Machado de Assis
O LIVRO DE CABECEIRA
DE MACHADO DE ASSIS:
O ECLESIASTES
Eliane Fernanda Cunha Ferreira
São Jerônimo, patrono dos tradutores, ao traduzir a Bíblia do hebraico para o latim, no final do século IV d.C, disponibilizou um dos maiores legados literários que a humanidade já recebeu. Desde então, o texto sagrado passou a ser a fonte mais citada nos escritos e pronunciamentos de toda natureza no Ocidente, abarcando as variadas áreas de conhecimento. Como relata Valery Larbaud, ainda em vida, Jerônimo
conheceu a glória literária durante toda a segunda metade de sua existência; e sua vida póstuma nos pensamentos dos homens (...). depois do crepúsculo de um 30 de setembro de mil e quinhentos e tantos anos atrás, depois da azáfama, do calor e da poeira de seu dia mortal, o escritor retorna à serenidade de sua obra e nela repousa, e nela se compraz, até o fim dos séculos. Esse Jerônimo dos pintores, que encontramos em toda a Europa, de Nápoles a Paris e Londres, de Estocolmo a Viena e Madri, não é um personagem lendário, um monge mítico glorificado pela devoção popular de uma era ignorante e bárbara, mas o homem de letras que ele foi — algumas das paisagens desérticas parecem mesmo inspiradas em suas descrições —, e nós não ficamos nem surpresos nem escandalizados de vê-lo ora no cume de um Olimpo cristão, representação do mundo onde seu pensamento vivia, ora na vizinhança de Dante; e por toda parte nessa biografia pictórica, associado àquilo que chamamos ‘espírito da Renascença’, assim como na geografia, a Espanha o associou à colonização do Novo Mundo (Valery, 2001:37)
Essa bibliografia pictória de São Jerônimo será retomada como ilustração de vários livros. Como exemplo cita-se A aventura do livro: do leitor ao navegador, de Roger Chartier, publicado na França em 1997 e em tradução no Brasil em 1998. Em defesa da cultura do livro, o historiador e especialista em história do livro e da leitura ilustra seu prólogo e o primeiro capítulo com pinturas de são Jerônimo. No prólogo, intitulado “A revolução das revoluções”, Chartier reproduz “Um são Jerônimo leitor de Georges de la Tour do primeiro quartel do século XVII, assim descrito: “usando óculos, vestido de cardeal, ele é representado lendo uma carta (talvez pontificial?) ao mesmo tempo que diante dele se abre o grande livro das escrituras”(Chartier, 1999:10).[1] O São Jerônimo reproduzido no primeiro capítulo, intitulado “O autor: entre punição e proteção”, é de Theoderich von Prag, da segunda metade do século XVI”, assim descrito: “Vestido como cardeal, o doutor da Igreja segura em suas mãos aquilo que pode ser um exemplar suntuosamente encadernado de sua própria tradução da bíblia. Ele indica assim a dupla autoridade do texto sagrado e da tradição da Igreja.” (Chartier, 1999: 24).[2]
Essas imagens são utilizadas por Chartier para demonstrar a permanência da cultura do manuscrito mesmo depois da invenção dos tipos móveis de Gutenberg. O primeiro livro impresso com essa técnica no mundo ocidental foi a tradução latina de Jerônimo da Bíblia, que passou a ser conhecida como Bíblia de 42 linhas (1455). Em língua portuguesa, a Vulgata latina foi traduzida pelo padre oratoriano, deputado português ordinário da Real mesa censória, Antonio Pereira de Figueiredo entre 1768 e 1779. Seria essa versão portuguesa, considerada a melhor escrita na língua de Camões, em edição de 1866, contendo o Velho e o Novo Testamento, que Machado de Assis leria e se apropriaria desse biblos para recriar diversas passagens em seus escritos.
