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A POESIA DA HISTÓRIA
Gustavo Bernardo
Milton Torres. No fim das terras.
São Paulo: Ateliê, 2005.
Publicado no Jornal do Brasil de 26/11/2005
Na formulação milenar de Aristóteles, enquanto o historiador conta as coisas como elas de fato aconteceram, o poeta conta como elas poderiam ter acontecido. Entretanto, ao invés de concluir que o historiador diz a verdade e o poeta mente, o filósofo entendeu que a visão do historiador é limitada e a visão do poeta, mais ampla. O historiador tenta restringir-se a uma única perspectiva, supostamente a única verdadeira. O poeta, ao contrário, suspeita sempre do que se diz ser a verdade. Essa suspeita o leva não a tentar encontrar a verdade, porque senão teria de suspeitar de si mesmo, mas a fabricar uma versão verossímil pela qual possa se dizer responsável.
“O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. Estes são talvez os versos mais conhecidos da língua portuguesa. Eles mostram a reação da poesia à limitação de toda tentativa de dizer o real – ou dizemos de mais ou dizemos de menos. Toda linguagem é ou pletórica ou insuficiente. Fernando Pessoa sabia que não podia representar nem a história de outrem nem a sua própria história, a menos que forçasse o falante a se auto-representar e a língua a se dobrar sobre si mesma.
O ato de “fingir tão completamente” provoca uma reconfiguração no texto da realidade, permitindo-nos enxergá-la sob perspectiva que antes não havia. O ato deliberado de fingir torna o fingidor mais responsável pela história que conta, isto é, pela perspectiva que inaugura. Quando o poeta encena o real, põe o mundo entre parênteses e prepara a suspensão crítica dos discursos que mapeiam o mundo. Essa suspensão crítica parece urgente, a julgar pelos discursos que têm nos afogado.
O diplomata Milton Torres, cônsul do Brasil em Houston, tem por dever de ofício suspender o juízo assertivo de maneira a melhor conciliar interesses, no mais das vezes, inconciliáveis. Profundo conhecedor da História do Brasil e do mundo, preparou durante anos o que chamou de “epopéia esfacelada” sobre as raízes da nossa cultura. Essa epopéia nos chega através de 161 poemas que atravessam do Império português ao mundo contemporâneo, como no poema “Capitólio”, de apenas dois versos: “gansos que não grasnem / coniventes”. Trata-se portanto do livro de um homem de História que escolheu o caminho mais amplo e difícil, a saber, a trilha da dúvida poética permanente.
Seus poemas, em conseqüência, não são de leitura fácil. Essa constatação poderia introduzir uma crítica negativa que reclamasse de um texto pedante, mas não é o caso. A dificuldade da sua poesia é um convite raro ao leitor: para que, numa leitura lenta e cuidadosa como exige a melhor literatura, enriqueça o espírito como de outro modo não seria possível. A erudição do diplomata manifesta-se não somente no bom uso das informações históricas e das múltiplas referências intertextuais, mas também em um multilingüismo impressionante: há poemas inteiros em português arcaico, espanhol, espanhol arcaico, inglês e latim, mostrando a própria língua como símbolo e metáfora.
Semelhantes erudição e multilingüismo, entretanto, alternam-se com exclamações de baixo calão e expressões de gíria contemporânea, deixando vazar a profunda indignação do poeta com os acontecimentos seculares. O poema “Da sapiência pré-experimental ou A universidade antiga”, por exemplo, traz por versos figuras retóricas escolásticas referentes a certezas dogmáticas, como “CUM THEOLOGIA REVELATA” e “Conclusio CERTISSIMA ET FACILLIMA”, para no entanto fechar com as exclamações “Ahá! Quod nihil scitur!”. Acompanha o “ahá!” tão atual o título do livro de um dos principais autores céticos do Renascimento, Francisco Sánchez. O título de Sánchez significa: “que nada se sabe”. A ironia é transparente e ao mesmo tempo finíssima, posto que em latim!
Ao multilingüismo e à multi-referencialidade acompanham, como não poderia deixar de ser, diversas formas poéticas. A métrica clássica convive com soluções concretistas. O poema “Matriz das ilhas de Maldito Mar”, por exemplo, escrito em várias línguas e contendo outras tantas expressões onomatopaicas em formato de diagrama de árvore, extrapolou de tal modo o tamanho da página do livro que o editor se viu forçado a acrescentar uma página dupla, como nos volumes de artes plásticas. Há ainda vários poemas-colagem, como quando justapõe à determinação oficial de destruir e salgar a casa do homem que tentou matar o rei Dom José I, proibindo que daí em diante e para sempre jamais se edifique qualquer construção no terreno, o título que vale por um ensaio: “A outra face do Iluminismo”.
Na última seção do livro, “Poemas do Rio”, Milton Torres representa o Rio de Janeiro fazendo um inusitado milk-shake de Heidegger, favela carioca e indignação: “se avexava o morro do ser aí / ser com os outros, o amargo da existência na goela / de cada dia, ler alemão não carece nem a filosofia / o parafuso engripa, não sai”. Como bem diz Ivan Teixeira no posfácio, “No fim das terras” possibilita uma espécie de teoria cínica da história do Brasil: “cínica no sentido de instituir a metáfora da descrença quanto ao valor dos discursos autorizados”. Eis porque se pode afirmar que esse poema-livro funda-se no ceticismo irônico, raiz, por sua vez, da melhor literatura.