DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

NOTAS DA PRODUÇÃO
do filme Memórias Póstumas
de André Klotzel

 

Entrevista com André Klotzel

Como surgiu a idéia de filmar Memórias Póstumas?

Há muitos anos eu me cobrava reler clássicos brasileiros sem o peso do dever de casa que a tarefa representava nos tempos de escola. Assim, voltei a Brás Cubas. Eu guardava a impressão de um livro interessante, mas de leitura difícil. No entanto, fiquei maravilhado com a modernidade do texto e pensei em fazer uma adaptação para o cinema. Para não perder o frescor do impacto, escrevi a primeira versão do roteiro imediatamente após a primeira leitura (meados de 1996). Registrei o projeto e o inscrevi na Lei do Audiovisual. Acabei relendo Memórias Póstumas de Brás Cubas umas 15 vezes. Li também as obras completas de Machado e tudo que encontrei sobre ele e sobre a época em que viveu. Me deixei impregnar por Machado e pelo seu entorno. Foi uma delícia. Começamos a filmar em outubro de 98.

O que mais o fascinou na leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas?

O ceticismo do narrador - em relação a si mesmo, à narrativa, à própria história. O defunto/autor narra conversando com o leitor, pula trechos, mantém imperfeições, faz devaneios e depois critica os próprios devaneios. As constantes rupturas, repletas de dualismos e ambigüidades, a utilização de um português extremamente clássico, combinado com uma composição pouco ortodoxa, formam um todo surpreendentemente linear. Machado de Assis ironiza o tempo todo a própria forma narrativa, e isso em um tom completamente dissimulado, sem alarido, como se não quisesse nada, colocando em questão a própria credibilidade do personagem. É cobra que morde o próprio rabo. O que pode ser mais moderno do que isso?

A síntese e precisão do texto machadiano são consideradas um empecilho para as adaptações cinematográficas. Como você lidou com a questão da fidelidade ao livro?

Durante todo o tempo em que estive empenhado em levar Memórias Póstumas para o cinema, o que mais ouvi foi a pergunta "é uma adaptação fiel à obra?" Hitchcock dizia que só se faz um grande filme a partir de uma obra medíocre. Uma blague, sem dúvida, mas que tem lá a sua razão quando se refere a filmes que utilizam apenas o enredo ou uma passagem livremente modificada da obra literária, a ponto de muitas vezes não se reconhecer o original. Mas há outras adaptações. Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos é melhor do que o livro de Graciliano Ramos? E o Macunaíma de Joaquim Pedro em relação a Mário de Andrade? Nestes e em outros casos, filme e livro desempenham seu próprio papel. Diferem entre si pela natureza do objeto. Este ponto de partida é fundamental para uma aproximação mais "livre" do texto.

Como você foi driblando as dificuldades da adaptação?

Diz-se que Machado de Assis é de difícil adaptação para o cinema, principalmente porque as palavras estão de tal forma integradas à narrativa e à ação, e a dramaturgia tão vinculada à palavra, que se torna difícil achar uma brecha para a adaptação. Eu sabia que esta brecha deveria vir pelo verbal, sobretudo porque Machado divide a narrativa em capítulos curtos, quase esquetes. Esta procura me remeteu ao média Brevíssima História das Gentes de Santos, fortemente verbal mas que também buscava uma narrativa irônica e sobretudo a síntese entre texto e imagem, com roteiro de Torero.

E como foi a parceria com José Roberto Torero?

Apesar de nos conhecermos há muitos anos, nunca conversamos sobre Machado de Assis. Quando falei com Torero sobre Memórias Póstumas, senti que ele ficou meio reticente, não entendi a reação, e ele explicou: "André, foi aí que tudo começou". E me disse que já tinha lido o livro 8, 10 vezes. Talvez o maior desafio do Torero tenha sido a narração do "fantasma", que conduz a história. Esta narração não podia ser nem excessivamente prolixa e erudita, nem tampouco simplista. Queríamos um texto "machadiano", mas não literário. Com as imagens prontas, a narração acabou reescrita e regravada pelo Reginaldo várias vezes, até chegarmos ao ponto que buscávamos. Durante o trabalho, brinquei que eu ficaria encarregado da melancolia e ele da galhofa (risos). Acho que deu certo.