Leitor assíduo, não somente da Vulgata, Machado tinha em sua biblioteca uma vasta literatura referente à teologia, à crítica histórica sobre religião, à vida de Jesus, ao desenvolvimento do cristianismo, à literatura hebraica, à história Muçulmana, aos sistemas religiosos e filosóficos da Índia e aos pensamentos de Pascal, exemplares esses em língua francesa, sendo alguns traduzidos do original em alemão para o francês. Veja-se a relação dos títulos da biblioteca de Machado de Assis, cujo acervo foi primeiramente catalogado por Jean-Michel Massa, tendo sido revisto mais recentemente em 2000 pela pesquisadora Glória Vianna, que, “por conta de sua tese de doutorado, refez o inventário dos livros, recuperando 15 dos que estavam dispersos em outras coleções. Estes últimos foram incorporados aos 718 listados por Massa em 1961” (Jobim, 2001: 12). Infelizmente, ao se fazer esse levantamento, Vianna constatou que 42 volumes da lista original de Massa estão extraviados.[3] Entre eles estão:
1. Les déicides examen de la vie de Jésus et des développements de l´egilse chrétienne dans leurs rapports avec le judaisme, de J. COHEN (1864).
2. La science des religions, de Emile BURNOUF (1872).
3. Philosophie du droit ecclesiastique: des rapports de la religion et de l´état, de Ad. FRANCK (1864)
4. Le pape et le concile, de JANUS (1864).
5. L´Immaculée Conception - études sur l´origine d´un dogme, de A . STAP (1869).
6. Histoire littéraire de L´Ancien Testament , de Th. NOLDEKE (1873).
7. Historie du Mahométisme, de Charles MILLS (1825).
8. Chants populaires du sud de L´Inde, sem o nome do autor (1868).
9. Pensées de Pascal (Précédées de sa vie par Madame Périer), de Blaise PASCAL
10. Bíblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento, traduzida em português por Antonio Pereira de Figueiredo, segundo a Vulgata Latina (1866).
Pode-se afirmar que, efetivamente, Machado de Assis leu essa bibliografia, pois como se pode constatar na leitura de sua obra, ela aparece disseminada em seus escritos, tendo como base fundamental de sua visão da condição humana , o “Livro da sabedoria” do Antigo Testamento. Este se assemelha aos livros poéticos sapienciais, embora não seja poesia, mas sim um mosaico composto de narrativas, que por serem obras mais populares do que críticas, já que se recorreu às tradições orais para escrevê-las, algumas delas são pouco confiáveis. Poderia-se pensar aí que Machado vai encontrar seu tipo preferido de narrador, o inconfessável e voluptuoso como Brás Cubas e Dom Casmurro. Não se deve perder de vista que Machado de Assis foi “coroinha” e que, portanto, teve um contato muito próximo das Escrituras Sagradas. A título de exemplo, apresenta-se um quadro de algumas obras de Machado de Assis em que de forma explícita, seja pelo título de capítulos ou mesmo do título de romances, como Esaú e Jacó, seja pelos de poesias e contos, evidencia-se a apropriação dos textos bíblicos que, em geral, são tomados com desenvoltura e maestria por Machado em constante diálogo intertextual em forma de epígrafe, de citação, de paráfrase, de paródia ou de tradução. Como se pode verificar no quadro abaixo, Machado acessa o arquivo bíblico, tanto do Velho quanto do Novo Testamento rearranjando-o, recriando um novo arquivo literário.
