Machado de Assis
SOBRE UM DEFUNTO ESTRAMBÓTICO
Jean Pierre Chauvin
Resenha sobre - FACIOLI, Valentim. Um defunto estrambótico:
análise e interpretação das Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Nankin Editorial, 2002.
Um defunto estrambótico saiu em uma época de franca renovação dos estudos sobre Machado de Assis. A proposta do livro de Valentim Facioli apresenta-se num tom assumidamente didático, pois dedicado, a priori, a estudantes pouco iniciados no tema, particularmente aqueles que se deparam sem armas perante o “antilivro” machadiano – forma como Facioli se refere às Memórias póstumas de Brás Cubas.
Dividido em nove capítulos de extensões variadas, os mais densos parecem ser o terceiro (“Aspectos da narrativa”, pp. 56-92) e o consecutivo (“O narrador”, pp. 93-126), não por acaso, os dois mais extensos.
Após apresentar um painel abrangente das idéias vigentes no Brasil (“país então sem qualquer tradição de pensamento teórico”, p. 16), destacando o papel da escravatura, sob a bênção do clero - que compactuava “amplamente com a prática escravista” (p. 21) -, as benesses do Império e a argumentação falaciosa dos grandes proprietários de terra e de seus escravos, nas primeiras trinta páginas, Facioli alerta, no segundo capítulo, para o perigo do biografismo – critério que levou parte dos críticos a passar ao largo da inovação estética aportada por Machado em seu tempo.
Em “Aspectos da narrativa”, tendo apontado as possíveis “fontes” do escritor, e relembrando ao leitor o enredo do romance e sua importância para o conjunto de sua obra (“o texto machadiano, a partir da década de 1870, constitui uma unidade produtiva”, p. 46), Valentim introduz gradativamente as principais questões levantadas por diversos estudiosos machadianos (a volubilidade do narrador da elite – Schwarz; a filiação à sátira menipéia – Merquior; a ligação entre literatura e história – Gledson; a inovação de Machado frente à literatura brasileira da época – Candido; o olhar de uns e outros personagens, de acordo com a sua posição social – Bosi; a referência a Luciano de Samósata – Enylton Rego), deixando espaço para estudos mais recentes (as fontes francesas de Machado – Gilberto Passos; a constituição do público leitor à época de Machado - Hélio Guimarães; a crônica como laboratório do romancista – Dilson Cruz), citando também os diálogos com historiadores e sociólogos (Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Francisco de Oliveira e Luiz Felipe Alencastro), além de relembrar algumas das prováveis referências do escritor (Schopenhauer e Pascal; Shakespeare, Swift, Lesage; A Bíblia etc).
O subcapítulo “Esse Brás Cubas: o nome” lega um amplo campo de investigação aos novos (e velhos) machadianos. As possibilidades de vincular o nome do narrador-personagem ao Brasil (e talvez a Cuba) são inúmeras e comprovam um dos caminhos por onde pode trilhar a nova crítica, apesar das ressalvas do próprio ensaísta quanto aos limites interpretativos baseados na motivação dos nomes.
O quarto capítulo (“O narrador”) talvez seja o melhor dimensionado. Enfoca a inovação do romance para o próprio Machado e perante a literatura brasileira produzida no período. Facioli lembra que, lá, a relação entre autor e leitor sofreria uma guinada: ao “narrador pouco-confiável” corresponderia uma personagem dúplice e também, um leitor não ocioso, mas crítico, em busca de relativizar a eficácia no exercício de desmascaramento do próprio narrador.
No subcapítulo “Ponto de vista da morte”, Valentim Facioli apresenta uma das idéias mais originais: a de que Brás Cubas, “em busca de uma superioridade qualquer” (talvez a verdadeira razão para a sua idéia-fixa), apesar de perder para a morte, vinga-se de sua condição de finado e, do mundo de lá, produz um autêntico livro-mortuário, com cheiro “de sepulcro”, revivendo as delícias de Brás Cubas: legítimo bon vivant, revisto sob a ótica de um Brás Cubas falecido – narrador nem por isso menos vivaz – e por esse motivo mesmo, estrambótico.
Esclarecidos os conceitos de “ironia” e “paródia”, e retomando a filiação do romance à “sátira menipéia”, bem como as leituras de Machado, Facioli sugere outra tese produtiva: a de que o principal antagonista do narrador Brás Cubas seria o próprio Machado de Assis, mesmo porque o discurso do criador (autor) permite antever o desmascaramento no desmascaramento – supostamente articulado pelo narrador ao longo dos cento e sessenta capítulos, no romance.