De que forma você trabalhou em imagens as diversas características do texto - elegância do estilo, simplicidade e objetividade?

Alguns princípios do romance ajudaram a definir idéias adotadas nas filmagens. Me parecia fundamental a leveza do Machado, sua maneira pouco enfática de dizer as coisas, o tom quase prosaico, mas de extrema elegância do romance. Procuramos fazer o mesmo: os enquadramentos de câmera deveriam ser bem compostos mas simples, sem ângulos muito altos ou baixos, sem planos com movimentos rebuscados, combinados a uma leveza fotográfica conseguida com um contraste baixo das imagens, que deixasse tudo bem visível e claro. Os cenários não deveriam exagerar na qualificação. Para manter esta elegância sóbria, eliminamos tudo que pudesse parecer supérfluo e nos detivemos no essencial - como o texto de Machado. Em relação aos atores, a orientação era não realçar nada. Eu queria um tom discreto mas elegante - do começo ao fim.

Depois de tanto tempo de "convivência", que avaliação você faz de Brás Cubas no panorama da literatura brasileira?

Minha visão sofreu várias mudanças ao longo do tempo, mas no meio do caminho me ocorreu que Brás Cubas seria uma espécie de pré-Macunaíma, um precursor do "herói sem nenhum caráter" que de certa forma percorre a saga do brasileiro indolente, parasitário. Brás Cubas, como um defunto/autor, é um personagem "fantástico", como Macunaíma. O estilo do livro, tão pouco ortodoxo para a época, me pareceu pré-modernista. Em seu tempo, Machado era considerado universalista em excesso e foi muito atacado por sua aparente falta de nacionalismo. À distância percebe-se como ele criticava a elite da sociedade brasileira escravagista e uma das mais atrasadas do mundo. Esses paradoxos me levaram a pensar que o Brasil de hoje tem tudo a ver com o país daquela época. Vejo no Rio de Machado um paralelo com o país de hoje. Na sua época, D. Pedro era valorizado como um homem letrado, culto, que falava várias línguas. Acho que vivemos, de alguma forma, uma atmosfera de segundo reinado. A elite do país, europeizada ou americanizada, continua comportando-se como a elite terceiromundista daqueles tempos. De forma sutil, acho que esta situação está representada no filme.

E como você avalia o personagem?

Brás Cubas não chega a ser um símbolo, mas a encarnação de um certo espírito de elite do terceiro mundo, um homem que desperdiça a sua vida. Roberto Schwarcz escreveu que Brás Cubas "combinava uma extrema elegância com uma descompostura elementar". Um verniz revestindo uma total falta de conteúdo. Mas há uma forte ambigüidade neste retrato: quando ele reconhece a inutilidade que foi a sua vida, redime-se? O personagem, que foi tão passivo em vida, torna-se crítico, reflexivo, e até mais ativo depois de morto. Embora o texto seja leve, Brás fala o tempo todo da morte. Há sempre um duplo sentido em suas falas. No final, a consciência da mediocridade tem um aspecto melancólico, amargurado. E a ironia de Machado é simplesmente genial.

Reginaldo Faria é um ator mais ligado a filmes de ação, comédias urbanas, é uma escolha surpreendente para um papel clássico. Você "viu" o ator durante a leitura?

Quando li o livro, não vi o personagem e fiquei muito tempo na dúvida. Na verdade, nunca sei direito como se escolhe um ator. É uma decisão intuitiva - não tem método, ciência - é quase como escolher uma namorada. Sempre achei Reginaldo um grande ator, mas talvez o tenha escolhido por seu olhar. Eu queria alguém que lembrasse um cidadão carioca pragmático, e que não parecesse um intelectual erudito às voltas com questões filosóficas. Achei que ele poderia criar uma dualidade interessante: um sedutor com traquejo social que piscasse o olho para o público buscando a sua cumplicidade. Um bon-vivant. Além dessas características, Reginaldo é um ator de cinema, formado pelo cinema, assim como a Sonia Braga, o que é garantia de que você tem um ator que está exercendo sua ocupação principal. E isso é muito estimulante.

