Miguel de Cervantes
A FÉ NA FICÇÃO
Gustavo Bernardo
Publicado no jornal O GLOBO, Suplemento Prosa & Verso, em 14/01/2006.
Dom Quixote da Mancha, ora comemorando 400 anos, tem sido reduzido a uma de duas identidades: ora um idealista que combate as injustiças, ora um louco que quer a todo custo se tornar um personagem literário. No entanto, Dom Quixote é ambos e outros tantos ao mesmo tempo, porque ele será também herói, palhaço, sábio e santo. Dom Quixote veio para confundir e fazer pensar, se nenhuma das suas facetas dá conta da sua personalidade e verdade.
Lembra-se mais das suas derrotas, como perante os moinhos de vento. No entanto, uma releitura do romance de Miguel de Cervantes reconheceria, nos 40 embates de Dom Quixote, 20 derrotas perfeitamente equilibradas por 20 vitórias. Divisão tão perfeita mostra que o romance elabora um sistema de relativização tanto da vitória quanto da derrota. Consciente de que “o mundo é um carnaval onde tudo se confunde”, o fidalgo transforma derrotas em vitórias, considerando estas tão naturais quanto aquelas.
Dom Quixote provoca o riso, sim, mas como pré-condição do saber: saber o quanto não se sabe; saber que a realidade-toda não é acessível ao humano; saber que a fé é necessária. Fé não bem na divindade, mas sim na sua própria ficção (que pode tomar a forma de uma divindade). Trata-se de uma fé que não delega nem implora, antes se responsabiliza pelo que crê e cria.
O sonho louco de Dom Quixote era o de se tornar um personagem de ficção. O fantástico da história, entretanto, é que ele já era um personagem de ficção; portanto, melhor elogio à invenção humana ainda não houve. Como lembrou Carlos Nougué no lançamento da mais nova edição brasileira do romance, Miguel de Cervantes funda o romance moderno e acaba com ele numa só penada, se nenhum outro chegou tão longe. A história de Dom Quixote contém e realiza todas as possibilidades do romance, inclusive a de inventar-se por dentro.
Na Apresentação desta edição, Francisco Corral, diretor do Instituto Cervantes, lembra que o Quixote joga o leitor no terreno fecundo da dúvida. O romance afasta das certezas dogmáticas e cumpre a nobre função de semeador de dúvidas, como mais tarde, no Brasil, Machado de Assis – que para Carlos Fuentes deveria se chamar “Machado de La Mancha”.
E que trabalho pode suscitar mais dúvidas do que o trabalho de tradução, e tradução deste romance em particular? Por isso, uniram-se para a empreitada o brasileiro Carlos Nougué, prêmio Jabuti de Tradução, e o espanhol José Luis Sánchez, que já verteu para a sua língua vários romancistas brasileiros e estuda a língua espanhola do século 16. É a primeira dupla bilíngüe de tradutores, mas não a primeira dupla que enfrenta Cervantes em língua portuguesa. No século 19, os portugueses e Viscondes de Castilho e Azevedo fizeram a tradução ainda hoje mais editada mesmo no Brasil. A meio do século 20, Almir de Andrade e Milton Amado assinaram a tradução publicada então pela José Olympio. Essa duplas revivem os amigos Dom Quixote e Sancho Pança, discordando para melhor se acordarem.
Nougué e Sánchez enfrentam uma equação de três incógnitas: como escreveria Cervantes o Quixote no português de sua época, mas de modo tal que não perdesse o sabor hispânico de então e fosse compreensível para o leitor de hoje? Para resolvê-la, fazem centenas de escolhas, a começar pelo nome do personagem. “Quijote” corresponde à peça da armadura que cobre a coxa e deveria ser traduzida para “coxote”, mantendo a terminação “ote” que, em espanhol, tem sentido depreciativo. No entanto, os termos “Quixote” e “quixotesco” se tornaram parte intrínseca da língua portuguesa, o que justifica a manutenção do nome consagrado. Mas, contra as traduções anteriores, optaram por “da Mancha” e não “de La Mancha”, se em português se fala da Espanha central como “a Mancha”.
Já na primeira frase do Prólogo há um termo perigoso. O autor diz que o leitor talvez quisesse que o livro fosse “el más hermoso, el más gallardo y más discreto que pudiera imaginarse”. O termo “discreto” tinha à época, além do sentido de “reservado e circunspecto”, o significado de “sensato e inteligente”, recordando a raiz comum com o verbo “discriminar”. Recente tradução de Sérgio Molina, publicada pela editora 34, segue os Viscondes e verte “discreto” por “discreto” mesmo, embora em nota faça a ressalva do duplo sentido. Nougué e Sánchez optam por traduzir “discreto” por “judicioso e agudo”, entendendo que o leitor não tem a obrigação de guardar a história e a memória das palavras.
Também na famosa primeira frase do romance há um impasse a se resolver. Molina traduz “En un lugar de La Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme”, por “Num lugarejo de La Mancha, cujo nome ora me escapa”. Nougué e Sánchez preferiram se manter próximos ao original, traduzindo o passo por “Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me”. Parece-me a melhor escolha. Ainda que no espanhol da época a expressão pudesse significar tanto “não desejo” quanto “não consigo lembrar-me”, a primeira opção deixa clara a construção intencional de dúvidas e ambigüidades.
Há um outro momento-chave no romance. Intercala-se no meio do romance, enquanto dorme Dom Quixote, a conhecida novela do curioso impertinente. Uma das personagens, Camila, ao ouvir um poema de amor, pergunta: “¿todo aquello que los poetas enamorados dicen es verdad?”. O outro personagem, Lotário, responde de maneira enigmática: “en cuanto poetas, no la dicen; mas en cuanto enamorados, siempre quedan tan cortos, como verdaderos”. O termo “cortos” pode significar “concisos” ou “limitados”. Os Viscondes preferem a última acepção e eliminam a noção de verdade: “como poetas não a dizem, mas como namorados nunca a chegam a dizer inteira”. Molina opta por uma bela solução metafórica, mas também recalca a noção de verdade: “enquanto poetas, não a dizem, mas enquanto enamorados, sempre lhes fica alguma no tinteiro”. Nougué e Sánchez permanecem próximos ao original, ao explicitar a noção paradoxal do silêncio que diz a verdade: “enquanto poetas, não a dizem; mas enquanto enamorados, sempre ficam tão sem palavras como são verdadeiros”.
Os poetas não dizem a verdade porque ela lhes vem a posteriori, pela própria poesia. A verdade não se encontra em nenhum lugar, esperando ser recolhida, porque é não mais do que um efeito do discurso. Os enamorados não dizem a verdade toda, justamente para que o amor não perca sua condição constitutiva de enigma. A tradução deste trecho é importante, porque resume a poética de Cervantes. A verdade poética é da ordem daquela fé que não delega nem implora, antes se responsabiliza pelo que crê e cria.