DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

O ESCRITOR E A MULHER

Gustavo Bernardo

 

Publicado originalmente em: 
Mª Conceição Monteiro & Tereza Marques Lima (orgs).
Entre o estético e o político: a mulher nas literaturas clássicas e vernáculas.
Florianópolis: Editora Mulheres, 2006.

 

Sou professor há muitos e muitos anos. Mas desde muito antes, desde que aprendi a ler e escrever, tento ser outra coisa, a saber, um escritor. No entanto, é muito difícil falar como um escritor. Os outros é que dizem que a gente é coisa tal como um escritor. Por isso, não sei se agradeço às amigas que me botaram nesse lugar, junto com um escritor consagrado como Sérgio Sant’Anna, ou se nunca mais falo com elas. Não satisfeitas em me pôr nesse lugar, ainda me obrigam a falar de mulher, coisa que a gente sempre faz, desde moleque, em esquinas e bares, mas não assim, a sério e, ainda por cima, a seco.

Que fazer? Ora, o que sempre fiz, quando se trata de mulher: simplesmente, obedecer.

Suspeito que toda fala de escritor deve soar como um rascunho, como uma exploração ainda descoordenada. Não sei se isso é um preconceito, mas no momento ele me convém. Permitam-me, então, ser um pouco descoordenado. Vou falar, primeiro, de um quadro. Depois, com dificuldade, vou tentar falar de determinada personagem feminina da literatura brasileira e de como tentei, abusadamente, recriá-la na minha ficção.

O tema “mulher”, e no ponto de vista de um homem, me lembra o quadro O júri, de Di Cavalcanti. No quadro, vemos estranhos homens muito bem vestidos à volta de uma mulher nua; eles se comprazem em estudar, avaliar e julgar essa mulher nua. Suas roupas escuras, as calvas maquiavélicas, um deles de chapéu coco e monóculo: tudo contrasta com a luminosidade tranqüila do corpo da mulher. Cinco dos homens estão em pé e um deles está sentado no chão, em frente a ela, que se encontra sentada em uma cadeira. Ela se protege, mas não muito: as mãos sobre a pélvis, mas o colo descoberto. Longos cabelos e pescoço, a mulher se deixa examinar com as pálpebras baixas. No espaço apertado, claustrofóbico, o julgamento e o desejo se confundem com o medo, concentrado no homem sentado no chão.

Quem sou eu, no quadro? Creio que aquele que está sentado no chão, em melhor posição para vê-la, ao mesmo tempo que se encolhe de medo.

Do quadro, chego à Lúcia de Alencar, uma das minhas obsessões. Lucíola, de José de Alencar, é a história de uma redenção moral violentamente abortada pelos próprios agentes redentores. Sua personagem principal, Lúcia, parece-me uma das mais belas construções do feminino na literatura brasileira, na primeira parte do romance, para se tornar, na segunda parte, uma das mais reveladoras contradições do caráter romântico. Lucíola tanto me perseguiu que fiz dela parte de uma tese de doutorado e, depois, motivo para um romance, Lúcia.

José de Alencar terá construído uma das personagens femininas mais fortes e afirmativas da literatura brasileira. Quando cortesã, ela mantém dignidade tal que simplesmente não admite que ninguém se sinta com direitos sobre ela. Pois é essa mesma mulher que se humilha tantas vezes diante do narrador. Admitindo-se sua criatura, põe-se de joelhos e completamente submissa. O narrador Paulo, sem dúvida, mostra-se encantado com tanta "doçura", no que lhe seguem muitos leitores, mas creio que Alencar perpetrou, sem entender bem o que fazia, uma vingança contra a mulher, na forma da perversa vingança de Paulo, em nome de todos os homens que Lúcia humilhara na primeira parte do romance.

Lúcia é morta duas vezes no romance: primeiro, quando é transformada, por força do “amor”, bem entre aspas, na boboca Maria da Glória, com esse nome idem (uóps, me desculpem se houver alguém na platéia com esse nome); depois, quando engravida e se força a abortar, sem que a narrativa diga como o fez, para logo a seguir morrer nos abraços do “amado”, entre as mesmas aspas. As mortes de Lúcia podem ser vistas como manifestação dupla de um lento e meloso... assassinato cultural. A expressão “assassinato cultural” é de Gláuber Rocha, alguns anos atrás, a respeito do acidente que matou sua irmã. Pareceu-me pertinente, em relação à personagem Lúcia como em relação a Anecy Rocha, em relação a Marylin Monroe, em relação a Elis Regina. Enxergo Paulo como uma espécie comum de assassino, o assassino por omissão — sua omissão é completa porque, nas últimas páginas, Paulo se refere a todo o período como a melhor porção de minha vida, como aqueles dias de ventura.