A LITERATURA SAGRADA NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS
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Adão e Eva (apólogo) |
Frei Simão (Contos fluminenses) |
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O velho diálogo de Adão e Eva (capítulo LV de Memórias póstumas de Brás Cubas) |
Na arca: três capítulos inéditos do Gênesis (conto) |
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O velho colóquio de Adão e Caim (capítulo XC de Memórias póstumas de Brás Cubas) |
Helena (romance) SABEDORIA |
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S. Mateus, IV, 1-10 (capítulo XLVII de Esaú e Jacó) “Vai-te, Satanás; porque escrito está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a ele servirás.” E seguiu-se como na Escritura: “Então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.” No mesmo cap. ref. Gênesis |
Iaiá Garcia (romance) Cânticos dos cânticos; Sabedoria, Eclesiastes (“tinha a convicção que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições...” – Cap. III). |
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Provérbio errado (capítulo LXXV de Esaú e Jacó) |
Dom Casmurro (romance) Cânticos dos cânticos – cap. XXXVI Eclesiástico – Jesus, filho de Sirac |
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Um Cristo particular (capítulo XCVII de Esaú e Jacó) |
Esaú e Jacó (romance) “Tudo é possível debaixo do sol e da lua.” – cap. L |
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A igreja do diabo (conto – Histórias sem data) |
Memorial de Aires (romance) Cânticos dos cânticos – 26 de março; Eclesiastes (compor outro Ecclesiastes a moderna – 24 de agosto) |
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Manuscrito de um sacristão (conto – Histórias sem data) |
Casa velha (conto) Cânticos dos cânticos – cap. V |
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Entre santos (conto – Várias histórias) |
A cristã nova ( poesia – Americanas) |
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Viver! (conto – Várias histórias) |
Antônio José (poesia – Americanas) |
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O cônego ou metafísica do estilo (conto – Várias histórias) |
Elogio da vaidade (conto – Páginas recolhidas) |
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Pobre cardeal (conto – Relíquias de casa velha I) |
O dilúvio (poesia – Crisálidas ) |
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Fé (poesia – Crisálidas ) |
“Ite, missa est” (poesia – Falenas ) |
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Crônicas (Os livros das crônicas – Esdras) |
O caminho de Damasco (Histórias românticas) |
Não se comentará aqui todo esse arquivo sacro-literário machadiano, considerando o pouco tempo para a apresentação dessa comunicação, mas apenas os relacionados ao Antigo Testamento, notadamente o “Livro da Sabedoria”, enfatizando o Eclesiastes, composto de 12 capítulos que contêm reflexões, em geral, pessimistas, sobre o objeto e a natureza da existência, já que provavelmente advém daí o tão referenciado cepticismo do escritor brasileiro por alguns estudiosos de sua obra. Também se referirá ao pouco conhecido e citado poema “A cristã nova”, como exemplo do “olhar judaico em Machado de Assis” analisado por Anita Novinsky (1990), com o objetivo de demonstrar a “sensibilidade de Machado na abordagem de tema tão dramático e controvertido, e que tão fortemente atingiu o Brasil”, o da perseguição aos judeus. Segundo Arnaldo Niskier, no prefácio do livro de Novinsky, “Em“A cristã nova” há elementos de primeira ordem para recordar as seqüelas de um período de intolerância quase inacreditável” (1990:2-3) — a Inquisição, em que, segundo Novinsky,
está o modelo ideal da implantação de regimes totalitários, dos seus métodos de tortura, de como são tratados dissidentes políticos e sociais, de como isolar milhares de pessoas proibidas de conhecer suas origens culturais, da miséria dos condenados ao silêncio e à incomunicabilidade, do racismo mascarado em novas ideologias e da apropriação de bens como fiança desses crimes (1990: 3)[4]
Como comenta Niskier, “para Anita Novinsky a Inquisição ainda existe e incumbe a cada um de nós, com a sua formação democrática, verberar o que ela representa.” Além do poema “A cristã nova”, Machado “tratou do judeu em vários de seus trabalhos, em prosa e verso: Viver, O dilúvio e Antônio José” (Novinsky, 1990: 9). Ao buscar esse tema na obra machadiana, Novinsky não hesita em afirmar que “Machado de Assis sentia a questão judaica e olhava com profunda simpatia para o percurso dos judeus através da história. Em “A cristã nova”, procurou transmitir uma imagem trágica, pessimista e sem solução para o conflito interior, subjetivo, do judeu.” (1990: 11). Aproprio-me da análise do poema feita por Novinsky:
O poema está dividido em duas partes, a primeira com nove e a segunda com dezenove estrofes. As primeiras nove são dedicadas ao passado, à tradição. O poema conta uma história; os personagens são três: um ancião cristão-novo; Ângela, sua filha; e seu noivo Nuno, cristão velho. Constituído de maneira dialética, o poeta “joga com três conceitos principais, profundos, dois dos quais são característicos da obra machadiana: a Tradição e a Continuidade, completados pelo conceito judaico de Sacrifício” (p. 13).
