DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

O ENCANTADOR CÉTICO:
Francisco Sánchez e
Miguel de Cervantes

 

Gustavo Bernardo

UERJ – UFMG – CNPq

 

 

Trabalho apresentado no GT de Ceticismo no
XII Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF
em Salvador, BA, em 24 de outubro de 2006

 

 

Dom Quixote da Mancha é conhecido por sua idéia fixa de tornar real o mundo dos romances de cavalaria. Esse projeto tinha alguns problemas: primeiro, ele mesmo era um personagem, portanto, não era real; segundo, o mundo dos romances de cavalaria também não era real; terceiro, os romances de cavalaria já estavam fora de moda na época de Quixote, tanto que o romance de Cervantes se apresenta como a sátira daquelas histórias. Logo, parece que o personagem não tem dúvidas, antes, uma obsessão cômica. No entanto, a leitura das suas aventuras desperta dúvidas essenciais: sobre os limites que separam a ficção da realidade, o sonho da consciência, o ideal do cotidiano.

A dúvida se apresenta desde a primeira linha do romance: “Em um lugar da Mancha, de cujo nome não me quero recordar...” (Cervantes, 1605). A Mancha era de fato uma região da Espanha, mas seu nome já sugere um borrão, logo, imprecisão. O narrador não deseja precisar o lugar dos acontecimentos. O Cavaleiro da Triste Figura percorre as estradas da Espanha como metonímia de toda a ficção: ele duvida da realidade e propõe outra no lugar, exatamente como os poetas e os prosadores. Sua lança torta representa a pena dos escritores.

O fidalgo tem certeza quanto a suas fantasias: se o gigante que combate se transforma de repente num reles moinho de vento, ele atribui a culpa a um encantador invisível e preserva a ilusão. Os demais personagens têm certeza quanto à loucura do protagonista. Mas a narrativa contrapõe a tais certezas algumas incertezas curiosas: qual era o verdadeiro nome do fidalgo: Alonso Quijada, Alonso Quesada, Alonso Quejana ou Alonso Quijano? Qual é o verdadeiro nome da mulher de Sancho Pança: Joana Gutiérrez, Maria Gutiérrez ou Teresa Pança? Qual é a verdadeira identidade do narrador: Cide Hamete Benengeli, Miguel de Cervantes ou ainda um terceiro anônimo?

“Tudo no cosmos quixotesco é de índole caleidoscópica” (Cal, 1973: 33). O fidalgo se torna Dom Quixote da Mancha, mas também o Cavaleiro da Triste Figura. A rude camponesa Aldonza Lorenzo vira a princesa Dulcinea del Toboso, o bacharel Sansão Carrasco ora é o Cavaleiro dos Espelhos ora o da Branca Lua. Os objetos inertes e os animais mostram a mesma capacidade de apresentar múltiplas aparências: moinhos de vento são gigantes, rebanhos de carneiros são exércitos, estalagens são castelos, humildes bacias de barbeiro tornam-se elmos mágicos: “todos os grandes temas do livro, a vida e a morte, o amor, o valor, a justiça, a fé e a razão, participam dessa mobilidade conjectural” (Cal, 1973: 34).

O tempo da narração parece linear, mas forma um labirinto relativista. Dom Quixote viaja 2 dias mas a ama protesta que foram 3. Passam-se apenas 3 noites desde que o cavaleiro saiu pela primeira vez com o seu escudeiro, mas é este quem diz na estalagem que estão há um mês buscando aventuras. Quando Dom Quixote e Sancho discutem sobre o salário, o criado transforma os cerca de 30 dias da jornada em 20 anos e 3 dias “más o menos”. A ama ora está próxima dos 40 anos de idade ora tem mais de 50. Sancho escreve à mulher e data a carta de 20 de julho, mas no dia seguinte recebe uma carta datada de 16 de agosto.

