como estágios ascensionais.
Também se haveria de pensar que, por exemplo, as duas prostitutas de Verde-Alecrim são realizadas no amor, embora não pareça que se possa aplicar a elas os três níveis preconizados; é interessante ainda notar que elas é que mandam na região, sendo respeitadas pelas “santas famílias legais” (p. 463) e que, sem menoscabo, lhes é suspeitado serem também lésbicas; tudo é tão maravilhoso que Riobaldo – lembro que a ironia, porém, impregna toda a sua narrativa – diz que tal lugar deveria ter o nome de “Paraíso” (contudo, há uma sentença depreciativa: “...as duas não se comparavam com Nhorinhá, não davam nem para lavar os pés dela” – p. 464; no entanto, embora sendo inferiores a Nhorinhá, não há nada de caótico na vida delas ou em Verde-Alecrim, que, estando sob o mando delas, antes, é um lugar harmônico: “os moradores e suas famílias serviam a elas, com muita harmonia de ser e todos os préstimos, obsequiando e respeitando – conforme eu mesmo achei bem: um sistema que em toda a parte devia de sempre se usar” – p. 465).
Igualmente insustentável é a afirmação de Benedito Nunes de que o prazer sexual em Guimarães Rosa “nada tem de pecaminoso” – p. 148. Contrariamente, no Grande Sertão há passagens em que o desejo sexual é percebido como deletério. Há o rapaz debochado que se achega libidinosamente a Diadorim e leva uma facada na coxa – p. 90-91; há a proposta de Diadorim de um pacto de castidade, o que só é possível se houver o pressuposto de que o sexo tem algo de pernicioso – p. 165; há os estupros que Riobaldo tenta proibir, mas acaba permitindo desde que os jagunços não matem pais, irmãos e maridos – p. 463. Há a afirmação de Diadorim de que “Mulher é gente tão infeliz...” e a narrativa por Riobaldo de dois estupros que praticou – p. 148-9. A sexualidade é no Grande Sertão também matéria vertente; não há por que fixá-la como virtuosa, como nada pecaminosa.
Mesmo o que seria o auge é ambíguo, é continuamente revertido pela ironia em seu contrário. Otacília é tanto o máximo quanto o mínimo dos amores de Riobaldo, é tanto a culminância quanto a aposentadoria. Com a ironia tudo é posto e reposto em movimento, tudo é “travessia”. Tudo é travessia e permanece travessia, ao contrário do que interpreta Benedito Nunes, claramente forçando o trecho final do Grande Sertão, ao querer que seja travessia “para o outro lado, divino” (p. 167).
Se houvesse essa culminância no divino, haveria então univocamente heroísmo. Mas é dúbio que haja heroísmo no Grande Sertão; há elementos que indicam que um dos temas do livro é exatamente o do fim do heroísmo, de modo que, se houver ainda algum heroísmo, seria o de suportar com garbo e cabeça erguida – enfim, com heroísmo – o fim do heroísmo. Refiro-me aqui às passagens em que Riobaldo fica perplexo ao constatar que os chefes jagunços que ele supõe preclaros são na verdade bem pouco conhecidos: de Zé Belelo, seo Ornelas nunca ouvira falar (p. 404), e o Quipes desconhecia que Riobaldo houvesse se tornado chefe (p. 429). Seja como for, um pressuposto da narrativa de Riobaldo é o de que o senhor, que o ouve, nem conhece tais pessoas e suas façanhas, nem lhes dá grande valor (o que também é motivo para ironizar o senhor que, embora pense saber o que é mais essencial, na verdade, é ignorante das coisas do sertão). O que Riobaldo mostra ao narrar sua história é que ele suporta bem não ter se tornado, apesar de tantos feitos heróicos, um herói. O Grande Sertão não é, a rigor, nem a narrativa de um triunfo heróico, nem a de uma ascensão alquímica-neoplatônica. Aliás, aqui uma das questões indecidíveis é: sobre o que afinal é o Grande Sertão? Há, é certo, vários temas que concorrem na possibilidade de serem aceitos como o principal, mas o maior problema consiste na instabilidade desses temas, na medida em que dificilmente se pode decidir se não seria, antes, os temas que lhes são contrários que estariam de fato em questão. Assim, por exemplo, o tema que é assumido por Riobaldo como sendo sua maior preocupação é o do pacto com o diabo que ele teria feito nas Veredas-Mortas. Ora, várias vezes ele mesmo argumenta que o pacto não ocorreu, já que o outro pactário, o demônio, não compareceu (notar também que nem as Veredas-Mortas têm esse nome, mas, sim, o de Veredas-Altas – p. 532 –, o que quer dizer também que Riobaldo não estava no lugar que pensava estar[14]). Em vista do que, se o pacto tem a aparência de ter tido efeito sobre Riobaldo que em muito veio, logo a seguir, mudar seu comportamento; por outro lado, o pacto é para Riobaldo um argumento de que o diabo, não tendo comparecido, não existe. Ao final, predomina a versão, ainda que com incertezas, de que o diabo não existe e que o pacto não aconteceu. Sendo assim, o Grande Sertão seria a narrativa deste acontecimento que não aconteceu: o pacto com o demo. O Grande Sertão seria, portanto, não a narrativa de feitos e façanhas, nem a de um drama cósmico mas, ao contrário, a narrativa de um não-acontecimento[15].
