DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

 

ALCIDES MAYA LEITOR DE MACHADO DE ASSIS

Carlos Alexandre Baumgarten

 

 

O ensaio crítico no Rio Grande do Sul, como no restante do país, tem sua prática vinculada ao jornal e à revista. Nas páginas dos periódicos literários ou não, aqueles que exercem o ofício da crítica encontram espaço para seus estudos que, em geral, passam mais tarde à publicação em livro, se seus autores atingem reconhecida penetração entre os interessados pelos estudos literários. Originalmente, no entanto, o ensaio crítico é escrito para jornal.

No Rio Grande do Sul, a partir da segunda metade do século XIX, em função do grande número de periódicos surgidos na Capital e no interior, desenvolveu-se o ensaio crítico. Foi nesse período que despontaram aqueles que primeiro se dedicaram à atividade crítica, como foram os casos de Glodomiro Paredes, Bernardo Taveira Júnior e, sobretudo, Apolinário Porto Alegre, responsável pela publicação do melhor e mais extenso estudo crítico do período: José de Alencar – Estudo biográfico. Estes estudos, entretanto, se constituíram apenas num esforço inicial no sentido de se desenvolver a atividade crítica no Estado, mostrando-se superficiais e pouco especializados, como já se teve oportunidade de referir em estudos anteriores.2

A crítica literária no Estado conseguiu atingir maior profundidade a partir da República, quando as teorias taineanas e comteanas passaram a dominar o cenário cultural sul-rio-grandense de forma definitiva, sendo elas as responsáveis pela disciplina e rigor que caracterizaram nossa produção crítica já nos últimos anos do século XIX. Ainda aqui, a crítica literária é crítica de jornal, despontando os periódicos A Gazeta de Porto Alegre, tendo como redator Carlos von Koseritz, A Reforma, órgão do Partido Liberal, A República e o Petit Journal, já no início do século XX, entre outros jornais espalhados pelo Rio Grande do Sul.

Deste período, foram os trabalhos de Alcides Maya, sem dúvida o primeiro, dentre os gaúchos, a apresentar uma produção crítica continuada e harmônica e a respeito do qual Flávio Loureiro Chaves afirmou:

 

Em verdade, torna-se difícil classificá-lo numa tendência ou linhagem determinada e esta é precisamente sua principal qualidade. À unilateralidade conservadora de sua ficção corresponde, contraditoriamente, a abertura intelectual de que se serve na atividade crítica.3

 

Em 1897, Alcides Maya estréia, com apenas dezoito anos, com o livro de ensaios Pelo futuro, prefaciado por Carlos Maximiliano e constituído por escritos de natureza diversa, abordando temas literários, históricos, filosóficos e outros. O conjunto de textos de Pelo futuro revela um ensaísta conhecedor das diferentes doutrinas de cunho cientificista surgidas na segunda metade do século XIX e, à época da publicação de seu trabalho, dominantes no meio intelectual brasileiro. Os ensaios críticos iniciais de Alcides Maya, embora quase todos reunidos em livro, surgiram inicialmente nas páginas de nossos principais periódicos, como foi o caso de "Literatura nacional"4, publicado primeiramente em 1898, n’A República, jornal porto-alegrense, ou de "A nossa história literária", divulgado no Correio do Povo, ao longo de três números, sob os títulos "Literatura brasileira"5 e "Literatura nacional"6, saindo, mais tarde, em 1900, no livro intitulado coerentemente Através da imprensa.

Ao lado dos textos que discutem problemas relativos à literatura brasileira, Alcides Maya publicou uma série de outros em que a produção intelectual estrangeira também foi alvo de exame. Este é o caso de um conjunto de artigos publicados no Correio do Povo, sob o título Estudos e Notas, onde se examinam "Cyrano de Bergerac"7, de Rostand, "Complications sentimentales"8, de Paul Bourget, "Lês revenants"9 e "Casa de bonecas"10, de Ibsen, que comprovam o largo conhecimento e atualização cultural deste que foi nosso primeiro crítico digno de nota, dada a variedade de sua produção.

Se a leitura dos dois livros iniciais de Alcides Maya já revela um ensaísta de talento e competente na discussão das questões literárias é, todavia, com o Machado de Assis – algumas notas sobre o humour, de 1912, que ele atinge o ponto alto de sua produção e tem seu nome reconhecido nacionalmente. Essa condição até então não ocorrera com nenhum dos críticos sul-rio-grandenses, cuja obra nunca logrou avançar além das fronteiras do Estado.