Ao conceito de Tradição, explicitado anos depois da publicação desse poema, no ensaio “Instinto de Nacionalidade” (1873), Machado de Assis, pela retórica do nem...nem, ao defini-lo: “Nem tudo tinha os antigos, nem tudo têm os modernos, com os haveres de uns e outros que se enriquece o pecúlio comum” (Machado de Assis, 1952: 148, v. 29), por analogia, estaria retomando a correspondência da identidade com o povo de Israel, proposta por Novinsky em sua análise de “A cristã nova”, assim como o de Continuidade, que no poema “seria a perseverança do judaísmo entre os cristãos-novos no Brasil ou a fidelidade ao Deus de Israel, completado com o conceito de Sacrifício representado pelo “martírio em nome do Amor, e neste caso o Amor é tanto divino (no velho) quanto humano (na moça)” (Novinsky, 1990:13). Esses três conceitos são tratados em três temos no poema: “Na Guanabara, numa noite silenciosa, quando um velho cristão-novo sonha com a pátria perdida (Israel); no Rio de Janeiro, em guerra, invadido pelos franceses [1711], que Nuno vai defender; e no momento em que os Agentes da Inquisição vêm buscar o velho judaizante e herege” (p.13).
Nesse poema da juventude, todo escrito em ordem inversa, inserido no período em que se retrata as figuras femininas românticas, Machado, como homem de seu tempo e de seu país, cria a personagem Ângela, bela e virgem, como a própria Ruth bíblica, trazendo “o sentido trágico da existência: tudo poderia ser tão perfeito, o pai, a filha, o amor, como em Isaac e Rebeca, mas os “familiares” o esperam e chamam” (p. 23). “Na estrofe quinze, quando o familiar vem buscar o cristão-novo que não pertence a Moisés nem a Jesus, Ângela pode escolher a vida, mas opta pelo sacrifício. E através do martírio, a [“cristã recente”] volta à fé antiga. Ela diz “nossa fé”. Só a contradição da alma humana anima o final. No mundo que Machado evoca, o vencedor é o carrasco, o algoz. O amor, a lealdade, o sacrifício terão de esperar a eternidade, e talvez lá Deus leve em conta o “muito amor” e o “padecer extremo da vida” (Novinsky, 1990: 24).
Como devorador do arquivo cultural da humanidade, buscando inserir a sua produção literária nele com marcas nacionais Machado, desde os seus primeiros escritos, seja como poeta, tradutor, crítico e teórico de tradução, censor dramático, prefaciador e comediógrafo valia-se dos textos alheios para construir os seus próprios, desconstruindo e homenageando ao mesmo tempo seus pais literários como Shakespeare, considerado por ele como “o mestre dos mestres”, assim como o Deus literário, a Bíblia, no sentido grego da palavra, livro, de consulta permanente, também de Harold Bloom, que considera o poeta e dramaturgo inglês, o inventor do humano.
Em “A cristã nova” assim como em Dom Casmurro, Machado, ao retomar no primeiro “um tema da história judaica — o drama da conversão dos judeus e de seu destino —, e no segundo a tragédia shakespeariana, Otelo, em ambos deu-lhes uma forma brasileira. No poema, o ancião viveu os melhores momentos de sua vida e ao mesmo tempo o pior deles quando os “familiares” da Inquisição o vêm buscar. No romance, também estruturado no método dialético, encontra-se o Otelo brasileiro, Dom Casmurro, que pelo som da terminação do nome em inglês, moor, como observou Helen Caldwell (1960), já denuncia o diálogo com a história do mouro de Veneza de Shakespeare. No entanto a analogia cessa aí, pois Dom Casmurro não é um general poderoso, mas um seminarista e advogado, que tem o poder da palavra de Deus e dos homens, tornando-o assim, aparentemente, mais forte que o tolo Otelo.