Do mesmo modo, se o Grande Sertão pode ser dito a narrativa de um mundo sem lei – o sertão assolado pela jagunçagem, onde homens de pouca instrução, sem respeito pelas leis, animalescamente saqueiam e estupram –, também se vê, na história narrada, o respeito à estrutura familiar desempenhar um importante papel. A história do Grande Sertão pode até mesmo ser entendida como estando articulada pela estrutura familiar: muito pela sedução de Diadorim, filha/o de Joca Ramiro, Riobaldo se mantém no propósito da vingança; sendo que para perpetrá-la seqüestra a mulher legal de Hermógenes que, por causa da mulher (ainda que esta o odeie), se vê forçado a ir ao encalço de Riobaldo. Na ocasião do almejado embate, só o que perturba Riobaldo é imaginar que sua noiva (“quase minha mulher” – p. 500) está a caminho e, por causa dela, quase larga sua posição de chefia. Ao final, Riobaldo terá sua paz, casando-se com Otacília e herdando (ou seja, sendo reconhecido como filho legítimo) as fazendas de Selorico Mendes. Seria como se o Grande Sertão fosse um hino ao casamento por amor, estágio supremo da existência, onde até um guerreiro feroz encontra aprazível paz. Apesar de tantos tiros, seria um livro bem burguês. Ao invés de ter ascendido com o casamento com Otacília para uma visio beatifica, Riobaldo teria era se aburguesado num casamento religioso e legal[16]; teria era se tornado um ‘santo casal legal’; enfim, estaria era docilmente submetido a um casamento sob a lei do governo e a do padre. Ou seja, estaria submetido a uma lei que é, antes, uma paródia de lei, uma vez que, na narrativa do Grande Sertão, não há uma lei que seja uma Lei absoluta. Ainda que as leis dos chefes jagunços, suas decisões por vezes absurdas ou inusitadas, sejam mais fugazes que as do governo, tanto estas quanto aquelas são provisórias. Tendo na mão muitas vezes tanto a autoridade da violência instauradora quanto a da violência mantenedora da lei, os chefes expõem em seus rompantes a arbitrariedade do processo legislativo, sem, contudo, deixar de trazer alguma estabilidade e orientação num mundo de conflitos. Por outro lado, a lei do governo não tem nada de mais solene, pois os próprios representantes dessa ordem jurídica não seguem as leis que eles deveriam estar defendendo: assim, os políticos usam a jagunçagem para ganhar eleições, os delegados são cruéis, os padres casam e têm filhos. Mas isso não quer dizer que as leis sejam nulas, antes, elas são um importante lance no jogo. O casamento de Hermógenes com a Mulher não deixa de ser casamento jurídico e com eficácia simbólica, embora eles vivam separados e haja ódio entre eles. A ironia de Riobaldo com seu casamento é tanto a de ele estar casado, de estar sob essa lei do governo, quanto a de estar respeitando o casamento, isto é, de não estar com amantes ou freqüentando prostitutas, enfim, de estar exemplarmente aburguesado[17] vivendo uma vida segura, sob as certezas da lei. Riobaldo nem recusa a lei nem a aceita como se fosse absoluta: ele a usa, a ela se submete, a ironiza, e ironiza sua marota submissão de aposentado.
