Páginas de Ceticismo
A FILOSOFIA E A VISÃO COMUM DO MUNDO
Oswaldo Porchat
1.
Se me disponho a filosofar, é porque busco compreender as coisas e os fatos que
me envolvem, a Realidade em que estou imerso. E porque quero saber o que posso
saber e como devo ordenar minha visão do Mundo, como situar-me diante do Mundo
físico e do Mundo humano e de tudo quanto se oferece à minha experiência.
Como entender os discursos dos homens e meu próprio discurso. Como julgar os
produtos das artes, das religiões e das ciências.
Mas não posso esquecer todos
os outros que filosofaram antes de mim. Num certo sentido, é porque eles
filosofaram que me sinto estimulado a retomar o seu empreendimento. O legado
cultural da espécie põe à minha disposição uma literatura filosófica
extremamente rica e diversificada, de que minha reflexão se vai alimentando. Se
me disponho a filosofar, tenho também de situar-me em relação às filosofias
e a seus discursos, tenho de considerar os problemas que eles formularam e as
soluções que para eles propuseram.
Nesse contato com as
filosofias e no seu estudo, faço a experiência de sua irredutível
pluralidade, de seu conflito permanente e de sua recíproca incompatibilidade. A
consciência desse conflito e dessa incompatibilidade exprime-se em seus
discursos, aliás, de modo quase sempre bastante explícito. Porque cada
filosofia emerge no tempo histórico, opondo-se polemicamente às outras
filosofias, que ela rejeita e anatematiza no mesmo movimento pelo qual se
instaura. Contra os outros discursos filosóficos, cada novo discurso vem
propor-se como o "bom" discurso. Qualquer que seja o seu projeto, o de
"editar" o Real ou o de propor uma crítica do conhecimento, o de
orientar a práxis humana ou o de efetuar uma análise "terapêutica"
da linguagem, pertence, em geral, a todo discurso filosófico o dever impor-se
como a única maneira correta de filosofar. Sob esse prisma, vale dizer que cada
um deles de algum modo se propõe como a solução adequada do conflito das
filosofias. Por isso mesmo, obriga-se a argumentar em causa própria, no afã de
legitimar-se em face dos rivais e de validar a posição privilegiada que para
si reivindica na arena filosófica. Pretensão que os outros discursos
evidentemente desqualificam, opondo argumentos aos seus argumentos e reacendendo
o conflito.
Dispondo-me a filosofar,
abordo criticamente os discursos filosóficos. E cedo descubro, então, que
nenhum discurso filosófico é demonstrativo, mesmo num sentido fraco da
palavra, contrariamente ao que tantos filósofos pretenderam. Dou-me conta de
que a retórica é a lógica da filosofia. De que, com um pouco de boa vontade e
algum engenho, sempre se pode construir um discurso filosófico bem argumentado
a favor de ou contra qualquer ponto de vista. Por outro lado, jamais se persuade
o auditório que se tem em mente. Os critérios de autovalidação próprios a
cada discurso são sempre discutidos e rejeitados pelos outros. Donde a perpetuação
inevitável de conflito das filosofias, num testemunho eloqüente de sua
indecidibilidade básica. Situação essa que parece condenar inexoravelmente as
filosofias, todas e cada uma delas, a uma insuperável precariedade,
dificilmente compatível com a natureza mesma dos projetos por que elas
costumeiramente se definem. Seus discursos, em última análise, parecem
impotentes para efetivamente resolver os problemas que elas inventaram. Os céticos,
de há muito, tinham feito sobre isso seu severo diagnóstico.
É natural, então, que eu
seja tentado a ver, nos discursos das filosofias, meros jogos de palavras, jogos
engenhosos e complicados mas que, uma vez apreendidos e analisados, não posso
mais levar a sério. Brinquedos dos filósofos com a linguagem, da linguagem com
os filósofos, que ela enfeitiçou. É natural, então, que eu desespere de
poder filosofar. Por que daria minha adesão a tal visão do Mundo e não a tal
outra? Por que assumiria tal atitude filosófica e não tal outra? Assumir
qualquer posição filosófica configuraria uma escolha e uma escolha, em última
análise, arbitrária, uma vez que sua justificação não constituiria senão
um exercício a mais de habilidade retórica. Não vendo como aderir
criticamente a um discurso de outrem, por que me cometeria a editar um discurso
original e novo, sabendo-o de antemão condenado, por sua própria natureza, à
sorte adversa de que todos os outros compartilham? Por que continuar o
empreendimento, por que insistir em buscar soluções filosóficas para os
problemas das filosofias?
O ceticismo antigo, apesar de
sua crítica acerba aos "dogmatismos", definiu-se por uma investigação
continuada e incansável, caracterizou-se como uma filosofia "zetética".1
Entendeu que suas razões valiam tanto quanto as do dogmatismo filosófico e que
não lhe era possível validar sua própria argumentação cética.2
Propôs, por isso, a suspensão do juízo, a epokhé, sobre cada uma das
questões examinadas. Para seu propósito de abalar o dogmatismo, isso lhe era
suficiente. Mas, por isso mesmo, a lógica interna de seu procedimento
condenava-o a prosseguir investigando. Essa atitude me parece pouco natural e
nada razoável. Porque o razoável e natural é que a experiência repetida do
fracasso engendre o desânimo e o abandono da empresa. Se somos mais do que
ratos de laboratório, também dependemos, entretanto, das contingências de
reforço: sem nenhuma recompensa, desistimos.
Resta-me, ao que parece,
dizer adeus às pretensões filosóficas que em vão alimentei, deixar atrás a
filosofia. Optar pelo silêncio da não-filosofia e nele recolher-me. Numa decisão
de ordem prática e existencial, que se me impõe como justificada, ainda que não
seja, por certo, justificável filosoficamente. Contentar-me-ei em ser apenas um
homem entre os outros homens. Deixando-me viver, em sua plenitude, a vida comum
dos homens. Redescobrindo e revivendo o homem comum em mim.
Os céticos tinham entendido
que sua postura filosófica não implicava a renúncia à vida comum.3
Pondo em xeque os critérios da pretensa objetividade dogmática tomaram o phainómenon,
o que aparece, como critério da ação, segundo os ditames da vida. De fato,
porém, seu retorno à vida comum não foi completo, porque não souberam
mergulhar em sua não-filosofia. A permanência no empreendimento filosófico, a
proposta de investigação continuada atestam que eles ficaram a meio caminho.
Os céticos não desesperaram da filosofia. Por isso mesmo, não se permitiram
suprimir definitivamente o distanciamento que o dogmatismo instaurou entre a
filosofia e a vida. Contestaram as soluções dogmáticas, mas preservaram o seu
quadro teórico. Guardaram a nostalgia de um espaço extramundano reservado para
a investigação filosófica, em oposição ao espaço banal da vida comum à
qual, enquanto homens, se apegavam.
Proponho uma ruptura com a filosofia bem mais radical que a do ceticismo. Um mergulho profundo, definitivo e de alma inteira na vida cotidiana dos homens. Não me limito a suspender meus juízos mas, em face dos jogos filosóficos, ouso dizer: "Não jogo mais".4 Regresso à humanidade comum e assumo integralmente a sua não-filosofia.
2.
Desenvolvi esse tema num trabalho anterior, o "Prefácio a uma
Filosofia"5. Sob determinado prisma muitos o entenderam
corretamente, sabendo ver que uma exposição autobiográfica era, sobretudo,
proposição de um itinerário de idéias e discussão de uma problemática básica
para quem se dispõe a filosofar. O conflito das filosofias e sua efetiva
indecidibilidade, a inexistência de critérios aceitos para validar as soluções
- e os problemas - que elas propõem, a tentação do ceticismo e, bem mais
radical, a tentação do silêncio filosófico oferecem-se à "experiência"
de qualquer um que empreenda um dia meditar com seriedade sobre a natureza da
filosofia.
A atmosfera cultural de nossa
época, mais ainda talvez do que ocorreu em outras épocas, parece contribuir
para alimentar uma desconfiança sensata e uma justa insatisfação com respeito
aos sistemas ou métodos filosóficos. Por um lado, os discursos das filosofias
não escapam indenes ao crivo das técnicas modernas de análise lingüística,
retórica ou lógica do discurso qualquer, nem às investidas da psicologia e da
sociologia do conhecimento. Por outro, as grandes transformações que
convulsionam, num ritmo vertiginoso, o Mundo dos homens parecem recomendar um
primado da prática e da ação sobre a teoria e o discurso. Tudo parece
induzir-nos a que nos apliquemos de preferência aos problemas reais e
angustiantes da vida comum de nossa espécie, renunciando aos discursos vãos.
Redescobrindo o homem comum em nós, quando dele nos tenhamos afastado. Outra
postura seria de fuga e alienação.
Essa redescoberta da vida comum, essa reconversão do filósofo ao homem comum que sempre fora, mas que sempre ignorara em sua filosofia e agora reencontra, foi o que propus no trabalho que mencionei.6 Num segundo momento, eu propunha também uma promoção filosófica de não-filosofia do homem comum, uma revalorização filosófica de sua visão comum do Mundo.7 Entretanto, o estilo demasiado sucinto de um texto apenas programático, também algumas imprecisões nas idéias propostas deram origem a mal-entendidos e confusões. Proponho-me agora reelaborar algumas noções e explicitar meu pensamento de modo mais claro e amplo sobre alguns pontos mais importantes, corrigindo alguma formulação porventura menos feliz. Tentarei responder a críticas e objeções que me foram feitas, quase sempre oriundas de uma interpretação menos atenta de minhas palavras. Em particular, espero deixar bem patente que minha posição não se pode interpretar, sem mais, como uma mera variante da chamada filosofia do senso comum, ao contrário do que se pretendeu.8
3.
Renunciando à filosofia, torno-me apenas um homem comum. A vida comum e
cotidiana é tudo aquilo que me resta, ao renegar das filosofias e de suas
pompas. Assumo-a e vivo-a integralmente. E, ao modo de homem comum, organizo
minha visão do Mundo, necessariamente falha e incompleta, necessariamente
pessoal e minha. Mas nada me impede de, enquanto homem comum, considerá-la
em sua totalidade e com um olhar mais abrangente, buscando fixar alguns de seus
traços mais gerais.
Apreendo-me imerso numa
totalidade que me contém e que como tal se me manifesta, numa experiência que
é, ao mesmo tempo, de integração e alteridade. Reconheço-a, essa totalidade
que me cerca, engloba e transcende, como outra que não eu, como maior e mais
poderosa que eu. Experimento essa Realidade, de que sou parte integrante, de
modo continuado e irrecusável. É a experiência de minha vida cotidiana,
experiência não pontual, mas que se prolonga indefinidamente na memória do
passado. Essa Realidade, chamo-a de Mundo. Uma mera expressão, que me
facilita o discurso. Direi, então, que minha experiência é, toda ela, experiência
do Mundo; que minha vida, eu a vivo no Mundo. Que nele estou irremediavelmente
imerso.
