Machado de Assis
MACHADO LEU WERTHER:
reflexões sobre o Conselheiro AiresToba Sender
Pensando ter encontrado um fato novo em Machado de Assis, se isto é possível, vasculhei a internet à procura do que eu havia percebido como novo, e não encontrei exatamente a minha novidade, mas uma menção próxima a ela. Refiro-me à possível influência de Goethe em Machado, mais precisamente Os sofrimentos do jovem Werther. Já na minha dissertação de mestrado, quando analisava Quincas Borba, percebi uma passagem significativa que encontra paralelo em Werther, com uma diferença exata de cem anos entre as duas publicações, sendo esta de 1774 e aquela de 1874. Antes de entrar na questão, transcrevo abaixo o resultado de minha busca, não exatamente o que pretendo demonstrar, mas a suposição da influência de Goethe sobre Machado no que se refere à descrição dos olhos e à importância do olhar em ambos. De Adriano Medeiros Costa:
No livro de Goethe, o jovem Werther escreve uma série de cartas para seu amigo Wilhelm. Lá o jovem aristocrático se encanta com a paisagem idílica e os habitantes do lugarejo de Wahlheim. Certo dia indo a um baile, ele numa coche vai pegar a bela Charlotte S...(este artifício de não terminar nomes também foi usado por Joaquim Manuel de Macedo) e passa o resto do livro em delírios, se encantando pelos olhos de "Lotte". Chama a atenção no livro o fato de Lotte ter olhos negros, porque Werther a eles se refere constantemente em passagens como: "como me deleitava, durante a conversa, com aqueles olhos negros...como toda minha alma era atraída pelos lábios vívidos e pela magnitude de seus pensamentos, não ouvia as palavras com as quais ela se expressava...", "(...) Deus sabe com que deleite, via-me preso em seus braços e nos seus olhos repletos da mais verdadeira expressão do mais puro e mais sincero prazer(...)", "Ela apoiou nos cotovelos e seu olhar percorreria a paisagem; olhou para o céu e para mim e vi os seus olhos cheios de lágrimas(...)", "E olhei novamente para seus olhos (...)", "Foi o mais magnífico nascer do sol. A floresta úmida e os campos frescos! As nossas acompanhantes adormeceram. Ela perguntou se eu não queria fazer o mesmo; poderia ficar despreocupado com ela. 'Enquanto vir esses olhos abertos', disse-lhe e fitei-a 'não há perigo de fechar os meus." e há outras referências mais sobre os olhos de Lotte por todo o livro. Para não estragar a leitura de quem ainda não leu este excepcional romance da literatura alemã, deve-se esclarecer apenas que Charlotte antes de conhecer Werther era noiva de um "homem muito distinto" e candidato a um cargo importante que estava em viagem de negócios.
O outro romance que chama a atenção pelo valor que dá aos encantos produzidos pelo olhar feminino é apontado pela crítica como um dos maiores romances brasileiros de todos os tempos, "Dom Casmurro" de Machado de Assis. Esse livro aborda um suposto adultério, repleto de análises e sondagens psicológicas. Humano.
Possivelmente, aquele considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos leu "Os sofrimentos do jovem Werther" na juventude não só por uma questão cronológica mas também porque na época a obra de Goethe já era muito famosa. Se Machado de Assis realmente leu a obra de Goethe, o que só se pode especular, ele foi inspirado para escrever algumas passagens de seu Dom Casmurro. Precisamente aquelas que falam sobre os olhos de Capitu.
" - (...) Deixe ver os olhos, Capitu. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contempla creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... "
Vamos ao que achei em Quincas Borba.