Como foi resolvida a representação do delírio pré-morte?

Esse delírio foi uma incógnita durante muito tempo. Eu não queria uma cena spielberguiana, com grandes efeitos, mas algo que não se levasse muito a sério, no espírito circense. De repente veio o estalo: aquela alucinação deveria ter a estética do Méliès e sua época, que afinal de contas também era bem circense e em certa medida contemporâneo de Machado de Assis. E realizar esse delírio numa linguagem que cita os primórdios do cinema foi um enorme prazer.

 

Entrevista com Reginaldo Faria

Em sua carreira como ator, você sempre esteve mais associado a papéis de galã de comédias ou de vilão da sociedade contemporânea. Como recebeu o convite para interpretar não um, mas dois papéis de um texto clássico?

Com um grande susto. Foi uma surpresa totalmente inesperada. André me ligou dizendo que gostaria que eu fizesse Brás Cubas e me enviou o roteiro. Li e fiquei apavorado. O texto era muito longo e muito difícil - durante as filmagens, o texto foi diminuindo. Fiquei tão assustado que inventei uma história de que a Globo estava me escalando para uma novela. André continuava insistindo e eu continuava fugindo. Até que um mês depois, ele ligou novamente, e com aquele jeito bem calmo, voltou a fazer o convite. Desta vez aceitei - mas ainda muito assustado.

Por que tanto medo?

Meus temores tinham várias causas. A maior dificuldade do texto estava na sutileza de cada frase, de cada palavra. Além disso, eu tinha medo de representar para a câmera. Eu não tinha antagonista, não tinha com quem trocar, e deveria ser ao mesmo tempo fantasma e o autor do texto, e ainda espectador de mim mesmo. Não era uma tarefa fácil nem simples. Senti necessidade de buscar uma lógica em toda a ironia que perpassa o texto. Brás Cubas é um personagem muito vago, muito solto e, acima de tudo, tremendamente irônico. O fato de contar sua história para uma platéia que não responde me deixava profundamente inseguro. Mantidas as devidas proporções, é como gravar um comercial, no qual você tem que dialogar com quem não vê, com quem não responde.

De que forma André Klotzel conduziu a preparação para o personagem?

Nos detivemos muito na época em que Brás Cubas viveu: um mundo sem telefone, sem televisão, sem pressa. Naquelas circunstâncias, a relação com o tempo e com o espaço era bem diferente da que temos hoje. O corpo também se expressava de outra forma, bem mais contida. Aos poucos, fui percebendo tudo isso. Ou seja, além da preocupação em representar Brás Cubas, também era importante passar a sua época, o seu mundo. E André foi muito cauteloso neste sentido. Quando as filmagens começaram, eu me sentia mais preparado, mais ainda cheio de medo.

Qual foi então o método para chegar a Brás Cubas?

Tinha lido Machado de Assis na escola, mas me lembrava muito pouco. Antes de começarmos o filme, André realizou um intenso workshop com todo o elenco. Passamos a ler Machado com outros olhos, estudamos também a história, costumes e comportamentos da época. Li textos excelentes, como o de Roberto Schwarcz, que nos apontou aspectos muito interessantes da trajetória de Brás. Com esses elementos, a construção do personagem foi se tornando mais natural, mais fluente, apesar da enorme complexidade do personagem.

Como você define essa complexidade?

O maior desafio era transmitir, com nuances, passagens da ironia para a amargura, e também dosar o humor. Acho que o livro, além de apresentar vários lados de Brás Cubas, também revela muito da trajetória e dificuldades do próprio Machado, de sua própria amargura por ter sido tão criticado e incompreendido. Sem falar nas dificuldades que sofreu por ser mulato. Sinto que Machado, com ironia e sutileza, dava uma resposta aos contemporâneos que o discriminavam, estabelecendo a verdadeira dimensão do homem, colocando-o no centro do universo, como se dissesse, com seu distanciamento "a gente não é nada, e mesmo assim, tem tanta gente pretensiosa por aí".

Você diria que foi o papel mais difícil de sua carreira?

