DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

Itaguaí é aqui:
sobre O Alienista de Machado de Assis
[1]

André Rios

 

                                      Ego sum una illa Stultitia, quae omneis ex aequo tam parata beneficentia complector.[2]
Erasmo Laus Stultitiae n. 46

 

Já se falou que “Machado foi um criador de palimpsestos”[3]. O que temo, contudo, é que ele seja ainda mais palimpsêstico do que se tem suposto; sobretudo no que diz respeito a O alienista que, depois de mais de cem anos, tem, antes, sido interpretado basicamente com atenção a uma só camada: como uma crítica às pretensões totalitárias da medicina e, em especial, da psiquiatria. Com efeito, por vezes, O alienista não é interpretado apenas como uma crítica ao poder médico, mas considera-se que nele é levantada a questão dos limites improváveis entre razão e loucura na sociedade em geral. Costa Lima , por exemplo, vê como “o tema central” de O alienista a questão de “o que é afinal a loucura?”, vindo a entender a loucura num sentido mais amplo que outros intérpretes, mas não amplo o suficiente – como mostrarei abaixo. Kátia Muricy considera que O alienista critica os “mitos da ciência da época” e que a ciência de Simão Bacamarte é uma “paródia da psiquiatria moderna”[4]. Seja qual for a nuance privilegiada, todas estas interpretações convergem para o consenso de ver em O alienista uma crítica ao, como diz o barbeiro Porfírio, “despotismo científico”. E este é talvez o maior problema dessa interpretação já tradicional desse conto: essa interpretação existe no interior da narrativa e é aí ridicularizada. Quem lê esse conto como uma crítica à psiquiatria está, a princípio, se pondo como aliado do barbeiro e teria de explicar o que o excetua de também estar seguindo o caminho da conivência. Costa Lima não hesita em dar razão ao barbeiro: “A Porfírio cabe a descoberta do que Bacamarte até o fim ignorará: a divisória entre loucos e sadios não é apenas uma questão médica, pois ainda envolve um critério social.”[5] Costa Lima, portanto, concorda com Porfírio; mas ele está dizendo que Machado também concorda? Se concordasse, ele não estaria já se condenando ao mesmo fracasso de seu personagem e, principalmente, ao fracasso de seus aliados? Costa Lima é um excelente crítico (e por isso o estou tomando como exemplo privilegiado e, por vezes, até mesmo como síntese de uma tendência secular da exegese machadiana), mas se deixa levar em sua interpretação por uma artimanha machadiana bem clara no conto: a tendência a iludir o leitor. Machado de Assis nem precisa ser muito sutil, afinal nós já temos a tendência a seguir Porfírios[6]. Não fazemos sempre isso em política? Não estivemos, em política, sempre acreditando neste ou naquele Porfírio que depois sempre nos trai? Não foram as grandes revoluções sempre, ou desde o início lideradas ou pouco a pouco usurpadas por um ou mais Porfírios? A interpretação que segue Porfírio, parece-me, ilude-se duplamente: por Porfírio, que prodigaliza grandes discursos e promessas libertárias, e por Machado, que com sua paciente sabedoria mofa do leitor e guarda risadas para a posteridade.

         Não era exatamente Costa Lima quem propunha fosse o texto de Machado como um palimpsesto e que se o deveria ler nas entrelinhas? O que eu observo é que, em todo o último século, até Kátia Muricy e Costa Lima, nunca ninguém foi mais adiante na leitura de O alienista do que o anti-heróico barbeiro Porfírio, todas as interpretações se mantiveram na camada superficial do palimpsesto. O que acho aqui engraçado é que todos esses aprendizes de feiticeiro parecem ter estado subestimando o nosso bruxo. Nunca, nem de longe, suspeitaram o quanto ele, através de todo este século, os esteve iludindo, induzindo ao erro, e que está em sua tumba rindo de todos e cada um. Fico até pensando o quanto ele, ao fim deste ensaio, também não rirá de mim.