Os capítulos LXXXVI, LXXXVII, LXXXVIII e LXXXIX contêm um enigma. Autor e personagem, Machado e Rubião, parecem trocar papéis: entram e saem da narrativa numa linguagem ambígua, ora servindo à narrativa, ora a uma lembrança nostálgica do passado do autor. Rubião volta de uma visita a Freitas, amigo doente que mora na Praia Formosa. No caminho, em direção a Botafogo, Rubião pede ao cocheiro que pare, desce do tílburi, ordena que o cocheiro prossiga devagar, e sai andando a pé. (Q.B., p: 121) Passa por Saco do Alferes, Gamboa e Saúde, com sensação de nostalgia, como se já tivesse estado lá. De fato, Machado de Assis nasceu e viveu a infância no Morro do Livramento, que os registros indicam ficar naquela região. “E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nele transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!” (ibid., p: 122) O comentário na narrativa, se refere a Rubião. Mas, se afinamos bem o ouvido, não podemos ouvi-lo do próprio Machado, a respeito de si mesmo? O cocheiro é seu cúmplice no disfarce do personagem duplo que entra e sai da narrativa. E tece comentários tais como: “— Nunca veio aqui?”, (ibid., p: 121) ou “Então quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a Praia Formosa até aqui?”, (ibid., p: 124) como se fosse a voz da consciência, dizendo:
— Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? Disse ele. Há de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não é para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro. (idem)
É curiosa a semelhança da descrição do passeio de Rubião com a viagem de Werther aos lugares de sua infância, em Os sofrimentos do jovem Werther:
Fiz a viagem aos lugares que me viram nascer com a devoção de um peregrino, e fui tocado por um punhado de sensações inesperadas. Ao pé de uma grande tília, que fica a um quarto de légua da cidade, mandei parar, desci da carruagem e disse ao cocheiro que continuasse, a fim de seguir a pé e gozar sozinho a frescura e a vivacidade de cada reminiscência. Parei ali, debaixo da tília, lugar que era o termo dos meus passeios durante a infância. (GOETHE, pp: 109, 110)
Machado de Assis terá lido Werther e a descrição da viagem ao passado permanecido latente até inspirar a cena de Rubião? Se não for assim, será a imagem do cocheiro uma metáfora ao tempo — uma vez que ambos os personagens descem da carruagem e ordenam ao cocheiro que prossiga, enquanto eles seguem a pé? Seja como for, acho importante registrar aqui essa semelhança de imagens, e considerar ainda que o personagem Werther é narrador na primeira pessoa. Quanto a isto, Backes comenta: “Em Os sofrimentos do jovem Werther há muito de autobiografia e uma boa dose de estranhas relações entre o romance e a vida real de seu autor e um círculo de amigos em Wetzlar, cidade alemã que Goethe habitava à época em que escreveu o livro”. (em GOETHE, p: 7)
É o que eu conjeturava no tempo da elaboração da dissertação. Prosseguindo na releitura de Machado, encontro em A mão e a luva (escrito antes de Quincas Borba) uma menção ao Werther, bem colocada, indicando que Machado conhecia seu conteúdo. Isso responde à pergunta que me fiz antes: “Machado de Assis terá lido Werther?”, da mesma forma que Costa suspeita dessa possibilidade como uma especulação: “Possivelmente, aquele considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos leu ‘Os sofrimentos do jovem Werther’ na juventude não só por uma questão cronológica mas também porque na época a obra de Goethe já era muito famosa.”
Quando afirmo que Machado menciona Werther em A mão e a luva de forma “bem colocada”, é porque o comentário é adequado ao contexto. Estêvão, em conversa com Luís Alves, lhe diz que quer morrer:
— Mas que pretendes fazer agora?
— Morrer.
— Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco...
— Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar. O golpe foi profundo, e o meu coração é pusilânime; por mais aborrecível que pareça a idéia da morte, pior, muito pior do que ela, é a de viver. Ah! tu não sabes o que isto é?
— Sei: um namoro gorado... (M.L., p: 177)
Luís Alves convida Estêvão para passar a noite em sua casa, na tentativa de confortá-lo. E conversava com ele quando “o rapaz acertara de abrir uma página de Werther; leu meia dúzia de linhas, e o acesso voltou mais forte que nunca”. (ibid., p: 181) Ora, sabe-se que o jovem Werther de Goethe cometeu suicídio por desgosto amoroso. A escolha do livro por Machado não foi arbitrária, e dá mais sentido à sua própria narrativa.
Werther se infiltra também em Esaú e Jacó. Natividade, ao descer do morro do Castelo onde foi consultar a cabocla sobre o futuro dos filhos gêmeos, é abordada por um irmão das almas que pedia esmola para a missa das almas. Natividade está tão entusiasmada com a predição da cabocla, que dá ao pedinte uma nota de dois mil-réis: valor alto demais. O tal pedinte vem a enriquecer (tema freqüente em Machado de Assis: os pobres ficam muito ricos). Já rico, Nóbrega (irmão das almas no passado) sente nostalgia do lugar de origem e para lá retorna para uma visita rápida.
Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andara a pedir para as primeiras almas. Um dia, porém, tais foram as saudades dele que pensou em afrontar o perigo e lá foi. Tinha cócegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde apareciam tais e tais moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou por outra parte. Só passava de carro; depois quis ver tudo a pé, devagar, parando, se fosse possível, e revivendo o extinto. (E.J., p: 187)
É a viagem ao passado de Rubião e de Werther. E neste ponto termino o comentário “Machado leu Werther” e dou início às “Reflexões sobre o conselheiro Aires”.
