DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

EM FAVOR DAS INCERTEZAS

Alberto Dines

 

O problema dos balanços de fim de ano é que são preparados muito antes, em meados de novembro, e as últimas semanas são, em geral, avaliadas quando o novo calendário já está avançado. Recorte arbitrário, os retrospectos valem apenas para as medições compreendidas dentro do ''ano fiscal''. No caso brasileiro, beneficiados pela coincidência cronológica - o mandato presidencial começou junto com o ano.

O resto é relativo e subjetivo, puro artifício. Inclusive as notas que os ministros foram obrigados a dar ao próprio desempenho, disfarçadas numa pontuação do governo. Ou a peroração do chefe da nação, que se estendeu ao longo de 87 minutos onde, entre as proclamações, reclamou da incontinência verbal dos auxiliares, esquecido da sua (''se falarmos menos e apenas o necessário, ficaremos mais felizes quando na manhã seguinte abrirmos os jornais ou revistas'').

O presidente Lula da Silva pode achar que ''o Congresso fez em sete meses o que em poucos momentos na história da instituição foi feito'' mas os observadores sabem que nunca houve tantos conchavos e trocas de favores envolvendo parlamentares como agora. José Sarney, chefe do Legislativo, livre dos antigos pudores udenistas, hoje manda mais do que quando foi presidente da República. E não apenas no Amapá (convertido a toque de caixa num paraíso fiscal) mas em empresas públicas dos diferentes ministérios. Sobre isso, até mesmo os rebeldes recém-degolados são obrigados a calar-se, presos a uma constrangida omertà corporativa.

O governo tem obrigação de orgulhar-se da política externa, afinal ela está sendo engendrada no Palácio do Planalto com conexões que remontam à campanha eleitoral. Mas os salamaleques ao ditador líbio Muamar Kadafi não honram as tradições, a compostura e o profissionalismo do Itamaraty.

A esta altura, uma oposição competente já deveria estar imersa no balanço do balanço e destrinchando a fala presidencial de ponta a ponta. A verdade é que não temos uma oposição competente e o governo aproveita-se disso. Recolhe o apoio daqueles que se sentem na mesma canoa e não querem emborcá-la, em troca oferece uma desanimada festinha de fim de ano na qual nem os seus trunfos em matéria macroeconômica podem ser devidamente aprofundados, sob pena de serem abiscoitados pelos antecessores.

O tempo da incerteza não passou, ao contrário do que afiança o chefe da nação no seu papel de Grande Narrador. A marca e os benefícios de nosso tempo relacionam-se justamente com o fim das certezas. Indispensável duvidar, disputar, desconfiar, debater.

Ceticismo é o remédio do momento. A propaganda e as simplificações dissipam um dos atributos fundamentais do ser humano - sua capacidade de cogitar. Uma cidadania questionadora será mais eficaz e mais responsável se conseguir desvencilhar-se do ''espírito da bolha'', dos embalos marqueteiros e das fugazes euforias.

Ficou para trás definitivamente a era dos dogmas, unanimidades, utopias fechadas, fanatismos, fundamentalismos, sistemas controlados, integrismos. O debate que ora se trava na França entre o secularismo e a simbologia religiosa deve ser apreciado na sua verdadeira dimensão, como uma brecha nas facções monolíticas. A proibição, nas escolas públicas, do xador, da quipá ou do crucifixo não definirá o grau da democracia francesa. A descrença é um direito e não uma obrigação, o laicismo deve estar comprometido com a liberdade.

Este prenúncio do fim das intransigências não deve sinalizar para uma vitória do pragmatismo, tão perigoso quanto o messianismo. Os verdadeiramente sábios recusam a onisciência. Se o Lula salvacionista que ganhou as eleições for substituído por um Lula mais sensível e mais perplexo, ganha o Lula e ganhamos nós.

 

[Jornal do Brasil, 20/12/2003]