Vilém Flusser
FRANZ KAFKA: A CULPA
Saint-Clair Stockler
Trabalho apresentado para o professor Gustavo Bernardo
no curso de Teoria da Literatura VI em novembro de 2005.
Ó meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar o meu rosto a ti, meu Deus; porque as nossas iniqüidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa tem crescido até o céu.
Esdras 9:6
1. Kafka, o estranho culpado
Onde se tecem alguns comentários sobre a atualidade de Kafka. O Leitor toma ciência do texto selecionado para dialogar com essa pobre tentativa ensaística. A culpa é o cerne kafkiano?
Franz Kafka traz em sua própria biografia a dicotomia das tensões sociais numa alma burguesa: profissionalmente um insignificante empregado de uma companhia seguradora, subjetivamente um artista, um intelectual. Essa dicotomia vai torná-lo “um estranho” perante os olhos de seus familiares e colegas mas – o que é ainda mais significativo – também perante si mesmo.
Essa “estranheza” estará presente em toda a sua obra: de forma mais nítida em uma novela como A metamorfose, onde “certa manhã (...) Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, mas também em romances como O Castelo, O processo e Amerika.
Além da estranheza – considerada unanimente como uma das características centrais da obra de Kafka – que outra linha de força pode ser destacada e, mais do que isso, pode ser conectada à nossa realidade monstruosa do início do século XXI? Qual seria a “mensagem” kafkiana para os nossos dias, que faria com que seus textos não fossem letra morta, mas tivessem (como têm) importância essencial para nós? Ao meu ver, a resposta encontra-se no ensaio Esperando por Kafka, de Vilém Flusser. Em certo momento o filósofo esclarece:
Essa mensagem (...) diz respeito à situação do homem em face das forças que o governam, à situação dessas forças em face do homem, e diz respeito ainda a essas forças em si. Se tentarmos reduzir essa mensagem a umas poucas frases, coisa com a qual Kafka evidentemente nunca concordaria, chegaríamos aproximadamente ao resultado seguinte: o homem vive em estado de culpa permanente em face das forças superiores. Sabe da sua culpa e da justiça de qualquer castigo que essas forças porventura lhe imporão, mas não sabe da natureza dessa culpa. Procura o contacto com essas forças, não para pedir perdão, mas para esclarecer a sua culpa, para “saber”. Essa procura tem excelentes possibilidades de êxito, já que as forças superiores são, aparentemente, muito próximas.
Portanto, é a culpa que está presente no cerne da obra de Kafka. Seus personagens são culpados, sentem-se culpados, procuram a punição de suas culpas, mas – oh surpresa! – não sabem exatamente a natureza dessa culpa. O que não tem a menor importância para Kafka. A culpa é condição essencial do ser, não precisa de uma justificativa. Diz Vilém Flusser:
A teologia que esta mensagem descortina diante de nossa visão estarrecida tem vários pontos de contacto com as teologias das nossas religiões tradicionais, mas se distingue delas quanto ao seu clima: o clima da vida humana é o da angústia não mitigada por qualquer esperança, e o clima das hostes divinas é o nojo.
A angústia de saber-se culpado, mas de não saber o motivo da culpa. Dessa forma, como aliviar-se de uma culpa ?
2. A culpa n’O processo
Onde se revela qual é o verdadeiro personagem principal do romance kafkiano. Visões assustadoras. Joseph K. somos nós? Deus?!? Que Deus?
O que é mais emblemático dessa culpa do que ser réu em um processo no qual não se sabe exatamente qual é a acusação? Esta é a desventura de Joseph K. no romance O processo. Nele, mais do que em qualquer outro dos romances kafkianos, vemos o homem em permanente estado de culpa. Em suas perambulações pelas repartições e pelas instâncias judiciárias, Joseph K. só faz agravar ainda mais seu permanente estado culpado, caminhando inexoravelmente até a sua própria morte. É a culpa, enfim, o personagem principal do romance, aquele que faz com que todos os outros caminhem. O que é curioso nesse romance é que ninguém parece saber do quê Joseph K. é culpado, nem mesmo os juízes. Aliás, todos são culpados nesse romance. Todos vivem suas vidas como uma punição. Todos são engrenagens de uma Máquina com a qual não há nenhuma chance de negociar. Seria Deus, afinal de contas? Kafka, o judeu, nos apresenta sua visão de Deus: uma série de repartições públicas mais ou menos interligadas, labirínticas, assustadoras, onde os seres humanos que dela fazem parte ou que a ela se dirigem estão emaranhados como insetos numa teia. Burocracia – Deus é a pior burocracia, aquela que já funciona num moto contínuo, sem precisar de um fim a não ser aquele de si mesma. Deus é o absurdo nas situações por que Joseph K. passa. Acostumado com leis (sobretudo a Lei contida na Torá), Kafka faz das leis (não nos esqueçamos de que onde há lei, há transgressão, e culpa, e punição) o combustível angustiante das perambulações do pobre K.
