DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ficção

 

RAYITO DE SOL

Alberto Schprejer

 

 

 

Elena vinha três vezes por semana ao Rio de Janeiro e proporcionou a Alex uma grande emoção.

Era um verão perfeito para o menino de quase dez anos, que ia à praia todos os dias com a mãe e o irmão menor. Em frente ao pedaço de areia onde a mãe armava a barraca ficava o hotel novo.

Elena deixava o menino extasiado com o seu corpo perfeito e a pele muito branca. Ela usava um maiô preto, mas em alguns dias vinha também com outro vermelho. Alex não estava certo se gostava mais dela com o preto ou com o vermelho, mas, afinal, a cor não influía no mecanismo.

Passadas duas semanas, Alex entendeu que a bela Elena vinha nas segundas, quartas e sextas. Já na primeira semana havia descoberto que ela saía do hotel novo. Como um vigilante, passou a controlar o hotel, e nos dias seguintes já pôde acompanhá-la desde a portaria. Ela vinha sempre com um roupão atoalhado bem acima dos joelhos, uma roupa que sua mãe dizia que era uma saída de praia. De óculos escuros, chapéu de palha de aba grande, barraca embaixo do braço e a bolsa também de palha na mão, ela atravessava a Avenida Atlântica que ainda era só uma pista com os carros passando nos dois sentidos.

Depois de dominar os dias de Elena, a sua aproximação e o pedaço aonde ela fincava a barraca, o menino começou a criar o mecanismo. Primeiro, quando ela pisava na areia, Alex saía da barraca. O movimento era facilitado porque a mãe gostava de ficar na beira da água refrescando o irmão menor. Ele parava à meia distância entre a barraca e o lugar aonde Elena iria se instalar, deixava o corpo cair estendido com a barriga contra a areia quente e apoiava o queixo sobre os braços cruzados. Elena então parava e girava a cabeça sorrindo do Leme ao Posto 6, passando o seu sorriso sobre o corpo de Alex. Nesta hora, nas primeiras vezes, Alex baixava os olhos com medo de ser visto. Mas, nos dias seguintes, compreendeu que a moça não notava a sua presença e aboliu o disfarce. Então, de olhos abertos, e sem perceber que seus movimentos abdominais já se iniciavam, ele via Elena curvar o corpo esguio para deixar a barraca e a bolsa na areia. Era quando o roupão subia e Alex ficava sabendo se o maiô era o preto ou o vermelho. Era também o momento em que uma de suas mãos se deslocava por baixo da barriga para o interior do short. Mas, por algum instinto de proteção, Alex girava rapidamente a cabeça em direção à beira da praia para conferir a posição da mãe com o irmãozinho, antes de prosseguir.

Na verdade, até que o mecanismo atingisse o funcionamento completo, Alex foi interrompido varias vezes pela aproximação da mãe e do irmãozinho que vinha no colo dela chorando. Alex desmontava o seu posto, corrigia o volume do short e voltava para a barraca.

- Alex, como você está queimado, meu filhinho! - disse a mãe uma vez referindo-se ao rubor do rosto do menino.

- Mamãe, o Naldinho tá chorando porque ele quer ficar mais na água - desconversou Alex.

- Não, ele já tomou muito banho e agora tem que sair do sol. Você que ainda não foi na água nem para molhar a cabeça, vem cá, nossa senhora, a sua cabeça está muito quente, vai já correndo para a água!

Na sexta-feira da segunda semana tudo parecia correr às mil maravilhas. Elena veio de maiô preto, tirou a saída de praia, pegou na bolsa uma toalha branca com letras azuis e Alex leu que nela estava escrito Líneas Aéreas Argentinas. Para Alex foram duas descobertas bastante perturbadoras: primeiro, ela era uma aeromoça; segundo, era argentina como a Luz Del Fuego, de quem tanto falavam os garotos mais velhos e os jornais. Nesse dia ele não pôde continuar na trincheira horizontal. Levantou-se e foi correndo pedir à mãe um chicabom.

Na segunda-feira da terceira semana, a aeromoça não veio e Alex ficou arrasado. Na sua imaginação, coisas terríveis poderiam ter acontecido. Como que tomado por uma febre, naquele que de fato era um dia muito quente, ele pensou que tinha sido descoberto e que a aeromoça tinha resolvido ir à praia em outro lugar. Mas, como, se ele tinha ficado sempre vigilante e nem sequer a viu sair pela porta do hotel? Então se não era isso... o avião caiu! Alex ficou muito ansioso e insistiu com a mãe para que voltassem logo para casa.

- O que foi meu filho? - a mãe perguntou preocupada.

- Acho que eu estou com febre - Alex respondeu.

No caminho para casa o menino examinou cuidadosamente todas as bancas de jornal e não constatou nenhuma manchete sobre acidente aéreo com um avião argentino. Depois de conferir também em todas as estações de rádio e de televisão, esperou a chegada do vespertino que o porteiro entregava sempre às duas da tarde. Como nada tinha acontecido, a febre foi passando.

O inesperado veio no dia seguinte, terça-feira, e ameaçou alterar o funcionamento do mecanismo. Elena já estava sentada sobre a toalha branca com letras azuis quando Alex com a mãe e o irmão menor chegaram na praia. Ao passarem ao lado da aeromoça, a mãe percebeu a expressão de surpresa do filho e não entendeu nada do que ele resmungava:

- O que é que você está dizendo, Alex?

- Nada não, mãe, é a bagunça das Linhas Aéreas Argentinas.

A mãe olhou para o céu, não viu nada, não entendeu nada, pegou o irmão e foi para a beira da água.

Quando Alex encarou Elena, ela estava lhe sorrindo.

- ¿Y que pasa con Líneas Aéreas Argentinas?

- Atrasou um dia! – esbravejou Alex.

- ¡Ven, pibe, hágame el favor!

Ela estendeu um tubo com letras marrons e amarelas e pediu para Alex passar um pouco daquela pasta nas suas costas. Alex pegou o tubo e leu: Rayito de Sol. O mecanismo estava completo, e assim funcionou até o final do verão.