DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

A FICÇÃO DE FLUSSER

Rachel do Monte Bottrel

 

Trabalho apresentado para o professor Gustavo Bernardo
 no curso de Teoria da Literatura VI em novembro de 2005.

 

O objetivo deste trabalho é mostrar algumas contribuições da teoria literária a outros campos de conhecimento, neste caso, através de uma comparação entre a ficção e o jornalismo. Pretendemos problematizar aspectos da prática jornalística que podem ser vistos pela noção do que é ficção, segundo o texto de Vilém Flusser, “Da ficção”.

Segundo o autor, uma mudança importante dos conceitos de realidade e ficção ocorreu quando deixamos de pensar em realidade x ficção, ainda que o mundo fosse visto como sendo uma ficção em comparação a uma outra realidade. Na medida em que perdemos a crença em uma realidade dada, esta deixou de ser um parâmetro para a compreensão do mundo a nossa volta. Essa sensação ganhou espaço, principalmente depois da 2ª Guerra Mundial, com a bomba atômica e a descoberta da fragilidade do planeta e da humanidade. O “cogumelo atômico” mostrou que a “não-realidade” era uma possibilidade concreta, daí o enfraquecimento do limite entre o real e o ficcional. Esse pensamento está ligado a crença em uma verdade absoluta, quando sabemos que, de fato, ela não é única.

Para Flusser, se a realidade é uma construção, ela seria uma projeção individual no ambiente externo, isto é, uma relação estabelecida com um objeto: “A nossa transcendência subjetiva sem um objeto a ser transcendido é rigorosamente nada. Somos reais apenas em função da mesa, ou de um objeto equivalente. Sem objeto qualquer somos mera ficção, mera virtualidade[i]. A realidade estaria, então, na relação entre ambos, o que, obrigatoriamente, admite várias relações, ou vários pontos de vista.

Como afirmou Wittgenstein: “as ciências nada descobrem: inventam.”[ii]. Novamente aqui a realidade é colocada em xeque: ela seria uma invenção. Essa perspectiva ajudou a reconhecer outras formas de cognição, tão relevantes quanto a cientifica. O jornalismo seria uma delas e, por ser uma área onde a questão da verdade está posta a todo o momento, pode ser analisado também sob o ponto de vista da relação entre ficção e realidade.

Segundo Meditsch, baseado na tese de que conhecer é, necessariamente, um ato de troca, no sentido de criação de novos conhecimentos, “O Jornalismo não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz, reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais.”.[iii]

Por essa perspectiva, o texto jornalístico não traduz apenas o ponto de vista do autor ou editor do veículo, mas também fala do leitor; da realidade do cotidiano. Isto significa que, diferentemente do método científico, o Jornalismo não controla as suas variáveis, o que por um lado é positivo, e por outro negativo, ou seja, por não haver tal controle, o Jornalismo consegue se aproximar tanto que acaba por “captar” a realidade dominante. É importante ressaltar que quando falamos em realidade dominante estamos nos referindo às noções que predominam no senso comum. Como bem define Meditsch: “É o fato de operar no campo lógico da realidade dominante que assegura ao modo de conhecimento do Jornalismo tanto a sua fragilidade quanto a sua força enquanto argumentação. É frágil, enquanto método analítico e demonstrativo, uma vez que não pode se descolar de noções pré-teóricas para representar a realidade. É forte na medida em que essas mesmas noções pré-teóricas orientam o princípio de realidade de seu público, (...)”3.

Fica agora claro também o outro lado da moeda, isto é, o fato de que o Jornalismo produz conhecimento ao escrever sobre essa realidade, no sentido de que a notícia é em si mesma uma construção social. É isso que diz Traquina: “(...); a constituição de um acontecimento ou de uma questão (...) em notícia significa dar existência pública a esse acontecimento ou questão, constituí-los como recurso de discussão.”[iv]. Essa noção tem a nos dizer que o fato de algo ser denominado como notícia significa que ali ocorre uma atribuição de sentido especial, que comunica ao leitor: antes do próprio conteúdo, a própria classificação como notícia já aciona o processo de cognição.

Na verdade, o que estamos tentando demonstrar é o fato de que o jornalista utiliza narrativas para construir a notícia. A notícia é um “relato jornalístico de acontecimentos tidos como relevantes para a compreensão do cotidiano – é propriamente uma forma narrativa, ou seja, um modo específico de se contar uma história. Os norte-americanos costumam designa-la como news story, (...).”[v].Considerando que a notícia é a matéria-prima do Jornalismo, podemos entendê-la como uma construção narrativa que tem por objetivo contar uma história.

Nesse sentido, o Jornalismo se aproximaria da ficção, já que o ‘contar’ da história; a ordem dada aquele conteúdo é em si mesma significativa, na medida em que os elementos de organização dos fatos são retirados da “realidade”, quer dizer, dizem sobre uma outra história, a do autor e da sua cultura. Seria mais ou menos como dizer que o Jornalismo é capaz de se aproximar de uma “realidade mais genuína”; da vivência dita por Flusser como realidade. Não é à toa que as ‘estórias jornalísticas’ tendem a enquadrar seus personagens nos papéis de herói e vilão, o que normalmente é criticado como simplificação da realidade. Não nos interessa entrar nessa discussão, mas sim apontar um aspecto de uma dinâmica narrativa semelhante à da ficção.