O Mundo se me dá numa experiência
de riqueza e complexidade. A Realidade se me manifesta cheia de multiplicidades
e de unidades, de variações infindas, de diferenças e de semelhanças, estas
ao menos relativas. O Mundo me oferece a experiência continuada de um devir no
espaço e no tempo. Tempo e espaço que me aparecem como dimensões do Mundo. E
eles dimensionam minha vida.
A totalidade, que é o Mundo,
se me apresenta constituída por coisas (ou objetos) e processos (ou fatos ou
eventos) . As coisas me aparecem como semelhantes umas às outras, umas das
outras dessemelhantes, umas com as outras integradas, umas das outras separadas.
O mesmo se dá com os processos ou eventos. Semelhanças e dessemelhanças,
integrações e separações, dão-se em graus diversos e sob aspectos variados.
Coisas e processos se combinam e continuamente interagem de modo mais simples ou
mais complexo. Se a existência ou devir de uma coisa se pode também dizer um
processo ou fato, direi também que o Mundo é a totalidade dos fatos.
A Realidade se me manifesta
primeiramente a partir dos processos e coisas que me são mais próximos, por
isso mesmo mais familiares. Os eventos do dia-a-dia, os fatos e os objetos ordinários
que povoam minha experiência do Mundo. Tudo aquilo que mais imediatamente me
circunda e contém. Minha vida, eu a vejo como um processo em meio a esses
processos, minha existência, como a de uma coisa em meio a essas outras coisas.
Essa porção da Realidade, esse Mundo mais próximo em que minha vida mais
imediatamente se insere, é-me por isso mesmo mais importante, tenho por ela um
maior interesse existencial.
Esse Mundo mais próximo de
mim se me apresenta também como um Mundo habitado por coisas que me são
semelhantes, segundo graus diversos de semelhança. Por corpos físicos, como o
corpo físico que sou. Por seres vivos, como o ser vivo que sou. Mas, em
particular, por homens como eu, seres fundamentalmente semelhantes a mim, seres
que sentem, pensam e falam, corpos pensantes como eu, em meio às outras coisas
e processos do Mundo. Seres humanos que, como eu, interagem com o Mundo físico
que os cerca e, em particular, interagem continuadamente uns com os outros,
inextricavelmente imbricados na vida social da espécie. Suas vidas imergem como
a minha na experiência cotidiana do Mundo. Nele os homens nascem, sofrem,
trabalham, gozam e morrem.
Quanto aos processos de minha
vida interior e psíquica, sensações, emoções, prazeres, dores, desejos,
sentimentos, cuja existência me é tão manifesta e irrecusável quanto a das
coisas e processos físicos, eu os tenho como fundamentalmente análogos aos
processos que experimentam os outros homens, em sua vida psíquica e interior.
Suas mentes, tenho-as como substancialmente semelhantes às minhas. Em verdade,
é porque assim os vejo que os reconheço como homens.
Eu me comunico com eles e
eles se comunicam comigo e uns com os outros através da linguagem, a cujo uso
foram introduzidos e na qual foram treinados desde a infância pela sociedade,
geralmente pela família. Essa linguagem humana se diversifica sob a forma das várias
línguas particulares, próprias às diferentes etnias ou nações. E, freqüentemente,
os homens aprendem as línguas uns dos outros e as traduzem em suas línguas próprias.
Essa linguagem, que meu pensamento interioriza, vejo-a como analogamente
interiorizada nos pensamentos dos outros homens.
Fundamentalmente semelhantes,
os homens são também extremamente diferentes uns dos outros. Diferentes
fisicamente, economicamente, culturalmente, moralmente. Fortes ou fracos, ricos
ou pobres, exploradores ou explorados, ativos ou ociosos, cultos ou ignorantes,
inteligentes ou medíocres, honestos ou perversos. Valores vários impõem-se à
sua aceitação, mas que diferem de um para outro homem, de um para outro grupo
social. Os mais variados pontos de vista, opiniões, crenças e doutrinas
recebem acolhida entre os homens, destarte diferençando-os individual e
coletivamente.
Aparece-me também que a
maioria dos homens se preocupa egoisticamente apenas com seus problemas
pessoais, embora alguns homens se preocupem também com os problemas dos outros.
Mas todos buscam seu bem-estar próprio ou felicidade. A vida humana é, em
verdade, de prazer e dor, de alegrias e tristezas. Os homens amam-se e
odeiam-se, confraternizam-se e guerreiam-se. O Mundo humano encerra muito de
sofrimento. E a violência de uns contra outros e a exploração de uns por
outros. E a brutalidade das opressões e repressões, das torturas e das
guerras. Os homens têm a dura experiência de uma realidade por vezes brutal.
Ainda assim, encontra-se neles muita esperança.
Minha imersão no Mundo me aparece irrecusavelmente como mediada por esse Mundo humano, de que faço parte com todos os homens. Apareço-me como um recém-chegado à vida da espécie, à sua cultura e civilização, trazido à vida pela sociedade humana e por ela integrado na sua história. Acolhendo-me, transmitiram-me práticas e costumes, modos de pensar, a linguagem de que me sirvo, os conceitos que nela expresso. Neles eu nasci e por eles fui condicionado. Por isso mesmo, minha experiência do Mundo humano me aparece como absolutamente fundamental. Uma experiência que inteiramente me modela e que me leva a dizer espontaneamente "nós" em lugar de "eu".
4.
Em verdade, tudo nos leva a falar de uma experiência comum do
Mundo, de uma experiência humana comum do Mundo. Caráter esse comum que lhe
advém, de um lado, daquela semelhança básica que os homens entre nós
reconhecemos, mas, de outro lado, da própria presença do Mundo que se nos
manifesta, a todos e a cada um, como o objeto comum de nossa experiência
continuada. Esse Mundo-totalidade, Realidade irrecusável que nos transcende,
maior e mais poderosa do que nós, nós o conhecemos enquanto seus habitantes,
conhecemo-lo como o lugar de nossas vidas, o lugar de nosso mesmo reconhecimento
uns dos outros como homens. Nós somos uns com os outros no Mundo. Como indivíduos
e como espécie, fomos por ele engendrados e a ele pertencemos. Nele vimos a
ser, vivemos e perecemos, assistindo ao desaparecimento uns dos outros. E nos
aparece que essa realidade Mundana de que dependemos em nada depende de nós.
Nosso desaparecimento individual ou coletivo em nada a afetaria, exceção
talvez feita para aspectos superficiais da minúscula região que mais
proximamente nos contém. O Mundo nos aparece com dimensões quase infinitas e,
se nelas atentamos, aparece-nos que a práxis humana não o modifica senão
minimamente. Assim se nos manifesta a presença permanente do Mundo aos homens,
a presença contingente dos homens no Mundo. A experiência comum do Mundo nos
revela nossos limites e nossa finitude.
Mas essa experiência comum
é-o também de nossa inserção e integração no Mundo humano, ancorado
naquela Realidade maior. Experiência de uma sociedade que nos precedeu, nos
acolheu e formou e nos deverá sobreviver a cada um de nós, como sobreviveu a
milhões de outros homens. Experiência, ainda que parcial e limitada, de uma
História humana que nos situa, nos define e nos ultrapassa. O mundo humano se
nos manifesta, inserido no Mundo-totalidade, como um produto histórico e
milenar dos próprios homens, de sua civilização e cultura. Obra comum que,
desde tempos imemoriais, os homens vêm construindo. Povoam-no as instituições
que inventaram e que evoluem sem cessar no espaço da geografia e no tempo da
história. A práxis humana transforma profunda e substancialmente o Mundo dos
homens. Técnicas, modos de produção, formas de relacionamento social. Artes,
religiões, ciências, filosofias. Atividades que buscam também conhecer o
Mundo.
Porque humanos, privilegiamos
naturalmente esse Mundo humano, fragmento humano do Mundo. Privilégio que em
nada contradiz nosso reconhecimento do Mundo-totalidade, pano de fundo necessário
sobre o qual projetamos nossa história e nossa humanidade. Privilégio que
apenas traduz nossa preferência por nós mesmos, em meio ás coisas e aos
processos do Mundo. Pois o que ocorre no Mundo humano nos diz sempre respeito e,
às vezes, muito de perto. Se, com freqüência, podemos modificá-lo
substancialmente por meio de nossa ação individual ou coletiva, também ocorre
com muita freqüência que ele se transforme profundamente de modo a contrariar
nossas vontades individuais ou nossos programas coletivos. E as mais sólidas de
nossas instituições devêm e se desfazem ao longo de nossa história.
Com relação ao Mundo
Humano, nossa experiência comum é também a experiência de nossa contingência
e precariedade. Precariedade de nossas vidas e de nossas instituições. Imersos
na história dos homens, contingência de nosso pensamento e de nossa linguagem,
de nossas crenças e de nossos discursos, de nossos pontos de vista.
Precariedade e contingência de nossa situação.
Parte importante de nossa
experiência comum do Mundo concerne ao uso de nosso discurso comum, que
nos serve de meio de comunicação, ao mesmo tempo que reflete e registra essa
mesma experiência. Ele se exprime através das várias línguas particulares
que traduzimos umas nas outras. O discurso comum está sempre a dizer o mundo,
seu eterno pressuposto, seu referencial permanente. Ele é parte do Mundo, mas o
Mundo se diz através dele. E é essa remissão congênita do discurso comum ao
Mundo que lhe confere significatividade e inteligibilidade. A significatividade
e inteligibilidade que espontaneamente lhe atribuímos, na medida mesma em que
dele nos servimos. O Mundo é o universo de nosso discurso cotidiano. Nossa
experiência comum do Mundo é continuadamente o tema de nosso relacionamento
lingüístico com os outros homens. É sobre o Mundo que estamos uns com os
outros sempre a conversar e a contar-nos estórias. Os homens estão sempre a
informar-nos sobre o estado do Mundo.
Esse nosso discurso comum,
somos os homens que o reconhecemos todos como nosso e como comum. Como um
comportamento humano no Mundo, evento do Mundo como qualquer outro comportamento
humano. Seu objeto, o Mundo, é também o seu lugar. E conhecemos sua contingência
pois nos aparece que nosso discurso não faz falta ao Mundo. Não nos parece que
as galáxias se preocupem com ele. E conhecemos sua precariedade, sua freqüente
impotência para dizer corretamente as coisas e os fatos do Mundo, embora o
consideremos basicamente adequado ao Mundo. Pois nos servimos dele com confiança
espontânea e o temos como fundamentalmente veraz.