         Em O alienista, Machado palimpsesticamente ironiza muito e em muitas direções. Acabei de indicar que ele ironiza também o leitor, induzindo-o a leituras insuficientes (duplamente divertido é que, embora a leitura tradicional seja insuficiente, ela é considerada por leitores e críticos como genial). Machado docemente ironiza a mediocridade de seus leitores e críticos. A mediocridade é, em O alienista, um tema muito mais forte que o tema da loucura enquanto diretamente relacionada à psiquiatria. A mediocridade, tema secular e universal, tem ocupado muitos filósofos e escritores, ainda que eles muitas vezes, na maioria das vezes, tenham se furtado a nomear de frente esta oponente terrível, polimorfa e sedutora. Nunca se pode, de fato, ter certeza do quanto já não se está aliciado por ela. Quem se orgulha em combatê-la pode estar, pela fatuidade do orgulho, já corrompido. Por mais que Sócrates a tenha combatido, Platão não chegou a legar-nos um diálogo que se intitulasse ‘A Estultice’. Por isso, admiro Erasmo pela sua desmedida coragem em escrever a Laus stultitiae[7]. Esse livro é normalmente traduzido por Elogio da Loucura, tradução possível, mas insuficiente, uma vez que tanto a loucura tida como doença quanto o furor emocional são excluídos do que seria o assunto do Elogio. Se considerarmos em Cícero[8] e em Celso[9] as palavras latinas que podem ser traduzidas por loucura, podemos dizer que nenhuma delas tem um sentido estritamente médico ou jurídico, todas são também usadas na linguagem cotidiana; mas há nuances importantes. A palavra furor é a que tem uso jurídico referindo-se aos que não podem gerir seus bens[10]. Amentia e dementia são sinônimas e tendem a um sentido mais, por assim dizer, técnico ou reservado. Insania e stultitia são as palavras que têm o sentido mais amplo. Contudo, insanus é o termo que Celso usa com freqüência para se referir àqueles que têm problemas mentais. Ou seja, embora insania e stultitia tenham um significado amplo, insania se aproxima mais de um uso médico (sendo também a tradução de phrenêsis)[11] e stultitia tende mais ao sentido geral, social, digamos, de desregramento, excesso, insensatez, vaidade, irreverência, tolice etc. A palavra stultitia teria, portanto, que ser traduzida de diversas maneiras diferentes de acordo com o contexto. Para a tradução do título Laus stultitiae, se deveria recorrer ao termo mais geral, que melhor desse conta da plurivocidade dessa palavra no texto. Ora, o tema principal da Laus stultitiae é a mediocridade. E “mediocridade”, parece-me, é a melhor tradução para stultitia no livro de Erasmo[12]. A mediocridade não é propriamente nem loucura nem tolice, embora, é claro, não deixe também de ser uma e outra – o que se passa é que ela é extremamente polimorfa e, por mais sufocante que ela possa ser em uma sociedade, ela nunca é tão sufocante que destrua a si mesma. A mediocridade não é medíocre para se reproduzir e para ampliar seus domínios; para se defender ela bem sabe ser sutil e erudita. Daí que a Estultice em pessoa se mostre uma exímia oradora, com um latim rico e irrepreensível. Há medíocres de todos os tipos: cultos ou ignorantes, alegres ou entediados, hábeis ou inábeis, bonitos ou feios. Além disso, mesmo as pessoas mais prudentes frente à mediocridade sempre terão de ter sua hora de permissividade, lendo tolices ou contemplando vulgaridades. Não se trata de deslizes, é parte da vida; querer banir esses momentos é recair na mediocridade dos rígidos sábios estóicos. O perigo é que a mediocridade sabe ganhar para o seu lado os espíritos mais brilhantes, são estes que por vezes melhor esmagam aqueles que ousam se opor ao poderio dessa deusa. Machado de Assis parece conhecer bem as proporções do desafio que ele está assumindo: combater a mediocridade; por isso, ele é prudente. Prudente ao ponto de se eclipsar por detrás de um narrador. A ironia machadiana impregna todo o conto, mas ela flui discretamente por detrás do narrador. O narrador, ele próprio, não é irônico. Ele se mostra como um escrupuloso pesquisador de “crônicas”, sem maiores críticas e nada criativo, ou seja, é um medíocre como os demais; não faz mais do que reconstruir, algumas décadas depois, o que se passou naquele mundinho onde as mediocridades se embateram tão apaixonadamente. Itaguaí é um domínio da mediocridade. Mas ela, nisso, não é diferente do resto do mundo. Em Itaguaí, ao que parece, são todos medíocres, não por ela ser provinciana, mas porque o mundo todo é medíocre. De fato, todas as referências ao mundo para além das fronteiras de Itaguaí só corroboram que o próprio da condição humana, universalmente, é chafurdar em mediocridades. Machado de Assis nunca esteve em Itaguaí, nem eu, mas isso não importa, Itaguaí é tanto aqui como acolá, a mediocridade está por toda a parte: é, sem dúvida, a coisa do mundo melhor partilhada.

