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ENTRE LÚCIA E LÚCIAS:
de Alencar a Bernardo,
de Bernardo a Alencar
Giselle Maria
O primeiro livro de Alencar que li foi Senhora. Estava no primeiro ano do Ensino Médio, quando ainda era chamado Segundo Grau, e, recordo-me agora, foi o primeiro romancista brasileiro que li na vida. Tinha quatorze anos. Certo escritor afirmou que tudo começa no ano em que nascemos. Comigo não; tudo começou com meus quatorze anos, o 96 de iniciações: escola nova, amigos novos, primeiro beijo, primeiro namorado, primeiro fora (obviamente nesta ordem), primeira vez que provava comida japonesa, primeira vez em exposição de arte (Rodin e sua Eva, Miró e seu Almoço de Domingo), e primeira vez com Alencar.
Fui iniciada por um José...
Muito prosaico.
Como toda primeira vez, o encontro com José não foi dos melhores (parafraseando a personagem de “Nunca houve uma mulher como Gilda” - José, nome tão difícil de lembrar e tão fácil de esquecer). O excesso de detalhes em Senhora chateou-me sobremaneira e me deu uma visão que agora reconheço errada sobre nosso romancista. Rompi com José, apesar do dez na prova a respeito de seu livro.
Mas, como é sabido, a primeira vez a gente nunca esquece. Depois de saídas com Gracilianos, Fernandos e Joaquins (Manuel e Maria) caí novamente nos braços, ou melhor, nas letras de José. Iracema, tão belo, tão doce, tão verso, a virgem que não era mais - e por que a chamam ‘virgem de Tupã’ até o ‘fim’ da estória? Pelo mesmo motivo que assim chamam a mãe de Cristo, outra virgem que não é mais... Discordaram de mim. Iracema, tão poesia... Não dá para comparar. É outro José, José poeta, não José romancista.
Nova recaída - recordar não é viver ? Revivo José com Lucíola. A terceira vez redime o romancista do desastre da primeira. Acontece. Reconheço José. Conheço Lúcia.
A Lúcia de Alencar.
“Lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos”, assim começa o narrador a definir Lúcia. A antítese luz/treva, claro/escuro, a partir daí, passa a ser uma constante na obra, a maneira como se ‘explica’ a personagem. Lúcia, a jovem prostituta rica e famosa, de caráter frio e gênio insolente, a “mulher bonita” devassa, infame, dominada pelo desejo, pecadora, é a mesma Lúcia de rosto cândido, gestos modestos, fisionomia calma, a mesma Lúcia de ar infantil, grande amor e imensa melancolia. Como nos espelhos em profusão que ornavam sua casa e que “multiplicava e reproduzia ao infinito”, fazendo com que as imagens se projetassem em todos os sentidos, as imagens de Lúcia, a prostituta, a menina, a senhora recatada, confundem-se na obra, pairando em todos os sentidos, dando à identidade dessa mulher a aparência de retalhos sobrepostos.
Entretanto, no desenrolar da trama, a antítese se enfraquece. O amor por Paulo leva à anulação da paixão, do desejo, do sexo, do prazer e da própria Lúcia. A prostituta, envolventemente ambígua e contraditória, morre aos poucos enquanto surge Maria da Glória, o segredo da estória. O duplo nome Lúcia/Maria da Glória explica a contradição presente na obra. O contraste trevas/luz é Lúcia/ Maria da Glória, e a morte da primeira é a redenção, pela morte, da segunda. A maternidade, vista como conseqüência da vida indigna, fracassa, representando assim o fracasso das trevas ante a vitória da luz. O fim das antíteses e a retomada da História: a expiação do pecado pela morte do inocente. A salvação.
Fui às lágrimas com o final que relata a sua morte, sem concordar com o motivo dela. Nunca esqueci Lúcia. Guardei-a como recordação doída do gênio de Alencar, como minha queixa e defesa do romancista. Lúcia assustou e acalentou meu sono, como um fantasma, por um bom tempo até ceder lugar a outros fantasmas impostos pelo Curso de Letras. Pensei ter me livrado dela, até que...
... conheço Bernardo. Este não é José, é Gustavo, não é do século XIX, é do XX. Pós-moderno? Quem sabe? Quem sabe o que é pós-moderno? E o que José tem a ver com Gustavo? E Lúcia? Emoção. Reconheço Alencar em Bernardo, vislumbro José em Gustavo. Reconheço Lúcia. A Lúcia de Alencar?
As Lúcias de Bernardo.
