Páginas de Ceticismo
TRANSBORDAMENTOS E TRAVESSIAS:
a “umidade” da escritura
Rafael Haddock-Lobo [*]
E, eu, rio abaixo, rio afora, rio adentro – o rio.
Guimarães Rosa
Dívidas e dons:
Este texto foi primeiramente apresentado, em estado de crisálida e em formato mais solto, no Café Pensamento em 20 de Abril de 2004, a convite de Geórgia Amitrano e Gabriel Mograbi. Apesar de, naquele momento, a fala Mergulho no mar: uma “aprendizagem” do cotidiano ser dedicada tão-somente a Clarice Lispector, eu devo agradecer aos dois organizadores do evento o convite e o desafio proposto por abordar um tema por demais líquido. Posteriormente, cortes, acréscimos e especulações foram apresentados na Semana dos Alunos de Pós-graduação em Filosofia da PUC-Rio em um formato de colagem, tentando juntar à liquidez de Clarice as veredas de Guimarães. De algum modo, aqueles que o conhecem como escritor, professor, amigo etc., poderão ouvir distintamente os ecos da voz de Gustavo Bernardo ao longo de quase todas as citações de meu texto, provavelmente com a exceção das aproximações desconstrutivas... E a dívida a Charles Feitosa também deve ser por direito registrada – sobretudo por estar ao meu lado no primeiro momento do nascimento deste texto. Mas agora, em uma versão ainda não acabada, pois nunca poderá ser, sinto-me no dever de assumir que se há aqui algumas palavras mais inspiradas, estas impressões se devem, em grande parte, às inúmeras interlocuções com minha amiga e companheira de tantas travessias Tatiana Grenha – e é a ela que inevitavelmente dedico essas oblíquas linhas.
*
Em Gramatologia, quando Derrida apresenta uma de suas principais noções, senão a mais importante – escritura -, no momento em que aponta para o transbordamento que “sobrevém no momento em que a extensão do conceito de linguagem apaga todos os seus limites”[1], vemos a menção a uma espécie de “metaforicidade mesma”[2]. Segundo Derrida (em cujo texto ouvimos os ecos das considerações sobre a verdade e a mentira de Nietzsche), “é claro que esta metáfora permanece enigmática e remete a um sentido ‘próprio’ da escritura como primeira metáfora”[3]. Estas aspas frisam a escritura como a própria metaforicidade, e não como uma metáfora original de que se originariam todas as outras. Seria, assim, tão-somente uma referencialidade aberta, uma não-origem. Logo em seguida, ao citar Rabi Eliezer, lemos:
Se todos os mares fossem de tinta, todos os lagos plantados de calamos, se o céu e a terra fossem pergaminhos e se todos os humanos exercessem a arte de escrever - eles não esgotariam a Torá que aprendi, enquanto isso não diminuiria a própria Torá de mais do que leva a ponta de um pincel mergulhado no mar. [4]
De modo semelhante, Johanan ben Zakai, antes, já teria dito: “toda sabedoria que adquiri nada mais é do que a água que um cão pode lamber do mar”[5]. Referencialidade infinita. Ausência de origem. Inesgotabilidade da escritura. O mar como metaforicidade mesma. É disto que trataremos.
Em seu Zaratustra, Nietzsche nos aponta que, na verdade, “um rio imundo é o homem” e que realmente “é preciso ser um mar para absorver, sem sujar-se, um rio imundo”. Assim nos é ensinado o super-homem: ele é o mar onde pode submergir o nosso grande desprezo. Esta seria “a hora do grande desprezo”[6]: a hora em que nossa felicidade se converteria em náusea, bem como nossa razão e nossa virtude. O mar que gera náusea. Tema antigo, mas tratado recentemente no artigo “O mal do mar em Nietzsche”, de Charles Feitosa. No decorrer de sua pesquisa sobre a “estética do feio”, Feitosa acabou por se interessar pela náusea. Ele diz que
a náusea é uma das afecções humanas mais violentas. Em geral ela é desencadeada por uma situação excepcional, na qual somos como que forçados a ter contato com algo que percebemos como radicalmente insuportável. Sob este aspecto a náusea parece ser o oposto perfeito de todo desejo, vontade ou apetite, enfim, das situações em que buscamos a proximidade de algo que nos parece atraente. No dicionário o termo é descrito como ‘mal ou doença do mar’: enjôo ou ânsia no mar, causado pelo balanço da embarcação. [7]
E mais adiante: “é a experiência de uma proximidade que não é querida, uma presença que parece se mostrar como violência invasiva”[8].
