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A ENGENHOSA DISTÂNCIA
ENTRE SABER E DUVIDARCyana Leahy
Resenha de Verdades quixotescas.
Publicada no Jornal do Brasil de 10 de fevereiro de 2007.
Ao ler Verdades quixotescas, de Gustavo Bernardo, é fundamental lembrar que, para a filosofia cartesiana, pensar significa duvidar. Hoje, por meio do romance de Cervantes, seguimos de perto o professor da UERJ em mais uma de suas indispensáveis aulas pelos caminhos da filosofia.
Em tempos de crise ética e moral, é urgente pensar e duvidar, e o caminho se torna mais ameno e saboroso quando pavimentado pela ficção literária. Nada pode ser mais filosófico do que educar pela literatura, espaço ótimo de discussão dos conceitos que construímos sobre os paradoxos do pensamento. Construir e desconstruir, demolir barreiras interdisciplinares, aprofundar as metonímias da ficção e as metáforas da poesia – tudo isso é profundamente filosófico e confirma a necessidade antropológica da ficção e a necessidade moral do ceticismo.
Em Verdades quixotescas, o olhar do teórico literário/filósofo nos ajuda a ler e ver um pouco melhor – e com sutil leveza – as variações do ceticismo, junto com o deleite de uma leitura, mansa, despretensiosa, sutil e, portanto, permanente. Sem comoções nem gritos, somente com sussurros, ilustra a definição que Barthes estabeleceu para a sapiência (algum saber e o máximo de sabor possível).
Norberto Bobbio, no Elogio da serenidade, confessou hesitar ‘em entrar na selva da disputa filosófica sobre as relações entre fé e razão’. Gustavo Bernardo não somente entra nessa disputa, levantando questões filosóficas e eclesiásticas relativas ao contexto de produção e da narração do romance de Cervantes, como vai abrindo uma trilha clara e iluminada para nós que o lemos e seguimos nessa discussão serena e, não raro, alegre. Filosófico, usa suas próprias premissas e achados no texto filosófico e no subtexto literário, ou vice-versa. Ao afirmar que ‘a ironia dá uma volta sobre si mesma e se mostra ela mesma bastante séria’, ele começa a revelar uma das pistas de leitura, surpreendendo, desfazendo qualquer expectativa de abordagem literário-filosófica do melhor romance da literatura universal.
Gustavo Bernardo nos concede uma aula de filosofia política, tratando de questões cada vez mais urgentes, à medida que se acelera nosso tempo. Suas premissas filosóficas, de certo modo, compartilham os motivos básicos da ‘dúvida de Pirandelo’: a ilusão da compreensão mútua (entre autor e leitor, entre narrador e personagem, entre literatura e filosofia); as múltiplas personalidades dentro de cada um (o processo mimético das várias revelações, o enigma representado pelo outro, as inversões da compreensão, a coexistência e a compatibilidade de diversos universos de significado); e o trágico conflito entre a vida, que se move, e a forma, que a fixa (como é trágica a relação entre a política e a tragédia, ou a tragédia política, e a responsabilidade individual pela moral e pela virtude). Pirandello ‘dizia pertencer desgraçadamente à categoria dos escritores-filósofos, construindo sua obra sobre um pântano, isto é, sobre o pressuposto de que a realidade é inacessível, mostrando tantas máscaras quantas seriam as consciências perspectivas’, expressão de uma dúvida básica. Bernardo trilha esse caminho, e através do Quixote demonstra que pensar é a mesma coisa que duvidar.
Verdades quixotescas foi organizado em sete capítulos de formatos e características distintas, confirmando as ‘múltiplas personalidades dentro de cada um’. Essa desigualdade acaba por se revelar uma força simbólica, reforçando conceitos, ao alternar textos de teor acadêmico, cujas discussões são mais profundas e especulativas, com outros produzidos para jornais de grande circulação, menos densos e profundos. O maior problema encontrado numa coletânea de palestras, ensaios e resenhas para jornais é a repetição de argumentos e exemplos; e este livro não é exceção. A história do ‘curioso impertinente’, uma ficção dentro da ficção, é contada pelo menos três vezes, e alguns argumentos se repetem, como se novidades fossem. Dependendo do leitor, essa repetição pode ser virtuosa, uma espécie de educação pelo argumento ou palimpsesto.
É certo que Gustavo Bernardo, como mestre Cervantes, tira bonecas russas uma de dentro da outra, surpreende e ensina, com sua linguagem apurada e irretocavelmente simples, como convém a quem tem o que dizer, e sabe como o fazer.