DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

O ISSO DE GRODDECK
 

[fragmentos]

 

 

Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um “Isso”, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo que lhe acontece. A frase “Eu vivo...” é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte dessa verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso. É desse Isso que falarei em minhas cartas. Você concorda?  

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Quando estou triste, meu coração invoca a mãe e não a encontra. Devo odiar Deus e o Universo por causa disso? Mais vale rir de si mesmo, desse estado de infantilismo do qual nunca conseguimos sair. Pois raramente alguém se torna adulto e, mesmo assim, apenas superficialmente. Brincamos de adulto assim como uma criança brinca de ser uma pessoa crescida. Para o Isso, não existe uma idade para as coisas e o Isso é a nossa própria vida.  

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Como é difícil falar do Isso! Tange-se uma corda qualquer e, ao invés de um som, produzem-se vários, cujas sonoridades se misturam e se calam, a não ser que provoquem outras, sempre novas, até que se produza uma cacofonia incrível em que se perde todo discurso. Pode acreditar, não é possível falar do inconsciente; só se podem balbuciar algumas coisas a respeito dele ou, melhor, indicar bem baixinho isto ou aquilo a fim de que o bando infernal do universo inconsciente não surja das profundezas dando berros discordantes.  

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Somos todos sádicos. Somos todos masoquistas; não há ninguém que, por natureza, não deseje sofrer e fazer sofrer: Eros nos obriga a isso.  

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Não é verdade que a mulher tenha uma sensibilidade aguda, que ela despreza e odeia a rudeza. Ela só detesta tudo isso nos outros. Ela ornamenta sua própria rudeza com o lindo nome de amor materno.  

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Quanto mais profundo for o conflito íntimo do ser humano, mais graves serão as doenças, pois elas representam simbolicamente o conflito. Se uma leve indisposição não consegue resolver o conflito ou recalcá-lo, o Isso utilizará os grandes recursos: a febre, que obriga a mulher a ficar de cama, uma pneumonia, ou uma fratura da perna, que a imobiliza, diminuindo assim a esfera das percepções que exasperam seus desejos; o desmaio, que elimina qualquer sensação; a doença crônica — a paralisia, a consunção, câncer — que mina lentamente as forças; e finalmente, a morte. Só morre aquele que quer morrer, aquele para quem a vida tornou-se insuportável.  

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O Eu não é absolutamente o Eu; é uma forma constantemente mutante através da qual se manifesta o Isso e o sentimento do Eu é uma artimanha do Isso para desorientar o ser humano no que diz respeito ao conhecimento de si mesmo, para facilitar-lhe as mentiras que conta a si mesmo e fazer dele um instrumento mais dócil da vida.  

Georg Groddeck.

O livro dIsso.
Tradução de José Teixeira Coelho Netto.
São Paulo: Perspectiva, 1988.