No entanto, essa proximidade que gera mal-estar, descrita por Feitosa, é uma proximidade sem contato, em que o contato é evitado: só enjoa quem está sobre o mar, acima dele, e de modo algum em contato com a água. E é isso que pretendemos mostrar como um possível revés da náusea, ou da angústia, do desespero, da melancolia etc. Não nos situando na margem de Bachelard que, em seu “Nietzsche e o psiquismo ascencional”, indica Zaratustra como um personagem aéreo e, por conseguinte, anti-aquático[9], nós apostamos, como já foi dito, na água como metaforicidade mesma - como escritura. E, como em uma “terceira margem”, não na tentativa de ir contra a hipótese de Feitosa (da repulsão pela diferença), mas também não nos situando a seu lado, tentamos indicar uma outra direção: o movimento para dentro / para fora do mar representado pelo mergulho, tal como na passagem de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector que teremos como mote para nossas digressões[10].
A grande dificuldade que encontramos, ao tentar abordar um tema tão fugidio como alguns apresentados pela literatura e por certas tendências filosóficas contemporâneas – aqui tomados por metonímia pela “escrita líquida” de Clarice - consiste justamente na dificuldade de apreendê-lo, de compreendê-lo, de abraçar e abarcar estes instantes que, talvez, só a escrita poética realmente dê conta. Entretanto, cabe-nos, aqui, este esforço hercúleo de agarrar este momento que escapa, de tentar - ainda que assumindo, desde o início, que nossa tarefa será sempre mal-sucedida – dar conta deste mergulho[11].
Neste sentido, tomemos ainda mais algumas provocações, pois isto é o que conseguiremos fazer. Nosso esforço consistirá em tentar agarrar estes momentos líquidos e apresentá-los como simples provocações. Em Para não esquecer Clarice aforisma:
Eu antes queria ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu. [12]
Nós, mortais racionais, por comodismo ou segurança, acabamos sempre por ceder à racionalidade, à facilidade perigosa do “conhece-te a ti mesmo”, como se isso resolvesse a dor de não se conseguir ser o que se tem que ser. E, ao contrário, assim estamos indo à direção oposta de “sermos nós mesmos”, como quase que denegando a sentença que talvez seja a mais radical da História da Filosofia - o imperativo pindárico “venha a ser o que tu és”. Mas quem pode nos ajudar nesta aprendizagem do não entender? Este é o ponto crucial de Lorelei, protagonista da prazerosa aprendizagem de Clarice. Sobre esse impossível que acontece, lemos:
E era bom. ‘Não entender’ era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras (...). O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez. Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendia era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana [13].
Esse é o jogo fatal. É de vida e de morte e não de vida ou de morte. O jogo do impossível abarca sempre as direções tidas pela razão como opostas. Pois o impossível é também possível. Com isso, não trabalhamos mais em oposições, isto ou aquilo, pois sabemos que, assim, ainda que por oposição, isto sempre se define pelo aquilo e vice-versa. Esse é o ‘X’ da questão que vemos lançado na Água Viva de Clarice:
Tenho que interromper pra dizer que ‘X’ é o que existe dentro de mim. ‘X’ – eu me banho nesse isto. É impronunciável. Tudo que não sei está em ‘X’. A morte? A morte é ‘X’. Mas muita vida também pois a vida é impronunciável. (...) O instante impronunciável. Uma sensibilidade outra que se apercebe de ‘X’. [14]
E não é isso o que Lóri busca em Ulisses – no professor de filosofia, no sábio? Ela busca mestria no viver. E, no entanto, é no silêncio que se dá esta aprendizagem. Lóri, a protagonista, professora primária, recatada, em pleno verão carioca, está seca, sempre com sede, e queixando-se de não saber viver. Mas, antecipa, sabe que saberá. Ela sabe que um dia será de Ulisses, que se entregará a ele, pois sabe que “só no impossível está a realidade”[15]. Lóri aposta no absurdo, pois sabe que o impossível vai acontecer. Lorelei, alemã, romântica, talvez medieval, é sereia no folclore germânico, cantada nos hinos de Heine e nos poemas de Hölderlin. Encantava pescadores, cujos barcos se chocavam com o rochedo sobre o qual ela entoava seu canto e afundavam. Ulisses é mais antigo – e Lóri sabe disso – ele é grego. Antes de conhecer Lóri no verão carioca, em sua “Odisséia”, sua esposa grega, Penélope, o esperou, desde a sua partida, por trinta anos. Penélope apostou no impossível e, quando não mais o esperava, seu marido reapareceu. Ulisses conhecera desde os primórdios de nossa cultura a lição do impossível. Além disso, em seu retorno a Ítaca, Ulisses, em um encontro com uma antepassada de Lorelei, encontra uma sereia e manda todos os tripulantes da embarcação taparem seus ouvidos. Só ele consegue ouvir e resistir ao canto daquela sereia.