Para concluir, posso resumir que o que estive indicando é o quanto, no caso do Grande Sertão, é importante que nos lancemos à tarefa de ler um livro aceitando que não iremos compreendê-lo, que não se pode compreendê-lo, que não nos tornaremos senhor dele. Pois, no Grande Sertão, o senhor é implacavelmente ironizado. Inclusive o senhor escritor. E, de fato, Riobaldo ironiza os romances (p. 138-9) como sendo uma apropriação dúbia das “estórias”, o que vale como uma ironia para o próprio livro que o leitor tem em mãos, pois, sendo um romance, já seria algo distorcido. Quando Riobaldo, depois, atribui a atividade da escrita ao senhor[18], ele não deixa de estar sugerindo que escrever um romance (talvez o próprio Grande Sertão) seria uma prática – distorsiva – do senhor, ou seja, uma prática de assenhoramento[19]; e podemos prosseguir dizendo que, do mesmo modo, escrever crítica literária também é uma prática assenhorante. Mas, ao focar a questão da ironia e da impossibilidade de compreensão da narrativa pelo senhor, penso estar abrindo novas possibilidades de leitura do Grande Sertão e de como considerar a possibilidade (e impossibilidade) da crítica literária. Indiquei que um dos desvios da crítica literária foi a canonização do Grande Sertão, mas isso também não deixa de ter sido um dos “desvios” do próprio autor do livro, de Guimarães Rosa, ao atuar como crítico de si mesmo, compactuando com a crítica, em especial, na colaboracionista entrevista com Lorenz, onde ele se proclama sertanejo e estende essa mesma honraria a não menos que Goethe, Dostoievski, Tolstoi, Flaubert e Balzac[20], ou seja, onde ele se inclui modestamente no cânon internacional auto-sacralizando-se, portanto, como senhor; paradoxalmente, auto-sacralizando-se como o mesmo senhor incapaz de compreender o Grande Sertão e suas veredas[21].
Mas quem sou eu para falar assim? Não sou eu mais um ladino acadêmico, mais um doutor empoado, que, confessando humildemente sua incompetência, está indo se assenhorar de muito mais, vindo mesmo a pontificar sobre o colaboracionismo de Guimarães Rosa? Este meu texto não deveria ser interrogado com a mesma ironia com que Derrida questiona se a pretensão de Foucault em ser porta-voz dos loucos, porta-voz do silêncio daqueles que foram excluídos pela razão, não seria também a mais extrema traição por estar, antes, vindo é finalmente a se apropriar pela razão (agora vestida de arqueo-logia) desse silêncio que, embora sofrendo a exclusão, não tinha ainda sido domesticado?[22] Não estou liberando Riobaldo, que tão soberanamente ironizou os leitores canonizantes modernos, para emaranhá-lo em uma rede de sutilezas pós-modernas, de modo a, agora sim, com tão mais eficácia, submetê-lo à academia? Não sou eu quem vai negar o meu cinismo. Na pós-modernidade, o cinismo talvez seja um traço a ser ostentado, talvez o meu único orgulho, a minha face mais humana. Mas, se cedo aqui, ao final, à pretensão de estar ironizando a todos, não devo também já esperar que os sentidos de novo se revertam? Não é o Grande Sertão uma possante máquina de reverter os sentidos? Como não estar divertidamente preparado para que o sertão reverta esta minha embófia?
Mas, se posso estar pondo em questão a mim, por que não pôr em questão também este nosso simpático companheiro em tantas peripécias: o nosso amigo Riobaldo? Por que não pôr em questão a simpatia mesma que a crítica sempre – unanimemente – tem dedicado a ele? É tanta simpatia justificável? Riobaldo é um estuprador confesso, um assassino preciso e pertinaz com dezenas de mortes nas costas, seqüestrador, assaltante e achacador – tudo isso sem grandes arrependimentos[23]. Depois do segundo estupro, parece ter decidido não mais cometer outros (talvez mais pelo desprazer pela passividade da vítima do que pelo sofrimento causado a ela)[24], mas, mesmo assim, chegou a considerar praticar mais um estupro agravado com assassinato[25], além de autorizar seus sequazes a estuprar (desde que não matassem pais, irmãos e maridos[26]); inclusive, ao reunir seu bando, prometeu a todos muitos estupros[27]. Contudo, ele termina a vida feliz, rico e bem casado – com a consciência tranqüila[28]. Não é ele tão perverso quanto o Aleixo[29]? Não nos dá este causo inaugural uma chave para entender o Riobaldo?