Do que digo não se deduza que não gosto do romance de Alencar. Ao contrário, gosto muito, mas provavelmente por razões opostas às do autor. O romance de José de Alencar não deve ser estudado ou tolerado apenas porque representaria um período da literatura brasileira; o romance vale enquanto, simplesmente, nos põe questões. A personagem — Lúcia, no caso — é maior do que o criador. Creio que posso dizer que o personagem Paulo, no meu entender um pulha, também ganha sentido e grandeza graças à explicitação de suas contradições morais e afetivas. A explicitação das canalhices e pulhices de Paulo ajuda a ver quantas vezes teremos sido pulhas nós mesmos. A quase beatificação de Maria da Glória, e por extensão do seu criador, tutor e narrador, deriva exatamente do fanatismo moral capaz de tentar enterrar o passado e imolar uma mulher para se pacificar — tanto melhor se a mulher fosse jovem, bonita, forte, sozinha, e digna.

Tentei reescrever Lucíola, trazendo-a para o século XX. A personagem de Alencar se torna duas num único corpo, primeiro Lúcia, depois Maria da Glória. Lúcia-Maria é morena, mas sua irmã, virgem e pura e que mal aparece na história, tem cachos louros. Para o romântico, a mulher loura, de olhos claros, merecia ficar num altar, para ser idolatrada, enquanto a mulher morena, muitas vezes um eufemismo para mulata ou negra, merecia deitar na sua cama. Enquanto a loura representava a deusa, a morena sugeria o desfrute. O que aconteceu com as louras no século XX já são outros quinhentos. A história do romance de Alencar se passava em 1855. Eu trago a história para 1955, não por acaso o ano em que nasci. Tudo começa no ano em que a gente nasce, não é mesmo? Faço com que Lúcia seja realmente duas, dois personagens, com dois corpos, embora com o mesmo nome, o mesmo corpo e o mesmo rosto – apenas, uma será loura e a outra, negra.

Há resenhas ótimas sobre o meu livro, aliás bem melhores do que ele, assim como será defendida, nos próximos dias, uma ótima dissertação sobre ele, de Damiana Carvalho. É a glória acadêmica, virei tese! Resenhistas e acadêmicos, me elogiando, concordam que faço uma homenagem a José de Alencar e, também, que fiz um romance pós-moderno, antes um pastiche do que uma paródia. Agradeço demais o elogio, só não sei se concordo com eles. Primeiro, porque não gosto de nada que seja ou se diga pós-moderno, como logo eu acabei virando um... pós-moderno? Depois, porque eu tentei foi brigar com José de Alencar, não homenageá-lo!

Deve ser a vingança da vingança. Sempre disse a meus alunos que não nos interessa o que o autor quis dizer, apenas o que lemos na sua obra. Daí eles lêem não só o que não pensei que tivesse posto ali como ainda o que não queria ter dito. Dancei...

Para que vocês dancem comigo e portanto não me deixem sozinho, vão me perdoar o cabotinismo e me deixar ler um trecho desse meu romance, Lúcia, publicado em 1999. Trata-se do trecho em que o Paulo de 1955, o “meu” Paulo, encontra a sua Lúcia. Aí ele já começa a desconfiar que a sua Lúcia são duas e que, na verdade, nenhuma das Lúcias é sua nem de ninguém. Vamos à verdade dos fatos, digo, da ficção mesma.

 

… mas mostrou não me reconhecer imediatamente.

Entretanto, apenas falei do primeiro encontro no ponto do lotação, na praça, à noite, há anos, ela quase-que-sorriu e disse: não, deste momento não me lembro – mas então o senhor é o monitor do Alencar.

Fiquei contente por ela me haver reconhecido, mas chateado por tê-lo feito a partir do meu pior momento. Acho que me mostrei um pouco tonto, rodando nas mãos o chapéu. Felizmente, ela me convidou a entrar e ofereceu um pouco de café – com duas colheres de açúcar, por favor. Enquanto Lúcia ia para a cozinha, contígua à sala, fazer o café – mas não se incomode, pensei que estivesse pronto, ora, não é incômodo, ia passá-lo para mim mesma agora mesmo –, procurava não vê-la, não ver como ela se vestia, constrangido, antes observando os mínimos detalhes da casa.

Do pequeno sofá da sala todo o apartamento, sala, cozinha e banheiro, se descortinava. A mimosa cozinha, onde mal cabia quem lá estava. O banheiro, que deixava entrever, pela porta mal encostada, um pedacinho de banheira, daquelas de ferro esmaltado, com pequenos e trabalhados pés de bronze – excitava os sentidos, excitando memória e imaginação.

A janela, de venezianas de madeira verde, abria para nesgas da Glória, do morro de Santa Teresa e das janelas vizinhas. Num canto da sala, artisticamente separada por uma estante de mogno preto, a alcova de Lúcia.

Ah, meu deus, meu sátiro, a alcova de Lúcia.

Um colchão, estranhamente de solteiro, ou de solteira, com um edredom axadrezado, em diferentes tonalidades de azul, bem esticado por cima. Ao lado da cama, ainda à vista, sobre os tacos do piso (que pediam, decerto há alguns anos, uma enceradeira de três escovas, por favor), arrumados com elegante displicência lá estavam um lápis e dois ou três cadernos de palavras cruzadas, em convivência pacífica com um romance de M. Delly e um livro de poemas de J. G. de Araújo Jorge.