         O conto se inicia com a decisão de Simão Bacamarte, comunicada pessoalmente à Sua Majestade, de ir morar em Itaguaí. Um homem com educação cosmopolita, inteiramente dedicado à ciência, que não cede às paixões e busca orientar-se pela lógica, toma uma decisão racionalmente injustificável. A frase de Bacamarte, insuficientemente fundamentada e mesmo tola, funda, por um lado, o espaço ficcional do conto e, por outro, é já a alegoria da prática da ciência moderna que também advém de decisões anteriores e exteriores a ela e, portanto, injustificáveis cientificamente.

         Logo a seguir é narrada uma outra decisão complementar a essa primeira. Primeiramente foi estabelecido o espaço social do conto, agora, esta segunda decisão funda o espaço familiar do Dr. Bacamarte: ele se casa. O casamento é tido como desigual. Ele, com quarenta anos, casa-se com d. Evarista, de vinte e cinco, nem bonita nem simpática, viúva de um juiz-de-fora. Perguntado, sua explicação para a escolha seria científica: ela “reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, são e inteligentes”. Ora, o que um médico, sobretudo naquela época, não deixaria de considerar é que ela fora casada e já não tivera filhos; não era provável, portanto, que ainda viesse a tê-los. Isso sugere que a decisão de Bacamarte não foi de fato baseada na ciência, que as explicações científicas são racionalizações encobrindo uma decisão, digamos, pré-científica[13]. Machado mostra-se o tempo todo sensível à essa face não científica da ciência, ou seja, à “volúpia científica” (cap. 5). Mas até aí só temos como que uma pilhéria preliminar. O pitoresco do conto só se desencadeia no capítulo 4 quando, em seqüência a um processo de transformação que se inicia no capítulo 2, Simão Bacamarte passará de medicus insanorum a medicus stultorum, ou seja, passará a não mais só se ocupar daqueles que se enquadrem em diagnósticos da psiquiatria instituída (insani) para cuidar dos perdulários, dos supersticiosos, dos enfatuados, enfim, de todos os tipos que tão bem desfilam na Laus stultitiae[14].

         Costa Lima bem percebe que o que está em questão no conto é algo mais amplo que a loucura enquanto doença: “Qual a diferença entre o que escrevia o cronista e o que pensava Bacamarte? A personagem tinha segurança da ciência, ao passo que o Machado questionador tomava a loucura menos como uma doença do que como uma linguagem excluída.”[15] Nessa frase, Costa Lima, por um lado, identifica indevidamente o narrador-cronista com Machado (comentarei isto logo mais abaixo), por outro lado, atribui ao cronista uma opinião que ele não sustenta. A questão é se Costa Lima em seu artigo tem base para ler em Machado um ponto de vista que, na verdade, foi extraído de citações da História da Loucura de Foucault ou de referências a Szasz. Seja como for, é mais simples remetermos Machado diretamente a Erasmo do que a Foucault que, aliás, não parece se dar conta de que Erasmo exatamente exclui de sua Laus a loucura enquanto doença. De toda forma, Costa Lima não chega a relacionar a loucura em O alienista à stultitia na Laus. Com efeito, ele não parece se dar conta do quão dramática é para Machado a questão do combate à mediocridade: como combatê-la sem ser por ela assimilado?

         Antes de prosseguirmos com o comentário do texto, desfolhemos algumas camadas do palimpsesto. É impossível estabelecer qual seja a principal ironia do conto. Machado de Assis não perde chance de sobrepor uma ironia à outra. É impossível também enumerar todas as ironias e como elas se intrincam. O texto ironiza a medicina, a política, o provincianismo da província, o provincianismo da capital, a vaidade feminina, a razão, a poesia, a retórica, os advogados, o evolucionismo, a influência francesa, os leitores e os críticos, as estatísticas, a Ordem, a sociedade patriarcal, os que pretendem ser únicos ou acima dos outros, as elites em geral, a historiografia, a função do narrador e... os valorosos combatentes que se lançam frontalmente contra a mediocridade (dentre os quais talvez até um certo Machado de Assis esteja incluído). Dessa enumeração incompleta, ao menos três ironias têm confundido os intérpretes ou passado despercebidas: ironia à função do narrador, à impossibilidade do combate frontal à mediocridade e aos dispositivos patriarcais.

