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A INTERPRETAÇÃO DE ANTONIETA
Gustavo Bernardo
Apresentação do livro de
Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba.
Sentidos de interpretação. Rio de Janeiro: edição da autora, 2006.
A interpretação não é uma atividade inventada pelos teóricos da literatura. A interpretação, tanto de textos em geral quanto de comportamentos, gestos ou obras de arte, deriva da tarefa religiosa primeira: instituir o significado da palavra de Deus através da leitura criteriosa e autorizada da Bíblia.
No princípio, só poderia haver uma interpretação correta de cada texto; restava encontrá-la. Esta origem do ato de interpretar acabou por deixar alguns problemas para o presente. Há leitores que ainda acham que só se possa encontrar uma e apenas uma interpretação correta para cada texto, assim como existem leitores que defendem com ardor o seu direito à interpretação livre, entendendo que cada pessoa tem a sua interpretação. Ambos os grupos se equivocam.
Por um lado, não há uma interpretação única sequer para a própria Bíblia — por isso surgiram as religiões protestantes. Por outro lado, construir uma interpretação pessoal do que quer que seja não é de modo algum uma tarefa automática: leu, interpretou. Depende, antes de mais, de respeito ao texto que se lê e aos contextos, quer do texto, quer do momento em que se lê. Na maioria das vezes, o que se chama de “minha interpretação” não passa de um aglomerado desorganizado de clichês e citações alheias, lidas e ouvidas de passagem, sem digestão, sem trabalho pessoal de construção.
Em Interpretação e superinterpretação, Umberto Eco já alertava: “dizer que a interpretação é potencialmente ilimitada não significa que a interpretação não tenha objeto e que corra por conta própria. Dizer que um texto potencialmente não tem fim não significa que todo ato de interpretação possa ter um final feliz.” Mesmo que, como maliciosamente sugeriu Todorov, um texto seja apenas um piquenique onde o autor entre com as palavras e os leitores com o sentido, ainda assim as palavras trazidas pelo autor configuram um conjunto embaraçoso de evidências materiais “que o leitor não pode deixar passar em silêncio”.
Se não há, para cada texto, uma única interpretação correta, e se a interpretação de cada leitor também não é necessariamente correta, o problema de como interpretar persiste. A origem místico-religiosa do ato de interpretar pode ajudar a resolvê-lo. No estudo dos textos e dos símbolos sagrados, os hermeneutas enfrentavam o fato perturbador de que cada livro possuía alguma verdade, ao mesmo tempo contraditória em relação a outros livros. Não se sentiam bem para fazer como o califa que teria ordenado a destruição da biblioteca de Alexandria com base no argumento de que ou os livros diziam o mesmo que o Corão, e neste caso seriam supérfluos, ou então diziam algo diferente, e neste caso seriam errados e perniciosos. Os hermeneutas preferiam entender que, se os livros falam a verdade mesmo quando se contradizem, então cada uma de suas palavras deve ser uma alusão ou uma alegoria: cada um deles conteria uma mensagem que nenhum deles seria capaz de revelar sozinho. Em outras palavras, a verdade da interpretação se encontra no processo, antes que no objeto ou no sujeito. Não é a interpretação de um livro por um leitor que tem o poder de estabelecer a verdade, mas sim o conjunto de relações entre interpretações e leitores, vale dizer, entre textos e contextos.
Como estabelecer por inteiro semelhante conjunto de relações é humanamente impossível, resta aceitar a concepção de Eco, que entende toda interpretação como potencialmente ilimitada e infinita. Isto não é simples, justamente porque o desejo de quem interpreta é o de chegar à verdade última e definitiva; é o de descobrir o tesouro do sentido, e não ficar construindo interminável e babelicamente o significado e as relações. Este conflito, esta contradição, torna toda interpretação suspeita. A acusação menos grave que pode pesar contra uma interpretação é a de “malversação do sentido”, isto é, de dizer pelo texto o que o texto não tinha intenção de dizer. A acusação mais grave é a de “hybris”, vale dizer, de arrogância desmedida, por meio do seu afã de tudo-dizer — de tudo pretender esgotar, de modo a que não haja outra interpretação para o futuro. E a constatação mais perigosa é a de que é possível interpretar tudo.
É possível interpretar os sonhos, por exemplo, mas, ao mesmo tempo, muito perigoso, se não forem respeitadas condições mínimas de atenção e respeito. Experimente-se contar um sonho numa mesa de bar ou numa sala de jantar, para incontinenti se observar os circunstantes constrangidos, desviando os olhos, impacientemente esperando a menor pausa para contar seu próprio sonho e por sua vez constranger os demais. O constrangimento se amplia e torna-se invencível quando entre os presentes alguém tenta interpretar o sonho do outro, aplicando com falsa segurança uma psicologia de botequim.