Enquanto ela me oferecia o café que acabara de fazer, sentia muito mas tinha posto quatro colheres de açúcar e não duas, por força do hábito, não faz mal eu dizia, e já o sentia um pouco doce demais para o meu gosto, finalmente a olhava.

Olhava-a para sentir o ingênuo perfume, de sabonete recente misturado com café quente, que emanava de toda a sua pessoa. Mexendo devagar a pequena colher na xícara, a sala se tornava pouco a pouco mais doce ainda, e eu olhava primeiro para os seus pés calçados em mimosas sandálias amarelas, contrastando com o esmalte vermelho, o mesmo nas unhas dos pés e das mãos, aplicados com muito esmero e apuro.

As calças compridas, folgadas, sugeriam a mulher independente, “livre”, que eu viera procurar. Enquanto levava a xícara aos lábios para queimá-los, o café tão quente, levantava os olhos e ia olhando para Lúcia, pedaço por pedaço, de baixo para cima: os pés, a forma das suas pernas, entrevista pelo desenho das calças, a blusa branca e justa sobre os seios…

… os seios próximos de seus olhos, sem soutien, os bicos de auréola larga e escura marcando a fazenda, o café queimando não só os lábios como também a língua e ainda por cima derramando-se no meu colo, sujando as calças, mas que desagradável.

Lúcia pareceu acompanhar, com o não-sorriso que lhe era peculiar, o caminho irregular dos meus olhos, dos seios dela mesma às minhas pernas queimadas. Não disse nada nem ofereceu alguma toalhinha para limpar o meu terno manchado. Sentou-se na cadeira à frente, esquecendo seu próprio café na estante, enquanto, decerto inconscientemente, tomava da mesinha ao lado, usada à guisa de escrivaninha, uma prancheta vazia, sem folhas, para cobrir o peito.

Foi quando julguei ver, na prancheta, por umas manchas antigas na madeira fina, aquele mesmo objeto que pegara do chão para a bela menina que me olhara, da porta do lotação lotado, com olhos súplices.

Fiquei confuso. Os episódios se misturavam. Capítulos começavam a se misturar. E o café ainda queimava a minha perna. Reconhecia, ao mesmo tempo, a prancheta que povoava os meus sonhos e o rubor envergonhado nas faces de Lúcia, frente ao despudorado trajeto do meu olhar há pouco. Não sabia se devia pedir desculpas primeiro e me referir com alegre sutileza à prancheta depois, ou ficar alegre primeiro e constrangido depois. Que vergonha.

Mas a vergonha, como o pudor, ao menos me emprestava uma força mística que me permitiu tomar alguma decisão, naquele momento. Na verdade, quando a vi enrubescer – não, eu não podia vê-la enrubescer. Esquecera-me de apontar para a circunstância casual de que Lúcia era morena.

Morena escura. Talvez disséssemos melhor, mulata.

Bem: negra.

Gentlemen prefer blondies, mas: Lúcia era uma mulher bonita – e negra.

Nigra sed pulchra, diriam os antigos. Talvez, naquela época, eu dissesse o mesmo – talvez eu diga o mesmo, agora, no momento em que conto essa história: Lúcia era uma mulher negra, mas tão bonita…

Talvez sejamos todos sempre tão antigos.

Ela usava cabelos igualmente negros e longos, longamente alisados por anos a fio, ou pelo fio dos anos e de bisnagas de alisaton, emoldurando a cútis suave que tanto me impressionava. Por isso, também, os bicos dos seus seios se destacavam tanto na blusa branca, furando os meus olhos e queimando a minha língua, já de per si queimada pelo cafezinho.

Havia, no ar daquele pequeno apartamento, alguma coisa muito errada. Sem me levantar do sofá, sem me debruçar na janela – se o fizesse também não se justificaria, tratava-se apenas de um quinto andar –, experimentava uma vertigem. Uma forte vertigem. Quiçá, a mais forte vertigem da minha vida.

Misturavam-se os bicos dos seus seios, o meu profundo constrangimento com a minha própria indelicadeza, com os meus próprios olhares indiscretos e insistentes, a beleza de Lúcia, a cor da sua pele, com a certeza absoluta – a certeza quase absoluta – de que a menina linda, com que eu esbarrara no ponto do lotação anos atrás, era loura!

 

Posso agora voltar ao quadro de Di Cavalcanti.

Os estranhos homens muito bem vestidos que estudam, avaliam e julgam aquela mulher nua são como José de Alencar, tentando definir seus  convenientes “perfis de mulher”. Com suas roupas escuras e calvas maquiavélicas, escondem-se um atrás do outro, ofuscados pela luminosidade tranqüila do corpo da mulher.

Somos nós outros Di, José (de Alencar) e Paulo. Mas quem é Lúcia? Quem é Maria? Quem é você, afinal? Não sei. Eu, não sei. Ainda bem que não sei.