Vemos então que Ulisses já conhecera os segredos do anfíbio ser-sereia. Desta figura metade gente, metade peixe, metade carne, metade água que, ao mesmo tempo, representa voluptuosidade e encanto: seios fartos e cabelos escorridos, mas perigo e risco fatal. No mito africano que vemos descrito em Mar morto[16], de Jorge Amado (pois no Brasil Iemanjá é representada também como uma sereia) Iemanjá é mãe de Exu – um orixá das vísceras, do escárnio, da terra, do falo... Exu tenta violentar a mãe, que é salva por seu outro filho, Ogum (Deus guerreiro, metálico e bélico). No entanto, ao tentar prender a mãe em fuga, Exu a segura com força, e seus seios – seios fartos, seios de mãe – arrebentam. Aí, no local desta tentativa de estupro, no local do desejo incestuoso frustrado, do leite derramado nasce o rio Iemanjá, que segundo os Iorubás, seria o rio que alimentaria o mar com suas águas[17]. Talvez seja por isso que Iemanjá, a mãe de todos, a sereia – que representa volúpia e maternidade – viva no mar, pois o mar é sedutor e perigoso: tanto na Grécia antiga como no nordeste brasileiro, o mar, para um pescador, representa vida e morte. Caymmi diz que “é doce morrer no mar”. É digno, é honroso, é uma bênção ser acolhido por essa mãe vaidosa, que é também uma amante exigente.
Aqui parecemos, em nossas especulações fragmentadas, chegar a um ponto. Em “Grande sertão: veredas”, Guimarães Rosa, através de Riobaldo, que também é água, que é rio errante, diz que “viver é muito perigoso”[18]. É neste momento perigoso, de vida e de morte, de alegria e de dor - momento de entrega absoluta, de desprendimento de si mesmo – que Clarice descreve lindamente a passagem em que Lóri é tomada pelo desejo de mergulhar no mar de Ipanema. Lóri, a mulher de útero seco, sente uma imensa vontade de mergulhar no mar – ao amanhecer, em plena solidão. E vai. Ao entrar na água fria, Lóri sente, ao mesmo tempo, o puxar da maré e a resistência das ondas: chamado e atrito, identidade e diferença, medo e volúpia. Sensação estranha, mas, como diz, “sentia-se em casa”. Lóri sabia que seu ser não era pura água, que não estava lá em plena completude. Ela sempre antecipou este momento: antes dissera para Ulisses que “um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus minha extrema individualidade de pessoa, mas seremos um só”[19]. Este “Mergulho” é esta sensação de pertencimento e não-pertencimento. De, como diz Derrida em O monolinguismo do outro, só termos uma língua e ela não nos pertencer[20]. Mas a lição de Lóri nos diz mais, diz que só conseguimos ser quando esquecemos de ser e mergulhamos. Se não estamos preocupados em ser, estamos sendo – e isso é vida, mas uma vida mais viva que a vida com que estamos acostumados, que achamos que é vida, mas que na verdade é uma sub-vida, uma pseudo-vida. Essa vida maior é mais viva que a vida cotidiana porque é vida e também é morte, é ser-si-mesmo ao se perder. É uma experiência que representa dois momentos muito próximos: a morte e o orgasmo. Daí o perigo e a sensualidade do mar, o risco de se ouvir o canto de uma sereia. Sobretudo se formos nós esta sereia que deve cantar.