1. Apresentado pela primeira vez no colóquio Sexualité, Normes et Contrôle Social, em Paris, 4 - 5 novembro de 1999; publicado na revista Matraga nº 13, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Uerj.
2. Cf. Grande Sertão:Veredas. Roteiro de Leitura São Paulo, Ática, 1992, p. 21.
3. João Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988 – p. 5.
4. Riobaldo não acredita nas certezas espíritas do cumpadre Quelemém, mas nem por isso não o escuta ou não aceita o que ele diz. Riobaldo aceita Quelemém na medida em que este o faz pensar; não porque ele lhe incuta certezas. Para Riobaldo, a resposta de Quelemém sobre se ele havia vendido a alma ao diabo (“Pensa para adiante. Comprar ou vender, às vezes, são ações que são as quase iguais...” – p. 538) é importante não porque ele tenha lhe dado uma resposta definitiva e unívoca, mas por remetê-lo a uma existência sem certezas.
5. A incompetência do senhor: “...o senhor nem tem calo no coração para poder me escutar” (p. 11); “...o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido” (p. 39); “Se o senhor souber, sabe, não sabendo, não me entenderá” (p. 132). A incompetência que Riobaldo reconhece para si é uma incompetência que se deve à impossibilidade da tarefa de narrar o sertão: “Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe” (p. 84).
6. Guimarães Rosa Sagarana Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, 31a edição, p. 269-300.
7. Loc. cit. p. 294.
8. O Grande Sertão é intraduzível para o português academicamente estabelecido. As anamorfoses lexicais, gramaticais e sintáticas não geram só uma plurissemia, mas uma incompreensibilidade irredutível. O leitor busca constantemente reassociar os sentidos irreconduzidos à narrativa, criando novos precipitados semânticos que, porém, nunca conseguem conglomerar todos os sentidos liberados, sobrando sempre um resto que incita novas reassociações. Sobretudo na primeira leitura, avança-se como que envolto em neblina; a potencialização do sentido das palavras e de suas possibilidades de associação faz com que o leitor se deixe levar pelo ritmo da narrativa, atentando, ora para as paisagens e as peripécias da estória, ora para as palavras e as variações gramaticais ou sintáticas, sem se preocupar com o que não está sendo assimilado como compreensão nítida e formulável. Evidentemente que não se trata de uma confusão, mas de um excesso de sentidos habilmente dosado; recriar esse excesso; dosar esse excesso em uma outra língua é um temerário desafio para um tradutor. Uma tradução como a americana (Guimarães Rosa The devil to pay in the backlands New York, 1963 – Trad. J. L Taylor e H. de Onís), que elimina esse excesso semântico, é um despropósito.
9. Tal como a lei da capital se mostra contrária ao sertão, deixando-nos crer que, se ela se impuser, o sertão acaba, assim também, se a lei da academia se impusesse na linguagem do Grande Sertão, a vitalidade dele se exinaniria.
10. In: Benedito Nunes O dorso do Tigre São Paulo, Perspectiva, 1976 (1a edição 1969) p. 143-171 (o artigo foi originalmente publicado em Revista do Livro Rio de Janeiro, 7 (26), set. 1964).
