Páginas de Ceticismo
MACHADO DE ASSIS: CETICISMO E LITERATURA
José R. Maia Neto
Publicado em KRAUSE, Gustavo Bernardo (org).
Literatura e ceticismo. São Paulo: Annablume, 2005.
Richard H. Popkin descreve como, após o Iluminismo, o ceticismo moderno (que foi revivido durante a Contra-Reforma como propedêutico ao fideísmo) introduziu “o desafio que ainda estamos tentando resolver: como podemos viver com dúvidas intelectuais últimas sobre tudo, e com uma incapacidade de recapturar a fé inocente do Pré-Iluminismo?1 Neste artigo, apresento a resposta peculiar dada por Machado de Assis a este problema.
Durante a segunda metade do século dezenove, os intelectuais brasileiros estavam eufóricos com o “surgimento de novas idéias”, em particular com o positivismo de Comte e o evolucionismo social de Spencer.2 Machado de Assis não compartilhava deste entusiasmo e otimismo de seus contemporâneos, que viam nas “novas idéias” a futura derrubada da metafísica e da monarquia e o advento da ciência e do republicanismo.3 Embora fosse cético com relação às “novas idéias”, que favoreciam um certo ateísmo, Machado de Assis não permaneceu alheio ao prevalecente ceticismo religioso de sua época. Apesar da influência de Pascal (que foi marcante), Machado de Assis não responde ao ceticismo apelando à religião. Em vez disto, embora não tivesse nenhuma familiaridade com os antigos céticos, o desenvolvimento literário e filosófico de seus romances demonstra a busca e a gradual definição de um personagem cético que combina a suspensão na crença e a ataraxia (paz mental) do Pirronismo com uma atitude estética em relação à vida.
Examino a seguir a construção deste personagem cético por Machado de Assis em seus três últimos romances, viz., Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1900), e Memorial de Aires (1908). Contudo, começo com uma breve exposição sobre a teoria do discurso literário proposta por Mary L. Pratt como ponto de partida para avaliar a relevância literária do ceticismo de Machado de Assis.
Pratt desenvolve sua teoria baseada no modelo de conversação cooperativa de Grice. De acordo com Grice, a conversação cooperativa baseia-se no seguinte princípio de cooperação (PC): “Faça sua contribuição conversacional tal como e quando exigida, com a finalidade aceita ou a direção da troca conversacional na qual está engajado.”4
De acordo com o PC, o falante deve seguir estas máximas: [i] Máxima da Quantidade: “Faça sua contribuição tão informativa quanto necessário”, e “Não faça sua contribuição mais informativa que o necessário”; [ii] Máxima da Qualidade: “Não diga o que acredita ser falso”, e “Não diga aquilo para o que não tem evidência”; [iii] Máxima da Relação: “Seja relevante”; e [iv] Máxima do Modo: “Seja perspicaz”, com as submáximas “Evite obscuridade de expressão”, “Evite ambigüidade”, e outras.5
Grice diz que o falante pode conscientemente deixar de cumprir uma máxima nas seguintes condições: ele pode (a) discretamente violar uma máxima (isso normalmente leva a compreensões errôneas), (b) deparar-se com um conflito – cumprir uma máxima implica a violação de outra (uma contribuição específica pode ser muito relevante, mas o falante pode não ter evidência adequada de sua verdade), (c) optar por não seguir a máxima e o PC (recusar-se a cooperar), ou (d) explorar uma máxima (deixar de cumpri-la sem recusar-se a cooperar). Neste caso, o não cumprimento da máxima é explorado, gerando o que Grice chama de implicatura, viz., o significado do falante é inferido pelo ouvinte a partir da pressuposição pelo ouvinte de que o falante está observando o PC.
O modelo de Grice destina-se principalmente a explicar as situações de discurso informativo. Pratt o adapta a situações de discurso literário, introduzindo o conceito de narrabilidade de Labov. Um discurso “narrável” ou “exibível” é aquele cuja finalidade não é informar ou executar atos pragmáticos de discurso, mas recriar e avaliar experiências. Esta finalidade modifica as condições de cumprimento das máximas do modelo. Por exemplo, a ambigüidade pode ser justificada desde que proporcione prazer estético. O caráter não sério do discurso literário redefine o PC subjacente à troca entre o autor e o leitor. Embora as máximas e o PC sejam freqüentemente violados pelos falantes ficcionais, o leitor compreende a violação como uma exploração das máximas pelo autor. Não importa o quanto o falante ficcional viole as máximas, o leitor presume que o escritor observa o PC tal qual definido para a troca literária: as violações são consistentes com o discurso narrável apresentado pelo autor.6
Memórias Póstumas de Brás Cubas
O ceticismo aparece na obra literária machadiana com as Memórias Póstumas. O ponto de vista de todos os romances do autor anteriores às Memórias é onisciente. O narrador tem conhecimento irrestrito das intenções e motivações do personagem. A partir das Memórias, o ponto de vista restrito e a narrativa em primeira pessoa tornam-se as principais técnicas de Machado.7 O ceticismo adquire assim uma expressão formal.