A análise da presença da literatura bíblica como intertexto no romance, a título de exemplo, foi feita por Helen Caldwell (1960) em The Brazilian Othello of Machado de Assis, traduzido para a língua portuguesa em 2002; por Silviano Santiago, em “Retórica da verossimilhança” (1978), e, mais recentemente, por Lígia Militz da Costa em Ficção brasileira: paródia, história e labirintos (1995). Em Dom Casmurro vai-se encontrar a retomada tanto de passagens do Velho como do Novo Testamento. Comparando o narrador machadiano, depois que se torna “bacharel” (“Doutor”), com São Tiago, Costa evidencia o diálogo com o Novo Testamento, demonstrando a transformação parodística, as inversões, os desvios manifestados pelas atitudes do narrador. São vários os exemplos elencados pela ensaísta. No capítulo CI, “o convívio apostolar de São Tiago e São Pedro, por exemplo, companheiros em vida na propagação da fé, transforma-se na narrativa num relacionamento disparatado entre Dr. Santiago e o santo das chaves do céu, por ocasião do casamento com Capitu”:
São Pedro que tem as chaves do céu, abriu-nos as portas dele, fez-nos entrar, e depois (...) recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos...Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração...” (Machado de Assis, 1957: 322).
Continuando sua análise, Costa demonstra a paródia que inverte essa passagem em que se cita literalmente o texto bíblico, presente no mesmo capítulo:
É verdade que Capitu, que não sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras (...). Quanto às de São Pedro, disse-me no dia que estava por tudo, que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas renda deste mundo (Machado de Assis, 1957: 322).
Para confirmar a sua afirmativa de que houve a inversão do texto bíblico, Costa assim a desenvolve:
Enquanto a pregação de são Pedro admite o amor pelo marido como o maior adorno da mulher, Capitu nega a afirmação, dizendo que o marido seria o único adorno que jamais poria em si, e o dr. Santiago promete dar a ela “as mais finas rendas deste mundo”. Distorcidas, as palavras do santo passam a traduzir para o casal outra ideologia, que não a cristã. Trata-se de uma visão invertida do credo, a qual, em lugar do simples amor no coração dos cônjuges, prevê a sua felicidade relacionada à fortuna, ou seja, aos adornos materiais de alta qualidade, flagrando um “São Tiago” radicalmente afastado da pregação espiritual cristã do santo das chaves do céu. (...) a fidelidade à fé cristã, causa do martírio de São Tiago, capaz de perdoar seus algozes no momento em que eles o assassinavam, encontra seu inverso simétrico no Dr. Santiago, que indeciso entre Deus e o diabo, acaba optando pelo mal, ao tentar assassinar Ezequiel e ao desejar-lhe, ardentemente, a lepra, no que praticamente sai vitorioso, porque o jovem morre de febre tifóide na Palestina, sendo enterrado nas proximidades de Jerusalém. Também São Tiago fora sacrificado em Jerusalém. Entretanto, na narrativa, a vítima não é o “santo”, mas o “filho” dele. Dr. Santiago sai ileso da história. Ao contrário de ser mártir da fé, como o santo católico, o narrador é como o executor do mal, à medida que projeta a morte para o filho renegado e ainda comemora o seu desaparecimento. O amor cristão de São Tiago é subvertido no texto, quando transformado no amor narcísico do Dr. Santiago. A auto-idolatria que faz a paródia da fé cristã exemplifica-se no afastamento sumário que o narrador decreta aos familiares, por suspeitar que não o espelhem com a transparência desejável (Costa, 1995: 35-36).