O certo é que, decorridos doze anos de sua última publicação na área da crítica literária, até então caracterizada basicamente pelo ensaio curto, Alcides Maya divulga o estudo sobre a obra machadiana, alentado volume de mais de cento e sessenta páginas que, na opinião de Augusto Meyer, é uma clara mostra do seu valor, em qualidade e profundidade.11

O livro apresenta-se estruturado em quatro capítulos: o primeiro é dedicado à conceituação e caracterização do humour; o segundo, o mais longo de todos, debruça-se sobre a obra de Machado de Assis, procurando, à luz dos conceitos emitidos na primeira parte do trabalho, definir a técnica narrativa, o estilo e o espírito do autor de Dom Casmurro; o terceiro aborda a questão da nacionalidade; por fim, realiza a revisão da crítica à produção machadiana, rebatendo as afirmações negativas a ela endereçadas.

O humour é, para Alcides Maya, enfado e tristeza do mundo e do homem, mas tristeza mista de impassibilidade e de pena à percepção das cousas e enfado que o prazer da análise tempera de orgulho12 e, ao mesmo tempo, tragicomédia de um homem que indiretamente se confessa.13

O conceito assumido pelo ensaísta reveste-se de um caráter geral e universalizante e, nessa medida, desautoriza qualquer espécie de limitação que se lhe queira impor. Por essa razão, ao discorrer sobre o assunto, fundado em leituras de Hegel, Carlyle, Schlegel, Hennequin e outros, contrapõe-se a Taine por haver este lançado mão do critério da raça, circunscrevendo o fenômeno do humour aos anglo-saxões:

 

O critério de raça não tem o valor que lhe atribui o publicista francês. É um estudo superficial, o de Taine, confundindo influências secundárias com fatores essenciais, produto de lamentável especialismo, de um método materialista de laboratório, inaplicável às letras.14

 

Apesar de conservar o caráter polêmico, característico de seus livros iniciais, Alcides Maya vai aos poucos distanciando-se da ortodoxia no que diz respeito ao cientificismo dominante no final do século XIX, especialmente do determinismo taineano, nele reconhecendo relativa aplicabilidade em matéria literária. Esta nova postura, reveladora da maturidade alcançada por seu trabalho, permite a consideração do humour sob uma ótica flexível, em que ele é entendido como literatura de negação, de pessimismo e, pois, essencialmente humana e não nacional, de um só povo ou de uma só raça15 , sendo, portanto, tese falsa, a de que, em arte, possa um povo diferir consubstancialmente do outro.16

Ao invés de vincular sua argumentação a esse elemento de natureza restrita, o autor reafirma o caráter sociológico de seu ensaio e justifica a presença do humour a partir do contexto sócio-histórico-político típico dos períodos de transição, o que faz dele um fenômeno universal passível de ocorrer em qualquer literatura. Entre o fim de uma fase histórica e o início de outra, situa-se sempre um intervalo em que a dúvida sobre os valores em geral se instala, determinando o aparecimento do humorista, que

 

É um forte bom, vencido, mas sobranceiro à derrota, e na atitude que assume, não de orgulho puro, e sim de altivez dolorosa, há, anulando o despeito pessoal, uma certeza superior das contingências terrenas.17

 

A consideração do humour e do humorista como um fenômeno essencialmente humano abre caminho para a análise de Machado de Assis sob uma perspectiva nova no plano da crítica brasileira, revestindo de originalidade o estudo desenvolvido por Alcides Maya. Para ele, a obra do autor de Brás Cubas, além do pessimismo e ceticismo, vem assinalada por uma filosofia do supremo desengano, em que a dúvida é menos que dúvida, pois desaparece na certeza do irreparável.18

O ceticismo, o pessimismo, a dúvida e o desengano na focalização da realidade, elementos característicos da expressão literária machadiana, conduzem o autor a concluir pela presença do humour em sua obra, fato que a singulariza no contexto da literatura brasileira, em geral marcado por uma produção em que o ufanismo e a crença no progresso do homem e do País são a nota dominante.