O momento mais surpreendente desse jogo acontece quando Dom Quixote pergunta ao bacharel se o autor das suas aventuras promete uma 2ª parte. Sansão responde que Cide Hamete de fato fez essa promessa, mas disse que não a achou nem sabe quem a tem, logo, todos se encontram em dúvida se esta 2ª parte sairá ou não. Ora, o diálogo ocorre exatamente na 2ª parte, capítulo 4: os personagens se encontram dentro da mesma 2ª parte sobre a qual se tem dúvida se existe, quem a tem, se sairá ou não. Encontramo-nos assim “na situação surpreendente de ouvir as próprias figuras do livro que estamos a ler negarem a existência desse livro e, conseqüentemente, a sua própria” (Cal, 1973: 51). Alguns cervantistas lamentam os erros de Cervantes, considerando-os manchas no romance. No entanto, os sucessivos “erros” de Cervantes são obviamente intencionais (Cal, 1973: 49): tudo se passa na região ambígua da Mancha. As “manchas” de Miguel de Cervantes são experiências de pensamento com a relatividade do tempo, do espaço e do próprio pensamento.

Não sabemos o que seja a vida real a não ser através da sua contradição, a ficção. É o que mostra a batalha contra os moinhos de vento. No capítulo 8 da 1ª parte, caminham pelo campo Dom Quixote e seu escudeiro. De repente, eles vêem 30 ou 40 moinhos de vento. O número dos moinhos é impreciso como tantos outros do enredo, reforçando a incerteza. Assim que o cavaleiro os descobre, rejubila-se por poder enfrentar os gigantes. Sancho contesta o amo: “veja vossa mercê que aqueles ali não são gigantes, mas sim moinhos de vento”. Na seqüência, Quixote não concorda com Sancho e arremete contra os gigantes, gritando: “não fujam, criaturas vis e covardes, que um único cavaleiro é este que os ataca!”. Os moinhos não saem de onde estão, mas o cavaleiro chama a atenção de que ele é um contra muitos.

Eis um dos principais aspectos do quixotismo: a solidão. O melhor cavaleiro não faz parte de exército nem empunha qualquer bandeira. O cavaleiro andante não deseja seguidores, ele luta sozinho contra quantos e quais forem os inimigos. Contando apenas com Rocinante e a lança, enfrenta os terríveis gigantes de quatro braços. Logo um desses braços o colhe e ao cavalo, jogando ambos longe no campo. Sancho corre para acudi-lo e repreendê-lo: “não disse a vossa mercê que visse bem o que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e não o podia ignorar senão quem levasse outros tantos na cabeça?”. O escudeiro terá criado naquele momento a expressão “moinhos de vento na cabeça” para designar o parvo ou o louco. Em parte por conta dessa fala, a cena tornou-se emblemática do quixotismo. Quixotesco é quem luta contra moinhos de vento sem perceber que não pode vencê-los. Quixotesco é quem se pretende cético, sabendo que não pode sê-lo completamente... e assim chego a meu tema.

A posição do cético não pode ser soberana, sequer constante. O caminho cético é tão solitário quanto o de Dom Quixote. Enquanto o pensamento dogmático supõe a possibilidade de ser o único a ter razão, logo, que no dia da vitória todos deverão segui-lo, o pensamento cético é forçado a abdicar dessa possibilidade, abdicando de qualquer pretensão a vitória, hegemonia ou unanimidade. Só lhe resta persistir na sua obsessão quixotesca com a dúvida.

Como sabemos, o fidalgo é obcecado pela leitura dos velhos romances de cavalaria. Os livros, que se multiplicam na biblioteca do fidalgo como nas nossas, fazem imagem das interrogações fundamentais. Logo no capítulo 6 do 1º volume, os amigos do protagonista atacam a sua biblioteca para eliminar os livros que perturbavam seu juízo. A cena soa engraçada pelo prazer que a ama demonstra ao jogar os livros janela afora, montando no quintal a pilha que será queimada. Mas o prazer da ama e do leitor contrasta com a lembrança das fogueiras de livros ao longo da História, inclusive aquelas contemporâneas a Cervantes. É oportuno lembrar que, justo no ano do seu nascimento, aparece o primeiro Index e são votados os primeiros estatutos de “pureza de sangue” (Vieira, 1998: 24). Dom Quixote acaba por representar a tolerância quando a Espanha se mostrava mais fanática (Vieira, 1998: 51). Ao examinar os livros supostamente danosos da biblioteca, tanto o cura quanto o barbeiro demonstram ter lido e apreciado quase todos os volumes. A constatação sugere que os demais personagens são tão quixotescos quanto Dom Quixote, de que todos são acometidos da doença do protagonista mas a escondem de si mesmos e uns dos outros. Muitos livros são jogados na pilha mas vários são salvos, principalmente os mais originais, deixando clara uma avaliação estética comandada pela mão invisível de Cervantes.