Somente depois de mergulhar, Lóri sabe que está preparada para ser possuída por Ulisses, não exatamente naquele momento, e nem interessa a ela quando, mas ela percebe-se pronta para “o encontro”. Lóri encontra nela a água de que precisava, porque se precisa de água para todo encontro carnal, para os corpos suados, trocas de líquidos: saliva, lubrificação vaginal, sêmem – coisas que na hora deste “mergulho no mar” não causam náusea nenhuma. Isso é sutilmente, como tudo em Clarice, descrito no livro. Lóri diz, ao beber a água do mar, que sente “o gosto do líquido espesso de um homem viril”[21]. E então, no mergulho, ela se sente pronta para ser ela mesma, e para, assim, se entregar, e para ser o que ela tem de ser nesta entrega. Lóri apostou no impossível, e ele aconteceu. E, por incrível que possa parecer, Ulisses a estava esperando, e casto ainda por cima. Este impossível é o que há, é o vir a ser o que se é, é o real. Em Clarice, esta relação de entrega, de sensualidade e morte, representa o mais alto grau de religiosidade, no sentido mais simples da palavra - religar. Fazemos parte do mundo, sendo um só na separação, e existindo apenas nesse encontro. Ser um na separação, vida e morte, presença e ausência. Rastros. Isso também encontramos na religiosidade truncada do jagunço Riobaldo. O Rio é mar, e vida é travessia. Em muitos hexagramas do I-Ching lemos que “é preciso atravessar o grande rio ou mar”, e essa insistência do oráculo parece indicar a necessidade deste mergulho que é atravessamento. Riobaldo diz:
Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. [22]
E conclui: “Viver nem não é muito perigoso?” Esse caminho oblíquo é o mesmo que lemos em Paixões, de Jacques Derrida[23], essa resultante que nos impede de trilhar um texto paralela ou perpendicularmente. Há a soma do vetor da nossa força com o da força do texto. E assim a escritura vai se fazendo, obliquamente, na travessia, pois, se, como canta Paulinho da Viola, “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, podemos dizer que não sou eu quem escreve, e que quem me escreve é a escritura.
Talvez, para Riobaldo, “por ser de escuro nascimento”[24], por reconhecer sua ausência de origem, seja mais fácil este lançar-se na vida que é travessia, descrita nas veredas do jagunço. Talvez ele saiba e possa nos dizer que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”[25]. Ainda assim, em sua aprendizagem, por vezes era demasiado forte para Riobaldo a visão do transbordamento. Quando conhecera Diadorim, ainda menino, no riacho que levava ao do-Chico, lançou-se em sua primeira travessia. “O vacilo da canoa me dava um aumentante receio”[26], diz, e continua:
Eu não sabia nadar. O remador, um menino também, da laia da gente, foi remando. Bom aquilo não era, tão pouca firmeza. Resolvi ter brio. (...) Eu estava indo a meu esmo. (...) Mas, com pouco, chegávamos ao do-Chico. O senhor surja: é de repentemente, aquela terrível água de largura: imensidade. (...) Eu tinha o medo imediato. E tanta claridade do dia. O arrojo do rio, e só aquele estrape, e o risco extenso d’água, de parte a parte. Alto rio, fechei os olhos. (...) Aí o bambalango das águas, a avançação enorme roda-a-roda – o que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi aquele rio. Aquele, daquele dia. [27]
O medo-pavor do jovem Riobaldo, aqui, pode se aproximar do que Feitosa descreveu como “mal do mar”, pela aversão à proximidade. Mas, sabendo-se que as veredas de Guimarães Rosa são a própria travessia ou uma aprendizagem, nos termos de Clarice, em que não se aprende a não ser a não aprender aprendendo, podemos comparar o mergulho no mar de Lóri com o momento em que Riobaldo encontra a coragem para encarar o Diabo, o coxo, coisa-ruim, etc. Também no vazio, na solidão, quando lhe “requeimava forte sede” e “tinha tanto friúme"[28]. Desceu, “de retorno para a beira dos buritis, aonde o pano d’água. A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. Ali era bebedouro de veados e onças”. Curvou-se e bebeu. Bebeu até enxergar melhor os prazos que principiavam, porque “tudo agora reluzia com clareza” [29]. Nas palavras de Riobaldo, “aquilo molhou minha idéia”, ao contrário do menino da “Terceira margem do rio”, que fugira na hora de assumir o posto fluvial de seu pai, que não conseguiu se entregar à tarefa de ser apenas rastro, à “sina de existir, perto e longe”[30], “no lanço da correnteza enorme do rio” onde “tudo rola o perigoso"[31].
