DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

FILOSOFIA BRASILEIRA?:
FILOSOFAR IN SITU

Gustavo Bernardo Krause

 

Resumo da Conferência proferida no Colóquio Internacional
 "A terceira margem: Vilém Flusser e o Brasil",
em Germersheim, Alemanha, em 12 de outubro de 2006.

 

Em alemão.

 

Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.

 

Fremd und sonderbar ist, wer sein eigenes Sein in der Welt, die ihn umgibt, behauptet. Dadurch gibt er der Welt einen Sinn und beherrscht sie auf eine gewisse Weise. Beherrscht sie tragisch, integriert sich nicht. Die Zeder ist in meinem Park fremd. Ich bin ein Fremder in Frankreich. Der Mensch ist ein Fremder auf der Welt.

 

Vilém Flusser. Natural:mente (1978) e Vogelflüge (2000)

 

 

A experiência de migração de Vilém Flusser é traumática. O filósofo tinha o hábito, no entanto, de transformar trauma em filosofia. A dupla condição de estrangeiro e fugitivo seria normalmente negativa, mas ele a transformava na estrutura do próprio pensamento. Assumindo a essência ficcional desse pensamento, fazia da sua condição de eterno migrante uma metáfora da situação humana, definindo o homem como estrangeiro no mundo.

O enraizamento do homem é um conceito ideológico, pois na prática ninguém é enraizado. Um homem com raízes firmes na terra parece antes um legume do que um homem. Para ser homem é preciso assumir o próprio desenraizamento. A dignidade humana reside precisamente na falta de raízes e na liberdade de permanecer estrangeiro, de permanecer diferente dos outros, um outro dos outros: “a pátria do apátrida é o outro”. O exílio, vivido como a expulsão violenta de pessoas de suas condições originais, transforma-se na oportunidade para que as pessoas se tornem humanas no sentido pleno.

Para Flusser, os migrantes são as janelas através das quais os nativos podem ver o mundo. Os migrantes escapam por instantes do condicionamento cultural e se tornam livres à força. Eles são condenados à liberdade e assim descobrem aquele lugar em que se é livre. Tal lugar, no campo do pensamento, pode ser chamado de “ironia”, porque promove deslocamento semelhante aos da migração e do exílio, porque puxa o cobertor dos hábitos lingüísticos e o joga fora da cama.

Filosofar se torna o gesto paradoxal por excelência, porque implica assumir uma espécie de auto-exílio. Busca-se não a raiz, mas sim o desenraizamento; busca-se não a resposta, mas sim a pergunta; busca-se não a certeza, mas sim a dúvida. Busca-se não “o seu lugar”, mas sim o não-lugar. Neste sentido, filosofar in situ implica filosofar ex situ. Logo, a pergunta contida no título do ensaio, “Filosofia brasileira?”, não pode ser respondida inteiramente, mas se pode-se desdobrá-la em novas perguntas: como um tcheco de nascimento e educação pôde fazer filosofia brasileira? Ou: como um filósofo tcheco viu a filosofia brasileira?

Vilém chega ao Brasil em 1940, com 20 anos, mas só “aparece” para a filosofia já com 40 anos de idade. Neste período aprendeu a língua e fez a sua formação intelectual sozinho, sem escola nem mestre. Sua condição de estrangeiro, portanto de “estranho”, ainda que naturalizado brasileiro, sua aproximação a filósofos identificados “à direita”, sua formação de autodidata sem diploma, seu estilo “lítero-pensante”, associados a inteligência tão brilhante quanto agressiva, lhe granjearam a admiração de muitos e a rejeição de outros tantos, provocando um choque entre o seu pensamento e a filosofia brasileira.

Flusser vê o caso brasileiro com o misto de agressividade e generosidade que lhe é peculiar. Entende que a filosofia brasileira não teria cumprido até então o papel que lhe cabia por ser acanhada e acadêmica, limitando-se a gestos rituais em torno das três ortodoxias: tomismo, marxismo e positivismo. Mas haveria para Vilém Flusser um espírito filosófico autenticamente brasileiro: trata-se de Vicente Ferreira da Silva (1916-1963).

Para Flusser, no pensamento ferreiriano articula-se pela primeira vez “a tensão dialética que informa, sustenta e ameaça a realidade brasileira, a saber, a tensão entre a racionalidade cristã latina e a irracionalidade pagã negra”. Vicente mostra o projeto cristão desembocando em um cinzento império tecnológico, mais propriamente no tédio e no nojo. Em contrapartida, ele vislumbra na festa pagã uma fratura desse projeto, permitindo a redescoberta da sacralidade não de Deus, mas das coisas e da natureza. Sua obra, nesse sentido, se constituiria numa filosofia geradora de literatura.

