DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

O FILÓSOFO RIOBALDO TATARANA

Gustavo Bernardo

 

Publicado no Jornal do Brasil, Idéias,
em 18/02/2006. 

 

 

O cigarro de fumaça impalpável e brasa colorida

que se fuma a si mesmo num cinzeiro

será um poeta?…

 

O poema acima, de João Guimarães Rosa, se chama “Definição”. Encontra-se no seu único livro de poemas, Magma, de 1936 (mas publicado apenas post mortem, em 1997). Os versos definem de maneira irônica o poeta, a poesia e o próprio ato de definir.

A ironia sobre o poeta reside em defini-lo como a coisa-cigarro que fuma a si mesma no cinzeiro. O poeta confunde-se com a poesia que faz, ironicamente definida por uma ação gratuita que se encontra no limite entre o prazer e o vício. A ironia sobre o ato de definir, por sua vez, reside em defini-lo através de uma pergunta: trata-se de uma definição que duvida do que define. Esse movimento autocontraditório constitui a filosofia que a poesia assume quando faz a pergunta crucial: o que é perguntar.

No épico roseano, Grande sertão: veredas, o narrador e protagonista, Riobaldo, conta sua desdita para alguém que não aparece nunca, a saber: o leitor. Toda a obra é atravessada pela contradição e pela pergunta. O nome do protagonista envolve já a contradição: “baldo”, a parede que barra as águas de um açude como se fosse um balde, se contrapõe ao “rio” heraclítico que escorre na paisagem, rompe todas as barreiras e impede toda definição. A pergunta, por seu turno, volta-se sobre si mesma para, como a cobra urobórica que devora a si mesma pelo próprio rabo, engolir o próprio ponto de interrogação. Duvidando sem parar, Riobaldo se assume como filósofo: “e me inventei neste gosto, de especular idéias”.

“Eu quase que nada não sei”, confessa Riobaldo, ecoando Sócrates (só sei que nada sei), Francisco Sánchez (que de nada se sabe) e Michel de Montaigne (que sei eu?). “Mas desconfio de muita coisa”, prossegue, definindo tanto fazer filosofia quanto literatura. A ficção, antes de mais, desconfia daquilo que nos contam como sendo a realidade. Desconfia, portanto, da História.

O filósofo Vilém Flusser sugeriu que Guimarães Rosa insistisse em dizer “estória”, como em Primeiras estórias, e não “história”, por deliberada oposição ao historicismo. O universo roseano quebra a linearidade histórica ao romper com a linearidade do discurso. Nesse sentido, também quebra os paradigmas nacionalistas, embora isso seja mal percebido pelos críticos-professores, ansiosos por enfiar “nossos” autores em gavetas verde-amarelas. A dimensão da brasilidade do romance seria a menos importante entre todas, mas tende a ser percebida como o fulcro da mensagem do escritor, o que gera duas conseqüências desastrosas.

Primeiro, a qualidade universal da obra é encoberta, quer pela dificuldade de traduzir Guimarães Rosa para outras línguas, quer pela sua transformação caricatural em autor regional. Segundo, a tendência desenvolvimentista no Brasil encontra-se na contramão da obra de Guimarães Rosa, empurrando-o para a condição de um autor do passado. Essa condição facilita seu enquadramento na história da literatura e nos livros didáticos. Reproduzindo os equívocos da canonização de Machado de Assis, Rosa também passa a fazer parte do sistema exemplar quando se trata, ao contrário, de obra subversiva da moral, da língua e do pensamento.

A canonização didatizante de Rosa tem denegado a forte ironia do pacto de Riobaldo com o diabo. No final chega-se à conclusão incerta de que o pacto não teria acontecido porque o diabo nem existiria. O romance se constitui, portanto, não na narrativa de façanhas ou de um drama cósmico, mas sim na narrativa de um não-acontecimento. Riobaldo é o narrador e o protagonista que o leitor acompanha com muita simpatia, mas é também o estuprador e o assassino que não se arrepende das suas ações.