Nele dizemos nossa percepção
do Mundo, nele registramos nossas observações do que se oferece à nossa
experiência, nele formulamos as certezas e evidências da vida cotidiana. Nele
exprimimos nossos pensamentos, formulamos nossas opiniões e nossas crenças,
que dizem o Mundo sob este ou aquele prisma. Com ele raciocinamos e inferimos,
segundo regras que aceitamos e reconhecemos, reflexiva ou espontaneamente. Com
ele nos aventuramos a propor explicações sobre as coisas e processos do Mundo,
que buscamos melhor conhecer. Nele construímos nossas teorias e doutrinas,
nossas ciências e filosofias, produtos superiores de nossa atividade pensante.
Pensamentos, opiniões e crenças, teorias e doutrinas, ciências e filosofias
constituem sempre, deste ou daquele modo, pontos de vista nossos sobre o Mundo
que o nosso discurso exprime. Explícita ou implicitamente, o Mundo é sempre o
seu objeto único e permanente. Eventos do Mundo humano, são processos,
portanto, do Mundo que a ele revertem. Assim os conhecemos.
Alguns partilham muitas das
nossas opiniões e crenças, muitos também compartilham conosco algumas dentre
elas. E há todas aquelas - e elas não são poucas - que toda a nossa
comunidade, ou a maior parte dela; aceita conosco. Algumas crenças e pontos de
vista parecem-nos de algum modo merecer mesmo a aceitação comum da espécie.
Essas opiniões e crenças compartilhadas pela comunidade constituem o que
chamamos costumeiramente de senso comum. De um modo geral, podemos dizer que o
senso comum varia muito no espaço e no tempo, no interior de uma comunidade ou
de uma comunidade para outra.
Nossa confiança no discurso
comum é grande , porém não ilimitada. E nele mesmo dizemos a consciência que
temos de suas limitações, que são nossas. Reconhecemo-lo capaz de verdade e
acertos, mas também de falsidade, erros e enganos. Mudamos com freqüência
nossos modos de pensar, voltamos atrás em nossas opiniões, abandonamos velhas
crenças que rejeitamos como falsas e substituímos por crenças novas.
Corrigimos continuamente nossos pontos de vista, tanto sobre as coisas mais
banais e triviais quanto sobre as mais sérias e importantes. A consciência de
nossos enganos e desacertos não nos leva à descrença e à dúvida
generalizada ou à desconfiança sistemática do discurso, recomenda-nos somente
uma prudência maior.
Uns dos outros com muita freqüência
divergimos, assistimos continuamente ao choque de opiniões, ao conflito de idéias
entre os homens. Criticamos e rejeitamos os pontos de vista uns dos outros,
denunciando-os como falsos ou mal fundamentados. Discutimos, argumentamos, lançamos
mão da experiência, de testemunhos, invocamos a autoridade. Procuramos
persuadir-nos uns aos outros, às vezes em parte conseguimos. As divergências
entre teorias científicas ou outras, o conflito incessante das filosofias
aparecem-nos apenas como aspectos particulares, ainda que importantes, desse
panorama geral. Crítica e autocrítica permanentes são a vida cotidiana do
discurso.
Essa pluralidade de pontos de vista contrários ou mesmo contraditórios configura, portanto, um traço particularmente notório da prática humana do discurso, que não nos parece senão muito natural. Eles se nos apresentam como tematizações diferentes da leitura de um mesmo texto básico, como variantes na interpretação mais geral de uma mesma experiência fundamental e comum, porquanto experiência de um mesmo Mundo. Pois nossas opiniões e doutrinas, nossas crenças velhas e novas, nossos acordos e divergências dizem sempre respeito ao mesmo e velho Mundo, que lhes serve sempre de pano de fundo.
5.
Eis alguns traços gerais de minha visão do Mundo, que considero
particularmente relevantes e que julguei oportuno fixar. Essa visão do Mundo se
me manifesta, ela própria, como minha, conforme as perspectivas que nela
mesma para mim se desenham sobre o Mundo físico e o Mundo humano nos quais
minha experiência da vida cotidiana se insere. E a visão do Mundo de um homem
não inculto, com alguma dose de espírito crítico, situado geográfica, histórica,
social e culturalmente, expressa num discurso que reflete inegavelmente essa
situação e os condicionamentos de vária natureza que ela envolve. Esse
discurso tem uma coloração fortemente pessoal e subjetiva, ele traz a marca de
minha personalidade e de minha biografia. Por isso mesmo, nele se retratam de
algum modo o espaço e o tempo em que vivo, a sociedade a que pertenço, o grupo
social em que estou mais diretamente integrado, tanto quanto as idiossincrasias
de minha formação e cultura. Um discurso que ao mesmo tempo manifesta o caráter
cultural das categorias de que se serve e as particularidades características
da própria língua em que se escreve.
Entretanto, eu pretendo que não
se trata de uma visão do Mundo meramente pessoal e subjetiva. Ou de mera
expressão de uma situação histórica e social determinada. Em verdade, ouso
mesmo dizer que se trata, de um certo modo, de uma visão comum do Mundo.
Sei quanto essa expressão pode chocar espíritos filosoficamente prevenidos ou
demasiadamente influenciados por um relativismo sociológico ou antropológico
exacerbado. Por isso, quero explicar um pouco o que tenho em mente, tentando
desarmar alguns preconceitos.
Quero primeiramente relembrar
que aquela visão minha do Mundo, cujos traços mais gerais acima esbocei, foi
muito espontaneamente que eu a organizei quando, tendo renunciado à filosofia,
quis ser apenas um homem como os outros, retornando decididamente à vida comum
e cotidiana para vivê-la em sua plenitude. Uma visão do Mundo que tranqüilamente
se me impôs, sem nenhuma opção ou decisão de minha parte. Que não exprime
adesão à teoria ou preferência por doutrina. E que pacificamente aceito e
assumo, expressão inteligente e natural de meu mesmo relacionamento com a
Realidade.
O que pretendo é que essa
minha visão do Mundo tem muito em comum com as visões que os outros homens,
meus semelhantes, têm, do Mundo, eles que estão imersos como eu na experiência
cotidiana da vida comum. Visões do Mundo que se lhes impõem tranqüilamente,
sem opções ou decisões de sua parte. Visões em que espontaneamente
registram, antes de qualquer adesão à teoria ou preferência por doutrina, sua
experiência básica da Realidade em que se reconhecem integrados. Em verdade,
todos sabemos que essas múltiplas visões do Mundo são, também, extremamente
diferentes e variadas, refletindo a infinda diversificação das situações
humanas, incorporando elementos de toda procedência e natureza, exibindo as
mais diversas ontologias. Nem concebemos que pudesse ser de outra maneira. E
experimentamos todos quanto nossas próprias visões particulares do Mundo se
modificam substancialmente no decorrer de nossas vidas, por exemplo rejeitando
velhas entidades ou acolhendo outras novas.
O que pretendo é que há
muita semelhança, também, entre as diferentes visões que os homens têm no
Mundo. Que há como uma interseção de todas elas, inclusive a minha, que não
é vazia. Descontadas as particularidades próprias a cada um, minha visão do
Mundo me aparece como algo que eu compartilho com os outros homens. E assim
aparece a cada homem sua visão do Mundo. As diferentes visões do Mundo exibem
algo como um núcleo básico, razoavelmente rico e denso, comum a todas elas.
Aqueles traços gerais de minha visão do Mundo que acima julguei relevante
fixar aparece-me que integram esse núcleo central e comum. Todos ou uma boa
parte deles, num grau maior ou menor, sob este ou aquele aspecto. Por certo não
se tentou - seria acaso possível? - um inventário rigoroso e exaustivo, propus
apenas algumas indicações que me parecem fundamentais. Aparece-me que se
encontram esses mesmos ingredientes, desta ou daquela maneira, em cada visão
humana do Mundo. Algo como o mobiliário-padrão da experiência humana do
Mundo. Trivialidades de nossa vivência do Mundo físico e humano, sobre as
quais estamos todos basicamente de acordo, coabitantes confessos da mesma
Realidade. Que incluem boa parte do conteúdo de nossa experiência mais
imediata da vida cotidiana, nós mesmos e as coisas e eventos que mais de perto
nos cercam e afetam, os outros seres com que temos constante comércio,
sobretudo os outros homens. Não vejo por que se precisaria de uma definição
rigorosa quanto ao que deve ou pode ser incluído nele, ou dele ser excluído.
Na exata medida em que nos
reconhecemos uns aos outros como homens que vivem a experiência comum do Mundo,
podemos falar de uma visão comum do Mundo, pressuposto irrecusável
dessa experiência comum, assim como da comunicação que nos une através de
nosso discurso comum. Nós todos a postulamos implicitamente - quando não a
tematizamos explicitamente - a cada passo, a cada gesto, a cada palavra. A existência
de uma visão comum do Mundo é um fato da vida cotidiana, não um ponto de
doutrina. Em verdade, experiência comum do Mundo e visão comum do Mundo são
as duas faces de uma mesma moeda. Temos cada uma delas ao ter a outra. A visão
comum do Mundo não é mais que nossa consciência humana da experiência comum
da Realidade. Essa experiência nos apareceu como fundamentalmente comum,
enquanto experiência de um mesmo Mundo. E nossas visões particulares do Mundo
desenham uma visão comum, enquanto visões do Mundo, reflexos
naturalmente multiplicados da presença do mesmo Mundo a todos nós. O Mundo nos
aparece como o objeto uno e comum de nosso olhar humano e múltiplo, suporte
objetivo e sólido de nossas visões particulares. O Mundo sustenta os
"Mundos" dos homens.
Nada leva a supor que o fato
inegável de haver uma visão comum do Mundo requeira uma forma privilegiada de
discurso para descrevê-la. Discursos variados podem adequadamente propor-se
para o mesmo efeito, desde que se reconheça que dizem fundamentalmente a mesma
coisa. A descrição sucinta, que acima propus, de alguns dos aspectos mais
gerais que caracterizam a visão comum constitui apenas uma dentre muitas formas
possíveis de organizar um discurso que a exprima.
Por outro lado, não posso
obviamente alimentar a pretensão de tornar acessível a qualquer um o discurso
que para aquele fim utilizei. Sua compreensão adequada requer, por certo, um
grau de cultura e um certo poder de abstração de que boa parte dos homens não
são capazes. Mas somente por um grosseiro sofisma se poderia sustentar que, sob
pena de contradição, a descrição da visão comum do Mundo se devesse
formular num discurso acessível ao comum dos homens. Apenas posso pretender que
meu discurso possa ser retomado por um homem suficientemente culto e inteligente
para entendê-lo e fazê-lo seu. Isto é, que ele possa ser reconhecido, por
quem tenha as condições culturais e intelectuais para apreciá-lo, como uma
descrição razoavelmente adequada, ao menos em linhas gerais e, eventualmente,
após tal ou qual modificação, reformulação ou mesmo correção, da
perspectiva comum que homem tem sobre o Mundo. Ainda que, em muitos e muitos
homens, a visão do Mundo seja reconhecidamente tosca, mal organizada ou mesmo
desconexa e confusa.