Ao realismo ilustrado pelas experiências da personagem, presentificadas pelo narrador Brás Cubas, funde-se o caráter alegórico do livro: o canhestro processo “civilizatório” brasileiro, fora de tempo. Processo que combina desvairadamente modernidade e atraso, aplicando de um foco errôneo teorias do velho mundo a uma nação de raros leitores e, dentre esses, poucos realmente afeitos a teorizações.
Brás Cubas é “uma personagem muito rica, pretensamente moderna e ilustrada, e, contudo, beneficiária arrogante ainda que também humilhada da situação propiciada pela escravidão e pelas enormes desigualdades sociais” (p. 76).
Os sintomas relembrados por Valentim são trágicos: considerar o escravo como propriedade e desprezar o trabalho, como forma de justificar o ócio improdutivo - perversa marca de distinção social: “não há sequer sombra de ‘contrato social’, e o trabalho, desqualificado e sem salários, é tão somente obrigação moral do pobre” (p. 127).
No caso muito particular do morto Brás, o tempo para pensar e recontar sua vida pretende evidenciar o seu desapego em relação ao dinheiro. Entretanto, Facioli lembra que é com o dinheiro herdado dos Cubas que Brás compra o amor de uma prostituta (Marcela); adquire “fumaças de fidalguia e nobreza” estudando por fetiche em Coimbra (desculpa para o tempo a que se dedicou e deliciou com as mulheres da Europa inteira) e, entre outros poucos feitos, conquista um amigo de última hora, que lhe presta a derradeira homenagem, à beira da cova. É que “em toda a narrativa o dinheiro não desempenha nenhuma função propriamente moderna” (p. 90).
Em suma, Um defunto estrambótico reúne algumas inegáveis contribuições de Facioli, na releitura do romance: 1) Memórias Póstumas de Brás Cubas inaugura na ficção machadiana a perspectiva narrativa baseada na ótica dos homens poderosos; 2) o romance reúne duas narrativas: a do narrador (“ponto de vista da morte”) e a da personagem Brás Cubas (bem viva e revivida sob a pena do narrador); 3) o romance não encontra par na ficção machadiana (e na brasileira, de seu tempo) porque se aproveita esteticamente do tão relativo liberalismo brasileiro e da questionável manutenção da escravatura, como itens que servem em essência a reafirmar os privilégios do medalhão Brás - sorte de versão aprimorada de Janjão (do conto Teoria do medalhão).
Brás deve ser estudado a partir de seus comportamentos discrepantes, em relação à cínica confissão do narrador: “a psicologia e o comportamento de Brás Cubas revela esse jogo disparatado, cuja regra é mutável, ou melhor, obedece a uma lógica, mas não a regras, de acordo com as conveniências dos dominantes” (p. 120).
Dito de outra forma, Um defunto estrambótico não só propõe que se leia o romance desconfiando do próprio pacto suposto pelo narrador Brás Cubas. Trata-se de livro antilivro, escrito por um morto que revive, especializado em vida (mas vida morta, improdutiva). De fato, o estudo de Valentim Facioli comporta três roteiros de leitura: a referencial (que dá conta do contexto histórico e social brasileiro, à época de Machado e do tempo da narrativa: 1805-1869); a crítico-teórica (que se concentra na inovação formal aportada pelo romance) e a impressionista (dado o tom marcadamente subjetivo que o próprio Facioli deixa transparecer na “Introdução” e em “À guisa de fecho”).
Não se trata, exclusivamente, de um mero apanhado das contribuições mais relevantes sobre as Memórias Póstumas de Brás Cubas, mesmo porque, em meio às didáticas explicações sobre conceitos-chave, propostos pela crítica, Facioli inclui as suas próprias impressões e juízos de leitura.
Leitura feita e refeita, marcada pela tocante confissão do leitor quando menino, assustado com o fascínio, ele mesmo talvez “estrambótico”, frente ao romance. Deslumbramento de menino em contraste com a visão de Facioli, leitor ressabiado de hoje, que certamente tirou proveito de sua experiência como estudioso e professor universitário para destrinchar o romance de Machado.
De certo modo, Um defunto estrambótico responde a uma demanda de cunho pessoal (do próprio ensaísta), sem perder de vista a contribuição da chamada academia, num êxito duplo para o crítico, e proveito do leitor: enfrentar(mos) outra vez os vários ângulos de leitura proporcionados pelo romance. Ao mesmo tempo, serve, no mínimo, como despretensioso, mas seguro guia de leitura – não destinado apenas aos iniciantes no quesito “Machado”, apesar da reafirmada modéstia com que Valentim Facioli abre e fecha seu estudo.
Publicado na Revista Teresa. Número 6/7, pp 494-497.