As Memórias Póstumas é o romance mais filosófico de Machado de Assis e aqule no qual a influência de Pascal é mais notável. A filosofia de Brás Cubas enfatiza a miséria e a futilidade da condição humana. O gênero autobiográfico escolhido por Machado para esta narrativa facilita a expressão desta filosofia. Ao mostrar sua vida, Brás Cubas aponta a dimensão inexorável e impiedosa do tempo. Os personagens, amigos, amantes, instituições, ideais – tudo perece durante seu tempo de vida. Brás Cubas refere-se ao status semifilosófico de sua narrativa.
Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.8
Pratt ilustra seu modelo com o Tristam Shandy de Sterne. Shandy, o autor ficcional, opta por não seguir as máximas (em particular as de Relação e Modo, que são básicas em sua autobiografia) e o PC.9 Isto representa a verdadeira exploração das máximas pelo autor. Sterne observa o PC na situação de discurso literário em que ele e o leitor estão engajados. Este não lê o trabalho como uma autobiografia séria, mas como um texto narrável.
As Memórias Póstumas de Machado de Assis é freqüentemente comparada com o Shandy de Sterne. Como indicado acima, o próprio Machado de Assis reconhece a influência de Sterne. Contudo, diferentemente de Shandy ( segundo a interpretação de Pratt) e apesar de violações semelhantes, a autobiografia de Brás Cubas é séria. Ele tenta relatar os principais eventos e o significado de sua vida. O critério da seletividade que determina o que deve ser incluído na autobiografia é filosófico: Brás Cubas seleciona aqueles eventos que mostram a miséria humana. Este procedimento explica as “rabugens de pessimismo” que Brás Cubas considera peculiar à sua autobiografia. “ Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia” Uma autobiografia, como Brás Cubas afirma, retém a “substância da vida”: por trás das elusivas agitações dos homens jaz o vazio da existência. Escrever torna-se a única atividade significativa para o “defunto autor, para quem a campa foi outro berço.”
Um importante aspecto do pessimismo de Brás Cubas é sua visão de que os valores são arbitrários. Este ceticismo ético é expresso de forma literária. Brás Cubas não faz a opção de não seguir as máximas e o PC. As violações que ele comete devem-se a situações de conflitos, em particular entre a Máxima da Relação (“Seja relevante”) e a Máxima da Qualidade (“Não diga aquilo que acredita ser falso”). O autor cético desafia o critério social que discrimina o que é relevante na vida e aquilo que não é (e, desta forma, o que deve ser incluído ou não em uma autobiografia). A problematização das máximas por Brás Cubas pode ser observada nos próprios títulos de alguns capítulos. Em “Que se não entende” (capítulo CVIII), Brás Cubas tenta descrever uma experiência que está de fato além de sua compreensão: “Era mêdo, e não era mêdo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade.” Portanto, em contraste com Shandy, Brás Cubas observa o PC. Porque a própria experiência é ambígua, a descrição inequívoca, isto é, a observação da Máxima do Modo, viola a Máxima da Qualidade. No capítulo “Simples repetição” (CXLV), Brás Cubas se refere brevemente ao logro de que foi vítima Dona Plácida.
Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que ... [ele resume brevemente]. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de um capítulo.
Novamente, Brás Cubas vê-se obrigado a violar a Máxima da Quantidade: ‘não faça a contribuição mais informativa que o necessário’. Se esta máxima fosse rigorosamente seguida, nenhuma autobiografia seria escrita. Do ponto de vista pascaliano de Brás Cubas, a história de Dona Plácida é no fundo a história miserável do cachorro de Quincas Borba, que é a história de todos os seres humanos. Ao violar as máximas sem abandonar o PC, Brás Cubas exprime a tese filosófica de que estas regras não podem ser seguidas por alguém (como ele próprio) ciente da condição miserável do ser humano, que elas não podem explicar a vida neste mundo.