A interpretação de textos bíblicos, como sabemos, costuma provocar a multiplicação dos templos, uma vez que a maioria das interpretações se esforça por excluir as demais, coerente com a necessidade de tudo-dizer — que implica o desejo de a todos calar. A interpretação de textos literários, por sua vez, dinamiza o conflito de um modo específico: enquanto interpretar pressupõe tudo-dizer e tudo-esgotar, no estilo “jura revelar toda a verdade, nada mais do que a verdade, somente a verdade”, a literatura pressupõe momentânea suspensão justo do que quer que se entenda por “verdade”, para melhor perspectivizar as possibilidades de saber.
É este conflito que torna a interpretação uma tarefa delicada. Willen de Kooning disse, numa entrevista: “O conteúdo é um vislumbre, um encontro como um lampejo. É muito pequenino — um conteúdo muito pequenino.” A partir de Kooning, a escritora Susan Sontag produziu um trabalho exatamente contra a interpretação, questionando a tendência a separar, na obra de arte em geral, na literatura em particular, a forma do conteúdo, atribuindo caráter acessório à forma e essencial ao conteúdo. O projeto da interpretação reforça a ilusão de que algo chamado conteúdo não somente existe, como é imensamente mais importante, maior e mais profundo do que a aparência, isto é, do que sua forma. Oscar Wilde também suspeita da interpretação quando, no seu prefácio a The picture of Dorian Gray, diz: “it is the spectator, and not life, that art really mirrors” — é o espectador, e não a vida, que a Arte realmente reflete.
A interpretação que escava debaixo do texto, para desenterrar o sentido que se encontraria soterrado, termina por não só lhe tirar parte do chão como por afetar sua superfície, machucada pelos instrumentos de escavação. O fenômeno, sabe-se hoje, não é exclusividade da leitura de textos literários. O físico Heisenberg deduziu a sua Lei da Incerteza da observação do comportamento das partículas subatômicas, submetidas a feixes de raio laser para medir-lhes a velocidade; com o tempo, percebeu-se que o instrumento utilizado para aferir a velocidade daquelas partículas afetava, quer dizer, modificava, justo a velocidade que se queria “medir”.
A descrição de um fato — lingüístico, físico, social, estético, tanto faz — não apenas consagra seu conhecimento mas, principalmente, produz este conhecimento. Em outras palavras: a verdade que se quer saber é a verdade que se vai construir (em termos populares: quem procura, acha). O sociólogo que faz entrevistas e enquetes na favela modifica, para curso tão imprevisto quanto subterrâneo, os hábitos e as regras da favela que queria descrever (com a vã pretensão de ele mesmo não existir ou marcar diferença). O antropólogo que visita um povo isolado não pode mais considerar este povo como... isolado. Sociólogo e antropólogo tornam-se aspectos cruciais dos fatos que querem descrever, tornam-se sujeitos que pertencem a seus objetos.
Para Susan Sontag, há uma minoria de casos em que a interpretação configura-se como um ato liberador, “uma forma de rever, de transpor valores, de fugir do passado morto”. A maioria das interpretações atuais, porém, seria “reacionária, impertinente, covarde, asfixiante.” Neste caso, a interpretação deveria ser condenada: “a Arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos. Quando reduzimos a obra de arte ao seu conteúdo e depois interpretamos isto, domamos a obra de arte.” Encontramos, no pensamento de Sontag, além de um certo romantismo ingênuo, determinada tensão grave de que não se deve tentar escapar. Interpretar para transpor valores, para pensar à frente, para aceitar o desafio proposto pelo texto artístico, tomando-o como trampolim de desejo e de futuro, ou: interpretar para controlar a imaginação, trancando-a em chaves convenientes de compreensão, estruturais, psicanalíticas, sociológicas, lá o que seja.
Alain Badiou alerta: o Mal, com esse M maiúsculo, é, afinal, “o desejo de Tudo-dizer”. Porque uma verdade só se pode mostrar como subconjunto de uma situação, esta sim, que não se pode dizer toda. A ética de uma verdade se sustenta numa “espécie de comedimento em relação a seus próprios poderes”. Como termina por reforçar o personagem-narrador do romance de Isaías Pessoti: “nenhum amor sobrevive à palavra, mas nenhum poder prescinde dela.” Vale dizer, nenhum amor sobrevive à palavra completa, ao conte-me tudo não me esconda nada, à insistência em escavar todas as “verdades”, em perguntar diariamente “mas o que é que você está pensando agora”, ou, “o que é que você pensou naquele momento”. Porque essa insistência não é só amor, se vem melada de um certo tipo de desespero que se traveste de suficiência para melhor esconder a necessidade de controle, isto é, do poder — que não pode, este sim, prescindir da palavra exposta (como uma fratura ou uma confissão).
Ora: o que vale para o amor vale para a teoria da literatura. Se quero o outro ou o livro como meros meios de ampliar o meu poder afetivo ou acadêmico, então sem dúvida não posso prescindir da palavra completa, da interpretação excludente. Entretanto, se quero o outro ou o livro, à moda de Kant, como fins em si mesmos (e não como meios para satisfazer os meus interesses ou os interesses de determinada ideologia), devo aprender a difícil arte de interpretar mantendo sob suspeita a própria interpretação.