Mas talvez esta coragem não caiba tão somente a Lóri e a Riobaldo. Será que a água original de Tales não teria já esta força? Será que esta origem ilimitada, em que arché e apeíron se unem, não traria consigo a marca da arque-escritura descrita por Derrida em sua gramatologia? E os tantos rios de Heráclito, que “afluem sempre outras águas”[32], onde “entramos e não entramos; somos e não somos”[33] porque “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”[34] ? E seus mares, que se estivam de ponta a ponta? O mar, para Heráclito já não era considerado “água, a mais pura e a mais impura. Para os peixes, potável e vivificante, para os homens, não potável e mortal”[35]? E a aurora nietzscheana, que tanto esperamos?
Porque esta já vem aí, ardente – vem aí o seu amor à terra! (...) Olhai lá, como o sol vem impaciente sobre o mar! Não sentis a sede e o hálito abrasado do seu amor? O mar quer sugar e levar consigo para o alto, bebendo-a, a sua profundidade; e, então, o desejo do mar ergue-se com mil seios. Beijado e sugado quer ser ele pela sede do sol... [36]
Não ouvimos, em todas essas vozes, ecoar a escritura fluida e corajosa, que simplesmente diz: “e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio”[37] ?
* Doutorando em Filosofia pela PUC-Rio e professor do Curso de Especialização em Filosofia Contemporânea da PUC-Rio.
[1] DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1999, pág. 08.
[2] DERRIDA, J. Gramatologia, pág. 18.
[3] DERRIDA, J. Gramatologia, pág. 18. Grifo nosso.
[4] DERRIDA, J. Gramatologia, pág. 19. Grifo nosso.
[5] DERRIDA, J. Gramatologia, pág. 19. A citação se encontra presente na nota dos tradutores (Mirian Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro).
[6] NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, pág. 30.
[7] FEITOSA, C. “O mal do mar”, in: Assim falou Nietzsche IV. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002, pág. 56.
[8] FEITOSA, C. “O mal do mar”, pág. 57.
[9] Sobre isso, ver BACHELARD, G. “Nietzsche e o psiquismo ascencional”, in: O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
[10] LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
[11] “Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais... E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já”. LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, pág. 09.
[12] LISPECTOR, C. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, pág. 23.
[13] LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pág. 43.
[14] LISPECTOR, C. Água viva, pág. 73.
[15] LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pág. 106.
[16] AMADO, J. Mar morto. Rio de Janeiro: Record, 1986.
[17] Sobre isso ver também as diversas referências encontradas no livro Orixás, de Pierre Verger.
[18] Citação que aparece repetidas vezes ao longo da obra. GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
[19] LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pág. 73.
[20] DERRIDA, J. Monolinguisme de l’autre. Paris: Galilée, 1996, pág. 46.
[21] LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pág. 80.
[22] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 26.
[23] DERRIDA, J. Paixões. Campinas: Papirus, 1995.
[24] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 31.
[25] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 52.
[26] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 87.
[27] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, págs. 87, 88 e 89.
[28] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 372.
[29] GUIMARÃES ROSA, J. Grande sertão: veredas, pág. 373.
[30] GUIMARÃES ROSA, J. “Terceira margem do rio”. In: Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nove Fronteira, 2001, pág. 80.
[31] GUIMARÃES ROSA, J. “Terceira margem do rio”, pág. 82.
[32] HERÁCLITO, Os Pensadores Originários. Petrópolis: Vozes, 1993, fragmento 12.
[33] HERÁCLITO, fragmento 49a.
[34] HERÁCLITO, fragmento 91.
[35] HERÁCLITO, fragmento 61.
[36] NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra, pág. 136.
[37] GUIMARÃES ROSA, J. “Terceira margem do rio”, pág. 85.