Original também é a leitura da obra poética de Machado de Assis, na qual o ensaísta reconhece que dos românticos foi o único entre nós a influir, pelo seleto da língua e da métrica, sobre a geração parnasiana.19 Igual juízo pode ser encontrado em críticos contemporâneos, como Péricles Eugênio da Silva Ramos20, o que demonstra, senão acerto, pelo menos a longevidade alcançada por alguns conceitos emitidos por Alcides Maya. O mesmo tom otimista e de franca admiração na abordagem do texto do autor de Quincas Borba leva-o a formular uma outra idéia que, depois de seu estudo, torna-se lugar comum na crítica literária brasileira:

 

Machado de Assis não se dobrou a escolas, nem se dedicou a uma literatura de proselitismo: ao surgir, manteve-se sereno entre os exageros clássicos e românticos; e, quando após as obras iniciais, se afirmou integralmente em arte, surgiu cultivando novas formas.21

 

Ao colocar a obra machadiana acima das escolas literárias, o crítico reforça a posição positiva do romancista no plano da literatura brasileira e eleva-o à condição de um clássico, porquanto nele reconhece uma expressão artística moderna e universal, resultante dos seguintes aspectos:

 

Era um humorista. Impressionara-o a cultura das grandes nações; adquirira uma concepção geral do mundo, da vida e da história; ocidentalizara o seu gênio.22

 

O reconhecimento do caráter universal do trabalho de Machado de Assis não impede que Alcides Maya o veja como um representante da expressão literária brasileira, pois o selo nacional, na sua obra, está na verdade inconcussa dos tipos e do meio e no estilo.23 Como se percebe, o ensaísta, ao realizar a leitura da obra machadiana, não escapa da discussão envolvendo o problema da nacionalidade da literatura brasileira, tão presente em seus escritos iniciais e no ensaio crítico do período e, ao mesmo tempo, aproxima-se de idéia já defendida pelo próprio autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, no conhecido “Instinto de nacionalidade”:

 

Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea; é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura. (...) Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam.24

 

A análise da obra do autor de Esaú e Jacó proporciona uma série de reflexões sobre a literatura produzida no Brasil, em que o crítico destaca o caráter de cultura transplantada por ela assumido. O conjunto dessas considerações permite a Alcides Maya concluir que até o Romantismo o que se nota em essência é da psicologia ocidental e o que mais se descobre é brasileiro de intenção.25 Recusando a ênfase em um nativismo escuro e grosseiro26, como forma de atingir a identidade cultural, o ensaísta passa à discussão do uso da língua, caminho para a construção de uma literatura brasileira realmente autônoma. É este o espaço ocupado pela obra de Machado de Assis, que

 

É um artista do português novo (...). Enriqueceu o vernáculo de páginas admiráveis; suavizou de graciosidade a velha sintaxe da língua, revestindo-a, ritmando-a originalissimamente, sem que ela perdesse a pureza, nem se imobilizasse no módulo oracional clássico.27

 

A produção machadiana corresponde, nessa medida, ao ponto alto da literatura brasileira na sua busca por uma expressão própria, original e independente. Com este posicionamento, Alcides Maya não só contraria os ataques dirigidos a Machado, principalmente no que se refere à ausência de sentimento nacional em sua obra, como alarga o horizonte de seu ensaio crítico, conferindo-lhe atualidade no que diz respeito à reflexão acerca da questão da nacionalidade.

A ênfase no estilo, - elemento de cunho eminentemente formal -, não significa que Alcides Maya abandone a postura sociológica característica de seu ensaio. Após analisar uma série de personagens machadianos, nos quais reconhece tipos e valores brasileiros, conclui:

 

No Brasil, as criações de Machado de Assis, arrancadas à própria vida, sem intenções de escola artística, estampam, como poucas, apesar do pessimismo do autor, a psicologia real da sociedade.28

 

Assim, se, por um lado, aproxima-se de Sílvio Romero na valorização de aspectos de natureza social na abordagem do fenômeno literário, por outro, dele se distancia na avaliação da obra de Machado de Assis, assumindo um posicionamento semelhante ao de José Veríssimo, em sua História da literatura brasileira, de 1916.