         Machado, por um lado, ironiza a função do narrador. Ele ironiza tanto o historiógrafo quanto o narrador ficcional que geralmente orienta o leitor para o que supõe importante, que transmite uma certa sobriedade moral conivente com o patriarcalismo. Por outro lado, ele minimiza os traços que permitiriam ao leitor incauto (ou ao crítico) se aperceber de seu distanciamento do narrador. O leitor e os críticos tendem a identificar o narrador com o próprio Machado[16]. Isso é importante porque os leitores são levados a entender a loucura, tal como o narrador[17], como algo relacionado à psiquiatria e, conseqüentemente, o tema do conto como sendo a extrapolação do poder psiquiátrico pelo radicalismo bizarro, porém ironicamente não de todo infundado, de Simão Bacamarte. Não é, portanto, por falta de perspicácia que os leitores e sobretudo os críticos tendem a confundir o cronista com o Machado de Assis, mas eles são sub-repticiamente induzidos a isso. Induzidos por quem? Por “Machado de Assis”, pelo escritor que, por sua vez, não necessariamente deve ser identificado a Machado de Assis, nosso respeitador e esforçado literato. Bacamarte parece em geral confundir mediocridade com medianidade; ele não vê que se a mediocridade, por vezes, passa pela medianidade, por outras, ela – sempre ágil e versátil – daí se afasta.

         Mas por que estive falando que “Machado de Assis” ironiza quem se põe a combater frontalmente a mediocridade? Há algum personagem em O alienista que não seja medíocre? Não estão todos rendidos e entregues à mediocridade? Talvez não se possa ser tão peremptório. Em todo caso, por ora, é melhor termos cautela. Simão Bacamarte bem pode, por um lado, ser entendido como um medíocre radical que quer depurar Itaguaí dos medíocres não medianos, isto é, não normais, isto é, não suficientemente medíocres. Por outro lado, ele poderia também ser visto como um ardoroso combatente contra a mediocridade.

         Leiamos o resto do conto com base na primeira hipótese. Após haver construído a Casa Verde, ele constitui um corpo administrativo voltado para a administração do hospício; depois Bacamarte começa a intervir diretamente na vida da região encarcerando quem quer que seja que julgue apropriado, ou seja, ele expande a organização do hospício para a sociedade em sua totalidade. Seu projeto de pesquisa científica se desdobra em um projeto de ordem social. O que Bacamarte quer, então, é afastar, segregando ou tratando, todos os empecilhos para o bom funcionamento da ordem social. Bacamarte, portanto, não questiona a mediocridade dos costumes sociais, aceita-os sem questionar, aceita respeitosamente os padres, a instituição do casamento e a prescrita austeridade dos cientistas. Ele zelosamente cumpre os seus papéis de cidadão, de cientista e de esposo. A ordem social, bem como a vida em sociedade são inquestionáveis para ele e sua ciência, se ela é medíocre ou tola, não vem ao caso; toda a sua ciência será posta a serviço do bom funcionamento desta ordem, ou seja, da otimização da ordem social das mediocridades. A palavra “Ordem” surgirá algumas vezes na narrativa (é sobretudo Porfírio quem a emprega); os medíocres parecem ter uma certa predileção por ela. “Ordem” é em geral um sinônimo de mediocridade.

