DUBITO ERGO SUM

 A respeito do editor

 

Original Message

From: "João Paulo Cursino"

To: Gisele de Carvalho

Sent: Monday, February 05, 2007 11:46 AM

Subject: Educação pelo Argumento e a cola

 

Saudações, Professora.

Fui seu aluno de Inglês Instrumental na Faculdade de Direito da UERJ, creio que em 2002, quando a Sra. me incentivou a visitar o saite de ceticismo de vosso marido e me confidenciou que o conto de realismo fantástico sobre as aulas de piano a Adriana foram a motivação para o nome de vossa filha.

Ontem, tive em mãos um exemplar de Educação pelo Argumento, do Prof Gustavo Bernardo. O livro é um tanto acadêmico e quase hermético para mim, que não sou pedagogo, mas sempre me identifiquei com a idéia central (aliás cultivada por meu pai, Professor de Física e leitor de Piaget, e por ele praticada em mim) de que o conhecimento você só adquire sozinho, de que o Professor é aquela parteira de Sócrates, de que é você quem CONSTRÓI seu conhecimento, em um processo criativo.

Tive a ventura de ter sido instruído e educado no Colégio de São Bento nos anos 80, onde tinha que escrever uma ou duas redações por semana e onde, como regra, provas de múltipla escolha eram banidas. Acredito firmemente na idéia de que ninguém convence você de nada: você é que *se* convence pela razão, pela demonstração, pelo teste de hipóteses.

Então, cheguei a este trecho do livro onde o Autor demonstra a complexa e sutil sordidez (não usou estas palavras) do sistema de avaliação. O aluno depara-se com a prova de múltipla escolha onde não disserta, não desenvolve, cabe-lhe apenas escolher uma resposta dentre cinco já prontas. Começa em desvantagem: tem somente 20% de chance de acerto e, inquisitorialmente, o avaliador esconde-lhe método e solução, desafiando-o a trazer a chave para o enigma, para a charada que propõe.

Além disso, todo o sistema é construído com a doentia ênfase na proibição da cola, materializando aquela velha noção segundo a qual quem cria o crime não é o criminoso, mas o Estado: dizia o Bardo que "o fruto proibido é que é muito mais gostoso". A proibição é um convite irresistível. Diante da prova frustrante, diante de seu sentido não pedagógico mas robotizante, da necessidade meramente pragmática de se atender ao que se pede para se ganharam pontos (muitas vezes até sem que o próprio aluno saiba como os ganhou) e diante do mero meio metro que separa seus olhos da prova do colega -- a cola torna-se inevitável. É quase impossível colar em prova discursiva, onde a solução do aluno é única, seu raciocínio evidente e necessariamente demonstrado, mas a uniformização da múltipla escolha torna impossível aferir a legitimidade da marcação, impossível ter por certa a autoria da solução.

Nisso, o livro argumenta que o aluno, ao colar, apenas materializa as expectativas. Não transgride -- ao contrário, reinsere-se no sistema, realiza quase um rito de passagem, demonstra que o avaliador acertou em sua profecia de que haveria a cola, confirma-se um acólito da grande máquina de moer almas. Faz exatamente o que se espera que ele faça.

Ora, Professora, considere o seguinte. Meus pais ensinaram-me a não colar e, até mais ou menos a oitava série, foi por isso que não colei. Naquela época, meu fundamento para não colar tornou-se outro, muito mais visceral, mais profundo, mais vigoroso, e é o seguinte. Estou bem ciente do olhar fiscalizador do Grande Irmão. Sei que todos os fiscais de prova querem me pegar colando, querem derrotar-me, querem demonstrar sua superioridade e humilhar-me em face de meu insucesso em burlar sua vigilância. Ora, não lhes darei esse prazer. Não serei apanhado colando. A melhor, mais arquitetada, mais garantida forma de lhes subtrair essa glória é jamais colar. Não saberão que não colo; perceberão, em suas mentes distorcidas, que eu colo como os outros, mas ficarão atônitos em nunca me pegar, "como é que ele consegue?", e consigo porque "penso fora da caixa". Minha estratégia consiste justamente em sair das regras do sistema, trapacear quem me trapaceira, usando as regras deles contra eles mesmos. A burla infalível! Pois não poderão alegar que desobedeci a seu mandamento. Se disserem que eu colei, tanto eu como eles saberemos, todos saberemos que eles estarão mentindo; os fracos e covardes violadores, que não tiveram a força moral de se adequarem às regras deles, assumidamente, serão eles mesmos.

Minha trapaça vai além: o esconderijo máximo, o recôndito mais inatingível de qualquer pessoa são seus pensamentos e seu conhecimento. Se eu não os liberar a ninguém, ninguém terá acesso. Ao mundo somente é dado conhecer do que se passa em minha mente aquilo que eu voluntariamente libero. Assim, quando faço a prova, ninguém tem como saber o quanto sei da matéria. Presume-se que eu saiba pouco ou nada, mas escondo que, na verdade, sei mais. Minha trapaça está em ter estudado antes, quando não se esperava que estudasse; queriam pegar-me desprevenido, mas preparei-me. A cola está presente, sim: extraio as respostas da fonte imediata a que só eu tenho acesso, minha cabeça, onde ninguém vê que estou colando apesar de fazê-lo sob as vistas do fiscal.

Assim, quando li aquele parágrafo sobre a cola e sobre o aluno que, ao colar, faz o que dele se espera, percebi: sou eu, eu o verdadeiro transgressor! O único, o genuíno transgressor, aquele que NÃO faz o que o sistema espera que faça! Sempre tive esse ânimo, esse propósito inconformista, de rebelar-me contra as imposições da autoridade ou da coletividade sem ser pego. Não adianta ser o transgressor aparente, feito os jovens tatuados ou os criminosos; eles estão fazendo o que as normas proibitivas prevêem que façam e, assim, confirmando que não são exceções, mas que se subsumem à previsão normativa. O verdadeiro rebelde causa perplexidade, feito Newton, feito Gandhi, feito Jesus Cristo, dizendo, não sei por onde vou, sei que não vou por aí.

Fiquei me sentindo o máximo. Agradeço ao casal por isso.

Ass: João Paulo Cursino.