Comprovada a inversão da “Epístola de São Tiago”, que é uma das sete cartas das “Epístolas Gerais” endereçadas aos cristãos, contida no Novo Testamento, verifica-se ainda a retomada explícita do Eclesiástico, um dos livros do Velho Testamento, também conhecido como “A sabedoria de Jesus, filho de Sirá”, escrito entre os anos 195 e 171 a .C. por Jesus, filho de Sirá, composto sobretudo de máximas de maneira similar ao “Livro dos Provérbios”, em que o autor explica como se conduzir sabiamente em todos os aspectos da vida. Dessa maneira, a narrativa machadiana apropria-se tanto do Novo como do Velho Testamento, já que no último capítulo do romance o narrador, “num último esforço de autoperdão e de convencimento do leitor — opõe a palavra de Jesus, filho de Sirach e autor do Eclesiástico, a um argumento metafórico, típico do verossímil, do provável”, conforme Silviano Santiago em seu ensaio “Retórica da verossimilhança”, citando o versículo 1 do capítulo IX, intitulado “Atitude a respeito das mulheres” do Livro do Eclesiástico:
O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirac, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu capítulo IX, versículo 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.” Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca (Machado de Assis, 1957: 441).
Para demonstrar a sua tese sobre a retórica da verossimilhança presente na construção da narrativa machadiana, Silviano Santiago cita um trecho da carta do padre Bauny escrita a Pascal, na qual criticava o sistema: “Quando o penitente segue uma opinião provável, o confessor deve absolve-lo, ainda que sua opinião seja contrária à do penitente”. Pascal também criticava o “mundo barroco dos casuístas, devido à instituição do probalismo como teoria”, que chegava “a equívocos extraordinários e sobretudo à organização de uma religião que não conduzia à fé ou à caridade, mas que queria pela benevolência, receber em seu seio os grandes e os nobres, agradá-los para receber em troca seu agradecimento” (Santiago, 2000: 45). Será justamente a encenação desse probalismo do “tudo podia ser”, nas palavras do narrador, que “sustenta o vigor interno da narrativa, a ponto de tornar confiável e viável um relato até absurdo. (...) Com um discurso reiteradamente explicativo, porém falso se relacionado às ações às quais se refere, Dom casmurro consagra a retórica da persuasão como o artifício fundamental do seu sucesso e permanência”, segundo Costa (1995: 41). Um outro livro da sabedoria também é citado, o Cântico dos cânticos, mas devido ao tempo não será apresentado. Porém, resta afirmar que de todos os livros que compõem o “Livro da Sabedoria”, sem dúvida o Eclesiastes foi o livro de cabeceira do leitor/escritor Machado de Assis, na medida em que não acreditava que existisse algum texto que não retomasse um outro, pois como afirma o personagem Boas noites de Diálogos e reflexões de um relojoeiro, “Já alguém afirmou que citar a propósito um texto alheio equivale a tê-lo inventado.” Em seu último romance, Memorial de Aires (1906) esse seu pensamento permanece:
Qual! não posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão. Venhamos novamente à notação dos dias.
Desta vez o que me põe a pena na mão é a sombra da sombra de uma lágrima...
Creio tê‑la visto anteontem (22) na pálpebra de Fidélia, referindo‑me eu à dissidência do pai e do marido. Não quisera agora lembrar‑me dela, nem tê‑la visto ou sequer suspeitado. Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens, — ou mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a adversidade... Aí está; tinha resolvido não escrever mais, e lá vai uma página com a sombra da sombra de um assunto.
Também, se foi verdadeiramente lágrima, foi tão passageira que, quando dei por ela, já não existia. Tudo é fugaz neste mundo. Se eu não tivesse os olhos adoentados dava‑me a compor outro Ecclesiastes, à moderna, posto nada deva haver moderno depois daquele livro. Já dizia ele que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim contraditório e vago também (Machado de Assis, 1952: 125-126).
Esse será o posicionamento assumido pelo escritor, que ao acessar o arquivo da cultura ocidental retira todas as citações de que precisa para colocá-las, entre aspas ou não, em seus textos. Como um homem da tesoura, Machado recorta os tecidos para formar, de forma harmoniosa, as suas colchas de retalhos.
Segundo Antoine Compagnon (1996), o trabalho de citação é o de evidenciar o processo intertextual efetivado pelos escritores. Por meio das citações, traça-se um perfil das leituras feitas pelos produtores de textos. “A mola do trabalho da citação é uma paixão pelo fenômeno, pelo working ou o playing, pelo manejo da citação.” (p. 34). E é desta maneira que Machado de Assis, como escritor latino-americano, “brinca” com o cânone, com a tradição literária ocidental. Ao citar em tradução ou não, ele, ao mesmo tempo em que desconstrói seus ‘pais literários’, reverencia-os.