Espero ter dissipado em parte
o mal-estar que pode acometer alguns espíritos mais finos e delicados por causa
da expressão "visão comum do Mundo". Explicado que foi o seu uso,
parece-me que podemos usá-la sem escrúpulos exagerados. Aos que gostam de
insistir nas diferenças e particularidades culturais, históricas, sociais,
psicológicas e outras que efetivamente distinguem e opõem mesmo umas às
outras as visões particulares que os homens têm do Mundo, peço apenas que não
se esqueçam de que o mesmo reconhecimento e especificação dessas
particularidades e diferenças pressupõe a representação de uma experiência
comum da qual os homens somos os sujeitos e na qual nos reconhecemos como
coabitantes do mesmo Mundo. Em outras palavras, o próprio reconhecimento das
visões particulares pressupõe o fato da visão comum.
E os homens comuns sabemos
todos que assim se passam as coisas. Não fiz mais que explicitar postulados e
pressupostos. Aquilo que todos vivemos e pensamos e dizemos sobre o assunto.
Inclusive os filósofos, quando se rendem às exigências da vida diária e põem
momentaneamente de lado as suas especulações. Quando se esquecem de fazer
filosofia.
Até aí, nenhuma filosofia. Estamos apenas com o homem comum, nos domínios de sua não-filosofia.9 Para quem se cansou do conflito das filosofias e a elas renunciou, dizendo adeus aos seus discursos, essa renúncia significou um contentar-se com a visão comum do Mundo, um assumir gostosamente a não-filosofia dessa visão comum. Tal o sentido do mergulho profundo na vida cotidiana, para saborear sua rica e plena realidade. Um contentar-se com a ingenuidade do homem comum. Ou com o que os filósofos assim apelidaram. E que, entregues às suas especulações, eles quase sempre desprezaram em suas teorias.
6.
Eis que se pôde operar, então, o grande salto qualitativo que descrevi no
"Prefácio a uma Filosofia".10 Em poucas palavras, a promoção
filosófica da visão comum do Mundo. Sua valorização filosófica, mediante
sua transmutação em visão filosófica do Mundo. Como é isso possível?
Parece-me que foi esse um dos pontos, naquele meu trabalho, que mais
dificuldades suscitaram e que foram menos compreendidos. Tenho, no entanto, a
convicção de que, se ele se apreende corretamente, se obtêm as condições
para tentar uma verdadeira revolução filosófica.
Ao philósophos que se
tornou homem comum e que tranqüilamente compartilha da visão comum do Mundo
ocorre um dia que, em sua renúncia desesperada à filosofia, em face da
indecidibilidade insuperável do conflito dos discursos filosóficos, ele fora vítima
da mesma hýbris que os alimenta. Ele não desesperara se não por ter
esperado em demasia,ll seu desespero proviera da esperança excessiva
e injustificada que o Lógos nele incutira. Ele não escolhera pensar a
questão da filosofia na forma de conflito das filosofias,l2 mas
deparara com o espetáculo desse conflito, constatara a incompatibilidade mútua
e radical entre os universos filosóficos em disputa. Ele não nutrira a pretensão
de construir uma meta-filosofia exaustiva, ele aspirara somente a encontrar uma
definição filosófica particular cujo discurso se pudesse justificar, de modo
filosoficamente decisivo e irrecusável, contra os discursos rivais: outra não
era a pretensão de todo discurso filosófico. Assim, ele não escolhera pensar
a filosofia na forma do poder argumentativo, ele travara conhecimento com as
argumentações retóricas por que os discursos filosóficos tentam validar-se e
impor-se. Ele fizera a experiência que se oferece imediatamente a quantos se
dispõem a filosofar e procuram, para tanto, familiarizar-se com as diferentes
posturas filosóficas.
Mas ele se apercebe, agora,
de que as filosofias o tinham sub-repticiamente persuadido a identificar a
filosofia com os sonhos de seus projetos. A crer que o destino da filosofia se
jogava inteiro no espaço que forjaram para o seu conflito, se associava de modo
indissolúvel à autonomia radical que o Lógos se atribuía, dependia
por completo da vitória impossível de um dentre os muitos contendores. Em
suma, ele fora levado a acreditar que a sorte da filosofia se jogava ao nível
dos discursos filosóficos. E fora convencido de que a visão comum do Mundo
constituía algo como um ponto zero do filosofar. Como se ela fosse vaga,
essencialmente ambígua ou mesmo contraditória e sua preservação literal
fosse, por isso mesmo, incompatível com todo e qualquer empreendimento filosófico.
Como se ela em nada pudesse servir à filosofia, antes de ser filosoficamente
"interpretada" e explicada. Como se o discurso comum que a exprime
fosse filosoficamente opaco, enquanto a filosofia não se interrogar sobre o seu
sentido para desvendá-lo em resposta. Apenas sob essa ótica, a renúncia aos
discursos em conflito, uma vez descoberta sua impotência para dirimi-lo, se pôde
configurar como uma recusa da filosofia. Não lhe tendo restado mais que a visão
comum e não-filosófica do Mundo, a que ele firmemente se apegou, nosso homem
comum se crera, por isso mesmo, proibido de filosofar.
Agora, porém, lhe ocorre que
nada justifica assim brindar as filosofias do conflito com o monopólio e o
privilégio do uso adequado e correto do nome "filosofia".13
Nada justifica que se faça a essa palavra uma tal injustiça. Ele dá-se conta
de que aquela sua condição de espectador do conflito das filosofias lhe
assegurava, em verdade, uma posição privilegiada que, cegado pelos feitiços
do Lógos prepotente, ele não soubera ou pudera aproveitar. Vivendo a
aporia do conflito, perdera-se nela, tendo no entanto, ao alcance das mãos, a
chave que lhe permitira desfazê-la. Mas o Lógos o havia manietado.
Enquanto não aderia a nenhuma das filosofias em disputa, ele era apenas um
homem comum em busca de uma filosofia, um homem situado no espaço da vida comum
e que não tinha como seu senão o discurso comum dos homens. Mas a magia
sedutora dos discursos filosóficos o tornara incapaz de valorizar
filosoficamente sua própria condição, de olhá-la com olhos simples de
filosofia. E as filosofias marcavam seu discurso de homem comum com o estigma da
ingenuidade.
Eis que ele se decide, então,
a promover filosoficamente a visão comum do Mundo, convertendo-a em base firme
para uma visão filosófica do Mundo. Ele lhe confere a cidadania filosófica,
dispõe-se a endossar suas implicações e pressupostos. Assume reflexivamente e
em nível teórico o que, na visão do homem comum, era o produto de uma
atividade quase sempre espontânea. Assume, decidida e confessadamente, as
certezas e evidências da visão comum como certezas e evidências
filosoficamente legítimas. Aceita, como real, do ponto de vista de uma semântica
filosófica, isto é, no sentido metafísico e forte do termo, o que se impõe
como real à visão comum. Aceita as verdades da visão comum como verdades
filosóficas. E assim outorga às verdades "práticas" e às certezas
"morais" da visão comum o estatuto de verdades e certezas teóricas.14
Ele o faz com a mesma segurança tranqüila, com a mesma convicção e firmeza
com que o homem comum sustenta a visão comum do Mundo. O novo filósofo assume
essa visão comum como um conhecimento, reconhece-a como um saber.
Ele a leva filosoficamente a sério, acolhendo suas pretensões como
filosoficamente válidas. Ele acolhe a "ingenuidade" na filosofia.
Essa filosofia vê o Mundo,
então, como presença inexorável que se manifesta e impõe irrecusavelmente.
Presença imediata e absoluta, que se não pode deixar de aceitar e reconhecer,
irremediavelmente manifesta. Fato bruto e primeiro, objetividade plena, que se dá
imediatamente, numa evidência absoluta e primeira, imune a qualquer dúvida.
Realidade que é em si e por si, cuja autonomia radical prescinde
absolutamente de nosso conhecimento e de nosso discurso. E o Mundo ou Realidade
que assim se assume, essa filosofia não o assume como um grande X desconhecido,
qual uma incógnita misteriosa sobre que se pronunciaria abstratamente e cuja
natureza e conteúdo lhe coubesse eventualmente tentar investigar e desvendar.
Ela não se limitará a repetir obsessivamente que há o Mundo,l5
ela assume o que o Mundo é, o que há no mundo. Ela assume o Mundo em carne e
osso... Porque ela assume o Mundo como a totalidade dos fatos e coisas em que os
homens estamos mergulhados e que se abre diante de nós a partir da esfera
familiar dos fatos e objetos ordinários que mais de perto nos cercam. Assume-se
a realidade plena e absoluta dos aspectos e modos do Mundo que a visão comum
recobre, em suas linhas gerais. Esse Mundo assumido contém, então, todos os
ingredientes fundamentais de nossa vida cotidiana, agora filosoficamente
promovidos. Porque essa filosofia entende que nossa experiência cotidiana, no
que ela tem de mais básico, é experiência do "realmente real".16
Ela vê o Mundo, ao mesmo
tempo, como o objeto dessa experiência imediata e como o seu suporte e
fundamento manifesto. Realidade inexorável que nos contém, engloba e
transcende. Realidade rica e complexa, de que nosso Mundo humano é apenas um
aspecto. E o homem se assume plenamente, portanto, como um ser no Mundo e do
Mundo, numa auto-revelação que vai de par com a própria manifestação do
Mundo. O homem se dá a si próprio no mesmo movimento pelo qual apreende o
Mundo. E sua mesma visão do Mundo e seu mesmo discurso que a exprime e diz o
Mundo lhe são, ao mesmo tempo, presenteados. E essa visão do Mundo se lhe dá
como fundamentalmente semelhante às visões que os outros homens têm do mundo,
configurando uma visão comum. Ele se apreende, assim, como homem comum e como
portador de uma visão comum do Mundo. E o que o homem comum conhece, a
filosofia não desconhecerá. Como o homem comum, a filosofia olha e vê o que
está diante de nós. O saber assumido consiste, pois, em bem mais de que na
simples recusa da autoridade ilimitada do princípio de razão suficiente.17
Assumindo o saber e
conhecimento da visão comum como tais, a filosofia se põe como saber e
conhecimento. Em verdade, porque o acolhe como um conhecimento anterior e originário,
ela efetua um reconhecimento. Ela vem assumir e refletir sobre
conhecimentos que sempre foram nossos, ela é aceitação reflexionante e crítica
do que já se tinha e sabia. Reconheço alguém quando me dou conta de que é
quem, de algum modo, eu já conhecia. A nova filosofia se propõe como uma filosofia
do reconhecimento do Mundo. Nela, a aceitação do Mundo não decorre de um
eventual progresso no discurso filosófico, mas é o seu ponto de partida.
