DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

AO ALUNO, COM CARINHO
Gustavo Bernardo

 

Rafael Haddock-Lobo.
Da existência ao infinito:
ensaios sobre Emmanuel Lévinas.
São Paulo / Rio de Janeiro: Edições Loyola / Editora da PUC-RIO, 2006.

 

Há tempos atrás fui professor de um adolescente bem humorado e inteligente que vivia cercado de meninas bonitas. Aquele aluno chamava a atenção porque não é comum as três circunstâncias ocorrerem ao mesmo tempo para o mesmo sujeito. Reencontro-o no lançamento do seu primeiro livro. O livro é de filosofia e passeia pela ética do pensador lituano Emmanuel Lévinas. Esse pensador é muito pouco estudado entre nós, o que já tornaria o trabalho bem importante. No entanto, para além da escolha relevante, o texto de Rafael Haddock-Lobo mostra-se muito bem escrito e muito bem pensado, o que deveria ser uma redundância mas nem sempre o é.

O meu único reparo refere-se aos prefácios, de Simon Critchley e Jean-François Mattéi. São dois bons textos, mas o fato de serem dois sugere que o autor, iniciante, precisa ser duplamente apresentado para ser legitimado. O livro mostra que isso não seria necessário. Trata-se de uma estréia madura, a tal ponto que o autor dispensa a muleta das notas de rodapé para construir um texto fluente, ao mesmo tempo sensato e empolgado. A empolgação é tanta que provoca alguns momentos grandiloqüentes, como quando ele afirma que a obra do filósofo lituano tornou-se “nosso legado, nossa herança e nossa missão”, mas perfeitamente compreensíveis num trabalho realizado com tanta entrega e dedicação.

O filósofo que Rafael estuda é um “fenomenólogo”, o que de saída assusta quem não está acostumado com os palavrões da filosofia. Assusta, mas não deveria assustar. A fenomenologia, apesar desse nome comprido, é herdeira do ceticismo antigo que, frente à divergência entre pensadores e sistemas, suspendia seu julgamento e continuava investigando. Um fenomenólogo, igualmente, faz da investigação mesma seu objetivo e da busca seu achado, ao abdicar de descrever as coisas como elas supostamente são, limitando-se a descrevê-las como as experimenta e como elas lhe aparecem. Ambas as filosofias não têm a pretensão de fazer descobertas ou de afirmar certezas: elas pretendem tão-somente lembrar, pensar e passear pelo pensamento. Ambas as filosofias reconhecem o que e o quanto não podem conhecer, o fim da certeza representando o início da confiança, logo, da esperança.

Se a filosofia moderna se caracteriza pela centralidade do sujeito e seu cogito onisciente, o pensamento de Lévinas desloca essa centralidade para outro lugar, mais propriamente, para o rosto-do-outro. Se a filosofia moderna formula antes de mais uma teoria do conhecimento, o pensamento de Lévinas basicamente constrói uma ética. Por isso, o capítulo mais importante do livro de Rafael se intitula “O homem e seus outros”. Ele nos traz a crítica levinasiana do humanismo. O termo, altamente positivo não só na filosofia mas também na linguagem cotidiana, na verdade subentende o pressuposto desmedido de que o homem destronou o mistério e passou a ocupar o centro do universo. O humanismo se encontra na raiz dos piores males modernos, da destruição do meio ambiente (para beneficiar o homem) aos genocídios que exterminam aqueles que são vistos (pelo exterminador) como menos-do-que-homens.

A ética de Lévinas substitui o humanismo pela anterioridade do outro em relação ao eu, invertendo o axioma de Descartes. Se o francês deduz que existe porque não pode duvidar do seu próprio pensamento (da sua própria dúvida), o lituano afirma que deve sua existência ao reconhecimento do outro, ou seja, o outro vem sempre antes do eu: essa é a única lei possível em Lévinas, a lei da alteridade fundadora. Nas palavras de Rafael, “a filosofia começa exatamente com o vislumbre do rosto de outrem”.

Esse rosto de outrem nos leva, numa cultura masculina, ao rosto do feminino, capaz de instituir uma ética não do direito humanista mas sim do acolhimento e da hospitalidade, abrindo espaço para o novo e para o inesperado. A primeira feição da alteridade surgiria a partir do feminino para que se possa fugir de vê-la como um “tu neutro”: conceber a alteridade como neutra é perigoso porque conduz à possibilidade mística (e fascista) da fusão do dois em um, da redução do outro ao mesmo. Tal valorização do feminino, no entanto, parece resvalar no romantismo, mas dele escapa ao localizar as representações máximas da ética não por aí mas sim na “obra” e no “filho”, dois frutos da ética que se insinuam sempre na ingratidão. O filho desestrutura o amor assim como o artista não se reconhece mais na obra. Filho e obra são presentes desinteressados ao mundo porque não só não retornam ao eu como o ultrapassam.

O ponto alto do livro, por isso mesmo, é quando Rafael arrisca ultrapassar Lévinas, ao tratar da questão dos animais. Ele vê o “outro” não apenas como um outro homem, estendendo o conceito ao mundo em geral e aos outros animais (se animais também somos). Ele pergunta: teriam os animais rosto? Embarca assim na linhagem de um Nietzsche, que abraçou o cavalo chicoteado pelo cocheiro, e de um Montaigne, que observou: sob a ótica da moderação tão cara à filosofia, os animais são mais regrados do que nós porque se contêm nos limites que a natureza prescreve aos seres.

Como essa é questão delicada, como Rafael imagina que seu leitor tenha um animal de estimação (mas é carnívoro) e abomina a tortura (mas vai ao circo aplaudir a tortura de elefantes), ele constrói com muito cuidado seu argumento, perguntando-se não “será que eles pensam?”, como Kant, ou “será que eles falam?”, como Lévinas, mas sim, como Bentham: “será que eles sofrem?”. Rafael assim generaliza o pensamento de Lévinas e dissemina sua filosofia para além dele mesmo, sendo “ingrato” como o melhor filho, como o melhor discípulo – como o melhor aluno.

Um mestre não pode querer carinho maior.