O episódio da biblioteca remete à Inquisição espanhola, que procedia de maneira independente de Roma e foi ativa até o século 19. De modo a melhor disfarçar a crítica implícita ao terror, Cervantes arruma na biblioteca apenas os romances de cavalaria, “escondendo” do cura, do barbeiro e do leitor os trabalhos já proibidos do holandês Erasmo de Rotterdam e do português-espanhol Francisco Sánchez. No entanto, eles se encontram bem presentes na narrativa. Nesta comunicação, limito-me a tocar na relação de Cervantes com Sánchez, que em 1581 publicou um breviário da incerteza intitulado Quod Nihil Scitur – em português, Que Nada se Sabe.

No seu tempo, Sánchez foi chamado de “doutor em ceticismo”, “príncipe dos céticos”, “grande pirrônico” e “restaurador do ceticismo”. As primeiras linhas do prólogo do seu livro alertam que o autor não se exime daquilo que vai criticar e questionar: “é inato ao homem querer saber; a poucos foi concedido saber querer; a menos ainda, saber. A mim, não me coube sorte distinta à dos demais” (Sánchez, 1581: 49). Todos os seres humanos querem saber, mas a poucos foi concedido “saber querer”, isto é, saber como saber. Desses poucos, menos ainda puderam, de fato, saber – na verdade tão poucos que seu número não chega à unidade. O filósofo não se considera diferente, portanto, não se considera iluminado: ele também não sabe e o reconhece. Seu livro vai tratar da dificuldade, no limite, da impossibilidade de se saber o que realmente importa.

Para chegar a esta tese, Sánchez desde a infância fazia indagações à natureza, lia os textos dos antigos, conversava com os contemporâneos, mas não chegava a nenhuma conclusão segura. Em conseqüência, retornou a si mesmo e “pondo tudo em dúvida como se ninguém jamais houvesse dito nada, passei a examinar as coisas mesmas, que é o verdadeiro modo de saber”. Quanto mais pensa, no entanto, “mais duvido, pois nada posso abarcar com perfeição. Desespero, mas persisto” (Sánchez, 1581: 49).

Se estas palavras nos lembram as primeiras páginas do Discurso do método (1637), de René Descartes, não será casual: elas de fato parecem um plágio do prólogo de Quod Nihil Scitur. Mas o espanhol deixava clara a igualdade entre pensar e duvidar, o que o francês fará apenas em La recherche de la vérité, diálogo filosófico incompleto publicado após a sua morte, em 1701, mas provavelmente redigido na década de 30 do século anterior (Maia Neto, 2001: 62). Nele Descartes, de acordo com a minha perspectiva, amplia sua célebre fórmula: de “cogito ergo sum” para “dubito ergo sum, vel quod item est, cogito ergo sum” – em português: duvido, logo, existo, ou, o que é o mesmo, penso, logo, existo.

Segundo Maia Neto, no entanto, os estudiosos de Descartes tendem a considerar a fórmula completa como uma redução e não como uma ampliação do “cogito”. Nos termos do próprio Descartes, entender a fórmula completa como redutora é pertinente, uma vez que, ao igualar pensar a duvidar, o filósofo não poderia chegar às certezas tão desejadas no Discurso do método. Nos termos da filosofia cética, no entanto, me parece adequado entender a fórmula completa como uma ampliação, e não apenas sintática: quando igualou pensar a duvidar, René Descartes confirmou-se, recorrendo à expressão de Popkin, um cético radical malgré lui même. Para Richard Popkin, se Descartes pretendeu dar cabo da crise pirrônica do período refutando cabalmente o ceticismo, na verdade terminou por agravá-la, dado o fiasco da sua estratégia de encontrar a certeza através da radicalização da dúvida.