Interpretar Brás Cubas foi uma luta interior incrível. Nunca tinha passado por nada semelhante. Acredito que minha característica de representação sempre tenha ocorrido pela força da presença física, pelo temperamento, como no caso de Lúcio Flávio. De repente, me vejo interpretando não só um papel mas dois, sendo que um era um fantasma, em um filme de época e em trama de grande complexidade. E eu nunca tinha feito um filme de época, nem entrado num salão do século XIX. Acho até que, como ator de cinema, nunca tinha colocado uma gravata, só na TV. Somente depois de ter filmado Memórias Póstumas, participei de uma novela de época, A Força de um Desejo.

Olhando em retrospectiva, qual foi o maior desafio da sua interpretação?

Sem dúvida, foi encontrar o tom do personagem. Com tanto texto, o filme poderia ficar maçante, mas acho que André conseguiu o mais difícil: atingir a alma da obra e passar para a tela uma extrema leveza. Quando assisti ao filme pela primeira vez fiquei boquiaberto pelo talento com que André conseguiu criar as situações mais absurdas e transmiti-las como se fossem verdadeiras. Como diz o texto do Roberto Schwarcz, "Machado desconsidera o homem comum, sacrifica o eterno e desacata a religião e cria absurdos como se fossem verdade." De certa forma, foi isso que André fez.

E qual a sua visão de Brás Cubas?

Ele existe em vários níveis, às vezes está na ação, em outras apresenta isenção, distanciamento. É um fantasma distanciado mas presente, e seu texto revela muita ironia. Tentei fazer o Brás mais simples e mais natural que consegui. Apesar de ser um personagem do século passado, ele tem um aspecto contemporâneo e diz muitas verdades que estão por aí. Ele é um fantasma de extrema lucidez - quando zomba do diploma que recebeu, de como conta ter vivido às custas do pai, do seu jeito de ir vivendo. Apesar do medo inicial, tive um imenso prazer em representá-lo, fiquei muito satisfeito com o resultado, mas continuo sem entender meu personagem. Mas aí acho que não tem jeito: Machado é como Dostoievski. Deve ser lido todos os dias.

E como você se sentiu voltando ao cinema, do qual estava afastado há tantos anos?

Estava há 12, 13 anos sem fazer cinema. Meu último filme como ator tinha sido Lili, A Estrela do Crime. Esse afastamento se deveu às condições de se fazer cinema no Brasil, desde o fim da Embrafilme. Vejo a retomada como esforço de alguns, mas ainda não se pode falar de uma indústria de cinema nacional a todo vapor. Eu estava com muita saudade de voltar ao cinema. Depois de Memórias Póstumas fiz mais um filme, O Filho Predileto, de Walter Lima Jr. Entre meus planos, está a volta à direção, com a história sobre Leonardo Pareja. Apesar das dificuldades, é ótimo fazer cinema.

 

Entrevista com Petrônio Gontijo

Como surgiu o convite para interpretar Brás Cubas?

Eu estava terminando a novela Serras Azuis e em plena carreira da peça Caixa 2, quando recebi um telefonema para fazer um teste para interpretar Brás Cubas. Dias depois, outro telefonema: era o André, já me chamando de Brás e me convocando para começar a leitura do roteiro. Eu tinha que escolher entre a peça e o filme - e optei pelo filme. Sou fã de Machado de Assis, conhecia o livro, e sou apaixonado por cinema desde os cinco anos, quando assisti em Varginha, cidade em que nasci, O Dólar Furado, quando Giuliano Gemma usava o pseudônimo de Montgomery Wood. Não perdia um filme, matava aula de inglês para ir ao cinema, sempre quis fazer cinema, que demorou a acontecer por causa do teatro. Quando André me chamou, decidi que tinha chegado a hora - ainda mais para fazer Memórias Póstumas, e com o Klotzel, de quem eu já tinha visto A Marvada Carne.

Como foi a adaptação ao cinema?