         O projeto de Bacamarte, se começa por encarcerar loucos dentro da classificação médica de então, evolui para um projeto social mais amplo de depurar a mediocridade encarcerando os medíocres não suficientemente medíocres. O alienista busca, com auxílio da ciência, instaurar uma homogeneização da mediocridade social; a sociedade reage com uma rebelião liderada pelo barbeiro Porfírio. Porfírio defende um outro projeto, mais tolerante, de mediocrização, ele não questiona a sociedade, não tem projeto social e acaba por dedicar-se às suas ambições pessoais tal como qualquer político medíocre. A revolução não foi mais do que uma revolta da mediocridade contra a mediocridade. Porfírio faz aliança com o alienista e, depois, vem a ser deposto também por um barbeiro, João Pina; logo a seguir entra na vila uma força mandada pelo vice-rei e restaura o antigo regime. Ao final, portanto, não houve mudanças e o alienista alcança praticamente o seu poder máximo. Contra o projeto de mediocrização, sob a forma de uma intolerante homogeneização conduzida com mão de ferro pelo alienista, nenhuma resistência a nível social e coletivo parece viável; mas, mesmo que Porfírio tivesse cumprido suas promessas e banido Bacamarte, isso não mudaria a dominância da mediocridade, apenas imporia um outro modelo de mediocridade, uma outra Ordem. Mudanças só ocorrerão por decisão de Bacamarte, isto é, quando ele reformula sua teoria. Sua depuração, parece-lhe, teve um efeito em negativo, mostrou que os aberrantes eram exatamente os poucos que ficaram soltos. Ou seja, ele, ao invés de estar assegurando o domínio do medíocre mediano, estaria era suprimindo-o. Não se tratou de um óbvio resultado da observação, mas das estatísticas (as estatísticas são uma peculiar forma de estultice). O alienista libera os encarcerados e passa a prender os equilibrados; o equilíbrio e a sensatez lhe parecem agora caracterizar a anormalidade. Ele se põe então a tratá-los, isto é, se põe a fazê-los ter comportamentos desequilibrados provocando-lhes em geral o orgulho e a vaidade. Seu tratamento teve sucesso e em breve o hospício está vazio. É quando ele conclui que se esses equilibrados puderam ser transformados em desequilibrados é por que eles praticamente já o eram. Sendo assim, o único verdadeiramente desviante seria ele próprio, ou seja, ele era quem tinha de ficar encarcerado. Apesar dos protestos da esposa e amigos, ele se recolhe ao hospício onde morre alguns meses depois.

         Bacamarte teria primeiramente encarcerado os desequilibrados para instaurar um reino translúcido do equilíbrio e da ordem, isto é, da mediania, numa sociedade homogeneizada. Com isso estaria melhorando a sociedade promovendo-a a um estágio superior de mediocridade. Ele vê que errou ao estabelecer os critérios de como deveria ser a sociedade mediana quando ele constata que a maior parte da sociedade está presa. Assim, ele decide soltar os desequilibrados, isto é, ele aceita que a sociedade pode melhor gerir-se pela heterogeneidade que pela homogeneização total. Ao aceitar este projeto de sociedade, seu trabalho começa a mostrar-se como impossível ou, em todo caso, como inútil. Depois, ele reconhecerá que pouco adiantou ter tratado os equilibrados, pois eles já seriam desequilibrados. O que prevalece no final é um conceito de sociedade que se reproduz pelo livre jogo das mediocridades. Por ela ou contra ela pouco se pode fazer. A questão que fica é a de saber se há alguma possibilidade de resistir, quer a uma sociedade homogeneizada que visa otimizar as mediocridades, quer a uma sociedade heterogênea que deixa que o jogo de ganâncias e modéstias, zurices e prodigalidades, estafas e preguiças, se regule pelos conflitos. Para bem servir à mediocridade, só resta ao alienista não atrapalhá-la, afinal ela não precisa que a cultivem e cultuem. A Estultice em Erasmo gaba-se de não precisar de um templo com estátuas, pois toda a Terra é um templo dedicado a ela e cada ser humano uma estátua em seu louvor[18]. Só restaria a Bacamarte recolher-se para deixar a mediocridade seguir prosperando.