Ancorada na certeza e evidência desse saber originário, a filosofia do
reconhecimento aspira somente a deixar o mundo dizer-se em seu discurso. Ela
quer ser apenas o instrumento humano do auto-reconhecimento do Mundo.
Sempre conforme à visão
comum, a nova filosofia proclama, pelo simples fato de assumi-la, o primado
absoluto do Mundo sobre o saber, do Objeto sobre o sujeito, do Conhecido sobre o
conhecimento. Em suma, o primado do Mundo sobre o discurso comum, que tem no
Mundo o seu referencial necessário e o seu pressuposto permanente. Ela assume o
discurso, todo discurso, como um evento do Mundo, como um aspecto do
comportamento humano no Mundo. E assim assume a posterioridade absoluta do
discurso em relação ao Mundo, a anterioridade correlata do Mundo em relação
ao discurso. E entende que o discurso está sempre a dizer o Mundo. Reconhece
sua precariedade e contingência, sua capacidade de acertar e errar, seu poder e
sua falibilidade. Mas ela o toma como basicamente veraz e assume a confiança
espontânea que o homem comum nele deposita. Mas assume, também, que nosso
discurso não faz falta ao Mundo.
Ao assumir teoricamente a visão
comum do Mundo, a filosofia assume ipso facto sua expressão no discurso
humano e comum como fundamentalmente adequada. Assume necessariamente essa porção
do discurso como verdadeira e transparente, literalmente significativa. Acolhe-a
como um discurso cuja boa compreensão dispensa totalmente qualquer esforço de
interpretação e busca de sentido. Tal como, na visão comum do mundo, se vê o
seu próprio discurso. O Mundo, para a filosofia do reconhecimento, é presença
imediata que torna ocioso, torna em verdade absurdo qualquer projeto de legitimação
outra do discurso que a exprime. Presença impositiva, cujo reconhecimento
prescinde de qualquer outra justificação ou fundamentação. Existência
primeira e absoluta, que não tem de ser interpretada e cuja facticidade bruta
faz mesmo da busca de sua interpretação um empreendimento sem sentido.
Significação transparente que torna, por isso mesmo, obscura e incompreensível
a pergunta pela significação.l8
Por outro lado, reconhecendo
o discurso como um evento do Mundo, como um aspecto humano do Mundo, a filosofia
vê sob o mesmo prisma quanto nele se constrói e propõe. Teorias e doutrinas,
ciências e filosofias não são, para ela, senão discursos humanos, eventos do
Mundo humano, facetas do comportamento dos homens. Expressões contingentes da
Opinião (dóxa), pontos de vista humanos sobre o Mundo. Práticas
opinativas mais ou menos felizes, que se devem mensurar pelo Mundo: a Opinião
ora é verdadeira, ora é falsa... Ao Mundo elas dizem sempre respeito, o Mundo
é seu objeto único e permanente, explícito ou implícito. Assim, em
conformidade com a visão comum, a filosofia do reconhecimento humaniza e
mundaniza todo saber e conhecimento, toda pretensão a saber e conhecer.
Em particular, ela humaniza
e mundaniza todas as filosofias, sem excluir-se obviamente a si própria.
Ela assume, com a visão comum, que tudo que possam dizer os discursos
filosóficos é mera opinião do homem, ainda quando opinião verdadeira. Opinião
de um homem real num Mundo que está aí, o que quer que dele digam as
filosofias. De um homem real que vive, antes de filosofar. No princípio, o
Verbo não era... As filosofias são apenas produtos da prática teórica dos
homens, fatos da vida humana, em que pese à sua excelsa dignidade de saber mais
alto. Elas estão irremediavelmente situadas. O conflito indecidível em
que os discursos filosóficos incansavelmente se empenham se trava, de fato, no
espaço e no tempo da vida comum. Mera disputa entre opiniões de homens, que
tem sempre, como pano de fundo, o velho Mundo. Mas a sorte do Mundo não se joga
nesse conflito. Assim vê as filosofias a visão comum dos homens, assim as vê
também a nova filosofia.
Eis aí, pois, algumas indicações sobre o que se pode entender por promoção filosófica da visão comum do Mundo. Ela significa assumir na filosofia o Mundo como ele é, como ele se dá à nossa experiência imediata, anteriormente a qualquer filosofia. O filósofo assume, enquanto filósofo, o que não pode deixar de aceitar e de reconhecer, enquanto homem comum. Acolhe, em sua filosofia, a visão comum do Mundo que se lhe impõe, quando não faz filosofia. A visão comum do Mundo que se impôs ao espectador do conflito das filosofias, quando este a elas renunciou. E que "resistiu", pois, a essa renúncia. A filosofia vem assumir o que sempre se tem, mesmo quando dela se desiste.
7.
Ao descrever a renúncia às filosofias do philósophos que se deixara
vencer pela indecidibilidade de seu conflito, falamos várias vezes de retorno
à vida comum, de reingresso, de volta. Ao ver-nos discorrer sobre esta
redescoberta do amplo espaço da vida comum, um filósofo, leitor intrigado,
veio maliciosamente perguntar-nos onde se estava antes.19 E,
vendo-nos tematizar a visão comum e nela insistir, vendo-nos reafirmar suas
verdades comuns, ele nos perguntava perplexo: "Mas quem jamais disse o
contrário?"20 Tanto mais que todos reconhecemos que os próprios
filósofos, enquanto homens comuns, evidentemente compartilham da visão comum.
Eles nunca pretenderam negar que Wittgenstein usasse uma cueca sob a calça.21
Ora, tudo indica que se
tratava de uma volta ao lugar de onde nunca se saíra, de um reencontro do espaço
onde sempre se vivera. Pois não se tinha, por certo, deixado a vida nem se
abandonara a condição humana: o philósophos nunca quisera ou pudera
renunciar à vida cotidiana e comum. E tudo parecia indicar, também, que ninguém
"disse o contrário", que nenhum filósofo reconhecido jamais ousara
proferir tão estranho discurso. Por que, então, insistir no trivial, repetir o
óbvio? Por que lembrar o que ninguém esquece, reafirmar aquilo de que ninguém
duvida? Porque o Mundo da visão comum, todos o reconhecem e ninguém dele
duvida. Se ninguém nega a experiência comum, de que pode servir enumerar
truismos?22 Dá-se a impressão de que se combate uma metafísica
delirante, que recusaria a existência do Mundo da experiência cotidiana e a
vida comum. Mas, se ela não corresponde a nenhuma filosofia histórica,23
estaríamos perdendo nosso tempo a convocar banalidades para guerrear fantasmas.
O que tínhamos em mente,
entretanto, era a tradicional e freqüente desqualificação filosófica da vida
comum, do homem comum, do discurso comum, do saber comum, tal como ocorre em
muita filosofia. Desqualificação falaciosa que quer converter a experiência
comum do Mundo, por exemplo, em "fé perceptiva", a visão comum do
Mundo em "realismo ingênuo", toda a perspectiva da atitude espontânea
sobre o Mundo em mera ilustração do simplismo e ingenuidade filosófica. As
certezas do homem comum, as verdades comuns da experiência cotidiana, os filósofos
vivem-nas, por certo, e não as negam, enquanto homens. Mas, enquanto filósofos,
não as assumem. Desprezando-as teoricamente, nesse sentido ignoram-nas em
suas filosofias, ignoram-nas enquanto verdades e enquanto certezas. Nesse
sentido em que as desqualificam, pode-se dizer que as recusam. Desqualificação
teórica, recusa filosófica, empreendidas em nome da
racionalidade que postulam para a filosofia. Assim é que boa parte das
filosofias opta por esquecer "metodologicamente" a visão comum do
Mundo, recusando-se a integrá-la ao seu saber racional e teórico. Não podendo
furtar-se, enquanto homens, à experiência do Mundo, não o reconhecem como filósofos.
O Mundo não é, para eles, o universo reconhecido de seus discursos.
Repugna a tais filósofos
integrar a prática cotidiana e a experiência da vida comum a suas filosofias.
Desconsiderando filosoficamente as verdades cotidianas, o bom senso, o senso
comum, instauram de fato o dualismo do prático e do teórico, da vida e da razão
filosófica. Instauram, consciente e propositadamente, o divórcio entre o homem
comum que são e o filósofo que querem ser. Não querendo assumir suas
filosofias como meras práticas humanas no Mundo reconhecido, empenham-se em
tentar esquecê-lo, obscurecê-lo, "pô-lo entre parênteses" no
interior de seus projetos teóricos.
Tais projetos consubstanciam,
assim, uma tentativa de criar um espaço próprio e privativo para a filosofia fora
do Mundo que o filósofo conhece, enquanto homem comum. A concepção desse espaço
extramundano24 é o fruto necessário do primado concedido à razão
sobre o Mundo. E o resultado imediato de a filosofia reivindicar para si uma
liberdade absoluta e um desprendimento total em relação ao Mundo. Como se o
pleno desabrochar da racionalidade exigisse um total distanciamento em relação
ao Mundo, um distanciamento teórico sui generis que, se não se exige
explicitamente, implicitamente ao menos sempre se postula. Somente a constituição
desse espaço extramundano permitiria o exercício do olhar crítico do filósofo,
somente a existência de tão privilegiado mirante ensejaria à filosofia debruçar-se
sobre seu Objeto, reconhecê-lo e investigá-lo, ou mesmo instaurá-lo. E o
relacionamento da filosofia com o Objeto se daria, portanto, fora do Mundo.
Em tais filosofias, na melhor
das hipóteses, o Mundo é apenas o ponto de partida que se vai deixando para trás,
ou o porto de embarque que se perde logo de vista, na medida em que o discurso
filosófico vai tomando forma e a viagem filosófica se processa. Procuram-se
formas de expressão, métodos, critérios; buscam-se certezas, verdades, intuições;
tudo se empreende, menos recorrer ao que lá atrás se deixou e se desqualifica.
Se se utilizam as verdades comuns, é a contragosto e sempre como se fora provisório.
Qual verdade em trânsito, sem direitos a um visa de permanência no discurso da
filosofia. Verdades cujos préstimos se tolera aproveitar como que
acidentalmente, mas a que se recusa conferir a cidadania filosófica.
Associa-se-lhes, no máximo, uma certeza "moral".