Tive que me adaptar a três linguagens diferentes - ao cinema, a Machado, e ao André. Apesar de ter feito algumas novelas de época, como Ossos do Barão e Salomé, sentia a interpretação de Brás como um enorme desafio que me ocupava a cabeça 24 horas por dia. Além da origem literária e do roteiro muito forte, o filme tinha uma forma muito peculiar de apresentar os personagens - na verdade, éramos nós que nos apresentávamos. Na primeira semana, pirei. Me trancava no quarto do hotel para encontrar o que o André propunha e que era, na verdade muito simples, e por isso tão difícil: agir o menos possível. O impacto inicial foi tremendo, mas fui ajudado pelo André, Reginaldo e Stepan, que estiveram o tempo todo ao meu lado. Stepan me dizia, "cinema é como fotografar a alma 24 vezes por segundo".

Brás Cubas jovem é um personagem muito especial pelo seu temperamento e pelo seu aparente não envolvimento com a situações. Qual o maior desafio desta interpretação?

A maior dificuldade foi encontrar o tônus do personagem. Não se tratava nem de uma caracterização, mas de buscar o equilíbrio para um personagem essencialmente ambíguo. Como existe o fantasma que volta para tentar perceber uma vida que não foi percebida quando vivida, era como tentar fazer um personagem que não estava acontecendo. Sem falar que, para mim, a técnica de cinema era muito nova. Havia dias em que se filmava apenas um olhar. E o ator tem que estar muito ligado, e, principalmente, a seqüência emocional dos planos, ainda por cima quando se interpreta uma vida, dos 17 aos quase 50 anos.

Como você vê o personagem Brás Cubas?

Como personagem de uma época que de certa forma assinala a transição do romantismo para o realismo. Acho que tentei imprimir um tom romântico, mais lírico, mais byroniano, mesmo que estas características estivessem em baixa na Europa na época do personagem. Mas o Brasil sempre imita "o primeiro mundo" com um certo atraso. Tentei também ser contemplativo, viver como quem não percebe a vida. O Brás que interpreto age pouco, pouquíssimo. Ele é muito passivo, e acaba sendo levado por tudo, pelas mulheres, pelas circunstâncias, só que com muita pose, bem típico da elite ociosa brasileira. Ele não põe "a mão na massa". Achei genial a sua tentativa de fazer o emplastro para curar a dor: no final da vida ele tenta o canal do bem estar. Ele volta da morte para tentar entender o que conseguiu em vida. E tem a sua grande chance de autoconhecimento.

Que outros aspectos você assinalaria no personagem?

Na transição do romantismo para o realismo, Machado usa o livro como metalinguagem, e deixa bem claro que o fantasma tem uma atitude realista, enquanto o Brás "real" seria mais romântico. Acho que Brás foi também um cético desde criança e transformou-se em um burguês perdido. Como diria o Caetano, um personagem que "não sabia onde colocar o desejo", que não tinha consciência de seu sofrimento. O filme repete a metalinguagem do livro, e faz Brás retornar à vida, implacável, para saber, finalmente, o que foi que aconteceu, onde foi que errou. E apesar de todo o humor, essa consciência tardia tem um aspecto assustador.

 

Entrevista com Pedro Farkas

Qual a concepção da luz utilizada em Memórias Póstumas?

André sempre enfatizou que queria um filme claro e leve, no qual nenhum elemento pesasse, para que o humor do texto pudesse aflorar de forma espontânea. Procuramos fazer uma luz clara, que de certa forma refletisse a leveza do texto. Em muitas cenas foram utilizadas lâmpadas comuns, de 60 velas, que produzem um efeito de luz de vela interessante. Gosto particularmente das cenas noturnas, com uma iluminação que lembra tochas.

Você diria que essa leveza também se estendeu aos movimentos de câmera discretos, sem muitos arroubos?

Eu diria que sim. O filme tem uma característica interessante que é a presença do "fantasma" em primeiro plano - muitas vezes as demais personagens estão no fundo da cena, mexendo um pouco com a perspectiva de algumas cenas. André não quis enfatizar o fato de se tratar de um filme de época - a idéia era deixar que as imagens fluíssem com muita tranqüilidade.

E como foram as filmagens do delírio de Brás Cubas?