         Mas Bacamarte pode também ser visto como um bravo oponente da mediocridade. Ele estudou cuidadosamente tudo o que era conveniente ser estudado; depois veio para Itaguai para não perder tempo com honrarias tolas. Alternava em seus estudos a prática com a leitura, o que é o mais produtivo em medicina. Exerceu a profissão por alguns anos, adquirindo experiência. Cultivou uma sadia curiosidade científica buscando ocupar-se de uma especialidade pouco desenvolvida. Mostrou-se um empreendedor dinâmico, assim como eloqüente, sincero, convincente e corajoso. Após construir a Casa Verde, provou ser um administrador competente treinando os seus funcionários, delegando tarefas e obtendo, ao mesmo tempo, lucros honestos e corretamente contabilizados. Primeiramente praticou a psiquiatria tal como era o ensinado e o fez com esmero de modo que todos consideravam estarem os pacientes sendo bem tratados. É inegável que Bacamarte era um marido mediano, mas essa não é a questão, enquanto profissional era acima da média e não se enfatuava com isso, apenas se dedicava ao trabalho. Ele não era um médico medíocre. Era bem formado não tendo cedido a desvarios da juventude e sem se arvorar em tomar-se por um ser especial, acima dos demais. Só depois dessa carreira que o formou solidamente é que ele, como se é de esperar de alguém bem formado, começou a inovar, ou seja, começou a estender o seu conceito de loucura para além do que a psiquiatria preconizava e pôs-se a encarcerar todos os que tinham uma conduta que levasse a ações imoderadas, irrelevantes ou autodestrutivas. Enfim, começou a combater a mediocridade do modo mais frontal possível, isto é, encarcerando os fúteis, os perdulários e demais medíocres por indisciplina. Tendo encarcerado bem mais da metade da cidade, ele constata que os equilibrados é que são os anormais e, portanto, os que perturbam o funcionamento da sociedade, que mediocrizam a sociedade. Bacamarte, num primeiro momento, buscando banir a mediocridade, não teria mais do que depurado a mediocridade. Mas ele acabará, num segundo momento, concluindo que os equilibrados também são desequilibrados e o asilo fica vazio. Seu combate à mediocridade fracassa, tudo continua tão medíocre quanto antes. Só resta a ele, ou concluir que ele é um medíocre, o mais medíocre de todos, pois não foi capaz de compreender o básico da mente e da sociedade humana, isto é, que todos são medíocres; ou considerar que ele não era medíocre, que era o único que não era medíocre, de modo que a única coisa a fazer era isolar-se da sociedade e só voltar a ela se passasse a ser medíocre. Há um problema semelhante no Elogio da Loucura, pois a Estultice deveria ser estulta, mas ela faz um brilhante discurso. Ora, mas é claro que ela não é medíocre, ao menos não é o tempo todo; sendo que o tempo em que ela não está sendo medíocre ela o está dedicando para fazer a mediocridade prosperar. O que há de medíocre nesse personagem que se põe frontalmente contra a mediocridade é ele não ter ironia. Só com ironia é que se pode golpear a astuta mediocridade. A ironia de Erasmo foi deixar falar a mediocridade, isto é, a Estultice, e deixá-la falar com ironia (o que potencializa a ironia de Erasmo contra a Estultice). Erasmo contesta a mediocridade com uma ironia pervasiva, que não emana de nenhum personagem nem de qualquer narrador. Essa ironia, digamos assim, impessoal, sendo a mais móvel é a mais apta a conter a também rápida, ágil e assimiladora mediocridade.

         O Bacamarte medíocre que quer ajudar à mediocridade a se reproduzir é excluído porque a mediocridade não precisa desse tipo de ajuda fervorosa. O Bacamarte antimedíocre, mas que só conhece o encarceramento como procedimento para conter os medíocres, teria de encarcerar toda a humanidade, o que é – uma vez que, internadas todas as pessoas, elas terão uma vida regrada – tornar a sociedade muito mais medíocre, o que mostra que esse Bacamarte seria, antes, um extremoso servidor da mediocridade.

         A mediocridade é de tal modo multiforme que querer mediocrizar a sociedade ou querer desmediocrizá-la acaba dando no mesmo. Tanto querer cultivar cientificamente a mediocridade, quanto combatê-la cientificamente, tem o mesmo resultado, são esforços inúteis: a mediocridade nem precisa nem teme a ciência.

         Não digo que essas duas hipóteses interpretativas que acabo de expor não sejam medíocres. Não me refiro a falhas técnicas; sem dúvida, tanto uma quanto outra forçam aqui e ali o texto de O alienista. O que interessa é que tanto uma interpretação quanto outra destacam algumas tensões internas e nuances peculiares ao texto. O que me importa agora é destacar que essas minhas duas interpretações são patriarcais, compactuando com a altiva cegueira patriarcal em relação à mulher. Cegueira que é, por um lado, uma forma de violência pelo desprezo, mas que, por outro lado, é uma fraqueza. Fraqueza que é explorada por quem se opõe ao patriarcalismo em todas as suas formas de manifestação. É zombando dessa cegueira que o conto ironiza o patriarcalismo e todos os seus representantes: o chefe da família, o médico, o psiquiatra, a ciência, o padre, o narrador literário, a sociedade itaguaiense, o leitor conivente, o crítico conivente etc.

