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QUANDO OS ESCRITORES BRIGAVAM
Gustavo Bernardo
Publicado originalmente em O Globo
de 25 de março de 2006
Lira Neto. O inimigo do rei: uma biografia de José de Alencar.
São Paulo: Globo, 2006.
A biografia de José de Alencar escrita pelo jornalista Lira Neto se mostra um trabalho de historiador rigoroso. Sustenta-se em uma pesquisa não apenas da larga fortuna crítica de José de Alencar e das diversas biografias anteriores, como a de Raimundo Magalhães Jr, mas principalmente de fontes primárias, a saber, de documentos de época: artigos de jornais e revistas do século XIX, correspondência pessoal, Anais da Câmara dos Deputados. O autor na certa despendeu muito tempo lendo originais, manuscritos e microfilmes de várias bibliotecas, museus e acervos. Seu trabalho oferece ao leitor informações e textos inestimáveis, tornando-se uma obra de referência.
A biografia se mostra também uma narrativa difícil de largar, desde os subtítulos à moda antiga (como o do próprio livro: “a mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou inventando o Brasil”) até a construção do personagem da infância à morte, numa espécie de romance de formação. O biografado, rico em contradições, facilitou o trabalho: moralista, era filho de padre e adorava seu pai; de difícil convivência, conviveu com todas as grandes personalidades da sua época; romancista romântico, quis seu teatro realista; monarquista, vivia às turras com o monarca; conservador até a medula, foi ousado na literatura a ponto de praticamente inventá-la no Brasil; em 48 anos de uma vida cheia de doenças e restrições, escreveu e publicou cerca de 50 livros em quase todos os gêneros, e ainda gerou 6 filhos com Georgiana Cochrane.
Para quem quer que se debruce sobre a história e a mentalidade do século XIX brasileiro, torna-se imperioso ler tanto os romances de Alencar quanto o trabalho de Lira Neto. A história das desavenças do escritor com o Imperador é não apenas impagável como fundamental para se entender a nossa História.
Entretanto, dois reparos gerais, mas não menores, precisam ser feitos.
O primeiro é que retorna sobre José de Alencar, ainda pouco matizada, a acusação de escravocrata que antes lhe fizeram Joaquim Nabuco, Nelson Werneck Sodré e Raimundo Magalhães Jr. É verdade que Alencar combateu a Abolição, mas seus argumentos não sustentavam fórmulas racistas. O branco seria superior, sim, mas por razões históricas e não por causa da cor da pele. Se o Estado assumia a escravidão como um mal, que não só terminasse com ela de uma vez, mas também desse condições de cidadania aos negros recém-libertos, sob pena de estender por décadas, talvez séculos, a exclusão social e a discriminação racial. Preocupava-se com as conseqüências nefastas de ações supostamente beneméritas, parecendo antecipar a presente tensão social urbana.
O biógrafo preocupa-se em colocar os argumentos a favor do escritor, como os de Machado de Assis, mas, salvo leitura apressada do resenhista, faltou esse, do próprio Alencar: “a escravidão é um fato de que todos nós brasileiros assumimos a responsabilidade, pois somos cúmplices nele como cidadãos do Império. Nenhum filho desta terra, por mais adiantadas que sejam suas idéias, tem o direito de eximir-se à solidariedade nacional, atirando ao nome da pátria, como um estigma, os erros comuns”. Alencar criticava a facilidade que o discurso indignado tem de desresponsabilizar-se, jogando toda a culpa nos outros. Imaginemo-nos brancos na sua época, beneficiados pela escravidão e preocupados com a economia do país, para sentirmos que não havia apenas duas posições: ou se defendia “a liberdade” ou se era escravocrata. A posição de Alencar era sem dúvida conservadora e patriarcal, mas chamá-lo de escravocrata equivale hoje a dizer que outrem ou é fascista ou comunista.
O segundo reparo é quanto à literatura propriamente dita. Como estudo do político, conselheiro e ministro José de Alencar, no seu contexto histórico, o livro de Lira Neto é fundamental, mas, como estudo do escritor José de Alencar, deixa a desejar. Não posso dizer que esse seja um “defeito” do livro do jornalista porque, desde o título, O inimigo do rei não promete um estudo literário. Mas, levando em conta o biografado, muitos leitores procurarão decerto uma reflexão sobre a vasta obra do escritor. Encontrarão informações importantes sobre cada livro, sim, mas não discussões estéticas e filosóficas. Como um bom tratado, o livro passa a impressão de que não há mais nada a ser dito – quando, em termos literários, falta bastante a ser dito.
Alencar, apesar do desejo de verdade que animava toda a “centúria realista” (como chamou Ortega Y Gasset ao século XIX), tinha plena consciência do seu projeto ficcional. Em Viuvinha, afirmou: “a verdade dispensa a verossimilhança”. Em Senhora, perguntou, não deixando dúvida quanto à resposta: “que há de mais inverossímil que a verdade?”. Contrariamente à própria escola da qual é o maior representante pátrio, o escritor não procurava retratar a verdade com as lentes da emoção ou o que fosse, mas assumia que inventava a verdade.
Seu personagem mais inverossímil, o índio-herói Peri, capaz de vencer uma onça com as mãos e dizimar sozinho uma tribo inteira, é também um dos mais famosos da literatura brasileira. Nas palavras do autor, Peri é menos um retrato do que “um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça”. À falta de Clark Kent, Peri talvez seja nosso maior super-herói. Por isso, é uma pena que não tenhamos um Steven Spielberg (e seus dólares) para transformar O Guarani em um épico para o século XXI.
Para concluir, gostaria de acrescentar, além dos méritos já apontados no livro de Lira Neto, pelo menos mais um: lembrar que ainda precisamos ler José de Alencar.
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