A ocultação pedagógica da ironia do Grande sertão se reforçou na adaptação televisiva dirigida por Walter Avancini. O papel de Riobaldo foi dado ao galã Tony Ramos, ícone do bom-mocismo, enquanto o do jagunço Reinaldo, chamado de Diadorim por Riobaldo, na verdade a moça Maria Deodorina, se entregava à modelo Bruna Lombardi, desobedecendo ao pedido do autor no posfácio do livro: que não se contasse o final para não privar os demais leitores do prazer da descoberta. Ora, Bruna Lombardi no papel de Diadorim já contava, desde a primeira cena, o final da “estória”. Era como se o público precisasse saber do fim já no começo, para não se angustiar e suportar melhor a tensão homossexual entre os jagunços Riobaldo e Diadorim – como se o público, enfim, não agüentasse nem literatura nem paixão. Assim se esquece a bela declaração de Riobaldo: “Diadorim é a minha neblina”. Assim se tenta desfazer a neblina que, todavia, não deve ser desfeita.

A postura conservadora do diplomata João Guimarães Rosa ajudou a encobrir a ironia do escritor de mesmo nome. Em carta para Curt-Meyer Clason, seu tradutor alemão, Rosa afirma que a língua, para ele, “é instrumento: fino, hábil, agudo, abarcável, penetrável, sempre perfectível. Mas sempre a serviço do homem e de Deus, do homem de Deus, da Transcendência.” Seu grande romance, no entanto, fala de um belo pacto com o Diabo – na verdade, o disfarce vermelho da língua que falamos. Como lembra Antonio Cândido, a manifestação concreta do Diabo não é necessária para demonstrar a existência do “Cujo”, mais princípio do que ente.

Em vários depoimentos, o escritor se mostrou um filósofo da linguagem, como ao dizer que “o idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas”, ou que “somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo”. O Diabo tem rabo como a própria palavra: “dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”. O Diabo também é o outro nome da obscuridade necessária, do enigma que precisa permanecer enigma. Em carta de 1965, Rosa defendeu que a tradução de Corpo de baile devesse manter passagens obscuras: “antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade. Precisamos também do obscuro”.

Em carta para o filósofo Vicente Ferreira da Silva, datada de 1958, Guimarães Rosa lhe pede para ler o Grande sertão menos como literatura, antes como “sumário de idéias e crenças do autor, com buritis e capim devidamente semi-camufladas” – ou seja, como filosofia. A fé de Rosa se ligava à sua consciência de criar língua. Entrevistado por Günter Lorenz, compara-se com o cientista e se dispõe a corrigir nada menos do que Deus: “nós temos – o cientista e eu – de pegar no colo Deus e o infinito e pedir-lhes contas e se for preciso também corrigi-los, se nós quisermos ajudar ao homem. Seu método é meu método. O bem-estar do homem depende da invenção do soro contra a varíola e mordida de cobra, mas depende também de que ele dê de volta à palavra seu sentido original. Assim, ele repete o processo de criação. Dizem-me que isso é blasfêmico, mas eu afirmo o contrário, certamente”. O homem religioso mostra-se, na literatura, herético.

O escritor ironizou sua própria ambivalência. Quando Lorenz lhe perguntou o que achava de ser conhecido como revolucionário da língua, Rosa disse preferir que o chamassem mesmo de reacionário, pois sua vontade era a de voltar a cada dia à origem da língua, ali onde a palavra ainda se encontraria abrigada “nas entranhas da alma, para dar-lhe a luz segundo a sua imagem”. Escrever, para ele, era o único meio de realizar a essência, isto é, “a língua calada dentro da gente”.

O tcheco Vilém Flusser criticava o uso luxurioso do sinônimo por parte do homem brasileiro. Este uso formaria uma “flora tropical de cipós e parasitas lingüísticos que sufocam as flores plebéias das palavras e das formas honestas”. Guimarães Rosa, entretanto, teria conseguido torcer a tendência da cultura ao abolir o sinônimo, ou seja, ao dar significado único a cada expressão. Ele “desvenda as fontes da língua portuguesa e nos força a encarar o nada do qual ela brota”. Não é por outra razão que o seu romance começa pelo significante puro: “nonada” – não há nada.

É essa coragem de encarar o nada, típica da filosofia, que autoriza Riobaldo a dizer que a “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza” e que, tanto quanto o Diabo, “Deus existe mesmo quando não há”. Riobaldo fala como outro filósofo, Miran Bozovic, que afirmava: “amamos Deus precisamente porque Ele não existe”. Se amamos o que nos falta e não há, antes de mais nos faltam certezas e respostas. Deus é a Resposta, ou seja: tudo o que não sabemos. Ou ainda e melhor, na fórmula delicada e precisa de uma escritora brasileira, Adriana Lisboa: “o amor é uma dúvida, como Deus”.

A filosofia e a ficção de João Guimarães Rosa fazem a pergunta crucial: o que é perguntar.