11. Rosenfield, na passagem referida acima, filia o Grande Sertão à tradição literária cristã. Em seu livro Os Descaminhos do Demo (Imago/ Edusp, 1993), ela se põe muitas vezes na busca de ascendentes nobres para filiar os elementos da narrativa do Grande Sertão; em vários momentos vemos requisitados Parmênides, Ártemis, Sófocles, Ésquilo, Platão, Blanchot ou Henry James. Por exemplo, no subcapítulo “Em busca da ‘alegria esponsal’ e carnal” (p. 92-100), depois de uma alusão inicial a Afrodite, o texto passará a ser dominado por uma constante referência a As Afinidades Eletivas de Goethe com um breve remetimento à Bíblia. Ou seja, nessa ótica, ler o Grande Sertão é apadrinhá-lo aos senhores da literatura. O caráter encomiástico da crítica a Guimarães Rosa, que pelo visto ainda persiste na década de 90, foi criticado já em 1973 por Willi Bolle: “Guimarães Rosa – ‘artigo exportação’ (Uma recepção com tendências panegíricas)” in: W. Bolle Fórmula e Fábula São Paulo, Perpectiva, 1973, p. 11-24.
12. “A relação entre essas três espécies de amor, enfim, entre três diferentes formas ou estágios de um mesmo impulso erótico, que seriam (1) o amor primitivo e caótico em Diadorim, (2) o sensual em Nhorinhá (3) e o espiritual em Otacília, traduz um escalonamento semelhante ao da dialética ascensional, transmitida por Diótima a Sócrates em O Banquete. de Platão...” loc. cit. p. 145. Reparar como ver referências ao canônico e canonizante Platão é, no mesmo gesto, incluir o Grande Sertão no cânon e buscar legitimar a própria interpretação proposta (tudo se passa como se interpretar uma obra literária devesse ser medi-la pelo cânon). De fato, há uma passagem, que Benedito Nunes não cita, em que Riobaldo reconhece só ter tido três amores: “Digo: afora esses dois – e aquela mocinha Nhorinhá, da Aroeirinha, filha de Ana Duzuza – eu nunca supri outro amor, nenhum” (p. 121-120). Porém, há também uma passagem em que ele deprecia o amor por Nhorinhá (que Benedito Nunes valoriza como sendo o segundo estágio): “Quando conheci de olhos e mãos essa Nhorinhá, gostei dela só o trivial do momento” (p. 83). Parece-me, assim, mais prudente entender a passagem das p. 120-121 como uma enfatização: Riobaldo estaria destacando seus três maiores amores. Seja como for, o que não é possível – e isso reforçarei no próximo parágrafo – é justificar, em uma leitura atenta do Grande Sertão, a hierarquização preconizada por Benedito Nunes.
13. Sem esquecer o acaso de a carta apaixonada de Nhorinhá ter levado oito anos para chegar a Riobaldo (p. 83) que poderia, quem sabe, também o conduzido a casar-se com ela.
14. A questão do nome próprio é complexa no Grande Sertão. O nome não é visto como um designador puro de um objeto ou de um lugar. Ele parece estar sempre carregado de significados; e ele tem também como peculiaridade pertencer ao lugar, isto é, ele faz parte do contexto que caracteriza um lugar, ou seja, um lugar chamado Veredas-Mortas é particularmente sinistro não só pelas características diretamente observáveis (como, por exemplo, ser uma encruzilhada), mas também por ter um tal nome; tendo um outro nome é como se fosse um outro lugar.
15. Não só o senhor é incompetente para entender o que Riobaldo narra, mas Riobaldo está diante de uma tarefa impossível, a de narrar um acontecimento que não aconteceu, mas cujo não-acontecimento é uma questão das mais importantes. Mas, enquanto para o senhor não saber é sempre um ‘não ainda saber algo’, para Riobaldo o não saber aqui é um ‘não vir nunca a saber’, onde o não vir nunca a saber não é o resultado de um trajeto triunfal ascensional, pois, se ao chegar ao não saber, ele soubesse que há um trajeto, ou seja, o trajeto de vida dele que o levasse especialmente a esse sublime não saber, então ele estaria sabendo algo, algo que pode ser ensinado, algo que seria afinal um saber. Mas Riobaldo não sabe nada que ele possa ensinar ao senhor (além do senhor parecer ser incapaz de aprender qualquer coisa da ordem do não saber). Assim, ele tanto ironiza a incompetência instruída do senhor quanto auto-ironiza a sua de não ter o que ensinar, embora – sem nunca ter aprendido nada – tanto tenha aprendido.