A análise do percurso do processo literário brasileiro também merece a atenção de Alcides Maya. Ao realizá-la, mais uma vez ficam demonstradas a atualidade e maturidade atingidas por seu ensaio crítico, notadamente quando aborda o Romantismo, cujo esforço na tentativa de criação de uma literatura americana é reconhecido, mas

 

Onde o cunho autêntico, iniludível da originalidade mestiça nas obras que, então, surgiram aqui, assinadas por escritores e poetas que viam com olhos europeus as paisagens da América e de sentimento europeu animavam as nossas gentes rudes?29

 

Alcides Maya refere-se especialmente ao nacionalismo romântico e, nesse sentido, seu juízo, ainda que datado de 1912, em muito se aproxima do encontrado na historiografia literária contemporânea.30 Além disso, pautando sua atividade de ensaísta pela discussão dos grandes temas de que se ocupava a intelectualidade brasileira, o autor de Pelo futuro é o responsável pela inscrição do Rio Grande do Sul no contexto maior do debate cultural que se travava no País no início do século XX. Mais do que isso, ao publicar o Machado de Assis – Algumas notas sobre o humour, não apenas atinge o ponto alto de sua produção crítica, como dá início, no plano regional, a uma longa tradição de estudos dedicados especificamente à análise da obra machadiana, como os de Augusto Meyer, Moysés Vellinho, Raymundo Faoro e Flávio Loureiro Chaves, em épocas distintas. Nessa perspectiva, sua leitura da obra de Machado de Assis assume um caráter duplamente inaugural: de um lado, revaloriza a contribuição de Machado para a construção da literatura brasileira, num momento em que o autor de Brás Cubas vinha recebendo, no âmbito da crítica e historiografia literária, um mau tratamento; de outro, abre caminho, no Rio Grande do Sul, para a recepção crítica da obra machadiana que, depois de seu trabalho pioneiro, afirma-se como uma vertente fértil e continuada.

 

 

Notas

 

1. Trabalho vinculado ao projeto de pesquisa "Machado de Assis e o ensaio crítico sulino", que vem recebendo apoio do CNPq.

2. Ver, a propósito: BAUMGARTEN, C. A. Literatura e crítica na imprensa do Rio Grande do Sul: 1868 a 1880. Porto Alegre: EST, 1982. V., também: BAUMGARTEN, C. A. A crítica literária no Rio Grande do Sul. Do Romantismo ao Modernismo. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1997.

3. CHAVES, Flávio Loureiro. O ensaio literário no Rio Grande do Sul (1868-1960). Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; Brasília: INL, 1979. p. XVII.

4. MAYA, Alcides. Literatura nacional. República, Porto Alegre, 28.7.1898.

5. ___. Literatura brasileira. Correio do Povo, Porto Alegre, 26.2.1898.

6. ___. Literatura nacional. Correio do Povo, Porto Alegre, 1º/4.3.1899.

7. ___. Estudos e notas – Cyrano de Bergerac. Correio do Povo, Porto Alegre, 24.7.1898.

8. ___. Estudos e notas – Complications sentimentales. Correio do Povo, Porto Alegre, 28.7.1898.

9. ___. Estudos e notas – Lendo Ibsen. Correio do Povo. Porto Alegre, 18.9.1898.

10. ___. Estudos e notas – Lendo Ibsen. Correio do Povo. Porto Alegre, 25.9.1898.

11. MEYER, Augusto. Prosa dos pagos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1960. p. 140.

12. MAYA, Alcides. Machado de Assis – Algumas notas sobre o humour. Rio de Janeiro: Livraria Editora Jacinto Silva, 1912. p. 11.

13. Op. cit. nota n. 11, p. 13.

14. Op. cit. nota n. 11, p. 16.

15. Op. cit. nota n. 11, p. 17.

16. Op. cit. nota n. 11, p. 19.

17. Op. cit. nota n. 11, p. 14.

18. Op. cit. nota n. 11, p. 33.

19. Op. cit. nota n. 11, p. 78.

20. V., a propósito: RAMOS, Péricles Eugênio. A renovação parnasiana na poesia. In: COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: UFF, 1986. v. IV. p. 91-149. Em seu estudo sobre a poesia parnasiana, o autor assume posições semelhantes às de Alcides Maya sobre o papel desempenhado por Machado de Assis junto aos principais poetas do Parnasianismo.

21. Op. cit. nota n. 11, p. 138.

22. Op. cit. nota n. 11, p. 139.

23. Op. cit. nota n. 11, p. 135.

24. ASSIS, Machado de. Instinto de nacionalidade. In: ___. Crítica. Rio de janeiro: Garnier, 1910. p. 12-13.

25. Op. cit. nota n. 11, p. 135.

26. Op. cit. nota n. 11, p. 146.

27. Op. cit. nota n. 11, p. 139.

28. Op. cit. nota n. 11, p. 107.

29. Op. cit. nota n. 11, p. 134.

30. V., a propósito BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1980. V., ainda, CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975.