Francisco Sánchez, por seu turno, desespera mas persiste: ele precisa saber mas sabe que não pode saber. Sánchez, provavelmente a partir da leitura de Arcesilau, põe em questão a célebre afirmativa de Sócrates, “só sei que nada sei”, asseverando que: “nem sequer sei isto: que não sei nada. Suspeito, todavia, que nem eu nem os outros. Seja meu estandarte esta proposição, que aparece como a que se segue: nada se sabe” (Sánchez, 1581: 55). Quando Sócrates disse saber apenas que nada sabia, ele fez uma afirmação paradoxal, provavelmente irônica, que já revelava o caráter auto-contraditório do conhecimento e da linguagem. O filósofo espanhol explicita este caráter e põe sob suspeita exatamente o sujeito que saberia ao menos que nada sabia: como ele pode saber que é um “ele” e não um nada? Não posso saber sequer que nada sei, assim como todos, porque não posso saber sequer quem sou e se sou. Dessa maneira a sua proposição, o seu estandarte, traz o sujeito obrigatoriamente indeterminado: que nada se sabe.

O sujeito é antes uma função sintática do que uma coisa em si. O sujeito é antes um nome. Partindo dessa perspectiva nominalista, Francisco Sánchez entende que os livros de Metafísica contêm tão-somente definições de nomes que remetem a outras definições de nomes, circularmente e ad infinitum. Logo, “toda questão é uma questão de nome”. Sabemos que tal palavra significa isto? Não, porque “tu não sabes o que é ‘significar’, logo, não sabes que esta palabra significa isto” (Sánchez, 1581: 67). Em outras palavras, não se sabe o que é saber porque “saber” é ainda uma palavra e, como toda palavra, cobre um vazio mas não o preenche: “o conhecimento perfeito exige um cognoscente perfecto e uma coisa devidamente disposta para ser conhecida, exigências ambas que não se têm visto jamais” (Sánchez, 1581: 165).

Os melhores cientistas sempre buscaram a ciência, mas ao mesmo tempo eles sempre souberam que nunca poderiam atingir a onisciência. Ora, se não se sabe tudo, nunca se sabe se se sabe algo. Se não se percorreu todo o caminho, não se pode saber quanto falta para se chegar lá. Em conseqüência, toda ciência não pode ser mais do que um conjunto de aproximações à realidade e à totalidade, aproximações das quais não se pode determinar o valor preciso. Cada aproximação é uma suposição; cada suposição, uma ficção necessária. Ora, Francisco Sánchez afirmava isto claramente: “toda ciência é ficção” (Sánchez, 1581: 82). A ciência se obtém por demonstração e esta supõe a definição, a qual, todavia, não se pode provar. Acresce que toda demonstração e todo problema científicos exigem desconsiderar a maior parte dos dados envolvidos no problema, sem o que não há possibilidade de solução.

Há uma expressão latina para este procedimento de descarte: ceteris paribus. A expressão significa o equivalente a: “tudo o mais sendo invariável” ou “desconsiderando-se os demais elementos”. Quando Galileu Galilei afirmou que um corpo posto em movimento impulsionaria o movimento inicial nele empregado até o infinito sem perda de energia, pensava a partir de ceteris paribus, ou seja, que a resistência do ar e tudo o mais deveria ou ser considerado invariável ou desconsiderado. Logo, “para saber es necesario ignorar” (Sánchez, 1581: 83) – eis um dos principais paradoxos constituintes da ciência.

