DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

ENGANOS QUE DESENGANAM

Gustavo Bernardo

 

 

Carlos Nascimento Silva. Desengano.
Rio de Janeiro: Agir, 2006. 207 páginas.

  

Publicado originalmente na revista
 Entrelivros nº 11, de março de 2006

 

 

Os romances de Carlos Nascimento Silva, à primeira leitura, caminham na contramão da literatura contemporânea. Evitam a retórica metalingüística, no Brasil iniciada por Machado de Assis, e procuram apenas contar uma história. Não cabe aqui, no espaço da resenha do seu último romance, discutir sua opção estética e defender os poderes filosóficos da metalinguagem. Cabe apenas mostrar como a opção de Carlos funciona, ao realizar à perfeição os objetivos de toda ficção: encantar, entreter, enredar, perturbar e deslocar.

De maneira esquemática, eu diria que A Casa da Palma (1995) encanta e entretém, Cabra-cega (1998) entretém e enreda, Vale da Soledade: a natureza do mal (2003) enreda e perturba, e que o último romance, Desengano (2006), perturba e desloca. Como os objetivos listados supõem uma gradação ascendente, parece-me que Desengano é o melhor romance da série, rivalizando com a grandiosidade impressionante d’A Casa da Palma.

Os 4 romances contam suas histórias a partir de uma pesquisa histórica cuidadosa que não se esconde detrás do enredo mas, ao contrário, se entrelaça com a trama e com os personagens. Sob a aparência de uma literatura “conservadora” que abdica das soluções metalingüísticas, Carlos transgride a distinção aristotélica pela qual o historiador conta o que aconteceu, enquanto o poeta conta o que poderia ter acontecido. Os seus romances contam o que poderia ter acontecido no ato mesmo de contarem o que aconteceu, tornando intensamente presentes a história e a História.

O título desse romance é um achado: “desengano” quer dizer “não-engano”, o que seria positivo se não fosse o contrário. Ser-ou-viver-desenganado é sempre visto como negativo, subentendendo que ser-ou-viver-enganado é que representaria a felicidade. No entanto, não cabe à ficção reforçar o engodo mas sim, através do próprio engodo, desfazê-lo e, então, deslocar o leitor do seu lugar confortável. Nesse caso, quais são os enganos do romance?

O primeiro engano se chama Brasil. A história se passa no meio do século XX, de 1945 a 1965. Reforçam-se as ilusões da nação que finalmente começava a acordar do seu berço esplêndido, a partir do futebol e de Brasília, para tudo se desmanchar no golpe militar. A partir de duas famílias cariocas vizinhas, mostram-se e discutem-se as conseqüências econômicas e políticas, num país periférico como o Brasil, do final da Segunda Guerra e da vigência da Guerra Fria. À época do golpe militar, os dois amigos de infância, já adultos, concordam com o tamanho do horror: “aquilo tinha sido a pior coisa que podia ter acontecido a seus filhos e netos, já que era um fato para longos tempos, talvez uma ou duas gerações, em seus desdobramentos... talvez mais” (p. 176).

O segundo engano se chama Família. A família-base desta história é a de Júlia, viúva que trabalha para sustentar os filhos, Paulo e Ana. Eles têm 13 e 11 anos, mas o maior amigo de ambos é um rapaz de 17, Alberto, pelo qual a viúva se apaixona ou, no dizer da época, que ela desencaminha. Eles chegam a se casar mas contra a vontade da família do rapaz, que o considera manipulado por mulher tão mais velha. A narração descreve Alberto de fato como gentil e doce, mas as ações do moço o revelam como muito mais manipulador do que a viúva. Ao mesmo tempo que se casa com Júlia, por exemplo, ele mantém relações para lá de íntimas com Ana, e desde que ela tem 11 anos de idade.

Sete anos mais tarde, Ana joga na cara da mãe que o seu marido o é de ambas, provocando em Júlia um enfarte fulminante. Todos choram muito, mas em poucos meses Alberto e Ana se casam, passando a viver uma vida normal de marido e mulher, isto é: uma vida profundamente infeliz, a ponto de Ana se perguntar: “mas, por que motivo a doçura, a bondade, a amizade não estavam presentes nele quando se amavam? Por que era brusco, às vezes até bruto? Ele, sempre tão atencioso, delicado, em qualquer outro momento! Mas quando faziam amor... só o dia da morte da mãe fora uma exceção” (p. 153).

O terceiro engano é a própria Ficção. O resumo acima lembra um enredo de Nelson Rodrigues, que despontava como o maior dramaturgo brasileiro justamente naqueles anos. O romance de Carlos explicita essa relação, comentando as peças de Nelson e as relacionando a diversas teorias sobre o sadomasoquismo. Todavia, não se trata ainda de metalinguagem: Nelson Rodrigues é um “personagem” importante para os personagens de Desengano, que parecem e não parecem entidades das suas tragédias cariocas. Parecem, pela perversidade e pelo sexo à flor da pele. Não parecem, porque o narrador é tudo menos um narrador rodriguiano. Enquanto os textos de Nelson se caracterizavam por uma ironia desbragada e inverossímil, fazendo uma espécie de distanciamento brechtiano “pelo popular”, o romance de Carlos se caracteriza por uma verossimilhança fina que não comporta qualquer ironia. Em outras palavras, Carlos leva seus personagens a sério, deixando os leitores com dificuldade até para fazer uma resenha.

Júlia e Alberto, Ana e Paulo (cuja importância para os amores de todos se revela somente na última página), todos os quatro não são tipos nem teses, se impondo antes como nossos “primos do subúrbio” – o que os torna especialmente perigosos. Não podemos julgá-los. Não podemos entendê-los. Precisamos reler o livro. Precisamos reler-nos.