Ao contrário de Susan Sontag, porém, não devemos condenar a interpretação à morte. Condenada, ela rirá de nós e nos obrigará ainda por cima a interpretar o seu riso. Como solucionar, então, o conflito entre a interpretação, que pressupõe tudo-dizer e tudo-esgotar, e a literatura, que pressupõe momentânea suspensão das verdades? O caminho para a solução encontramos no trabalho da professora Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba. Com seu nome aristocrático, Antonieta mostra que o problema contém a solução na sintaxe de sua formulação. Deve-se manter a questão e o conflito ativos e abertos. Um projeto inteligente de interpretação não abdica de tentar, mas sempre recua um instante antes da interpretação final, sob pena de negar seus próprios termos. A interpretação deve, através da sintaxe, do estilo e do método, proteger suas conclusões, para preservar tanto o enigma do texto quanto outras interpretações possíveis.
Entendendo que a disciplina Teoria da Literatura dialoga necessariamente com os demais saberes das ciências ditas humanas e sociais, a autora combate as concepções imanentistas de linguagem que prevaleceram em muitas das abordagens do fenômeno literário, concepções estas que favoreceram a vertente "perfumológica", quer dizer, a vertente que monumentaliza a literatura e os seus autores, reificando-os e congelando-os em quadros estáticos como o dos famigerados estilos de época. Ao combater essas concepções, Antonieta toma o texto literário não como uma "coisa em si", mas sim como parte de um processo que envolve o texto e o contexto, o autor e o leitor, o presente e o passado, o que se conhece e o que não se conhece: a palavra e a lacuna, em suma.
A leitura refinada de literatura não deve ser uma leitura pedante que monta nas costas do jargão incompreensível da disciplina acadêmica, mas sim uma leitura que justamente refine a leitura cotidiana, isto é, a leitura empolgada que tínhamos antes de fazer nossos cursos de Letras. Ao ler ficção, o leitor comum conhece que não se conhece, porque seu conhecimento de si escapa de si mesmo através da leitura e da catarse. O que a Teoria da Literatura pode fazer por ele é aprofundar o seu desconhecimento para, paradoxalmente, ajudá-lo a conhecer aquele que ele está se tornando. O significado, no dizer de Iser, tão caro a Antonieta, não é um objeto a ser definido mas, antes, apresenta-se-nos como um efeito a ser experimentado, logo, como um efeito a ser vivido.
Eis porque essa teoria assume simular “efeitos inaugurais”, facilitando e produzindo insights que nos devolvem àquela leitura empolgada. Ela relaciona muito bem a teoria iseriana do efeito ao ceticismo filosófico, em particular no capítulo sobre o conto de Machado de Assis, “A Missa do Galo”. Admitindo-se a dúvida como um traço positivo do processo do pensamento, ou seja, reconhecendo-se que a dúvida não deve ser exterminada como queria Descartes, a interpretação ousa suspender a si mesma pelos cabelos para permitir a vivência da ataraxia, a saber, a vivência da tranqüilidade intelectual facultada pela abdicação da resposta ou da interpretação corretas. Reconfiguram-se assim as crenças do cotidiano e da leitura (somos feitos de modo a não podermos viver sem elas) mas de maneira tal que as saibamos crenças e não dogmas ou verdades absolutas.
Esse movimento teórico se explicita logo no primeiro capítulo, o das “Breves considerações sobre a experiência estética”, quando Antonieta vê e lê o quadro As meninas, de Velázquez. Ela reconhece, no gesto do pintor de se afastar da tela em que trabalha, tanto um momento de contemplação do objeto de sua mimesis quanto um convite para que o espectador compartilhe com ele a poiesis, a aisthesis e a katharsis. A imagem de Velázquez suscita uma espécie de gestalt ou epifania, tornando cúmplices a produção e a recepção artísticas. Desfamiliarizam-se as percepções estéticas que nos ensinam e se multiplicam os horizontes de expectativa que nos oferecem desde o século XVII até os nossos dias. Recorrendo a T. S. Elliot, a autora destaca que nenhum poeta ou artista, assim como nenhum poema ou obra, têm sua significação completa sozinhos.
O pintor que se afasta da tela em que trabalha mostra-e-esconde o outro pintor, o próprio Velázquez, que se afastara da tela em que trabalhava para pensar, ao mesmo tempo, sobre ela e sobre si mesmo. Desse modo, o pintor, ao se observar observando, coloca na tela, logo, no processo artístico, o observador ele mesmo, tanto faz o momento ou o século em que se observa e admira a pintura. Os ensaios de Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba demonstram ter o mesmo poder: eles também colocam na própria tela, isto é, nos próprios livros que estudam, a leitora que ela é e, ao mesmo tempo, os leitores que acompanham sua interpretação refinada e que, enfim, somos nós outros.