         Para comprovar essa cegueira conivente da qual, sem dúvida, Machado muito se ri até hoje, permitam-me retornar ao artigo de Costa Lima. Ele fala na “rebelião de Evarista” que se daria pelo comer, em reclamar ao marido e coisas assim. De fato, o comportamento de Evarista, de um modo geral, pode ser visto como uma contestação ao marido ou mesmo à ciência que está no conto claramente ligada à estrutura patriarcal com seus títulos e regalias. Ela contesta não tendo filhos, não seguindo a dieta, indo ao Rio de Janeiro, comprando roupas e jóias, preocupando-se com o vestuário, reclamando da pouca atividade sexual do marido ou gastando dinheiro. Ou seja, com futilidades, pequenos prazeres e variadas tolices as mulheres contestam os planos grandiloqüentes do patriarcado. Mas Machado está aí ironizando os dois lados ao mesmo tempo, os homens e as mulheres, a tola austeridade do homem de ciência e a tola frivolidade da mulher casada. Essa rebeldia feminina vale no conto tanto quanto a revolução de Porfírio. Não se trata de contestação ao patriarcado, faz parte de seu jogo. O que então contesta o patriarcado? Sem dúvida, a ironia que perfunde todo o conto. Mas o que reforça essa ironia que, no conto, zomba não só dos representantes do patriarcado, mas também do leitor e dos críticos? Penso poder responder esta questão destacando as seguintes quatro passagens:

 

Três meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher do boticário... [cap. 3]

A esposa [do boticário], senhora máscula, amiga particular de d. Evarista... [cap. 8]

A proposta [isto é: tendo sido a mulher do boticário encarcerada, o alienista ofereceu a Crispim que dormisse à noite na Casa Verde] colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que d. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga... [cap. 12]

Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos. [cap. 13]

 

         Não acredito estar forçando o texto se entender que o que há entre d. Evarista e a esposa do boticário é uma relação homossexual. Mas o lesbianismo das duas o patriarcado não viu: nem Bacamarte, nem a sua ciência (a esposa do boticário foi internada por ser normal), nem o boticário, nem o padre, nem Itaguaí, nem o minucioso narrador, nem os leitores, nem a critica literária até Kátia Muricy e Costa Lima. Todos, portanto, coniventes com o patriarcalismo. A nível diegético a única prática que efetivamente escapa e, assim, se contrapõe e resiste ao patriarcalismo, isto é, que se mantém fora e não é assimilada por ele, é o lesbianismo. E Machado ri de todos nós que, embora leiamos tão superficialmente seus textos, o consideramos um bruxo. O que imortaliza Machado não são nossas análises textuais laudatórias e medíocres, são as boas risadas que ele, zombando de nossa pretensão em domesticá-lo, pode dar de sua tumba. Pelo que vejo, ele muito ainda se rirá de nós, leitores incautos de suas obras. Talvez a melhor maneira de comentar essas obras seja nos pormos em busca das risadas póstumas de Machado de Assis.

 

 

[1] Publicado originalmente nos Cadernos Pedagógicos e Culturais. Niterói, 6 (1/2), pp. 93-103, jan./dez. 1997.

[2] “Eu, a Loucura/Mediocridade, sou a única que abraço a todos com iguais favores”.

[3] Costa Lima, Luís. O palimpsesto de Itaguaí. In: Pensando nos Trópicos. Rio de Janeiro, Rocco, 1991 p. 253.

[4] Muricy, Kátia. A Razão Cética. São Paulo, Companhia das Letras, 1988 p. 33-34.

[5] Loc. cit. p. 265.

[6] Machado, sempre habilidoso, tira também proveito, como já foi bem comentado pela crítica, da tendência que se tem, ou se tinha, a seguir Bentinho. Comentarei o Dom Casmurro em um outro texto.

[7] Deve-se notar, porém, que mesmo Erasmo não se lançou em uma batalha corpo a corpo com a mediocridade; ele pôs a Estultice como oradora louvando a si mesma. Golpe brilhante, desses que derrubam o oponente usando a sua própria força.