16. Otacília é fortemente identificada com a ordem familiar juridicamente reconhecida, o que, por sua vez, é associado à segurança: “Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo.” Otacília é, assim, a imagem do aburguesamento: aburguesamento ao máximo adiado por Riobaldo e, docemente, ironizado. No último parágrafo, Riobaldo, casado, chega, sempre irônico, ao extremo de falar: “Para a velhice vou, com ordem e trabalho” (p. 538 – o grifo é meu).
17. Quando ingressa no bando de Medeiro Vaz, Riobaldo tem os seguintes três principais traços identitários: (1) É afilhado de Selorico Mendes, (2) tem excelente pontaria e (3) é alfabetizado. A esses acrescenta-se então (4) ser jagunço. No momento em que ele narra sua vida, sua identidade “evoluiu” em dois desses traços: agora é herdeiro – filho legítimo – de Selorico Mendes, e não é mais jagunço, mas um respeitável homem casado.
18. “O senhor aí escreva: vinte páginas...” (p. 482). Escrever – além de falar, de conhecer o Vupes e andar de jipe – está entre as poucas ações atribuídas ao senhor. Há que se notar que esse ato de escrever é uma ação que está inserida na ação narrativa de Riobaldo (e não é uma mera alusão como o andar de jipe) e que Riobaldo está falando como que de modo imperativo.
19. Ao dizer, ironicamente, que leituras prefere, Riobaldo fala do “missionário esperto engambelando os índios” (p. 7) o que sugere um pouco que ele considera que os senhores vindos da cidade também engambelam – ou engambelariam – os sertanejos.
20. “Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac...” in: Günter Lorenz Diálogo com Guimarães Rosa in: Guimarães Rosa. Fortuna Crítica Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983 p. 85. O colaboracionismo de Guimarães Rosa foi já comentado por Willi Bolle in: loc. cit. p. 24.
21. Se estive, pois, discutindo a mística no Grande Sertão – e contestando a validade da interpretação neoplatonizante de Benedito Nunes –, estou ainda questionando como hermeneuticamente contraprodutiva a mística do Grande Sertão, isto é, a mistificação do Grande Sertão como obra grandiosa e canônica. Uma mistificação empreendida pela crítica com a clara – e ingênua? – conivência do autor.
22. “Le malheur des fous, le malheur interminable de leur silence, c’est que leurs meilleurs porte-parole sont ceux qui les trahissent le mieux; c’est que, quand on veut dire leur silence lui-même, on est déjà passé à l’enemi et du coté de l’ordre, même si, dans l’ordre, on se bat contre l’ordre et si on le met en question dans son origine.” Derrida L’écriture et la différence Seuil, 1967, p. 58.
23. Um dos paroxismos da autoironia de Riobaldo é o impressionante relato do assassinato dos cavalos pelo bando do Hermógenes – p. 297 e sgs. O exacerbado sentimento de piedade pelos animais ironiza a incapacidade dos jagunços, e dele próprio, de nutrir os mesmo sentimento pelos humanos. Reparar ainda a singela crueldade desta passagem sobre o grande ídolo de Riobaldo, Medeiro Vaz: “Dum fato na hora me lembrei: do que tinham me contado, da vez que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses [um leproso] num goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras, por uma e uma, no pé, com fito de transpassar o mal para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a vida dele.” Deve-se reparar ainda como a narrativa riobaldiana ironiza em múltiplas direções. Riobaldo está ironizando os leprosos, isto é, os pobres em geral que, apesar de passarem por enormes sofrimentos, nem sempre se redimem das maldades e tornam-se mais virtuosos, mas, ao contrário, buscam meios de perpetrar ruindades maiores ainda (ele está ironizando a salvação pela pobreza, o que não deixa de ser uma ironia com o cristianismo). Ironiza Medeiro Vaz, que, ao invés de promover justiça, não faz mais do que friamente contrapor a uma maldade outra não menos cruel. E ironiza a si mesmo por aprovar e admirar a crueldade de Medeiro Vaz. De certo modo, porém, é o leitor que é mais ironizado, pois ele, ao menos numa primeira leitura (em todo caso, numa primeira fase da recepção do Grande Sertão), não pode deixar de simpatizar com Riobaldo e compactuar com sua minimização das atrocidades.
24. Veja o relato dos estupros nas p. 148-9. Notar a desfaçatez do comentário final: “Pelas ocasiões que tive [scilicet de estuprar], e deixei de lado, ofereço que Deus me dê alguma minha recompensa.”
