DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

UM POUCO ALÉM DO PALIMPSESTO

Giselle Maria

 

Sempre tive um certo receio de Machado de Assis. Sempre me pareceu difícil compreender  a obra daquele que, para a maioria esmagadora dos conhecedores de sua obra - e dos não conhecedores também, que vivem de proclamar o gênio machadiano mesmo sem ter lido sequer um conto do autor, e entre eles se encontram muitos “intelectuais” brasileiros, destes que pululam nas entrevistas de televisão e enchem páginas de revistas - é o maior escritor que o país (se é que podemos dizer assim) produziu. Por duas vezes iniciei a leitura de Dom Casmurro. Apenas iniciei, pois não saí do primeiro capítulo. O motivo: achei-o, com o perdão da palavra, chato; e tenho o grave defeito, e põe grave nisso considerando que sou aluna de Letras; pois sim, tenho o grave defeito de não conseguir ler aquilo que acho chato. O artigo “O Palimpsesto de Itaguaí”, de Luiz Costa Lima, graças a Deus, não é um texto chato. E por isso mesmo o li. E graças a ele pude compreender o porquê de algo que já estava começando a me preocupar seriamente: afinal de contas, por que diabos eu não gosto de Machado de Assis?

O texto de Costa Lima classifica a obra de Machado como um palimpsesto, ou seja, um texto “primeiro” que tem encobertas suas características por um texto “segundo”, escrito por sobre ele. Seguindo essa linha de pensamento,  Costa Lima afirma que o texto “segundo”, o aparente, é construído por Machado de maneira elegante e culta, e polida, enquanto é no texto “primeiro” que o autor deixa o verdadeiro valor de sua obra, na crítica velada a todas as “verdades” absolutas, seja ela, no caso de “O Alienista”, em que o crítico baseia seu trabalho, a “verdade” da ciência, a “verdade” da política, ou a “verdade” da religião. Costa Lima assegura que para esta leitura do texto “primeiro” é necessário uma leitura atenta, mais que um simples passar de olhos; é necessário uma leitura comprometida, quase um pacto de troca de confidências entre os leitores e o enigmático autor.

Ah, agora sim. Agora sim compreendi a minha enorme dificuldade com Machado. Em todas as tentativas que fiz em iniciar-me - e digo isto com certa voluptuosidade no olhar -, enfim, nas tentativas de iniciar-me na leitura machadiana, provavelmente só me mantive presa ao texto “segundo”, e por isso não alcancei sua genialidade. De posse dessa “certeza” imputada em mim por Costa Lima, voltei-me à leitura de Machado. Primeiro os contos, para não correr o risco de sofrer uma indigestão literária pelo empolgado excesso de leitura machadiana: “Um dia de canário” ( ou “Histórias de Canário”, agora fugiu-me o nome preciso). Hum . . . Em seguida, “O Alienista”. “A Igreja do Diabo”.  Pois sim, agora sou uma leitora “preparada”. Então, vamos lá: “A Cartomante”.

Um salto para os romances. Não, nenhum salto. Cesso a leitura de Machado nos contos, com um misto de deslumbramento e angústia. O deslumbramento indica que apreciei a leitura, ou em termos mais populares, e ao meu ver, por isso mesmo mais esclarecedores, gostei “pra caramba”. E a angústia, por que surgiu? Surgiu ao perceber que a coisa não era tão simples quanto Costa Lima previa.

Machado de Assis é uma leitura fechada, e é exatamente nisto que consiste sua genialidade. É tão fechada que parece fácil de abrir. Explico-me. Quando se lê  “O Alienista”, a impressão que se tem é que é uma obra magnífica porque comporta, ou melhor, possibilita inúmeras interpretações. Pode ser uma crítica ao cientificisnmo, ao discurso da retórica, ao sentimentalismo do romantismo, à religião, à ordem social vigente; pode ser um tratado sobre a loucura... Mas é exatamente o contrário: a obra é magnífica porque se fecha em si mesma e pior (ou melhor), só dá a chave ao próprio Machado. Não tenho aqui a pretensão de contrariar um dos maiores críticos de Machado. Não tenho o menor gabarito e nem experiência com Machado para isso. Acredito sim que todos estes fatores acima estão presentes em “O Alienista”. Mas nenhum deles me parece ser o foco central do conto. Nesse momento, outro questionamento me incomoda: teria o conto um foco central? O que parece é que o autor brinca o tempo todo não com os leitores apenas, mas principalmente com seus críticos. Pois são os críticos, e os presunçosos alunos de Letras, os que tentam “interpretar” Machado à sua moda. Mas alguém me perguntaria: do que então, “sábia aluna”, trata a obra “O Alienista”? A “sábia aluna” reconhece sua inaptidão para tal resposta. Mas, arrogante que sou, arrisco: trata da burrice humana em lidar com aquilo que deseja verdade. Se se deseja que a ciência seja verdade, o homem a tem como verdade; se se deseja que a política seja verdade - e aí é burrice mesmo - o homem a tem como verdade ( isso certamente valeria uma internação na Casa Verde).

Começo a me dar conta que esta interpretação é quase uma paráfrase de Costa Lima. Bom, avisei que não era apta para interpretar Machado. Aliás, não estou apta nem para ler Machado. E nisso, sinceramente, não acredito estar sozinha. Quando digo que não estou apta para ler o autor carioca, refiro-me a lê-lo como se eu fosse um projeto inacabado de crítica, e não como simples leitora. Afinal, agora gosto de Machado. E “pra caramba”. Mas o fato de gostar não me dá o direito de achar que estou a seus pés. Machado, ao meu ver, é inalcançável. Assim, limito-me à leitura do texto “segundo”. Já basta para considerá-lo genial. Quanto à leitura do texto “primeiro”, deixo para depois. Adio o sorriso de Machado diante de minha burrice, como a burrice de Bacamarte, de Evarista, de Porfírio. Afinal, se eles eram burros para lidar com aquilo que desejavam verdade, assumo que sou burra para lidar com a “verdade” do mais genial, e brilhante, e intangível autor do Brasil.