Todo o capítulo CXXXVI – “Inutilidade” – contém somente a seguinte frase: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil”.
À primeira vista, assim como Shandy, Brás Cubas se recusa a cooperar. A Máxima da Relação, que proíbe a inclusão de capítulos desnecessários na autobiografia, e a Máxima do Modo, que coíbe a ambigüidade, são violadas.10 O capítulo seguinte mostra, entretanto, que Brás Cubas observa o PC. Há uma razão filosófica para desafiar a Máxima da Relação. “E daí, não; ele resume as reflexões que fizi no dia seguinte ao Quincas Borba.” Brás Cubas se refere ao seu “discurso da barretina”. Na ocasião ele era um deputado em busca de indicação para o ministério. Ele chamou a atenção dos políticos para si mesmo ao fazer um discurso enfático e retórico no Parlamento, protestando contra o tamanho da barretina dos soldados da Guarda Nacional.
Vária foi a impressão dêste discurso. Quanto à forma, ao rapto eloqüente, à parte literária e filosófica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguém ainda conseguira tirar tantas idéias. (Capítulo CXXXVII)
Ao demonstrar que o capítulo era mesmo necessário, Brás Cubas exprime seu ceticismo filosófico: uma barretina é tema político tão relevante (ou irrelevante) quanto qualquer outro, desde que se tenha a perspectiva filosófica da arbitrariedade da relevância social e das questões mundanas em geral. Assim como Shandy, Brás Cubas viola a Máxima da Relação (‘Seja relevante’), mas, diferentemente daquele, não porque o discurso que pretende exibir seja narrável. Ao contrário, seu discurso torna-se narrável porque a Máxima da Relevância parece inválida do ponto de vista cético. É exatamente a narrabilidade do discurso (neste caso particular, o discurso político) que é enfatizada no capítulo. Brás Cubas compreende o mundo como um lugar onde somente a narrabilidade faz sentido. As práticas humanas são privadas de valor intrínseco. Como estas práticas são desprovidas de significado, tudo que resta a fazer é elaborá-las esteticamente. Como observa Brás Cubas, o túmulo foi o seu novo berço, seu berço de escritor. Sua crise cética poderia ser “resolvida” somente com a morte do homem e o nascimento do autor.
Dom Casmurro
Memórias Póstumas é apenas o primeiro passo no desenvolvimento da posição cética de Machado de Assis. Brás Cubas não é um pirrônico. No plano filosófico, ele tem uma visão determinada da condição humana. No plano prático, ele é um cético que não consegue viver seu ceticismo (ele é um defunto, não um personagem vivo). Nos dois romances seguintes a Memórias Póstumas, Machado de Assis aproxima-se do Pirronismo e progressivamente elabora uma posição que permite ao personagem cético viver seu ceticismo.
Isolado da vida social (como Brás Cubas), Dom Casmurro11 escreve memórias cujo foco principal é seu relacionamento com Capitu (da amizade de infância ao casamento, até o divórcio). O evento central é o suposto adultério de Capitu. Dom Casmurro acredita que seu filho Ezekiel não é seu, mas de seu amigo Escobar.
A memória de Dom Casmurro é menos filosófica (no sentido de mais cética) que a autobiografia de Brás Cubas. Enquanto Brás Cubas é assertivo e filosófico em seu pessimismo, Dom Casmurro questiona as bases de sua própria convicção sobre o adultério de Capitu. Ele assume uma perspectiva pirrônica em sua memória. Ao empregar argumentos similares aos dos tropoi de Enesidemo (os quais Machado de Assis pode conhecer através de sua leitura dos Ensaios de Montaigne), Dom Casmurro questiona tanto sua convicção assumida de que Capitu foi infiel quanto a crença oposta de que ela era fiel.12 Dom Casmurro atinge a ataraxia, entretanto, somente quando se persuade do adultério. Neste momento, ele envia Capitu para a Europa, retira-se da vida social, e torna-se autor. Sua narrativa mostra com que freqüência e quão inquietadoramente sua opinião mudou de um extremo ao outro antes de seu divórcio de Capitu (e de seu afastamento da vida social). Como não podia tolerar a perturbação mental causada pelas mudanças de convicção, nem viver com dúvida tão cruel, ele “cegamente” resolve a questão aceitando passivamente a aparência que mais fortemente o afeta.13
Sob o aspecto temático, há uma intensificação do ceticismo presente nas Memórias Póstumas. Enquanto nas Memórias Póstumas o tema da precariedade da condição humana é expresso pela miséria e pela temporalidade da vida, a idéia principal em Dom Casmurro é a fragilidade do julgamento humano. O homem é infeliz porque se fia em julgamentos precários. As decisões fundamentais tomadas na vida dependem de convicções completamente infundadas.