Aires é o personagem central dos dois últimos romances de Machado de Assis: Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Os dois textos são como romances históricos, o primeiro relatando a proclamação da República e o segundo, a abolição dos escravos, ambas as datas em tempo real em relação às respectivas narrativas. Em Esaú e Jacó, Aires é o narrador e o personagem principal, acumulando as duas funções. Distancia-se e fala de si mesmo na terceira pessoa. Segundo se lê nas Advertências que encabeçam os dois romances, ambos fazem parte dos manuscritos de Aires, achados após a sua morte: seis cadernos contendo o diário de lembranças, numerados de um a seis em algarismos romanos, e um caderno (intitulado Último) contendo uma narrativa. A narrativa foi publicada como Esaú e Jacó, e parte do diário, referente aos anos 1888 e 1889 foi publicada como Memorial de Aires. Resta ainda material não publicado, de acordo com o comentário da Advertência do Memorial: “O resto aparecerá um dia, se aparecer algum dia”. (M.A., p: 13) Resulta disso que Esaú e Jacó é um texto linear, com narrador na terceira pessoa, e Memorial de Aires um diário, segundo ele, recortado de forma a encadear um enredo: “debastada e estreita, conservando só o que liga o mesmo assunto”. (idem)
Esaú e Jacó mantém o tema do triângulo amoroso, recorrente nos romances de Machado. O que distingue este dos anteriores é que aqui o triângulo tem um espectador, o próprio conselheiro Aires, não na função de narrador como nos outros, mas na função de personagem. Além disso, é diferente dos anteriores por ser o último triângulo antes da fusão absoluta, com o casal Aguiar e Dona Carmo, em Memorial de Aires. A natureza do triângulo vai mudando nos romances sucessivos, estreitando os laços entre os dois homens, culminando na unidade do Memorial. Analisando apenas os cinco romances da chamada segunda fase de Machado, percebemos a evolução (ou gradação) na relação a três da seguinte forma: o triângulo é padronizado, seguindo o modelo de dois homens e uma mulher. O que ocorre, na realidade, é que a amizade entre os dois homens do triângulo vai se estreitando, de acordo com a cronologia dos romances. Em Memórias Póstumas o trio é formado por Brás Cubas, Virgília e Lobo Neves. Brás Cubas e Lobo Neves tornam-se parceiros políticos: Lobo Neves é nomeado presidente de província e Brás Cubas, seu secretário. A relação entre ambos é formal e cordial. Em Quincas Borba, os três personagens envolvidos são Rubião, Sofia e Cristiano Palha. Rubião e Palha não são meramente parceiros políticos. Palha, interessado na fortuna de Rubião, se torna seu sócio, administrador de bens, amigo, oferece-lhe sua amizade, sua casa e, se preciso for, até sua mulher, Sofia, por quem Rubião morre de paixão. Em Dom Casmurro, o triângulo é composto por Bentinho, Capitu e Escobar. A amizade entre Bentinho e Escobar é recíproca, livre de interesses financeiros ou de relações políticas: amizade verdadeira, desde os tempos do seminário. Em Esaú e Jacó, os dois homens envolvidos, Pedro e Paulo, não são amigos (como Bentinho e Escobar), senão irmãos, e não apenas irmãos, mas irmãos gêmeos idênticos. Alucinação de Flora em Esaú e Jacó: “Afinal, a imaginação fez dos dois moços uma pessoa única”. (E.J., p: 196) Seguindo a cronologia dos romances, os homens do triângulo vão se tornando cada vez mais próximos, até se fundirem num só, no caso, Aguiar. O destino do triângulo é a sua dissolução, o casal idealizado, também com um espectador, o mesmo Aires.
Aires tem a marca da indiferença. Não se trata de um desapego resignado, mas de um desinteresse ideológico de quem não se deixa afetar por emoções ou acontecimentos, a não ser como mero espectador. Não significa que não tenha lá seus sentimentos humanos: a curiosidade, o prazer em ser um voyeur da vida dos outros, a atração pela viúva Fidélia. No entanto, quase sempre, quando acometido por tais sentimentos humanos, pensa, mas não fala. É assim que se refere a Santos, em Esaú e Jacó:
Aires não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, decerto; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, os riso, a alma toda que lhe fazia mal. (ibid., p: 130)
Sua opção é concordar com o interlocutor: “Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia”. (ibid., p: 45)
Aires está na idade da razão, mais de sessenta, assim como Machado de Assis à época da escrita do livro: há nele um certo ar de desistência. Memorial pode ser comparado ao Eclesiastes, também este, um livro de renúncia, escrito ao tempo da velhice do autor, o rei Salomão, encerrando a mensagem da nulidade da vida, como uma carta-testamento para as gerações futuras. E Aires cita Eclesiastes a seu modo: “Se eu não tivesse os olhos adoentados dava-me a compor outro Eclesiastes, à moderna, posto nada deva haver moderno depois daquele livro. Já dizia ele que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim contraditório e vago também”. (M.A., p: 74)
Bibliografia
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. A mão e a luva. São Paulo: Editora Cultrix, 1969, 6a edição
__________ Quincas Borba. Rio de Janeiro: Sociedade Editora e Gráfica Ltda, sem data
__________ Esaú e Jacó. Porto Alegre: L&PM Editores, 1998
__________ Memorial de Aires. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003
COSTA, Adriano Medeiros. O que há nos olhos femininos? Disponível em: www.cchla.ufrn.br/hemeroteca/02OLHOS.HTM
GOETHE, Johann Wolfgang. Os sofrimentos do jovem Werther. Porto Alegre: L&PM Editores, 2002