Páginas de Ficção
CAQUIS CAÍDOS
Adriana Lisboa
Nos jardins do templo Tenryū um homem fala muito alto ao telefone celular. Adiante, outro homem cheira uma hortênsia, flor extemporânea, é verão e ninguém explica por que não está chovendo ainda. O verão começa com a estação das chuvas, tsuyu. Hortênsias são flores sem cheiro. No interior do templo faz silêncio. A silhueta de um menino sentado no chão, pernas cruzadas, costas ligeiramente arqueadas, recorta-se sobre o retângulo da luz que vem de fora.
Não chove em Arashiyama. Bicicletas passam e um campo de arroz enfileira seu verde sob o sol. Poucas pessoas. Procura-se uma placa com três ideogramas: Rakushisha. A Cabana dos Caquis Caídos, que hospedou o poeta Matsuo Bashō há trezentos anos. Mas a câmera fotográfica sem pilhas remete à minúscula loja de artesanato logo ao lado. Sumimasen! Ninguém responde. Demora alguns instantes para vir lá de dentro uma criatura de passos curtos e sorriso secreto. Os cabelos num coque.
De que país você é, pergunta. Brasil. Ela então puxa um caderno de recordações. Pode me escrever qualquer coisa aqui? O sorriso secreto. A dona da loja de artesanato em Arashiyama oferece uma caligrafia sua em troca de um punhado de frases em português anotadas com uma caneta trêmula em seu caderno. Desenrola o papel e mostra: um poema de amor. Refaz o pequeno rolo. Oferece-o com as duas mãos e uma reverência.
A Cabana dos Caquis Caídos pertenceu ao poeta Kyorai, e ali seu mestre Bashō hospedou-se pela última vez no ano quatro de Genroku, na décima-oitava lua das dêutzias. No horizonte, as montanhas perfiladas. No jardim, um gorinto, monumento de cinco pedras empilhadas, homenageia todos os poetas de haikai do passado, do presente e do futuro. Mosquitos esvoaçam. O céu se fecha gentilmente.
Ir deixando que a terra de Bashō chegue pelos cinco sentidos, se aninhe nos pulmões, fique impressa nas digitais, ondule em chá verde sobre a língua, toque nos tímpanos um grande sino de templo zen, mesmo que embaraçado em timbres distintos e profusos de telefones celulares. Sobretudo, deixar que a terra de Bashō se estampe nos olhos e na memória dos olhos, ainda que em meio a toda a poluição visual deste Japão trezentos anos depois. Ver o salto da rã no velho poço, ouvir o ruído quase nada da água, e depois acompanhar os círculos concênticos a se propagarem e a desaparecerem.
No trem, voltando de Arashiyama para o centro da cidade de Kyoto: os meninos abrem as mochilas da escola e tiram os livros para comparar o dever de casa. Faz quase silêncio. Agora finalmente começa a chover.
Foto de Adriana Lisboa:
junho de 2006.