Muito trabalhosas mas extremamente prazerosas. Essa seqüência foi muito discutida e André acabou optando por uma concepção um pouco teatral remetendo também aos primórdios do cinema, a Méliès. Foi muito estimulante elaborar as cenas de distorções das proporções, a presença do hipopótamo, da neve. Fiquei muito satisfeito e acredito que o resultado tenha um efeito lúdico que buscávamos.

 

Entrevista com José Roberto Torero

Qual a sua relação com Machado de Assis?

Li o livro umas 4 ou 5 vezes. Mas é meu livro preferido. Li a primeira vez aos 17, 18 anos. E de lá para cá, a cada releitura o tenho achado cada vez melhor.

Como recebeu o convite para fazer a adaptação?

Não lembro, nem o onde nem o quando, mas lembro que aceitei na hora.

Alguma inibição na aproximação com o texto?

Há, claro, uma certa reverência, mas foi muito divertido tentar manter o tom do Machado nos diálogos e monólogos.

Qual foi a maior dificuldade e sua maior preocupação?

A maior dificuldade foi fazer o texto de modo que o novo não destoasse do original. Assim como num romance histórico, a graça estava em não deixar que o espectador percebesse o que era verdadeiro, original, e o que era enxerto, invenção.

Você já tinha pensado em levar algum livro de Machado para o cinema?

Já tinha feito antes a adaptação do conto Um Homem Célebre, que virou o curta-metragem "Um homem sério" de Dainara Toffoli e Diego de Godoy. Mas, essa adaptação foi diferente, pois tratava-se de trazer a ação para o século XX. De certa forma, isso é mais fácil, pois não apenas dá ao roteirista maior poder de modificação do texto, como praticamente o obriga a isso.

André disse que na divisão do trabalho ele disse "eu fico com a melancolia e você com o humor, a ironia". Você concordou com essa divisão?

Concordei. Tenho uma tendência natural a tentar deixar as cenas bem-humoradas e, com o André puxando o freio, acho que chegamos a um bom ponto de equilíbrio. De certa forma, algo próximo ocorreu em Pequeno Dicionário Amoroso, quando fiquei mais com a parte humorística e o outro roteirista, Paulo Halm, resolveu a parte mais dramática.

Você estabeleceu alguma estratégia de trabalho? Gostou do resultado?

A estratégia foi fazer e refazer até que o resultado ficasse satisfatório. E para isso o texto foi sendo mexido até a montagem final. Como há muitos offs, pudemos fazer modificações mesmo depois de tudo filmado, o que foi muito útil para que encontrássemos o ritmo do filme e, no meu caso, o ritmo do narrador. No começo, o filme era muito mais falado, muito mais descrito pelo fantasma de Brás. Nas últimas versões a parte verbal ficou bem mais econômica e, acredito, melhor.

 

Machado de Assis e o Cinema

A primeira adaptação de Machado de Assis para o cinema aconteceu apenas em 1961: o conto Noite de Almirante, um dos episódios de Esse Rio Que Eu Amo, com direção de Carlos Hugo Christensen.

Em 1967, o escritor motivou a realização de dois filmes: Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Cony Campos, vagamente inspirado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, e Capitu, de Paulo César Saraceni, a partir de Dom Casmurro. Em 1969, Nelson Pereira dos Santos realizou uma livre adaptação do conto O Alienista no filme Azyllo muito louco.

Nos anos 70, vários filmes foram inspirados em contos de Machado de Assis: A Cartomante, de Marcos Farias (1974), O Homem Célebre, de Miguel Faria Jr (1974), Confissões de uma Viúva Moça, de Adnor Pitanga (1976). Em 1977, o romance Iaiá Garcia ganhava adaptação dirigida por Geraldo Vietri com o título Iaiá Garcia - Que Estranha Forma de Amar (1977).

Em 1985, Júlio Bressane realizou a segunda adaptação de Memórias Póstumas, com o título de Brás Cubas. Roberto Santos, um dos grandes nomes do cinema nacional (O Grande Momento, A hora e a Vez de Augusto Matraga), escolheu a adaptação de Quincas Borba como seu último filme, em 1986.

Em 1995, o conto Causa Secreta esteve na base da inspiração para o cineasta Sérgio Bianchi realizar um filme de título homônimo.