O filósofo chama de encantadores todos aqueles que não reconhecem que o saber é um fingir-que-se-sabe: “estes nossos encantadores que, confiando nas palavras ainda que nada saibam, alardeam todavia que sabem muitas coisas para não serem acusados de ignorância. Eu, ao contrário, confesso de boa vontade minha ignorância, e de melhor vontade ainda ponho a deles a descoberto. Eu não sei nada. Eles, menos” (Sánchez, 1581: 64). Ora, onde encontraremos novamente os encantadores do filósofo? Exatamente no romance de Miguel de Cervantes, especialmente no capítulo 25 do 1º volume: “andam entre nós outros sempre uma caterva de encantadores que mudam e truncam e enrolam todas as nossas coisas segundo o seu gosto e segundo a sua gana de nos favorecer ou de nos destruir” (Cervantes, 1605). A solução dos encantadores faz parte da loucura do personagem, mas ao mesmo tempo transforma essa loucura em um campo que produz ficções. Tais ficções duplicam dentro do romance o papel da ficção mesma: primeiro, duvidar da realidade e dos discursos sobre ela; segundo, formular uma realidade alternativa; terceiro, refinar a realidade que vivemos.

Os encantadores de Sánchez e de Cervantes não são exatamente os mesmos, mas todos põem sob suspeita a percepção e a razão humanas ao mesmo tempo em que valorizam tanto a própria suspeita quanto a imaginação, desse modo aproximando os campos do ceticismo e da ficção. Sancho sustenta uma espécie de ceticismo como o entende o senso comum, desconfiando de tudo que não possa ver ou tocar. A convivência com o amo, todavia, quixotiza-o aos poucos, levando-o a refinar o próprio ceticismo de maneira a incluir a imaginação e admitir o valor da ficção. Em direção inversa, Dom Quixote é progressivamente sanchificado: de início distingue sabedoria no meio das frases feitas do seu escudeiro e, depois, na hora derradeira, tira a sua armadura idealista para poder morrer. O procedimento cruzado da quixotização de Sancho com a sanchificação de Quixote reproduz na ficção o cerne do procedimento cético, a saber, a epoché. Ao leitor, costuma ocorrer a lembrança apenas das derrotas do cavaleiro. No entanto, uma releitura atenta computa, dos 40 embates de Dom Quixote, 20 derrotas, sim, mas perfeitamente equilibradas por 20 vitórias (Close, 1990: 52). O romancista novamente promove a epoché, relativizando vitória e derrota, sanidade e loucura, sabedoria e ignorância.

O louco usualmente age e fala como o mais sensato dos homens, enquanto os homens sensatos muitas vezes agem e falam como pessoas bastante perturbadas. Como lembra Ian Watt, Dom Quixote nos é apresentado como imitador insano do cavaleiro-modelo. Entretanto, ele guarda muitas características humanas independentes do suposto modelo: não é sempre sanguíneo, impaciente ou entusiasmado, porque pode ser também sóbrio, cético e “pé-no-chão”, dominando plenamente as próprias emoções (Watt, 1996: 71). A equivalência, em inglês, de “skeptical” com os outros dois adjetivos, “sober”, sóbrio, e “matter-of-fact”, pé-no-chão, revela que a loucura do personagem esconde suas maestria e sabedoria.

Para Dom Quixote, o personagem literário que tem como maior desejo se tornar exatamente o que é, a saber, um cavaleiro como o dos romances que leu, o mundo é um livro, e livro de ficção. Para entendê-lo é preciso lê-lo de acordo, invertendo as expectativas do senso comum, ou seja, das pessoas que não lêem, de modo a reconhecer verossimilhança nos eventos mais inverossímeis. Só assim o fidalgo se espanta sem parar, mas sem se espantar com o próprio espanto. Só assim o fidalgo pode ler e escutar o mundo como os melhores céticos. O cavaleiro não deseja ter razão, considerando essa vontade uma impertinência e mesmo falta de educação. Ele deseja apenas combater contra o melhor inimigo. Por isso, a leitura das aventuras do cavaleiro desperta dúvidas essenciais, dúvidas estas que ampliam, e não diminuem, as perspectivas sobre a realidade.

Do mesmo modo que a bacia de um barbeiro se torna o elmo mágico de Mambrino, o louco se transforma em um sábio e a ficção se apresenta como mais verdadeira do que a própria realidade.

 

 

Referências

 

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