De Alencar é retomado o nome, a contradição da personagem, a antítese claro/escuro, esta não mais presente no comportamento da personagem, mas no físico, na imagem, o que infunde ambigüidade maior. Loira, negra, olhos negros, olhos verdes... Como ‘explicar’ a distinção física? Ela realmente existe? O personagem-narrador não sabe explicar porque não pode compreender. A mulher que se apresenta a Paulo é Lúcia, negra “trigueira”, bela, sensual, exposta nua em revistas masculinas. A mulher que se apresenta a Paulo é Lúcia, loira, meiga, virgem, aluna, menina. Alencar soluciona a questão de sua Lúcia fazendo um jogo temporal: Lúcia, a prostituta de hoje, é Maria da Glória, a adolescente casta de ontem, levada à prostituição pela necessidade financeira da família. Fundem-se duas identidades, representadas por dois nomes, numa só. Bernardo ‘soluciona’ a questão de sua Lúcia não fundindo, mas separando: o nome é o mesmo, mas se trata de duas mulheres - o mistério das gêmeas, as cópias biológicas perfeitas que permeiam o imaginário masculino desde sempre. Separam-se duas identidades, representadas por um só nome. Entretanto, Alencar prevalece, a junção se realiza ainda assim, pois se em José, Lúcia e Maria da Glória são duas em uma, em Gustavo, Lúcia e Lúcia são uma em duas.
Duas mulheres que encantam e seduzem o narrador, assim como a Lúcia de Alencar. Mas há uma ressalva, um ponto de discordância e, paradoxalmente, de concordância entre as personagens: o prazer sexual. Se em Alencar, Lúcia vive o gozo imensamente até que seu amor por Paulo exija o fim do desejo, em Bernardo o gozo não se concretiza. O que pensar da ausência do prazer? Em Alencar o sexo é tido como contrário ao amor puro de Lúcia, sendo necessário o cessar do sexo, a negação do prazer, para a total purificação. Em Bernardo não há ausência do sexo e a negação do prazer; se busca e se quer o gozo, mas este não ocorre. Se em Alencar a punição pelo pecado é a negação do desejo, em Bernardo se pune o desejar com a ausência do gozo.
Duas em uma. Ambigüidade, dualidade. Presença e ausência. Enigma.
A comparação das Lúcias bernardianas com a esfinge que desafia Édipo é conveniente e própria. E proporia uma outra. As Lúcias não são apenas esfingéticas. Lembram as deusas antigas espanholas e as divindades hispano-americanas. A “Dama de Elche”, imagem da Espanha Ibérica, com seus ornamentos orientais, sua mantilha que lhe cobre os cabelos (pudor ou malícia?), com discos enormes que cobrem as orelhas, um tipo de walk-man primitivo que a comunica com uma música que só ela escuta (celestial? infernal?). Vesga, ambígua, sedutora, a “Dama de Elche” simboliza tanto a ternura quanto a perversidade, tanto o erotismo quanto a santidade, tanto a virgindade quanto o pecado, tanto a maternidade quanto a devassidão. Tão ambígua quanto as deusas maias, incas e astecas: Coatlicue e Pacha Mama, as mães da Terra, representantes da fertilidade e da morte, e Tlazoltéotl, símbolo da impureza e da pureza ao mesmo tempo - divindade que limpava a terra devorando a sujeira.
As Lúcias de Bernardo não são trevas que se tornam luz. À semelhança das divindades antigas, são mulheres e meninas, negras e brancas, virgens e putas, mães e amantes, puras e impuras, divinas e terrenas. Ambíguas.
Ambigüidade. Ambigüidade própria das identidades pós-1945, mais que fragmentadas, pulverizadas, fluidas em meio ao turbilhão econômico, político, social e cultural em que o mundo se transformou, onde o tempo foi posto em desalinho, o espaço se expandiu além do imaginável e se perderam as referências.
Perderam-se as referências, mas nem todas. As Lúcias do século XX também morrem, a maternidade também fracassa e a História, tantas vezes negada, é novamente retomada. Mais uma vez a morte do inocente, a expiação, o fim do corpo, o resgate da alma. A salvação.
Século XX, “novos tempos novos”. O mundo é enigmático, as identidades são múltiplas, variadas. As esfinges modernas (ou pós-modernas?) que se erigem a questionar: devorar ou se deixar decifrar? Deusas de hoje entre purificar ou se deixar macular? O que escolher?
De Alencar a Bernardo, de Bernardo a Alencar. Homenagem ou punição? Relação. Um círculo que não se fecha, uma Lúcia que leva à outra Lúcia, e à outra e à tantas outras... Divindades modernas, esfinges que não propõem nada, são elas mesmas o próprio enigma.
Entre Lúcia e Lúcias, uma certeza: mulheres.