Vilém Flusser
FILOSOFAR ENTRE AS LÍNGUAS
Simone de Mello
Resenha do livro de Rainer Guldin, Philosophieren zwischen den Sprachen: Vilém Flussers Werk. Munique: Wilhelm Fink Verlag, 2005; 396p.
Pela primeira vez, a obra do filósofo e teórico tcheco Vilém Flusser (1920-1991) é apresentada no contexto intercultural em que deve ser lida. Como entender a teoria de mídia que o consagrou na Alemanha sem ter acesso às investigações fenomenológicas que nortearam a produção teórica desenvolvida no Brasil desde sua imigração, na década de 40, até seu retorno à Europa, no início dos anos 70?
Com o livro Philosophieren zwischen den Sprachen: Vilém Flussers Werk (Filosofar entre as línguas: A obra de Vilém Flusser. Munique: Wilhelm Fink Verlag, 2005; 396p.), Rainer Guldin, professor da Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, relativiza a imagem de Flusser como "teólogo de mídia", uma imagem unilateral bastante propagada na Alemanha. Para contextualizar a obra tardia de filósofo, Guldin resgata as origens do pensamento flusseriano no Brasil.
Exílio, nomadismo e pensar
"A dependência da obra tardia em relação aos primeiros trabalhos escritos no Brasil, dos quais ele se derivou em sucessivos surtos de tradução, permite afirmar o seguinte sobre sua obra integral: o desempenho essencial de Flusser não é tanto sua teoria de mídia tardia, mas sim uma abrangente antropologia de cunho fenomenológico ligada à filosofia da cultura."
A intenção primordial de Guldin não é recuperar a trajetória de Flusser desde a emigração de Praga, em 1939, para São Paulo via Londres, até sua morte num acidente de carro em 1991, retornando de sua cidade natal para a Alemanha, onde estava estabelecido como professor convidado da Universidade de Bochum. O esboço biográfico que inicia o livro apenas recupera os fatos essenciais para a compreensão de um pensamento que nasceu da necessidade existencial de traduzir-se a si próprio e transportar-se de um mundo para o outro sem perdas.
O jogo e o gesto de escrever
A ida para o Brasil, em fuga dos nazistas, foi forçada; o retorno para a Europa não deixou de ser uma reação ao golpe militar de 1964, mas sempre foi considerado voluntário. De qualquer forma, ao retornar à Europa, Flusser repetiu a experiência do exílio no sentido inverso. O que Rainer Guldin mostra com seu estudo é que o ato de traduzir e retraduzir representa o motor do pensar e da escrita flusseriana.
Guldin não apenas acompanha o princípio da tradução (ou a questão da tradutibilidade) como um fio de Ariadne através da labiríntica obra de Flusser, destacando a importância do jogo, da metáfora, da crítica à linguagem, até o desenvolvimento de uma filosofia da mídia. O estudo também destaca o movimento da tradução e retradução como prática essencial de um filosofar poliglota engendrado no próprio ato da escrita.
Tradução como chave de leitura
"Será que a relação das quatro línguas em que Flusser escrevia [português, alemão, francês e inglês] mudou no decorrer dos anos? Qual a relação das reflexões teóricas e metodológicas de Flusser com o processo de tradução? (...) Como o ato de traduzir se associa ao ato de reformular ou reescrever?" Estas são algumas das questões abordadas por Guldin na investigação da escrita multilíngüe de Flusser.
Apesar de não ir muito a fundo na especificidade do Flusser brasileiro e no contexto em que sua filosofia surgiu e se desenvolveu em seu primeiro país de exílio, Guldin descobre no princípio da (re)tradução uma chave de leitura que permite acessar as diversas faces do filósofo, sem reduzi-las a um sistema (o que com certeza seria vão...).