DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

LITERATURA REFINADA COM APELO POPULAR

Gustavo Bernardo

 

 

Publicado em Jornal do Brasil de 01/10/2005.

 

Dau Bastos. Clandestinos na América.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005
.

 

 

Esta resenha do romance Clandestinos na América, de Dau Bastos, vai falar muito bem do seu lado de dentro e não tão bem do seu lado de fora. Explico.

O “lado de dentro” é o romance mesmo. Trata-se de uma história que deve agradar aos amantes da literatura mais refinada e da mais popular. Os promíscuos, que gostam tanto desta quanto daquela, se divertirão em dobro. Para começar, o herói e narrador do livro é um professor; ora, nada mais inverossímil. No entanto, esse professor, não por acaso de inglês, se mete em peripécias mirabolantes para quitar dívidas de mesmo quilate, atuando como atravessador de brasileiros para os Estados Unidos. Acompanhá-lo permite experimentar por tabela ora o suspense ora a emoção, atravessados por uma bela história de amor.

Essa é a parte “popular” do enredo. A parte refinada transparece na construção, a começar pelo professor no papel de herói-bandido. A inverossimilhança inicial mostra-se condição da narrativa, porque é a falta de jeito para o papel que torna esse personagem perfeito. O narrador na primeira pessoa escapa a todas as armadilhas narcísicas e permite uma bela aula simultânea de literatura, história e filosofia, sem que o professor pontifique. As referências à “alta” e à “baixa” cultura não são pedantes; ao contrário, gratificam quem as reconhece e provocam os demais. Por exemplo: o companheiro de infortúnio do herói é um gordo tagarela chamado Bóia, em alusão-homenagem a Sancho Pança; no entanto, a história caminha em direção inversa à de Dom Quixote, até o seu final surpreendente (que não posso contar!). Melhor do que tudo, o narrador se caracteriza por generosidade irônica consigo mesmo e com os outros personagens, generosidade e ironia estas que definem a melhor literatura.

O romance se refina também no nível amplo do título, porque percebemos várias “clandestinidades”. A orelha do livro confessa, sem usar o termo, que em 1996 o autor foi “ghost-writer” de documento “verdadeiro” a respeito de um atravessador de imigrantes ilegais. Revelam-se duas clandestinidades: primeiro, a canibalização de uma “história real” para compor uma ficção a torna mais intensa e reveladora do que qualquer documentário; segundo, a condição de ghost-writer desvela o subterrâneo da literatura, deixando sob suspeita necessária a sacrossanta noção de autoria.

O próprio autor é um clandestino em outras travessias. A mais óbvia: ele já viveu como tal na França e nos Estados Unidos. As menos óbvias ligam-se à sua condição de escritor. Como Adauri Bastos, é Doutor em Literatura Comparada e autor de ensaio brilhante sobre Céline; como Dau Bastos, escreveu tanto romances infanto-juvenis quanto romances “adultis”, de barra um pouco mais pesada; como cidadão, trabalhou de “free-lancer” em vários projetos que, se lhe deram a vivência para fazer o ótimo romance ora resenhado, lhe emprestam uma aura de clandestino que esconde o grande escritor que ele é.

Há mais uma clandestinidade, relacionada ao “lado de fora” do romance sobre o qual não falarei tão bem. Embora o tema não seja novo, foi reaquecido pela novela da tevê Globo, “América”. Pode-se imaginar o romance atendendo a uma encomenda editorial para pegar carona na televisão, o que em si não é problema: grandes obras de arte foram feitas desse modo. Se foi o caso, o autor fez um livro, como se diz, melhor do que a encomenda. Mas a editora, ansiosa para vender (o que também não é problema, antes pelo contrário), embalou o produto numa capa que escancara a carona, ilustrando-a com aquela redoma kitsch que a personagem Sol, da novela da Globo, carrega para todo lado.

Não sou contra o oportunismo em si: é estética e politicamente interessante que tenhamos perspectivas diversas sobre tudo, inclusive sobre os clandestinos na América. Mas me incomoda a obviedade, que enfraquece o pensamento. Como o romance merecia embalagem melhor, sugiro que o leitor releve a capa e não perca a oportunidade de conhecer Dau Bastos através desse romance ao mesmo tempo sofisticado e fluente.