É natural, então, em conseqüência
desse distanciamento do Mundo forjado em nível da razão filosofante, que se
cave um abismo entre o lógos da filosofia e o discurso do homem comum. E
muitos filósofos de fato opõem, quase sempre muito explicitamente, ao discurso
comum o discurso filosófico. Qualificam o discurso comum de vago, de incerto,
de obscuro, quando não de contraditório e inconsistente. Isto é,
desqualificam-no. Recusam-lhe qualquer transparência, qualquer
significatividade clara e imediata que se pudesse, sem mais,
filosoficamente assumir. Procedem como se toda e qualquer porção do discurso
comum exigisse sempre uma análise e uma interpretação filosófica, para que
se lhe possa desvendar a significação oculta. A busca da significação e a
construção da interpretação tornam-se tarefas primeiras da filosofia. E
sempre de má vontade que os filósofos se vêem obrigados a mover-se na esfera
do discurso comum e a dele servir-se. Pagam-lhe o devido tributo, mas sempre
buscando escapar e, em não escapando, fingem tê-lo abandonado, de corpo e alma
empenhados em construir um reino verbal à parte para as suas construções
racionais. Comprometem-se a conformar um discurso claro e luminoso, que não
querem contaminado pelo discurso ordinário. E um só e o mesmo o movimento que
pretensamente instaura o espaço extramundano da filosofia e que constitui o seu
discurso alegadamente específico, rigoroso e competente. E a filosofia assim
adentra o reino da Linguagem.
A filosofia terá
eventualmente por Objeto - eventualmente, mas não necessariamente - um aspecto
ou conjunto de aspectos do Mundo, eventualmente o próprio Mundo. Assim, por
exemplo, a matéria, a vida, o homem, a linguagem, a história, o próprio Mundo
em sua totalidade, são, por certo, os objetos privilegiados de muita filosofia.
Mas considerados supostamente do exterior, para serem, por assim dizer,
recriados, reconstruídos, instaurados, postos em sua mesma objetividade
pelo lógos filosófico. Ou, pelo menos, tal é a pretensão que este último
alimenta.
Em sua hýbris sem
peias, a filosofia, que se concede aquele pretenso distanciamento crítico e que
não assume nem reconhece o Mundo, com isso se condena o tudo problematizar. O
filósofo parece esquecer-se de que o projeto originário da filosofia era o de
compreender melhor e bem esse Mundo de nossa experiência cotidiana. Ele se
esquece de que os homens se puseram a filosofar, em última análise, apenas
para compreender melhor seu dia-a-dia, para enriquecer e articular melhor sua
visão comum do Mundo. Procede-se, então, ao questionamento radical e absoluto
de todo o conteúdo dessa visão comum, convertendo-se o Mundo num grande X
desconhecido. Problematizam-se as certezas todas e as evidências mais triviais.
O Eu e o Outro, as outras mentes e a existência dos mesmos objetos físicos
ordinários. O pensamento e a linguagem, as noções de percepção, de existência,
de verdade, de conhecimento. A capacidade referencial e a significatividade do
discurso, a própria lógica e todo o saber.
Problematiza-se o Mundo em
sua totalidade, a própria existência do Mundo exterior. Já se terá refletido
suficientemente sobre quão estranha - e sintomática - é esta expressão:
"mundo exterior?"25 O Mundo transforma-se num problema a
ser resolvido, sua aceitação e reconhecimento numa mera crença a ser julgada.
Nossa certeza quanto ao mundo exterior se apelida, com alguma condescendência,
de certeza prática ou de certeza moral. Vive-se a extravagante aventura de
projetar-se a razão para fora do Mundo, nas asas da imaginação filosófica,
para eventualmente tentar a ele voltar no discurso da filosofia. Ou para decidir
da impossibilidade do regresso. Na melhor das hipóteses, que nem sempre ocorre,
parte-se em busca de uma recuperação filosófica do Mundo, para um esforço de
legitimação filosófica da aceitação de sua existência. Empreende-se a
grande busca do fundamento último, concebem-se os estranhos projetos de
fundamentação.26 Tenta-se, num certo sentido, a mágica da recriação,
como se o Mundo se pudesse extrair de dentro do discurso, qual o coelho se tira
da cartola do artista.
Eis o grande desvio da razão
libertina, quando ela se comete a tentar engendrar a Realidade, sob o pretexto
de salvá-la. Quando, divinizando o Lógos, ela se propõe como editora
do Mundo. Em verdade, ela perde o Mundo, porque o retorno que eventualmente
arrisque não será mais que artifício verbal. E ela se perde para o Mundo,
porque recusou ser apenas um saber do Mundo. Dele libertada, a imaginação
filosófica se entrega prazerosa à exploração das riquezas inesgotáveis da
linguagem humana, multiplicando filosofias. E assistimos, assim, àquela guerra
sem fim entre os universos filosóficos, num espaço de ficção. A ave de
Minerva alça vôo ao cair da tarde. Essa imagem animal foi infelizmente,
parece, bem escolhida. Ela retrata bem a aventura do Lógos.
Moore lembrava o fato estranho de filósofos terem sido capazes de sustentar sinceramente, como parte de seus credos filosóficos, proposições inconsistentes com o que sabiam ser verdadeiro.27 O paradoxo não oferece maior dificuldade. É que é grande o poder da linguagem e o Lógos é um grande Senhor.28 Por ele enfeitiçado, o espírito humano é levado a acreditar que quanto ocorre com as palavras, assim também se passa com as coisas.29 Aristóteles parece ter-nos prevenido em vão contra os desvarios do discurso.
8.
Há um sentido bastante preciso, portanto, no qual se pode falar de uma
desqualificação filosófica da visão comum do Mundo, de uma recusa do Mundo
pelas filosofias. Chamo de idealista toda postura filosófica que empreende essa
desqualificação, que efetua uma tal recusa, mercê da primazia concedida às
palavras sobre as coisas, à razão sobre o Real.30 O idealismo
resume, assim, o delírio da razão libertina, a sua ilusão essencial, a sua hýbris
mais perversa. Em outras palavras, o idealismo é a recusa de integrar a visão
comum do Mundo ao discurso filosófico, como componente fundamental e irrecusável.
O que leva ao fechamento da filosofia sobre seu próprio discurso, que ela
hipostasia e no qual se instala, tendo posto o Mundo entre parênteses. É a
problematização filosófica do Mundo. Ele implica sempre a postulação explícita
ou implícita daquele espaço extramundano para a filosofia, a que acima nos
referimos. Implica sempre a decidida recusa de qualquer remissão ao Mundo para
a solução de seus problemas.
O idealismo apresenta-se
historicamente sob os mais variados matizes. Nem todas as filosofias que
desqualificam a visão comum do Mundo o fazem de igual maneira, havendo gradações
sem fim no distanciamento teórico do Mundo que elas se permitem. O espaço de
suas construções teóricas se acopla mais ou menos mal, segundo diferentes
arranjos que variam muito de uma para outra, ao da vida cotidiana que dimensiona
nossa experiência do Mundo. A sua alienação em relação ao Mundo não se dá
sempre sob a mesma forma ou em igual amplitude. Algumas vezes, depara-se com a
desqualificação aberta e franca da visão e do discurso comuns, no mais das
vezes procede-se com muito mais sutileza. Em muitos casos, o temor da alienação
proíbe ao filósofo uma consciência clara das implicações e pressupostos de
sua mesma postura. Donde o recurso a uma sofisticada auto-dissimulação e a
recusa tácita de levar a cabo uma auto-análise mais profunda. Em verdade,
somente uma análise cuidadosa dos discursos filosóficos permitirá tornar
manifesto, em cada caso, seu maior ou menor grau de comprometimento com a
postura idealista.
Torna-se, pois, evidente que
a riqueza e complexidade da produção filosófica torna impraticável qualquer
tentativa de dar conta, mediante uma descrição esquemática geral, das
variadas formas históricas do idealismo. Se não empreendemos o exame
particular e minucioso das doutrinas caso por caso, temos de ater-nos a indicações
gerais e forçosamente menos precisas sobre o denominador comum que as aproxima
e aparenta, enquanto variante diversificadas de uma mesma postura básica.
Assim, nem tudo quanto acima dissemos sobre o idealismo se aplica adequadamente,
ou mesmo analogamente, a todas elas. Mas nem por isso aquela descrição geral
é menos válida, na medida em que um certo esquecimento teórico do Mundo
configura o seu lote comum. A alienação que denunciamos permanece de longe o
que há de melhor repartido entre as filosofias. Porque o bom senso é, por
certo, a coisa do Mundo melhor partilhada, filósofos à parte...
Parece-me ficar claro, como
se responderá àquela pergunta perplexa do leitor-filósofo que estranhou nossa
demorada insistência na visão comum do Mundo: "mas quem jamais disse o
contrário?". Respondo-lhe que todas as filosofias da recusa do Mundo,
todas as filosofias que desqualificam a visão comum do Mundo, num certo sentido
que acima precisei, "dizem o contrário". De algum modo elas
"dizem o contrário", na medida em que se recusam a dizer o Mundo. O
idealismo não diz o Mundo, ele "diz o contrário". A filosofia
moderna, de um modo geral, tem sempre "dito o contrário". Desta ou
daquela maneira, sob este ou aquele aspecto, numa forma mais ou menos explícita,
com um grau maior ou menor de consciência. Pois, no sentido em que acima o
definimos, o idealismo tem sido, de fato, o paradigma oculto, mas onipresente,
de toda a modernidade.31
É certo que boa parte dos
filósofos modernos ou contemporâneos que tenho em mente recusariam indignados
o epíteto de idealista. Muitos deles fazem mesmo profissão de fé
anti-idealista. Mas creio ter deixado bem claro o sentido em que uso a expressão.
Eles se movem no interior do universo espiritual do idealismo, eles consomem sua
energia - e a de seus leitores - na tentativa de resolver os problemas e
quebra-cabeças que o idealismo inspirou. E que somente adquirem sentido dentro
do projeto idealista, se ele se aceita como legítimo. Projeto que de tal modo
impregna - ou infesta o mundo filosófico, que as questões pertinentes à sua
problemática interna e própria acabam por transvestir-se em problemas espontâneos
e naturais da reflexão filosófica.
Sob esse prisma, portanto, não
hesitarei em chamar de idealistas doutrinas quanto ao mais tão diferentes como,
por exemplo, o empirismo inglês, a filosofia crítica, o pragmatismo americano
ou o positivismo lógico. Este último, por exemplo, quando rejeita como
"metafísicas" e desprovidas de significado as proposições sobre o
mundo exterior que se não podem verificar empiricamente segundo os padrões e
critérios estritos de verificabilidade que ele define. Também chamarei de
idealistas bom número das filosofias contemporâneas da linguagem, quando
julgam poder prescindir do reconhecimento filosófico do Mundo para tematizar e
compreender a linguagem filosoficamente. Direi o mesmo de certas correntes da
filosofia marxista de nossos dias que se comprazem paradoxalmente em abordar
temas marxistas nos moldes da problemática idealista e a partir de seus
pressupostos, infiéis por certo ao espírito e à letra da obra adulta de Marx.
E não é senão muito natural que tudo isso ocorra, já que a atitude idealista
define a postura básica e constitui a dimensão mais essencial da racionalidade
filosófica moderna.