Todavia, embora considere o trabalho de Vicente a maior contribuição brasileira à discussão filosófica do Ocidente, entende que podemos e devemos discordar dele. Ao criticar o filósofo brasileiro que mais admira, Flusser deixa claro que não segue escolas nem elege mestres. Por coerência, toda a sua obra também não forma escola nem admite seguidores. Flusser criou uma ficção filosófica tão única que não permite a emergência de discípulos.

Em Bodenlos, Flusser insiste na crítica a Vicente como a toda a filosofia brasileira: “Diese enzyklopädistische Erbschaft Brasiliens wurde in Vicente selbst, mit seiner theoretisierenden Wut, zu einem Paroxysmus getrieben” – na versão em português, lemos: “a tendência para rotular tudo, essa herança enciclopedística que caracteriza tantos intelectuais brasileiros, não foi apenas compartilhada, mas levada ao paroxismo pelo próprio Vicente”. Para mostrar a relação conflituosa com Vicente, e como considerava rica exatamente essa espécie de relação, Vilém chama-o de “Freund-Feind”, ou seja: de “amigo-inimigo”. Considera que a melhor maneira de homenagear um pensador é combatê-lo por dentro, revivendo-o; tomá-lo não como objeto de veneração ou ídolo, mas como parceiro ativo, portanto como presença vulnerável.

Fica claro que a relação de Vilém Flusser com a filosofia brasileira é conflitiva, mas não porque o filósofo europeu estaria menosprezando os pensadores do país tropical em que foi forçado a viver. Na verdade quase nada escapa da sua ironia e agressividade, como a própria língua tcheca, que considerava adocicada demais, ou como Martin Heidegger, que considerava um gênio enganado pelos próprios jogos lingüísticos. No Brasil, Vilém admirava Vicente Ferreira da Silva e João Guimarães Rosa, mas por isso mesmo os criticava com ardor reforçado.

Faz parte intrínseca do cerne da sua filosofia a promoção do conflito, a tal ponto que a morte não diminuiu o seu poder de perturbar o hábito estabelecido e corroer as frases feitas. Decerto seria um estrangeiro em Praga como o foi em todos os lugares em que viveu. Expulso na adolescência não só da sua cidade natal como da própria família, transformou o acontecimento em força e em liberdade. A ironia, que promove deslocamento semelhante aos da migração e do exílio, o constituiu e a seu texto. Filosofar, para ele, implicou assumir o auto-exílio e percebê-lo como condição do ser humano. Buscava não a raiz, mas o desenraizamento; não a resposta, mas a pergunta; não a certeza, mas a dúvida. Entendia que, na base, a crise do projeto ocidental era uma crise da ciência, ou seja, uma crise do gesto de buscar. O lugar ocupado pela investigação científica em nossa sociedade entra em contradição com a investigação mesma, porque lhe faltam o espanto e a admiração, bem como o medo e o cuidado, que deveriam caracterizar qualquer busca.

Em relação a coisas tais como pedras, estrelas, salamandras inteligentes e Vampyrotheutes vorazes, o homem põe a si mesmo no lugar de um Deus, supondo que possa descrevê-las objetivamente, logo, que possa controlá-las e desse modo figurar-se onisciente. Mas ele não pode fazer o mesmo em relação a catedrais, enfermidades e guerras, se nestas coisas está implicado e interessado. Ao contrário da propaganda positivista, a busca do conhecimento objetivo não supera a maneira religiosa de pensar, apenas transforma a divindade em instrumento. Nessa forma de conhecimento o homem ocupa o lugar do Deus: ele pode de fato conhecer porque fabrica o objeto a priori, exatamente como Deus nos teria feito.

Ainda que à beira desse abismo religioso e epistemológico, Vilém Flusser não se mostra pessimista como Ferreira da Silva. Se a própria existência de Vicente Ferreira da Silva na circunstância brasileira seria motivo de otimismo, a sobrevivência intelectual de um tcheco judeu como Vilém Flusser, em São Paulo, depois da Segunda Guerra Mundial, seria outro motivo de otimismo. O encontro de vários estudiosos da sua obra na cidade de Germersheim, em 2006, nos fornece outros tantos motivos de otimismo – desde que os admitamos temperados com a lucidez flusseriana frente ao horror.