Dom Casmurro exemplifica, de acordo com Pratt, um caso em que “[o autor ficcional] pode... ser inconsistente ou mesmo contradizer-se.”14 Para Pratt, estas contradições são resolvidas no nível do autor real. Como em Shandy, as violações das máximas pelo autor ficcional constituem casos de exploração das máximas (isto é, deixar de cumpri-las sem abondonar o PC) por parte do autor real. Pratt menciona dois exemplos das ditas violações de Dom Casmurro. Ela supõe que a evidência conclusiva da inocência de Capitu é omitida pelo autor ficcional em ambas as passagens para salvaguardar sua crença no adultério. Neste caso, Dom Casmurro estaria deixando de satisfazer a Máxima da Qualidade. A violação é identificada pelo leitor, argumenta Pratt, porque Dom Casmurro “falha em cometer esta violação de forma suficientemente discreta”.15 Com esta falha, sugere Pratt, “Machado de Assis implica que devemos manter em mente a inadequação da evidência de Dom Casmurro.”16
O problema com esta interpretação é que tanto o autor real como ficcional apontam para a inadequação da evidência. A mensagem cética da narrativa é que não se pode apresentar a evidência necessária e suficiente a favor ou contra o adultério ou qualquer outra crença, seja ela qual for. Isto significa que se a Máxima da Qualidade fosse estritamente observada, nenhuma afirmação seria possível e nenhum relato seria escrito. Como Brás Cubas solapa (principalmente) a Máxima da Relação, Dom Casmurro mina a Máxima da Qualidade. Em ambas as passagens mencionadas por Pratt, contráriamente à sua interpretação, Dom Casmurro chama a atenção do leitor para a inadequação de sua evidência e sugere a impropriedade de qualquer evidência. As duas passagens constituem exemplos da manipulação da seqüência narrativa por Dom Casmurro para estabelecer uma equipolência. As passagens são as seguintes.
A primeira consiste dos capítulos 130, 131 e 132. Dom Casmurro indica que a ordem cronológica dos eventos não coincide com a seqüência de seu relato. A seqüência cronológica é a seguinte: [i] Dom Casmurro persuade-se de que Capitu foi fiel; durante este período, ela, até mesmo casualmente, chamou a atenção de Dom Casmurro para a marcante semelhança entre seu filho e a fisionomia de Escobar; [ii] após alguns anos, Ezekiel está mais velho e Dom Casmurro percebe que a semelhança é extrema; [iii] baseando-se em [ii], ele conclui que o menino não é seu filho, mas sim de Escobar. Se Dom Casmurro tivesse narrado os eventos em sua ordem natural, sua crença no adultério apareceria como razoavelmente justificada. Entretanto, ele primeiro afirma [iii], depois relata [i], e somente então menciona [ii]. Com esta inversão, Dom Casmurro introduz uma evidência igualmente forte contra a hipótese do adultério (pois é improvável que Capitu se referisse à semelhança se não fosse coincidência) entre a declaração de sua crença no adultério e a evidência positiva (a semelhança) que fundamenta a sua crença. Ele enfraquece sua nova evidência positiva (a extrema semelhança), introduzindo evidência negativa, que provavelmente não teria sido notada pelo leitor se Dom Casmurro tivesse relatado os eventos na ordem cronológica (o comentário de Capitu foi feito muitos anos antes). Parece assim claro que Dom Casmurro, assim como os pirronicos, estabelece uma equipolência.
A segunda passagem de Pratt se refere ao dramático momento em que Dom Casmurro finalmente decide que Capitu foi infiel. O capitulo é intitulado “A fotografia” (CXXXIX).
Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado [isto é, ele estava a ponto de crer na fidelidade de Capitu]; mas a entrada repentina de Ezequiel gritando ... restitui-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fêz-se confissão pura. Este era aquêle.