Joseph K. limita-se a padecer de sua culpa, passivamente, porque essa Autoridade é imensamente maior do que ele. Joseph K. comporta-se do princípio ao fim como culpado. Ao invés de se questionar sobre o “porque” de ser acusado, preocupa-se muito mais com “quem” o acusa:
- Os grandes advogados quem são? Como podem ser vistos? – pergunta Joseph K.
- Você nunca ouviu falar deles? – responde o pintor. – Não há nenhum acusado que não sonhou com eles durante algum tempo. Não se deixe dominar por essa debilidade. Quem são? Não sei. Quanto a conhecê-los, impossível.
É como querer conhecer Deus.
A autoridade em Kafka está estreitamente ligada à noção de culpa. Joseph K. precisa perambular pelas repartições e instâncias públicas porque não consegue viver sem se justificar, isto é, sem pedir perdão e reconhecer-se culpado. Aliás, o que importa mesmo n’O processo é a culpa de Joseph K. pois a causa é menos que secundária, uma vez que a justiça é inacessível, não se comunicando com o Homem.
Sobre Joseph K. Vilém Flusser comenta:
Ele próprio provoca o castigo com sua insistência de conhecer a sua culpa. A suspensão provisória do castigo divino (e por que não usar essa palavra?) não é conseqüência da Sua misericórdia, mas de Sua superorganização. A força divina funciona devagar e mal, porque é complicada demais e administrada numa rotina que lhe é totalmente inapropriada. Dada a completa indiferença da força divina em face do homem, este mau funcionamento não tem a mínima importância. Entretanto, neste mau funcionamento reside a única esperança do homem para escapar ao castigo justo que o espera. Sabendo, muito embora, disto, o homem, absurdamente, se esforça em apressar o funcionamento do aparelho divino. Nesse esforço frustrado reside a finalidade da vida humana. Assim devemos compreender o ensinamento mestre de Kafka: “Passei a minha vida a combater o desejo de acabar com ela”.
No entanto, não nos esqueçamos de que o destino de Joseph K. é a morte. Sem julgamento, sem sentença, num lugar afastado qualquer, com três facadas no coração liquidam-no. Por caminhos tortos, Joseph K. chega ao destino que procurou desde o início para sua, pois a única expiação possível para a culpa é a morte, punição bíblica por excelência.
3. Culpa – uma visão pessoalíssima
Onde se tenta dar uma visão pessoal da noção da culpa através de um texto malcomportado, com o qual qual o Autor sentiu-se particularmente temeroso de desagradar o seu Leitor. A culpa cristã, essa praga. O Autor se sente fatigado da Filosofia e tenta aproximar-se da Psicanálise, não sem algum sucesso. Exemplos práticos. Mea culpa. Capítulo talvez desnecessário mas mesmo assim interessante, porque, afinal, se não trouxermos para a nossa experiência pessoal as obras que estudamos, de que terá servido estudá-las?
De todas as pragas cristãs, a mais perniciosa é a noção da culpa. Ela possibilita que as pessoas possam ser manipuladas, e talvez resida nisso a sua força e a sua "utilidade": a pessoa culpada é inteiramente manipulável. A culpa é como a libido: esta, para ser satisfeita, precisa da explosão do gozo. A culpa precisa ser expiada (No Houaiss, no verbete "expiação", há uma das seguintes entradas: "sofrimento compensatório de culpa"). O culpado sente que precisa limpar-se da sua culpa, e só após isso volta, com imenso alívio, a novamente sentir-se bem (mas não por muito tempo).
Durante muitos anos - e primeiramente a partir da minha recusa do Cristianismo - venho observando com atenção a questão da culpa e as sub-questões a ela relacionadas. A culpa é universal, generalizada e existe em muitos níveis diferentes. Podemos dizer que a culpa é o substrato da sociedade judaico-cristã [[1]], sua base mais importante, e reflete-se tanto em níveis religiosos quanto seculares. Nas empresas, nos relacionamentos amorosos e familiares, nas igrejas - em tudo a culpa está. Muitas vezes, é claro, não com esse rótulo. Interessa-me particularmente, até porque esse tipo de manifestação é relativamente fácil de ser observado e os "espécimens" estão mais à mão, a culpa nas relações amorosas. A primeira conclusão a que cheguei: a culpa tem um componente masoquista. Sou culpado, sou pequeno, sou imundo, sou sujo, não mereço. Não mereço. Não. Mereço. Pise-me. Tenho medo de perdê-lo(a), porque sou culpado. Sou culpado de muitas coisas. Fui culpado porque desejei outro. Porque traí. Porque me masturbei pensando na amiga dela. Porque fiquei de pau duro. Porque o amigo dele deu um jeito de passar por trás de mim e se esfregou de leve, o sacana. E eu gostei. Tenho medo de perdê-lo porque sou culpado de não amá-lo o suficiente. Ela é tão boa pra mim e eu não faço um décimo para merecê-la, a ela e a sua bondade.