[8] Cicero. Tusculanarum disputationum libri quinque. Leipzig, Teubner p. 78 e sgs. (lib. 3).

[9] Celsus. De medicina. London, Heinemann, 1971 (Loeb) vol. 1 p. 288 e segs. (lib. 3, c. 18, 19 20).

[10] Cicero. loc. cit. p. 79.

[11] Celso. loc. cit. p. 288.

[12] Não estou afirmando que “mediocridade” seja a melhor palavra a ser empregada como tradução ao longo do livro todo. Talvez uma outra palavra desse melhor conta dos diversos contextos do livro para traduzir stultitia. O que se passa é que a mediocridade, sendo perversa polimorfa e sendo – visto que ela nem sempre seja destrutiva e medíocre – extremamente pervasiva, não se deixa aprisionar por um termo. Paradoxalmente, mesmo a palavra mediocridade é insuficiente para que nos refiramos à mediocridade.

[13] Toda a crítica tem esquecido que d. Evarista era uma viúva sem filhos. Sempre se tem falado, se tem acreditado, que o dr. Bacamarte escolheu científica e racionalmente a sua esposa, que tal escolha é uma ironia ao cientificismo exagerado. Sem dúvida, é uma ironia ao cientificismo exagerado, mas é também uma ironia à cegueira gritante do cientificismo em geral. Machado faz com que os leitores compactuem com a mesma cegueira. Ele tira bom proveito da situação para deixar provado que os leitores (e os críticos) são tão ou mais medíocres do que o cientificismo do qual eles pensam estar sobranceiramente rindo. Quem ri melhor é Machado de Assis. Nunca tinha reparado, mas com O alienista aprendi, o quanto é sublime e prazeroso deixar para rir de dentro da própria tumba.

[14]  Que Machado relaciona a questão da “loucura” diretamente com o livro de Erasmo é bem claro pelo texto de O alienista. Pode-se citar uma crônica bem posterior, de 1894, onde ele se refere a Erasmo: “Tem-se discutido se o Hospício Nacional de Alienados deve ficar com o Estado ou tornar à Santa Casa de misericórdia. Consultei a este respeito um doudo, que me declarou chamar-se Duque do Cáucaso e da Cracóvia, Conde Stellario, filho de Prometeu, etc., e a sua resposta foi esta: – Se é verdade que o Hospício foi levantado com o dinheiro de loterias e de títulos nobiliários, que o José Clemente chamava impostos sobre a vaidade, é evidente que o Hospício deve ser entregue aos doudos, e eles que o administrem. O grande Erasmo (ó Deus!) escreveu que andar atrás da fortuna e das distinções é uma espécie de loucura mansa; logo, a instituição, fundada por doudos, deve ir aos doudos, – ao menos por experiência... O seu ao seu dono.” [Obra Completa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1986, vol. 3, 2 de dezembro de 1894, p. 637] Machado, na voz do louco, dissolve a loucura medicalizada na loucura geral das frivolidades sociais, isto é, na loucura da Laus de Erasmo. Ver também a conhecida crônica, mas que não menciona Erasmo, sobre a “lúcida” fuga dos internos do Hospício Nacional em A Semana , 31 de maio de 1896 [op. cit. vol. 3, p. 708-710].

[15] Loc. cit. p. 264.

[16] Ver o trecho de Costa Lima citado acima, onde ele não considera o “cronista” um personagem, mas o identifica a Machado. Ver também Muricy, p. 39. Não digo que os críticos não cheguem a perceber que Machado de Assis e o narrador não coincidem; digo que eles tendem a confundir um com o outro. Mas há já aqui um problema pois o, digamos, escritor Machado de Assis não é o mesmo que o cidadão Machado de Assis. É fácil supor que o cidadão Machado defenda idéias moderadas em seu cotidiano e as quais, nessa medida, coincidem com as do medíocre narrador. Mas a cena do conto é outra.

[17] O narrador entende a loucura como algo relacionado à doença e à medicina. Não é pertinente atribuir-lhe uma compreensão mais ampla de “loucura”. Que Costa Lima atribua a Machado uma compreensão mais ampla de loucura é, como ele faz, impreciso mas aceitável; contudo, é infundado considerar que o narrador pense assim.

[18] Erasmus von Rotterdam . Laus stultitiae. In: Werke. Band 2, Darmstadt , WBG, 1995, p. 110-112 (n. 47).