Este evento é narrado como evidência do adultério. Até este momento, tudo era incerto. Dom Casmurro pensava que poderia estar sonhando. A verificação da semelhança parece decisiva. Logo após este capítulo, contudo, Dom Casmurro recorda o fato ocorrido décadas antes, relatado no capítulo anterior, intitulado “O retrato.”17 Esta menção não tem qualquer outra relevância a não ser fazer o contraponto com “A f otografia”. Trata-se do retrato da mãe de um personagem secundário cuja extrema semelhança física com Capitu (sem qualquer parentesco) foi indicado por Dom Casmurro.
Ao relembrar este evento, Dom Casmurro restabelece a equipolência num momento em que a hipótese do adultério estava forte. Em “O retrato” a semelhança física é mera coincidência; em “A fotografia” semelhança é evidência de parentesco. Coisas equivalentes (retrato/fotografia) aparecem em circunstâncias diferentes como evidências de teses contrárias. A equipolência é sugerida pelo igual peso dos capítulos expressos nos sinônimos de seus títulos.18
Portanto, aqui, assim como na passagem anterior, Dom Casmurro está sendo tão cooperativo quanto possível. A Máxima da Qualidade (“Faça uma contribuição que seja verdadeira”) pode ser observada somente no nível limitado das aparências. Dom Casmurro as coteja. De fato, elas são contraditórias. Nem Brás Cubas nem Dom Casmurro abandonam o princípio de cooperação. Máximas básicas em cada um dos gêneros – Relação, na autobiografia, e Qualidade, na memória – simplesmente não podem ser plenamente observadas. O ceticismo de Brás Cubas aparece na arbitrariedade dos valores, o de Dom Casmurro na expressão da afasia pirrônica (ausência de afirmação ou de negação).
Memorial de Aires
O Conselheiro Aires é o último personagem cético de Machado de Assis, o autor ficcional dos dois últimos romances do escritor (Esaú e Jacó e Memorial de Aires). Com Aires, Machado de Assis alcança a definição final do personagem cético buscada em todo o seu trabalho literário. A caracterização de Aires expressa a solução particular de Machado de Assis para a crise cética. Diferentemente de Brás Cubas e de Dom Casmurro, Aires não é um autor recluso da vida ou da sociedade. Aires encontra um modus vivendi desapegado, livre de ansiedade. Sua atitude é estético-cognitiva. Ele é capaz de viver sem ser mentalmente perturbado pela anulação das expectativas e crenças, ao ser um observador do comportamento dos outros e um contemplador de aparências belas. Ao contrário de seus predecessores céticos, Aires observa e escreve impressões presentes – vivas. Ele é um cético capaz de viver seu ceticismo.
O último romance de Machado de Assis é também uma solução para a problematização das máximas e do princípio de cooperação observado nos dois romances anteriores. Como demonstrado anteriormente, Brás Cubas e Dom Casmurro solapam a capacidade das máximas de explicar a experiência humana. Todas as máximas conflitam umas com as outras. A Máxima da Relação conflita com a Máxima da Qualidade: qualquer discriminação de valores objetivos e de relevância na vida é arbitrária, portanto, carecem de evidência adequada. A Máxima do Modo conflita com as Máximas da Qualidade e da Quantidade: a vida e o mundo são tão obscuros que a perspicácia é freqüentemente impossível e é freqüentemente incerto se uma contribuição é suficientemente informativa. Finalmente, a Máxima da Qualidade conflita com o PC: não há evidência adequada capaz de assegurar a veracidade das asserções e relatos.
A forma do Memorial de Aires sugere uma solução para a problematização das máximas e para o problema de como o cético pode declarar seus pontos de vista de maneira consistente com seu ceticismo. A narrativa de Aires tem a forma de um diário. Diferentemente da autobiografia e da memória, o diário desobriga o autor da observação das máximas e do PC. Os diários são, em princípio, escritos pessoais sem finalidade comunicativa. O autor de um diário não está obrigado à relevância (Máxima da Relação), nem a oferecer evidência adequada para suas asserções (Máxima da Qualidade). Em vez de servir para a identificação de verdades e valores objetivos sobre si mesmo e o mundo, o objetivo do diário é a livre expressão das próprias impressões ( independentemente de sua verdade, clareza ou relevância objetiva). O Memorial de Aires é como uma crônica em que Aires “usava ... guardar por escrito as descobertas, observações, reflexões, críticas, e anedotas” (Esaú e Jacó, capítulo XII).19
O Memorial ajuda Aires a manter-se distanciado das perturbações da vida, dando significado e finalidade a sua posição de observador.
