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FLUSSER, A TERCEIRA MARGEM
DO PENSAMENTO BRASILEIRO
Gustavo Bernardo
Publicado em O Globo em 06 de janeiro de 2007
Vilém Flusser (1920-1991) é um pensador tcheco, alemão ou brasileiro? Bem, ele nasceu na antiga Tchecoeslováquia, viveu trinta anos no Brasil e se tornou mais conhecido pelos livros que publicou em alemão. No entanto, o francês Abraham Moles considera-o um dos mais importantes filósofos brasileiros. Concordando com essa atribuição, a Johannes Gutenberg Universität promoveu recentemente, na pequena cidade de Germersheim, no sul da Alemanha, um simpósio chamado “A terceira margem: Vilém Flusser und Brasilien”.
A expressão “a terceira margem” alude ao conhecido conto de Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”. Guimarães Rosa foi um dos autores de ficção mais estudado por Flusser, junto com Franz Kafka. A expressão “a terceira margem” remete tanto ao significado do nome “Flusser” (em alemão, “rio” se diz Fluss) e a todas as conotações líquidas dele derivadas, quanto à possibilidade de superação dialética das dicotomias desgastadas, como causa- conseqüência e retrocesso-progresso.
Flusser chega no Brasil com 20 anos, fugindo da invasão nazista. Nos anos 50, naturaliza-se brasileiro. Nos anos 60 surge como filósofo multi-tarefa: leciona em Universidades, escreve em jornais diários, mantém um encontro semanal com discípulos no terraço de casa, publica livros seminais, como Língua e realidade, recentemente reeditado. No início dos anos 70, volta a viver na Europa. Depois de sua filosofia da fotografia, torna-se conhecido como “o Walter Benjamin da pós-modernidade”. Em 1991, volta à cidade natal para uma conferência, mas no dia seguinte morre em um acidente na estrada, seu carro colidindo com um caminhão branco no meio de forte neblina. A partir de então, vários encontros internacionais se deram sobre a sua obra. Na Alemanha, planeja-se publicar a sua obra completa. Aqui, a editora Annablume lança no início de 2007, pela primeira vez em português, sua autobiografia filosófica, Bodenlos, palavra alemã que significa “sem-chão”.
O simpósio de Germersheim contou com seis brasileiros (Izabela Furtado Kestler, Márcio Seligmann, Norval Baitello, Ricardo Mendes, Susana Kampff Lages e o autor do presente artigo), dez alemães (Susanne Klengel e Holger Siever, que organizaram o evento, Willi Bolle e Michael Hanke, que trabalham na USP e na UFMG, e ainda Anke Finger, Dirk Hennrich, Joachim Michael, Matthias Kroβ, Rüdiger Zill e Siegfried Zielinski) e o suíço Rainer Guldin (editor da revista Flusser Studies). Esteve presente a todas as conferências, conversando generosamente com cada pesquisador, a viúva de Vilém, Edith Flusser, hoje com 86 anos. Sua presença foi importante, quer por ter sido a leitora preferencial do filósofo, quer por esclarecer e lembrar a personalidade do marido. A obra de Vilém Flusser não se dissocia das suas performances em aulas e conferências ao redor do mundo, bem como da vasta correspondência que manteve com filósofos e artistas.
As conferências do Simpósio mostraram estar superada a fase de louvação de Flusser para fazer melhor o que ele mesmo gostaria, isto é, discuti-lo para a frente, agindo sobre suas provocações. Vilém Flusser transformou sua condição de vítima do nazismo em condição modelar, apresentando-se como mensageiro do homem novo: um ser nômade e sempre estrangeiro, portanto sem pátria, aberto à diferença e construtor de pontes. Foram múltiplas as pontes que Vilém tentou estender: entre as diversas línguas que dominava, entre a cultura européia e a cultura brasileira, entre a metafísica da dúvida e a avançada teoria dos novos media, e, principalmente, entre a ciência e a ficção.
Flusser apostava no brasileiro como possibilidade do novo homem ocidental, em especial na sua intrigante Fenomenologia do brasileiro, publicada antes em alemão como Brasilien oder die Suche nach dem neuen Menschen. O brasileiro, entretanto, incomodado com um pensador que repudiava as idéias combinadas de progresso e pátria, ainda não aposta em Flusser. Renato Janine Ribeiro já falou, em mais de uma conferência, que o brasileiro mais citado no exterior é provavelmente Vilém Flusser, mas o lemos pouco; uma reles pesquisa no Google aponta quase 200 mil entradas, mas a maioria absoluta em alemão ou em inglês. Muitos filósofos da academia universitária, no Brasil, não concordariam com Abraham Moles – primeiro, porque Flusser não é exatamente um filósofo acadêmico, e segundo porque, nos anos 60, ele criticou fortemente seus pares brasileiros.
Ele pensava sempre ex situ, isto é, buscando a cada reflexão uma nova perspectiva diferente da que se fazia, ou diferente da sua própria perspectiva em momentos anteriores. Entretanto, seu ponto de vista não era negativo, mas sim provocativo. Flusser considerava a filosofia brasileira, no mínimo, tímida, porque se restringia aos gestos rituais em volta das três ortodoxias: o tomismo, o marxismo e o positivismo. Então, ele virava suas baterias argumentativas contra as ortodoxias, sem se importar se os alvos se encontravam à direita ou à esquerda no espectro político. Pior, para ele, do que tomar ou não tomar posição no parlamento simbólico, seria pensar com a manada e não com a própria cabeça. Através dessa postura peculiar e agressiva, ele tentava sacudir os filósofos brasileiros – e só o fazia, por paradoxal que pareça, porque acreditava no brasileiro e no pensamento brasileiro.
Tanto sua aposta quanto sua crítica permanecem válidas? Tenho dúvidas quanto à aposta, carregada de messianismo, embora de tons metafísicos. Sua crítica, no entanto, permanece válida e merece ser lida. A filosofia de Flusser caminha entre o rigor da universidade e a leveza da fala de toda a gente: seu pensamento é tão rigoroso quanto a melhor “filosofia-da-torre-de-marfim” e, ao mesmo tempo, tão poético e claro quanto a melhor “filosofia-da-rua”. Nesse lugar sempre intermediário, o de eterno imigrante, ele se coloca como um outsider por definição, e sua importância para a filosofia brasileira deriva estritamente dessa condição.
Seu principal interlocutor no Brasil foi Vicente Ferreira da Silva, outro gigante esquecido e que trouxe o pensamento de Heidegger para os trópicos. A partir da obra de Vicente, morto precocemente em 1963, é que Flusser tentou sintetizar a fenomenologia de Husserl e a lógica de Wittgenstein, mas obedecendo à regra de ouro de Ortega Y Gasset: a claridade é a gentileza do filósofo. Essa mistura inusitada representa o que chamo de “filosofia-da-rua” e constitui a base da sua tardia, mas melhor conhecida, teoria dos novos media. Na Europa, o boom flusseriano, nos anos 80, partiu da sua filosofia da fotografia e o tornou conhecido no velho continente, mas contribuiu para afastá-lo do público brasileiro e para congelá-lo como “apenas” um teórico dos media. Em Germersheim, a alemã Anke Finger, que leciona nos Estados Unidos, teve a lucidez de chamar a atenção para a necessidade de estudar a obra de Flusser como um todo complexo e muito bem articulado, no qual as reflexões lingüísticas e existenciais produzidas no Brasil têm parte fundamental.
Trata-se de um esforço considerável, mas à altura daquele que escreveu: estrangeiro é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca e assim dá sentido ao mundo – porque “o homem é estrangeiro no mundo”.