25. Ver a já referida passagem sobre a neta do seo Ornelas – p. 402-3. Reparar que Riobaldo não crê que sua atitude continente (a renúncia a estuprar e matar) se deva a ele ser virtuoso; em todo caso, com base no texto, não se pode determinar se essa atitude continente se deveu a ele não querer fazer Diadorim sofrer com ciúmes (hipótese que parece ser a mais favorecida no relato) ou se a ele respeitar o seo Ornelas; nem de longe, porém, ele parece preocupado com a vítima, a acanhada menina: o sofrimento dela não lhe parece merecedor de maiores considerações.
26. “Baixei ordens severianas: que todos pudessem se divertir saudavelmente, com as mulheres bem dispostas, não deixando no vai-vigário; mas não obrassem brutalidades com os pais e irmãos e maridos delas, consoante que eles ficassem cordatos. Estatuto meu era esse. Por que destruir vida, à-toa, à-toa, de homem são trabalhador?” – p. 463. (Sempre o mesmo descaso para com as mulheres agredidas; só os homens parecem merecer algum respeito.)
27. “E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto, e já tiver recebido umas duas ou três mulheres, moças sacudidas, p’ra o renovame de sua cama ou rede!...” – p. 393. Atentar para a crítica de Riobaldo: “Mas os hermógenes e os cardões roubavam, defloravam demais...”. Sua crítica fundamenta-se no “demais”, ou seja, é como se um pouco de defloramentos fosse bem aceitável. Contudo, não se deve esquecer, por um lado, da auto-ironia riobaldiana, por outro, de que uma aguçada preocupação com o machismo é proveniente de um discurso que, embora querendo-se antipatriarcal, não necessariamente deixa de ser um discurso do senhor, a saber, esse discurso, cada vez mais representado, quer em cadeiras solidamente institucionalizadas em universidades – como a de Women’s Studies –, quer em ONGs militantes, que é o discurso feminista. De todo modo, é jocoso que os leitores e os críticos, incluindo as feministas, até hoje, tenham se deixado levar pela irônica simpatia de Riobaldo e tão ingenuamente tenham aceitado não pôr em questão essa face dele de desconsideração pelas mulheres vitimadas pela violência, ainda que sendo esse um aspecto bem evidente.
28. Riobaldo não dá mostras de sentir-se palpavelmente culpado pelos seus feitos para com as pessoas. Ele nunca admite ter culpa pelas tantas mortes cometidas: tem a consciência tranqüila. Contudo, ele se refere por vezes a um vago sentimento de culpa (“Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi quem minha culpa começou?” – p. 119) que nunca é referido a qualquer ato em particular; um sentimento, portanto, que permanece em aberto, como que confundindo-se com a própria vida. As tão constantes dúvidas de cunho existencial de Riobaldo têm, de fato, por vezes uma face de culpa, sobretudo a culposa dúvida de se ele pactuou ou não com o demo. Ao final da narrativa, segue retornando essa culpa condensada na pergunta a Quelemém: “O senhor acha que minha alma eu vendi, pactário?” (p. 538). A complexidade da ironia (e da auto-ironia) no Grande Sertão habilmente sustenta que Riobaldo se mostre, por um lado, sensível a uma culpa, por assim dizer, existencial e, por outro, insensível às dores infligidas aos outros, deixando predominar, numa primeira leitura, um sabor de inocência numa narrativa, contudo, eivada por crueldades.
29. O Aleixo, a Maria Mutema, o leproso que lambe goiabas, o Hermóneges são algumas das exemplificações do mal radical, inexplicável, no Grande Sertão. Nada garante que Riobaldo não seja desta laia. Riobaldo ironizou o causo do Aleixo, mas se fosse o Aleixo contanto, ele nos narraria a sua santidade e a culminância de sua vida no seu último estágio de temente a Deus. E é o próprio Riobaldo que narra sua vida e sua paz de jubilado, mas, se houvesse um outro Riobaldo para narrá-la –olhando tudo de fora –, podemos suspeitar que, do mesmo modo que com o Aleixo, passaríamos a ter dele uma imagem bem mais dúbia.