Essa postura básica, a
filosofia moderna deve-a sabidamente ao cartesianismo, que constitui a fonte de
inspiração profunda de seu idealismo visceral. E, sem sombra de dúvida,
pode-se falar de um cartesianismo profundo do pensamento ocidental. Foi a
genialidade de Descartes que deu nascimento e forma consistente ao grande
projeto da contestação filosófica do reconhecimento do Mundo. O Cogito
pode, a justo título, ser tomado como o símbolo historicamente privilegiado
dessa extraordinária empresa da alienação da razão humana. Inventando a dúvida
hiperbólica, a filosofia do Cogito abriu decididamente o caminho pelo
qual as filosofias posteriores não cessaram de avançar, seguindo as suas
pegadas. Pouco importa que elas não retomem temas ou soluções cartesianas, ou
que venham mesmo a rejeitar explicitamente o Cogito. E sempre o espírito
profundo do cartesianismo que as anima, é dele, em verdade, que elas
continuamente se alimentam. Seu estilo e sua postura fundamental as fazem
herdeiras, diretas ou indiretas, da grande tradição cartesiana. Deve-se à
filosofia do Cogito a perversão secular da razão ocidental.
A filosofia cristã, ao
tematizar o dogma bíblico da criação, exigindo uma causalidade e explicação
extramundana para o Mundo em sua totalidade, subordinando a existência do Mundo
- e sua permanência nela - à vontade inteligente de um Deus criador, iniciara
de algum modo o processo de desestabilização filosófica do Mundo, cujo
reconhecimento, no entanto, ela assumia. Com o pensamento cristão, a mesma matéria
do Mundo deixou de bastar-se filosoficamente a si mesma. Sob esse prisma, o
cristianismo filosófico preparou o terreno para a filosofia do Cogito,
para tanto apropriando e reinterpretando, à luz da Revelação, as categorias
da filosofia clássica grega, que também se aplicavam, por certo, ao Mundo
filosoficamente reconhecido (isso era verdade também para o platonismo, embora
nele tenha lugar uma certa desqualificação ontológica do Mundo da experiência
cotidiana) . O Cartesianismo, então, recorrendo ao arsenal do ceticismo grego,
que a filosofia da Renascença repusera em moda, e exacerbando a dúvida cética
até o limite extremo, operou a grande inversão idealista, pondo
filosoficamente em xeque o mesmo reconhecimento do Mundo. E a razão filosófica
passou a precisar da bondade divina até mesmo para assumir a existência do
Mundo. O cartesianismo fez, assim, passar ao ato potencialidades de algum modo
inscritas no discurso filosófico cristão sobre a Criação. Ele proclamou a
independência da razão e de seu discurso em relação ao Mundo, conferindo ao
lógos humano o lugar divino da exterioridade. Nesse sentido, ele divinizou o
discurso dos homens. Ou humanizou o Verbo de Deus... E o reconhecimento do Mundo
se converteu expressamente, pela vez primeira, num problema filosófico.
A filosofia posterior veio a rejeitar os préstimos da bondade divina e acabou de perder o Mundo... Por várias vezes, ela tenta recuperá-lo, reinstaurá-lo, recriá-lo em seus discursos. Creio lícito dizer que, nesse empreendimento, ela de fato se erige em sucedânea laica da teologia da criação. Ela se faz o instrumento da vontade do homem de ser Deus. A filosofia do Cogito cavou um abismo entre a razão e o Mundo e a filosofia posterior se encarregou de alargá-lo e aprofundá-lo. A história do pensamento pós-cartesiano é a estória de como esse abismo se alargou e aprofundou continuamente. A oposição histórica da razão ao Mundo veio a resultar na filosofia contemporânea da linguagem. E o grande confronto filosófico de nossos dias se dá entre o Mundo e a linguagem, que tomou o lugar do Cogito. O lingüisticismo da filosofia contemporânea é o último triunfo de Descartes.
9.
Creio poder, agora, responder também aquela pergunta intrigada do leitor que
estranhou falássemos do retorno do philósophos à sua condição de
homem comum, de seu reencontro do espaço da vida comum, quando desesperou de
encontrar uma solução para o conflito das filosofias e decidiu renunciar a
elas: o leitor malicioso nos perguntou onde se estava antes. Respondo-lhe que,
antes, arrastado para o turbilhão "extramundano" dos universos filosóficos
em conflito, o philósophos vivia um distanciamento malsão entre a razão
e a vida, entre o Mundo dos homens e os universos dos discursos filosóficos. O
dualismo esquizofrênico do filósofo que ele aspirava a ser e do homem que ele
era mas com o qual a filosofia não permitia que ele se identificasse
integralmente. A metáfora da volta à vida comum se entende bem, quando se
considera o processo de desqualificação filosófica da visão comum do Mundo,
quando se reflete sobre o empreendimento secular de alienação da razão em
relação à Vida. Trata-se, por certo, de uma volta ao lugar de onde nunca se
saíra, a não ser nas asas da imaginação filosófica...
O philósophos fora
induzido ao distanciamento "teórico" em relação ao Mundo, ao
esquecimento "metodológico" da visão comum do Mundo, vivera a
extravagante experiência do "espaço extramundano" que as filosofias
pretenderam para si forjar. Ele se enredara na problematização filosófica do
Mundo, nas tentativas filosóficas de "editar" o Real, ele se deixara
seduzir pela tentação da exterioridade. Empenhado na busca de uma definição
filosófica que se pudesse efetivamente validar, ele vivera a dolorosa experiência
intelectual da indecidibilidade essencial do conflito das filosofias, da
inocuidade dos projetos de auto-legitimação de seus discursos.
A renúncia à filosofia e a opção pelo silêncio da não-filosofia representaram para ele, ao mesmo tempo, o abandono dos jogos da linguagem filosófica e a recusa daquele espaço de ficção no qual as filosofias travam obstinadamente o seu eterno debate. Significaram o abandono do estranho privilégio de ser cidadão de dois mundos. Foi como se, deixando atrás a noite escura da fabulação, ele pudesse agora imergir de corpo e alma na luz que ilumina o dia dos homens. Para reviver com justificada alegria a experiência humana comum do Mundo em sua plenitude, sem mais a estranha tentação de pôr o Mundo entre parênteses, como se fosse uma sentença. Longe da companhia dos que se recusaram a aprender com o Mundo. Por tudo isso, não creio descabida a metáfora da volta à vida comum.
10.
Mas voltemos à filosofia que reconhece o Mundo. Algum filósofo virá dizer-nos
que a consulta da filosofia ao saber da visão comum deixa "as coisas como
estão" e nos deixa, a nós, no grau zero da filosofia.32
Responder-lhe-ei que a filosofia do reconhecimento "deixa"
confessadamente as coisas como estão, pois as reconhece como coisas
dotadas de plena realidade e objetividade. Não alimenta a pretensão de delas
fazer tabula rasa, pois entende que "não pode com elas". Mas
por outro lado, ao reconhecer as coisas e processos do Mundo, a filosofia se
confere um ponto privilegiado de partida. Esse ponto de partida não é um vácuo
de saber, mas uma plenitude de manifestação e presença. Em verdade, não se
trata de um ponto, mas de uma base sólida de partida. A promoção filosófica
da visão comum é, precisamente, a sua transmudação em base para uma visão
filosófica do Mundo. Reconhecendo o Mundo, a filosofia se dá a si mesma essa
base extraordinariamente rica sobre a qual se erguerá o edifício filosófico.
Fundamento forte, alicerce sólido plantado em terra firme. O Mundo reconhecido
é o fundamento que a filosofia exibe e descreve, para sobre ele construir-se, não
o tendo construído. Tomando-o como necessário Objeto, a filosofia vê nele,
anteriormente, o seu Sujeito suporte e raiz, fonte e alimento. O mundo
reconhecido é o pressuposto explicitado do discurso filosófico, o referencial
imediato que o norteará e lhe dará sentido. Dando. às palavras de
Wittgenstein um sentido por certo diferente daquele que o filósofo lhes atribuía,
direi também que em filosofia, "conhecemos, no ponto de partida, todos os
fatos que precisamos conhecer".33 Tudo isso leva-me
justificadamente a dizer que não existe o grau zero da filosofia.
Mas não ë verdade que toda
a filosofia está ainda por fazer? Sim, num certo sentido. Mas a filosofia se
pode agora fazer, porque ela dispõe de um fundamento firme. Não tem que
procurar por certezas e evidências primeiras, porque as tem em seu ponto de
partida. Não perseguirá no ar o que tem como chão: o solo não se inventa,
mas sobre ele se caminha. Não sairá à busca de critérios para legitimar o
seu discurso, na medida em que este imediatamente se legitima, enquanto expressão
do reconhecimento do Mundo. Pois vimos acima como, ao assumir teoricamente a visão
comum do mundo, a filosofia assume ipso facto sua expressão no discurso
comum como fundamentalmente adequada, assume ipso facto a
significatividade imediata e transparente deste discurso que ela faz seu. Não
mais forjando o extravagante projeto de procurar alhures o chão que já pisa, a
filosofia partirá da visão assumida do Mundo para explicitá-la sempre mais,
articulá-la sempre melhor, constantemente aperfeiçoá-la e nesse sentido
enriquecê-la, tornando-a mais sistemática, auto-consciente e crítica.
Explicitação, articulação, aperfeiçoamento, sistematização e crítica que
a preservarão, no entanto, de qualquer desqualificação, clara ou dissimulada.
A partir daí, a filosofia procurará definir suas tarefas e fixar seus
programas, formular seus problemas e propor suas soluções. O mundo
reconhecido, que não é um problema, será o referencial permanente para
a formulação de problemas e a proposição de soluções. Alfa e ômega da
filosofia, origem e fim não questionáveis dos questionamentos filosóficos. E
a filosofia remeterá constantemente ao Mundo para orientar, aperfeiçoar ou
mesmo corrigir suas formulações. O caminhar da filosofia tem agora parâmetros
bem fixos que o balizam. Dentro deles, poderão abordar-se os problemas históricos
e clássicos da filosofia, seja para orientar sua solução, seja para
desmascarar eventualmente sua falsa problematicidade. Mas se caminhará sempre
por terra conhecida. O reconhecimento do Mundo terá sido apenas o ponto de
partida.34 Mas ele é o único ponto de partida possível para uma sã
filosofia.
E se procurará construir, assim, o discurso crítico da filosofia. A razão filosófica encontrará sua força e grandeza nessa submissão ao Mundo que ela reconhece como anterior e transcendente a ela, maior e mais poderoso que ela. Relativa ao Mundo, a filosofia sabe que o Mundo não lhe é relativo.35 Ela se constituirá num ato de humildade, como rendição da razão ao Mundo. "Porque a racionalidade da razão se manifesta no reconhecimento de seu lugar próprio, não no culto narcísico de sua divindade imaginária".36 E, com isso, se opera um verdadeiro redimensionamento da racionalidade filosófica.
