DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

TRUQUES BARATOS DO TEÍSMO

Mike Hardie

 

 

Como um não-teísta, é justo dizer que tenho uma visão um tanto tendenciosa sobre quais argumentos teístas são falhos.  Já tive experiência suficiente com vários argumentos verdadeiramente tolos para ao menos ser capaz de arriscar uns palpites nesse assunto. A maioria destes argumentos foram ouvidos de vários tipos de cristãos, de modo que a maioria deles são relacionados ao teísmo cristão, especificamente.

 

A Aposta de Pascal

Argumento: Se você acredita em Deus, não perde nada e ainda tem uma chance de ir para o Céu. Por outro lado, se você não acredita, corre o risco de ser condenado ao Inferno.  Logo, a coisa mais inteligente a fazer é acreditar em Deus.

Explicação: Um argumento teísta muito famoso que afirma basicamente que, mesmo se você não souber se Deus existe, será melhor ser um apostador esperto e acreditar mesmo assim.

Paródia: Se você acredita em fadas, você não perde nada e ainda tem uma chance de elas lhe jogarem o pó das fadas.  Por outro lado, se você não acredita, pode perder tudo isso.  Logo, a coisa mais inteligente a fazer é acreditar em fadas.

Refutação: Este argumento é falho em tantos aspectos que chaga a ser surpreendente que alguém ainda o use.  Primeiro, ele comete a falácia do falso dilema, que limita as escolhas a apenas duas ("Deus não existe" e "Deus existe e leva os crentes para o Céu"), quando, na verdade, há um número quase infinito de escolhas possíveis.  Segundo, ele ignora o fato de que é irracional e tolo acreditar nas coisas só para "se garantir".  A verdadeira honestidade intelectual exige que todas as crenças sejam tratadas de acordo com seu mérito real, não com o mérito de conseqüências que as pessoas podem imaginar que existam.

 

De onde veio o universo?

Argumento: Se Deus não existisse, então não haveria ninguém para criar o universo.  Mas o universo claramente existe, e todas as coisas têm uma causa, logo Deus também existe.

Explicação: Outro clássico.  Este é normalmente chamado de argumento da causa primeira.

Paródia: Se uma flutuação quântica nunca ocorresse, então não haveria nada para criar o universo...

Refutação: Há vários motivos que tornam este argumento a favor do teísmo falho.  Primeiro, ele presume que, se o universo teve uma causa, esta causa teria de ser Deus -- o que é insustentável.  Segundo, não é necessariamente verdade que tudo realmente tem de ter uma causa.  O universo poderia, por exemplo, ser de duração infinita.  Ou, o universo -- e isso seria coerente com as noções correntes de tempo e espaço -- poderia ter uma duração finita, mas ser ilimitado, e conseqüentemente não causado.   Basicamente, há um certo número de alternativas logicamente possíveis à de que Deus seria a causa primeira de toda existência (esta questão é suficientemente complexa para merecer um longo ensaio, e eu estou no meio da criação de um).

 

Os ateus têm segundas intenções

Argumento: A única razão pela qual alguém aceita o ateísmo é que ele odeia a idéia de que poderia haver um Deus, pois isso significaria ter de reconhecer um poder maior do que ele.  Logo, o ateísmo é uma crença cujas únicas bases são um ódio e um medo irracionais, ao passo que o teísmo é racionalmente superior.

Explicação: Um pouco de psicanálise de botequim que tenta concluir que o ateísmo é apenas algo que as pessoas criam para se sentirem melhor.

Paródia: A única razão pela qual alguém aceita o teísmo é que ele tem medo de não haver um Deus e de poder estar realmente sozinho no universo.

Refutação: Mesmo se fosse verdade que os ateus são realmente motivados pelo ódio -- em si mesma uma premissa irrazoável --, isso não afetaria em nada a plausibilidade do ateísmo.  Os motivos podem ser teoricamente relevantes para explicar crenças pessoais, mas não podem nos dizer nada quanto a se essas crenças são mesmo a verdade.

 

Ateísmo = nihilismo

Argumento: Aqueles que negam a existência de Deus negam a existência de qualquer parâmetro objetivo para a moralidade ou a verdade.   A negação de Deus equivale à negação das próprias bases de uma visão consistente da realidade.  Logo, o ateísmo é fundamentalmente um sistema de crenças ilógico e nihilista.

Explicação: Este argumento iguala o ateísmo a um tipo extremo de reducionismo e de nihilismo, e, baseado na lógica desse tipo de visão, conclui que o ateísmo em si é ilógico (e falso).

Paródia: Aqueles que negam a existência de fantasmas negam a possibilidade da existência de qualquer coisa além da realidade material.  Isto significa que eles têm de negar a existência das emoções, das idéias, e assim por diante, o que não pode ser feito com consistência.   Logo, a descrença em fantasmas é irracional.

Refutação: Muitos teístas parecem crer que o ateísmo e o nihilismo em geral andam de mãos dadas -- e, de fato, freqüentemente andam.  Mas o que o argumento ignora é que não é o ateísmo que precisa do nihilismo, mas é o nihilismo que precisa do ateísmo!  É, portanto, simplesmente incorreto supor que todos os ateus são nihilistas.  Por extensão, o ateísmo em si não sofre de quaisquer dos problemas lógicos associados ao nihilismo.  Pode-se ser um ateu e ainda acreditar na moralidade, na verdade objetiva, e mesmo no sobrenatural.  Tudo o que o ateísmo significa é que a pessoa não acredita em um tipo bem específico de entidade: Deus.