Segunda conclusão: a culpa é sexual (como já insinuei lá em cima). A culpa é afrodisíaca. Sinto-me culpado, me penitencio, há a liberação - onde sou (auto) perdoado e prometo que "nunca mais serei má/mau, nunca mais farei de novo) - e tudo, como na libido, recomeça.
Quando chego um minuto atrasado no trabalho e meu chefe me olha de cara feia, eu me sinto culpado. Sou mau. Cheguei atrasado. Eles são tão bons pra mim. Eles pagam meu salário. Me dão vale-transporte. Vale-refeição. Vale-alimentação. Plano de saúde. Uma folga semanal. Quinze minutos de almoço. Férias. Salário. E eu cheguei um minuto atrasado. Eu não presto, não presto, não presto. Eles são tão bons comigo. Eu sou péssimo. Sempre fui assim, desde criancinha. Mau. Culpado.
Todos nós nos transformamos em agentes produtores da culpa. Quando criticamos alguém. Como fazemos com que alguém sinta-se péssimo com algo que não nos agrada. Mas, meu amor, eu fiquei HORAS te esperando aqui na porta do Cinema e você nem ligou pra me avisar que sua mãe tinha batido com o carro e quebrado o pescoço! Sem querer, vamos espalhando a culpa, como um câncer. Eu me mato de trabalhar e você nem me diz uma palavrinha só agradável. Desculpa, amor. Desculpa. Desculpa. Desculpa!
No campo religioso, a culpa é a questão central. Ao menos nas religiões judaico-cristãs. "E Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho Unigênito em sacrifício, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna". "Adão e Eva pecaram, somos pecadores, culpados. E só a Graça de Deus, sua infinita Misericórdia, pode nos salvar. Nada que façamos (reparem na perversidade do raciocínio) pode nos salvar. Nunca. Mas a Graça de Deus é que sim". Adão e Eva pecaram e eu sou culpado. A culpa é minha, é sim. Eu mereço. Jesus se suicidou (ele não se ofereceu voluntariamente à morte? pra mim isso é suicídio) e a culpa é minha. É sim. Eu devia ter feito alguma coisa pra impedir isso, mas - oh - eu nem era nascido naquela época... Porém sou culpado).
Para as religiões orientais o conceito de culpa é totalmente desconhecido. Penso particularmente no Budismo. O cerne do Budismo - a questão em torno da qual cresce a sua pérola, isto é, o corpus filosófico que o contém e pelo qual é alimentado) - não é a culpa, mas a ilusão. O trabalho todo é realizado no sentido da eliminação da ilusão, porque a realidade é Maya, e não no sentido da eliminação da culpa com o consequente perdão dos nossos pecados. Não há pecados no Budismo, além daqueles que nós mesmos provocamos em nós. Aliás, nem mesmo são chamados de "pecado". Esse termo, ao que me consta, não existe. Somos responsáveis pelo que fazemos, desde que tenhamos alcançado um grau em que os véus de Maya vão sendo retirados, um a um. É um trabalho de autoconhecimento e de responsabilidade. Não de culpa. Responsabilidade, repito. Ação e reação ("carma", em última análise). Mas não culpa. Porque não cometi pecado. Cometi um ato, devo estar prepado para as suas consequências. Elimina-se a ignorância através do pleno conhecimento. Não da expiação que promove a Graça e o perdão das dívidas do pecado.
Não sei quanto a vocês, mas eu acho esse raciocínio muito mais lógico. Mas pode ser que eu esteja errado. Ou enganado. Mea culpa.
4. Livros consultados
A essência do Budismo. Guy Claxton.
Carta ao Pai. Franz Kafka.
O processo. Franz Kafka.
[1] Kafka era judeu, portanto nascido e criado num ambiente onde a culpa estava presente em todos os momentos. Kafka era acusado por seu pai de não ser um bom filho, ser um “filho rebelde”. Carta ao Pai não é, também, uma carta a Deus?