11.
Virão dizer-nos, também, que a promoção filosófica da visão comum do Mundo
exprime a esperança de reconstituir-se uma "metafísica natural do espírito
humano"37 Mas é lícito perguntar se cabe realmente falar de
uma filosofia natural e espontânea do homem comum. Entendo que, a menos que se
queira usar a palavra "filosofia" num sentido extremamente vago e
descomprometido, não se deve dizer que a visão comum do Mundo é, em si mesma,
de natureza filosófica. O homem comum, em geral, não é filosófico, não faz
filosofia. A sua visão comum do Mundo, mesmo quando ele é civilizado e culto,
faltam a sistematicidade construída, a sofisticação da análise, o
aprofundamento da reflexão crítica que caracterizam costumeiramente os
empreendimentos filosóficos. Mas, sobretudo, não nos é permitido esquecer que
a filosofia tem uma história e que essa história foi sucessivamente definindo
rumos e problemáticas e quadros de referência para a reflexão dita filosófica.
Ainda que a rica pluralidade das distintas tendências filosóficas não
autorize uma definição inequívoca e aceita do nome "filosofia",38
não parece conveniente aplicar-se o termo senão ao produto de uma atividade de
reflexão consciente de sua inserção naquela história e capaz de
explicitamente determinar-se em relação a ela. Capaz de tematizar crítica e
comparativamente problemas e soluções, de aproximar semelhanças e opor
diferenças, posicionando-se em relação as outras correntes de pensamento. Aliás,
é sabidamente assim que procederam e procedem as várias doutrinas que se propõem
- e que são reconhecidas - como filosofias. Essas características essenciais
faltam, obviamente, à visão comum do Mundo. Não vejo, então, como se possa,
num sentido um pouco mais rigoroso, falar de uma "metafísica natural do
espírito humano" ou de uma "filosofia espontânea do homem
comum".
Mas se é verdade que a visão
comum do Mundo não é, em si mesma, filosófica; se ela não constitui uma
reflexão sobre o ser ou sobre o conhecimento, sobre o discurso ou sobre a
verdade; se ela ignora, em suma, as questões tradicionais da filosofia, não é
menos verdade, contrariamente ao que alguns também sustentam, que ela contém,
por assim dizer, uma potencialidade filosófica específica, ela abriga em si o
germe de uma filosofia. E ela se pode, sem maior esforço, prolongar nessa
filosofia, que lhe permanecerá extraordinariamente fiel. A filosofia que
reconhece e assume o Mundo, promovendo a visão comum, se propôs exatamente
nesse sentido. Eis porque me parece válido dizer que, se optamos por não
opor-lhe resistência filosófica, a visão comum do Mundo "força"
uma filosofia.39 Tanto ao expor, páginas acima, de que modo entendia
essa promoção filosófica da visão comum, quanto ao demorar-me numa análise
sucinta de sua desqualificação pela filosofia que chamei de idealista, penso
ter deixado suficientemente manifesto o caráter positivo da filosofia que
emerge da orientação que proponho. Positividade essa que exprimiu sob a forma
de teses sobre o Mundo, sobre o conhecimento, sobre o discurso, sobre a própria
natureza da filosofia.40
Essa positividade se contrapõe
precisamente, pois, à positividade idealista. A filosofia do reconhecimento não
se caracteriza menos pelo seu caráter reativo4l contra todas as
formas da filosofia idealista que por seu conteúdo positivo manifesto. Em
verdade, caráter reativo e conteúdo positivo constituem as duas faces de uma
mesma moeda. É um só e o mesmo o movimento pelo qual a promoção da visão
comum "força" uma filosofia e exclui muita filosofia. Curiosamente,
alguns parecem experimentar uma certa dificuldade em perceber aquele conteúdo
filosófico latente na visão comum do Mundo, teimando em atribuir-Ihe uma
"inocência" filosófica absoluta, uma potencialidade totalmente
neutra em relação às diferentes posturas filosóficas, inclusive em relação
às idealistas. Entretanto, uma re-leitura mais rigorosa dos grandes textos
idealistas e mais atenta a esta questão deveria trazer claramente à luz a
incompatibilidade radical e insuperável entre, de um lado, a visão comum, se
literalmente assumida a sério no discurso filosófico, e, de outro lado, grande
parte das asserções e a mesma orientação básica que definem a posição
idealista. Não é por outra razão que se procede à desqualificação que
apontamos, ora efetuando-a explicitamente, ora mascarando-a sob o disfarce de
uma "reinterpretação": buscam-se, então, para a visão comum,
significações que ela imediatamente não comporta e propõe-se, das proposições
que a exprimem, uma análise" cujo sentido ê, precisamente, o de torná-las
compatíveis com o discurso idealista. Esse procedimento constante das
filosofias idealistas testemunha de sua percepção correta daquela
incompatibilidade.
Não oporei maior objeção a
que se agracie a filosofia do reconhecimento com o velho epíteto de realista.
Desde que, com isso, se queira apenas insistir no fato de que essa filosofia
reconhece a anterioridade do Real, assumindo a significatividade transparente do
discurso que diz imediatamente sua presença reconhecida. Mas rejeitarei
firmemente que se trate minha posição de naturalista, quer se designe
por esse termo uma forma qualquer de biologismo,42 quer se pretenda,
com seu uso, atribuir à nova filosofia um parentesco qualquer com as ciências
da natureza, como é o caso da epistemologia "naturalizada" de Quine.43
E a recusa do espaço extramundano para as filosofias, se é isso que se entende
por naturalismo,44 não tem de significar a renúncia à metafísica:
a filosofia do reconhecimento assenta confessadamente numa metafísica
descritiva.45 Mas, uma vez estabelecido esse ponto, permito-me
confessar, em seguida, minha crença sincera de que essa posição filosófica
representa, de fato, o triunfo da animalidade sadia da espécie contra os delírios
e devaneios da razão filosofante.
A inversão idealista negara o realismo grego e cristão, o novo realismo nega a negação idealista. Mas não se trata de um simples retorno à postura original da filosofia clássica grega, que assumia espontaneamente a visão comum do Mundo e a incorporava serenamente ao discurso filosófico. Após a queda, não se pode mais querer reencontrar a "inocência" original.46 Mas se pode sempre salvar a filosofia, libertando-a do demônio idealista e recuperando a visão comum do Mundo. O novo realismo tem necessariamente de construir-se contra o idealismo, donde o seu caráter essencialmente reativo. O que explica, também, a sua necessária sofisticação. Não se pode voltar a Aristóteles ignorando Kant ou Descartes.
12.
Ainda uma última lembrança de Sexto Empírico. Ele nos diz47 que ao
filósofo cético sobreveio a mesma experiência que ao pintor Apeles. Deste se
contava que pintando um cavalo e desejando representar a escuma do animal,
desesperou de consegui-lo e arremessou sobre a pintura a esponja com que
costumava limpar seu pincel. Ora, sucedeu que a marca feita pela esponja sobre a
pintura produziu a imagem da escuma. Do mesmo modo, o filósofo cético buscava
atingir a quietude d'alma (ataraxía), tentando decidir sobre o
verdadeiro e o falso, sobre o conflito entre as aparências e as idéias.
Descobrindo-se incapaz de uma tal decisão, procedeu à suspensão de seu juízo
(epokhé), quando lhe sobreveio inesperadamente, então, a ataraxía
que buscara em vão.
Eu direi algo semelhante da
filosofia. Quando nos dispomos a filosofar, deparamos com o conflito das
filosofias, tornamo-nos seus espectadores e nos deixamos enfeitiçar pelos
discursos filosóficos. Buscando uma decisão para o conflito, fazemos a experiência
de sua indecidibilidade. Renunciamos, então, ao filosofar e redescobrimos a
vida comum. Eis senão quando incidentalmente nos damos conta de que a filosofia
buscada nas nuvens esperava, de algum modo, desde sempre por nós, na terra dos
homens. Donde promovermos a nossa visão humana e comum do Mundo, conferindo-lhe
um estatuto filosófico. A possibilidade de filosofar nos foi assim brindada,
depois que renunciamos à filosofia. Deitando fora seus instrumentos,
aconteceu-nos recuperá-la. Repetindo, de algum modo, a experiência do pintor
Apeles.
É como se houvesse um tempo
lógico48 da instauração filosófica. Descoberta do conflito
das filosofias, experiência de sua indecidibilidade, tentação do ceticismo,
renúncia à filosofia, redescoberta da vida comum, silêncio da não-filosofia,
promoção filosófica da visão comum. Uma seqüência ordenada de etapas que não
vejo como se pudessem logicamente dispensar. Não teria sido, com efeito,
possível começar diretamente pela promoção filosófica da visão comum e
pelo reconhecimento filosófico do Mundo. Porque se estaria apenas lançando uma
filosofia a mais na arena do conflito. Ora, não se tratava de obter no
conflito uma vitória impossível, mas de vencer o conflito, superando-o.
Somente nossa renúncia à filosofia pôde consegui-lo. E o silêncio da não-filosofia
pôde, então, obscuramente preparar a restauração filosófica. A promoção
filosófica da visão comum se faz por sobre o conflito, e a nova filosofia não
vai se integrar nele.49
Um salto qualitativo
verdadeiramente se opera. E a filosofia vence a barreira da linguagem.
Notas
(*)
Publicado em Manuscrito III, l, Campinas, 1975; também em Filosofia e
epistemologia III, Lisboa, 1981.
(1)
Cf. Sexto Empírico, Hipotiposes Pirronianas I, 7. Cito o texto conforme
a edição da Loeb Classical Library, William Heinemann Ltd., Londres, e Harvard
University Press, Cambridge, Mass., 1955.
(2)
Cf. ibid. I, 14-15 et passim.
(3)
Koinòs bíos, cf. ibid. I, 23-24; 237-238.
(4)
Cf. Tércio Sampaio Ferraz Jr., "A Filosofia como Discurso Aporético"
in
Bento Prado Jr., Oswaldo Porchat Pereira e Tércio Sampaio Ferraz, A
Filosofia e a Visão Comum do Mundo, Editora Brasiliense, São Paulo, 1981.
Nesse trabalho, o autor comenta criticamente meu artigo "O Conflito das
Filosofias". A crítica de Tércio foi-me deveras estimulante e desempenhou
um papel importante no desenvolvimento de minhas reflexões.
(5)
Cf. nesta coletânea, pp. 22-45.
(6)
Cf. ibid., pp. 34 segs.
(7)
Cf. ibid., pp. 34 segs,
(8) Bento Prado assim pretendeu, cf. Bento Prado Jr., "Por que Rir da Filosofia?", in Bento Prado Jr., Oswaldo Porchat Pereira, Tércio Sampaio Ferraz, A Filosofia e a Visão Comum do Mundo, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1981, pp. 59-97. Trata-se de um