De Brás Cubas a Aires, a posição cética do personagem se desenvolve. O autor era inicialmente defunto, então tornou-se casmurro, e, finalmente, espectador. Do primeiro ao terceiro, o autor ficcional torna-se progressivamente menos familiarizado com os motivos e intenções dos outros personagens. Suas crenças tornam-se gradativamente menos certas e ele, menos assertivo. A solução para a crise cética é progressivamente mais definida como autoria. No último romance de Machado de Assis, o ceticismo encontra sua forma literária última e o personagem cético encontra seu papel final como autor.20
Como seus personagens céticos, o cético brasileiro Machado de Assis não foi um filósofo no sentido estrito, mas um autor literário. A metafísica não precisa ser substituída pelo positivismo, como queriam os contemporâneos de Machado de Assis, mas pela literatura, porque somente a literatura (a ficção) está isenta do compromisso de afirmações assertivas sobre a verdade das coisas.21
NOTAS
1. Popkin, Richard H. “Skepticism in the Enlightenment” In Studies on Voltaire and the Eighteenth Century (XXIV/XXVII: 1963, p. 1345).
2. A expressão é de Sílvio Romero, um dos principais líderes do Iluminismo Brasileiro e, significativamente, um dos primeiros críticos de Machado de Assis.
3. O Positivismo era a principal ideologia do projeto republicano.
4. Citado de Pratt, Mary L. Toward a Speech Act Theory of Literay Discourse. Bloomington e Londres: Indiana University Press, 1977, p. 129.
5. Ibid., p. 130
6. Ibid., pp 198-199
7. Com a única exceção de Quincas Borba.
8. Machado de Assis. Obra Completa, Volume I, organizada por Afrânio Coutinho, Rio de Janeiro: José Aguilar, 1962. (Todas as referências aos romances de Machado são desta edição).
9. Shandy é deliberadamente ambíguo e obscuro (violação da Máxima do Modo) e fornece relatos excessivamente detalhados de assuntos triviais de sua vida (violação da Máxima da Relação).
10. Qual capítulo é inútil? Este, o anterior, ambos, ou nenhum deles, uma vez que nenhum deles foi suprimido?
11. O autor ficcional explica o sentido de seu apelido: ele designa alguém que é “calado e metido consigo” (capítulo I).
12. Tanto os modos baseados no sujeito que julga, quanto os baseados no objeto julgado são usados (Sextus Empiricus, Outlines of Pyrrhonism. Tr. R. G. Bury. Londres e Nova York: The Loeb Classical Library, 1933, Vol 1, p. 25). Sob o primeiro tópico, Dom Casmurro enfatiza as variadas condições circunstanciais que determinam seu julgamento: disposições (ciúme, amor, etc.) e os locais onde julga (seu julgamento varia de acordo com o lugar em que se encontra – em casa, na casa de sua mãe, na casa de Escobar, etc). Sob o segundo tópico, a principal fonte de incerteza é a opacidade de Capitu.
13. Há uma similaridade com Pascal neste ponto. A dúvida sobre questões existenciais cruciais não leva a ataraxia (como reivindicado por Sextus) mas ao desespero e à necessidade de um salto na fé.
14. Pratt, op. cit., p. 194
15. Ibid., p. p. 194.
16. Ibid., pp. 195-196
17. Dom Casmurro menciona o capítulo “O retrato”, mas diz que não lembra seu número. Pratt considera isto uma evidência de que Dom Casmurro quer esconder esta evidência contrária à hipótese do adultério do leitor. Mas o resumo que ele faz do que aconteceu é suficiente para questionar a nova evidência a favor de adultério.
18. Além disto, Dom Casmurro enfraquece a nova evidência a favor do adultério ao enfatizar não a similaridade objetiva, mas sua percepção desta, portanto, sugerindo a possível influência de sua predisposição.
19. Note a similaridade com Sextus: “[O]f none of our future statements do we positively affirm that the fact is exactly as we state it, but we simply record each fact like a chronicler, as it appears to us at the moment.” (Sextus Empiricus, op. cit., p. 17).
20. Pode-se concluir que Aires é o personagem buscado por Machado de Assis a partir do fato de ser ele o protagonista e o autor ficcional das suas duas últimas obras. Além do mais, Machado de Assis indica no prefácio de Memorial de Aires que pretende usá-lo novamente como autor ficcional em seu próximo romance. Infelizmente Machado de Assis morreu dois meses após a publicação do Memorial de Aires.
30. Este artigo foi originariamente publicado em inglês na Latin American Literary Review 18:36 (1990), pp. 26-35.