No trabalho de citação, o escritor é um manobrista do fazer recortes e colagens. A noção essencial da citação é a de jogo. Nesse sentido, a citação funciona também como reescrita porque, “escrever, pois, é sempre reescrever, não difere de citar. A citação, graças à confusão metonímica a que preside, é leitura e escrita, une o ato de leitura ao de escrita”, segundo Compagnon (1996:31). Por meio da citação, o escritor exercita o ato da apropriação. Ao se apossar de um texto alheio, o escritor precisa incorpora-lo, para livrar-se do sentido de alienação que permeia tal ato, por remeter-lhe à noção de “roubo”. Nesse sentido, as reflexões do relojoeiro coadunam com o trabalho da citação demonstrado por Compagnon.
Como um “ladrão de palavras”, Machado de Assis, pela citação de textos canônicos ou não, evidencia antes de tudo um leitor eclético que soube empregar com artimanha e arte os tesouros literários apropriados da humanidade. Os livros, como desejava São Jerônimo, sempre estiveram perto de sua mão e de seus olhos. Nos “Livros da sabedoria”, Machado encontrou “alimento para seus pensamentos” e reflexão sobre a existência melancólica do ser humano. Pela escrita, buscou caminhar em direção à sabedoria, o que para Harold Bloom (2003: 26), é a verdadeira utilidade da literatura para a vida.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA SAGRADA. A.T. e N. T. Tradução dos originais hebraicos, aramaico e grego, mediante a versão francesa dos Monjes Beneditinos de Maredsous (Bégica) pelo Centro Bíblico Católico de São Paulo. São Paulo: Ave Maria, 1959.
BLOOM, Harold. Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O´Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
CALDWELL, Helen. The Brazilian Othello of Machado de Assis: a study of Dom Casmurro. Berkeley: University of California Press, 1960.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Tradução de Reginaldo de Moraes. São Paulo: EdUESP; Imprensa Oficial do Estado, 1999 (Prismas).
COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Tradução de Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte: EdUFMG, 1996.
COSTA, Lígia Militz da. Ficção brasileira: paródia, história e labirintos. Santa Maria: EdUFSM, 1995.
JOBIM, José Luís. A biblioteca de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Topbooks; ABL, 2001.
LARBAUD, Valery. Sob a invocação de São Jerônimo: ensaios sobre a arte e técnicas de tradução. Tradução de Joana Angélica. São Paulo: Mandarim, 2001.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Jackson, 1957.
———. A cristã nova. In: ———. Poesias. Rio de Janeiro: Jackson, 1952, v. 18, p. 288-314.
———. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Jackson, 1952.
———. Literatura Brasileira – Instinto de nacionalidade. In: ———. Crítica literária. Rio de Janeiro: Jackson, 1952, v. 29, p. 129-149.
NISKIER, Arnaldo. Machado, Anita e os judeus. In: NOVINSKY, Anita. O olhar judaico em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Expressão e cultura, 1990. (Prefácio)
NOVINSKY, Anita. O olhar judaico em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1990.
SANTIAGO, Silviano. Retórica da verossimilhança. In: ———. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978.
VULGATA LATINA. Tradução portuguesa de Antonio Pereira de Figueiredo. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1786.
[1] Esse quadro se encontra no Museu do Louvre em Paris.
[2] O título do quadro é Hieronymus, de cerca de 1348-1380, pertencente ao acervo da “Narodni Galerie”, em Praga.
[3] Em 2002, o restaurador de livros, João Batista Ferreira Chagas, apresentou ao presidente da ABL um projeto para a preservação da memória de leituras de Machado de Assis, que está sendo executado.
[4] Análise de Novinsky sobre a Inquisição citada por Niskier no prefácio ao livro O olhar judaico em Machado de Assis da autora.