É justamente disso que trata Bird e Dardenne ao dizerem que “As notícias enquanto abordagem narrativa não negam que as notícias informam; (...). No entanto, muito do que aprendem pode ter pouco a ver com os ‘factos’, (...). Os factos, nomes e detalhes modificam-se quase diariamente, mas a estrutura na qual se enquadram – o sistema simbólico – é mais duradoura. E poder-se-ia argumentar que a totalidade das notícias como sistema simbólico duradouro ‘ensina’ os públicos mais do que qualquer das suas partes componentes, (...).[vi].

Por outro lado, existem pontos de tensão entre o ficcional e o Jornalismo. Essa tensão se deve em grande parte a herança do jornalismo americano que pregou a objetividade e a imparcialidade como máximas da profissão. É dessa época também uma diferenciação das notícias um tanto ultrapassada, mas ainda recorrente: hard news e soft news. Essa classificação teria como tradução, notícias “informativas” contra aquelas “interessantes”, “de interesse humano”, o que manteria a ilusão de que em notícias hard as técnicas utilizadas seriam neutras.

De forma análoga, essa seria também uma diferenciação que ainda acontece entre ficção e não-ficção na literatura, daí a primeira ainda ser menosprezada como algo sem sentido; como fruto aleatório de uma imaginação, como se isso não fosse extremamente relevante. Caberia inclusive, tanto no caso do Jornalismo quanto no da Literatura, distinguir entre o “sério” e o “real”, assim como o fez Freud[vii] ao analisar a atividade imaginativa do escritor: as soft news (se é que existem como tal) e a ficção podem até não ser sérias, mas são reais no sentido que aqui estamos tratando.

É verdade quer nem sempre Literatura e Jornalismo estiveram sob tensão, mas, hoje em dia, uma das evidências dessa tensão é a dificuldade dos jornalistas em obedecer aos critérios da tão propalada neutralidade, ao mesmo tempo em que tem que contar uma ‘estória’ interessante, isto é, histórias com narratividade. A idéia nesse caso é que o leitor só compreenderia e se interessaria pela estória quando essa característica da notícia for assumida, até porque são os elementos dessa narrativa que trazem sentido e, como já dissemos, comunicam ao leitor. Daí que os jornalistas vivem um dilema: quanto mais objetivos forem, mais ilegíveis se tornam, e quanto melhores contadores de ‘estórias’ forem, melhor resposta terão dos leitores, embora sejam criticados por desobedecer aos ideais da profissão.

Um outro ponto interessante da construção da notícia é o modo como ela é construída a partir do cruzamento de informações. “As práticas de cruzar informações e de ouvir o outro lado baseiam-se nos conceitos de que todo fato comporta mais de uma versão e de que o julgamento desse fato não compete ao jornalista.[viii]. No jornalismo, o ‘fato’ é fruto de vários pontos de vista; de várias versões, diferentemente da ficção segundo Flusser onde “a realidade é o ponto de coincidência de ficções diferentes.[ix]. Ainda que ambos assumam a multiplicidade de perspectivas, no Jornalismo o ‘fato’ estaria escondido nas mais diversas versões, o que significa que o papel do jornalista seria “descobrir” a verdade que está por trás delas. O próprio termo ‘versão’ já denota uma negação dessa narrativa como portadora de alguma “realidade”, e sim como uma camuflagem da mesma. É possível que na teoria da ficção esse termo não seja adequado, já que a versão é nada mais que uma experiência, logo, para nós, é real.

Resumindo, então, de acordo com as hipóteses levantadas, podemos dizer que “(...) as formas narrativas são mais do que construções literárias; elas conferem às pessoas um esquema para perspectivarem o mundo e viverem a sua vida.”[x]. Esse sim seria o aspecto fundamental para perceber a relevância tanto da ficção quanto do Jornalismo para a compreensão da dita realidade.

Portanto, o nosso objetivo neste trabalho, como dissemos inicialmente, foi buscar uma aproximação entre a teoria da ficção e a prática jornalística, de modo que se revelassem alguns pontos em comum, seja pela semelhança ou pelo distanciamento. Reiteramos que o nosso interesse foi justamente tentar trilhar um caminho entre as diferentes esferas de pensamento.

 

Referências bibliográficas:

 

Textos do curso:

1.                  FLUSSER, Vilém. “Da ficção”.

2.                  FREUD, Sigmund. “Escrever e brincar”.

 

Sobre jornalismo:

1.                  BIRD, S. Elizabeth e DARDENNE, Robert W.. “Mito, registro e ‘estórias’: explorando as qualidades narrativas das notícias”, in: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Veja. Lisboa, 1993.

2.                  MEDITSCH, Eduardo. “O Jornalismo é uma forma de conhecimento?”. Conferência feita nos Cursos da Arrábida. Universidade Federal de Santa Catarina, 1997. (Disponível on-line).

3.                  SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. Vozes. Petrópolis, 1996.

4.                  TRAQUINA, Nelson. “A redescoberta do poder do jornalismo: análise da evolução da pesquisa sobre o conceito de agendamento (agenda-setting)”, in: _____. O estudo do jornalismo no século XX. Unisinos. São Leopoldo, RS, 2001.

5.                Manual da Redação: Folha de São Paulo. Publifolha. São Paulo, 2001. 3º edição.

 

 

 

[i] FLUSSER, pg. 2.

[ii] In: FLUSSER, pg. 1.

[iii] MEDITSCH, pg. 3.

[iv] TRAQUINA, pg. 22.

[v] SODRÉ, pg. 132.

[vi] BIRD e DARDENNE, pg. 265.

[vii] FREUD, pg. 1.

[viii] In: Manual da Redação: Folha de São Paulo, pg. 27.

[ix] FLUSSER, pg. 2.

[x] BIRD e DARDENNE, pg. 276.