DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

DA REALIDADE NÃO-TODA
AO LIVRO-QUASE

Gustavo Bernardo

 

 

David Toscana. O último leitor.
Tradução de Ana Pelegrino e Magali Pedro.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

 Publicado no jornal O GLOBO, Suplemento
Prosa & Verso, em 11/
02/2006.

 

Lucio mora em Icamole, uma vila no meio do deserto. Agentes do governo o nomeiam bibliotecário e mandam livros para a sua casa. Pagam-lhe um salário e o obrigam a fazer um curso para catalogar os livros e redigir relatórios. Nos relatórios ele conta que ninguém da vila lê os livros. Param de lhe pagar e mandam fechar a biblioteca, mas ele não obedece, porque afinal a biblioteca é a casa dele.

Já se revoltara com o curso, que separava os livros entre os de ficção e os de não-ficção. “Onde ficava a fronteira entre uma coisa e outra?”, pergunta. Então, ao invés de catalogar os livros, Lucio os lê e os julga, separando os bons dos maus. Os bons ele põe numa estante especial, enquanto os maus – os que não conseguem descrever a morte e recorrem a adjetivos para inchar a narrativa – são jogados no porão para alimentar baratas. Lucio não poupa nem mesmo o romance Santa María del Circo, de David Toscana – também autor do livro do qual ele é protagonista.

Qualquer semelhança com a cena da biblioteca em Dom Quixote, quando até mesmo um livro de Cervantes, Galatea, é criticado, não é mera coincidência. David Toscana explicita o esgarçamento das fronteiras entre realidade e ficção inspirado no cavaleiro da triste figura, mas intensificando a tristeza. O tom de O último leitor é menos de comédia cética do que de niilismo cínico, que alguns chamam de “niilismo mágico” para constrastar com o “realismo mágico” com que se identificava o romance latino-americano há tempos.

À medida em que, de dentro de um livro, Lucio julga e condena os livros, a polícia investiga, no seu usual jeito grosseiro, o desaparecimento de uma bela menina. O leitor sabe desde a primeira página que a menina está morta e foi jogada no poço do filho de Lucio, Remigio, mas não sabe quem a matou ou por quê. Remigio, com medo de o acusarem, pede ajuda ao pai para enterrarem o corpo entre as raízes do abacateiro. Lucio o ajuda e relaciona o acontecimento com um dos romances que leu, como se a personagem tivesse vindo parar no poço do filho.

Há toda uma tensão sexual que perpassa o livro, alimentada pelo medo da morte e o alimentando. O conflito entre o desejo e a morte acaba sendo uma outra face do conflito entre a realidade e a ficção. Em entrevista recente, o escritor disse que, “no fim, sempre ganha a morte; somos apenas para deixar de ser”. É essa vitória da indesejada que precisa ser negada todo o tempo, através do luto ou da ficção. Na verdade a ficção é ao mesmo tempo a morte do real e o luto da morte, se nega a ambos. Os personagens sobrevivem a autores e leitores, revivendo a cada leitura. Como diria  com amargura suave um dos parentes do cínico Lucio, o Dom Casmurro de Machado de Assis: “um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça”.

A distinção entre ficção e realidade não pode ser efetuada porque a realidade é continuamente produzida. Sem a ficção não há o que chamamos de real, uma vez que são diferentes ficções que dão forma ao real. Segundo Fernando Pessoa, “a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”. Segundo Wallace Stevens, “reality is a cliché from which we escape by metaphor” a realidade é um clichê do qual escapamos pela metáfora. Ainda quando a literatura tenta copiar o mundo, ao repeti-lo o altera, reformulando a realidade. É disso que fala o bibliotecário da vila de Icamole, da maneira mais negativa que pode. Assim como as respostas do espelho são negativas porque ele inverte as perguntas que recebe, o homem também nega ao refletir, se pensa para poder negar. O ser humano é o espelho do mundo ao lhe atribuir sentido, mas o nega ao não aceitar o que vê. No dizer de Dostoiévski, somos humanos e livres apenas enquanto é possível dizer “não” à realidade.

O que não quer dizer que toda negação seja libertadora. A metáfora pode se transformar em catacrese, isto é, numa metáfora morta, como a dos pés da mesa em que escrevemos. A vila de Icamole atualiza a metáfora do deserto, representando a infertilidade do ambiente e das pessoas que não lêem nem escrevem. Em passado remoto, este lugar que não chove esteve coberto pelo mar, como mostram os pequenos fósseis nas pedras. Mesmo no seu presente seco, as pessoas trocam de ficção como quem troca de camisa, assim que muda a circunstância: “mais cedo ou mais tarde vai chover, diz Lucio, porque chega a temporada, porque a umidade e os ventos e a pressão do ar, porque finalmente virão nuvens tão carregadas que conseguirão transpor a serra del Fraile sem despejar tudo em Villa de García. E o povo desatará a dar graças a Deus em vez de criticá-lo por tantos meses de esquecimento”.

A vida não basta, a realidade não se sabe. A morte da menina que não se sabe como e por que morreu condensa a própria morte como o enigma maior. A ficção que não fala direito desse enigma não cumpre o seu papel. Ora, se a realidade se precisa reconhecer não-toda, um livro não pode pretender esgotá-la e não pode ser catalogado como de ficção ou de não-ficção. Logo, um bom livro, para o bibliotecário de Icamole, deve ser um quase-livro, remetendo-nos sempre a outros livros para melhor enganar a morte. É disso que fala O último leitor.