DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

DA FICÇÃO COMO FETICHE

Gustavo Bernardo

 

 

Resenha de:

Glauco Mattoso. A planta da donzela.

Rio de Janeiro: Lamparina, 2005. 217 p.

Publicada no Jornal do Brasil de 19/11/2005.

 

 

Glauco Mattoso é o pseudônimo mais auto-irônico que alguém poderia dar a si mesmo. O nome de batismo do escritor é Pedro José Ferreira da Silva, mas, por conta do glaucoma congênito que o levou à cegueira total há cerca de 10 anos, considera o pseudônimo mais verdadeiro que o nome real. A condição intrínseca à ficção – ser mais real do que o real – se encontra portanto presente desde o nome do autor.

Poeta, contista, romancista, colunista, ensaísta, letrista, tradutor e outras coisitas mais, já ostenta vasta obra que reconhece como herdeira, na sátira política e na crítica de costumes, de Gregório de Matos. Sempre explorou temas transgressivos e politicamente incorretos, alimentando a fama de autor maldito. Assumindo o fetiche pessoal por pés (e por pés masculinos), publica em 1986 uma “pseudoautobiografia lítero-erótica”, como a chamou um crítico, intitulada “Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés”.

Esse trabalho se desdobra agora no romance “A planta da donzela”, quando se soma ao fetiche por pés o fetiche da própria ficção. O autor se dedica a reescrever um livro marginal (talvez por isso, um dos mais interessantes) de José de Alencar, “A pata da gazela”. Outros, como por exemplo o resenhista que vos fala, já se dedicaram a reescrever Alencar trazendo-o para o século seguinte, mas Mattoso ousa mais: ele reescreve o romance mantendo a sintaxe oitocentista e as mesmas circunstâncias de tempo e espaço.

Volta e meia o narrador faz rápidas referências ao cinema e a uma banda de rock, Kinks, famosa por suas letras sobre o ciúme mas também pelos brigas entre os dois irmãos que dela faziam parte. As referências trazem o leitor ao presente para o devolverem logo ao Rio de Janeiro imperial. O narrador recorre “ao historiador” para mostrar o contexto e detalhar a história dos pés no Brasil, como o costume do lava-pés e a diferença entre o pé largo do negro e o pé miúdo do mulato, o famoso “pé-de-cabra” que ajudou a desenvolver a luta de capoeira.

Usando Alencar contra Alencar e o moralismo burguês contra o próprio moralismo burguês, Mattoso é minucioso: retoma páginas inteiras de “A pata da gazela”, conforme conta “o romancista de época”, mas conduz o enredo a seu avesso, expondo o inconsciente obsceno dos românticos. O quadrado amoroso se mantém: Horácio e Leopoldo, Amélia e Laura. No romance de Alencar, Amélia tem os pés mínimos e mimosos, provocando o interesse dos dois rapazes, um conquistador e o outro tímido, enquanto Laura tem pés “ingleses”, isto é, razoavelmente grandes. No romance de Mattoso, Amélia continua com os seus pés mimosos, mas é Leopoldo quem os tem enormes e deformados como um aleijão, padecendo por conta deles enorme vergonha. Só esta alteração provoca mudanças substanciais no enredo: os mesmos acontecimentos geram peripécias diversas.

Tais peripécias acompanham diálogos tipicamente românticos, mas que se vão subvertendo aos poucos. O leitor habitual de Glauco Mattoso estranha, porque a subversão narrativa é lenta e cuidadosa. O erotismo, presente desde Alencar, se acirra. Laura, como mestra, conduz a falsa ingênua, Amélia, ao mundo dos mais perversos. Horácio, no afá de tocar e ser tocado pelos pezinhos de Amélia, deixa-se conduzir a uma sessão explícita de sadomasoquismo. Os pés enormes de Leopoldo lhe servem, enfim, para humilhar o rival com todo o requinte. O final é tão excitante quanto perturbador.

 Não cabe contar o final. Mas cabe especular que o podolatrismo permite uma reviravolta dos que se encontram “por baixo”: deficientes físicos em particular, excluídos sociais em geral. Dobrando a espinha antes que outros a dobrem, o adorador dos pés alheios representa a submissão e assim, na sagaz observação de Ítalo Moriconi, inverte a seu favor a relação de poder para transformar sua perda em lucro. O fetiche dos pés desta maneira se justifica plenamente (como se precisasse) mas deixa envolto no mistério o fetiche maior.

O fetiche maior é o da própria ficção. O que faz um escritor se dedicar por anos a fio a reescrever um autor do século retrasado? Não se trata de paixão pelo fantasma do Alencar porque Mattoso, ao contrário, quer combater o seu moralismo. Mas se trata de paixão pela literatura mesma, com tudo o que essa paixão possa ter de pathos, de doença e de vício. Foi o vício da ficção que levou o escritor a construir um livro de leitura difícil, um livro para ser lido forçosamente devagar. O livro lido ainda exige do leitor que o releia, ou melhor, que os releia juntos, “A pata da gazela” e “A planta da donzela”, para descobrir então como se reescreve a história e como as semelhanças se transformam em diferenças capitais.

Não é pouco trabalho. Mas a perda (de tempo ou da ingenuidade) logo se transforma novamente em lucro. Se a alma não for pequena, o livro de Glauco Mattoso vale a pena.